Jornal dos Desportos

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Reportagens

Talentos na forja

Gaudêncio Hamelay - 29 de Abril, 2010

Alunos da Escola CDH com os monitores

Fotografia: Gaudêncio Hamelay

O ponteiro do relógio marca 8h00 de domingo. Céu parcialmente limpo e com o tempo favorável à prática do desporto. Dentre vários petizes perfilados, Isaura Domingas Kassela, de 13 anos de idade, destrinça-se. Trajada de equipamento vermelho, quem a vê, fica com a sensação de ser do Benfica. Mas não.

A futura promessa do atletismo angolano pertence ao núcleo de descoberta de novos talentos da Escola Primária nº 187.
A menina franzina e simpática com um sorriso disfarçado dispõe de pernas longas para correr nos 800 metros. A garotinha confessa optar pela prática do atletismo pelo facto de contribuir para uma boa causa: a saúde.

Para o sucesso da carreira, conta com o apoio dos pais, na vertente moral, o que serve de mola impulsionadora na concretização dos intentos."Pratico o atletismo há quatro meses por ser um exercício bonito para a saúde das crianças. No futuro, pretendo ser uma atleta de renome internacional, como João Ntyamba, Ana Isabel, Lourdes Mutola, (Moçambique) para elevar mais alto o nome do meu país", justifica.

Isaura Domingas Kassela sublinha que o futuro pertence àqueles que acreditam nos sonhos, porque "sonhar não é proibido". Por isso, "o meu objectivo é trabalhar arduamente para vestir as cores da Selecção Nacional".No mesmo diapasão alinha outro garoto: Samuel Tchongolola, de 12 anos de idade.

O adolescente afirma gostar de correr até cortar a meta, porque o atletismo é uma das modalidades olímpicas divertidas. No futuro almeja ser grande maratonista, na especialidade de fundo e meio-fundo. "Estou no atletismo há três anos. Fui descoberto pelo professor Manuel Pereira, também conhecido por Nelo. É muito exigente e os escolhidos empenham-se ao fundo para obtenção de resultados positivos no futuro", explicou Samuel Tchongolola.

O aluno a frequentar a 6ª classe na Escola Baptista, localizada no bairro da Lalula, acrescentou que o professor Nelo o localizou, em 2007, na instituição escolar, quando procurou crianças interessadas à prática de atletismo. Não quis deixar passar a oportunidade e inscreveu-se.

O processo de formação para a descoberta de novos viveiros de atletismo nas terras altas da Chela decorre sem sobressaltos. Actualmente, seis escolas locais, além de núcleos adstritos a equipas de Luanda sedeadas na cidade do Lubango, com realce para os núcleos do Petro de Luanda, Interclube Século XXI, 1º de Agosto, Clube Desportivo da Huíla, Benfica do Lubango, Escola Baptista, Escola nº 187 e o núcleo da Associação Provincial de Atletismo incrementam seriamente o processo dignificante.

Ao todo, 80 crianças com idades compreendidas ente os 8 e os 16 anos aprendem o ABC, servindo de base de sustentação do atletismo nacional nas mais diversas especialidades, designadamente, velocidade, fundo, meio-fundo, lançamento de disco, de dardo, de peso, entre outras.

A "Prova Nacional UPRA", em atletismo, em ambos os sexos, destinados aos atletas federados e não-federados, promovida anualmente pela Universidade Privada de Angola serve de teste de fogo para os petizes, já que a instituição privada introduz uma prova com a distância de quatro quilómetros para a referida faixa etária.

Na II edição, a corrida nacional UPRA movimentou este ano 94 crianças em ambos os sexos nos escalões de massificação. Um número bastante satisfatório.O vice-presidente para Relações Internacionais da Federação Angolana de Atletismo (FAA), João Ntyamba, que assistiu à competição na cidade do Lubango, sentiu-se regozijado pelo número de crianças e adolescentes.

Contudo, como o termo "talento desportivo" é aplicado para caracterizar indivíduos que demonstrem elevadas capacidades biológicas e psicológicas, que dependendo do meio social no qual vivem, podem apresentar a curto, médio e longo prazo alto desempenho desportivo, em qualquer modalidade, sujeitando para isso de condições ambientais adequadas, parece estar a surtir efeitos na cidade do Lubango.

Nessa senda, para a descoberta de talentos há vários mentores de projectos diferentes, embora tenham objectivo comum. Porém, o regozijo vai para o atletismo, onde os frutos já são visíveis.

Ntyamba defende mais acçõe

Mais acções para o desenvolvimento do atletismo no país precisam-se, segundo defendeu o vice-presidente para Relações Internacionais da Federação Angolana de Atletismo, João Ntyamba.A antiga estrela do atletismo nacional reforçou que a realização de provas em parceria com as instituições privadas visam dinamizar o desenvolvimento da modalidade no país. Todavia, reconheceu que o desiderato "não tem sido fácil" para o órgão reitor do atletismo no país.

"As pessoas interessadas devem entender que o desporto pode mudar a vida de individualidades, não só aquelas que praticam o desporto federado, mas também para o desporto de lazer, a fim de propiciar uma saúde sã", disse o dirigente.Para a execução da intenção, "não tem sido fácil, mas estamos a procurar consciencializar as pessoas".

João Ntyamba salientou que a Federação Angolana de Atletismo está a incrementar parcerias com instituições privadas em virtude de ter apostado num programa de mudanças. Esclareceu que quando se trata de mudanças, "temos a oportunidade de passar a mensagem à sociedade e especialmente às entidades privadas para que acompanhem o atletismo nacional".

Por esse facto, participam na prova nacional organizada pela Universidade Privada de Angola atletas federados, não-federados e crianças que se encontram no processo de massificação, o que beneficia a modalidade.O vice-presidente da Federação manifestou o apreço da província da Huíla por continuar a ser o viveiro e apelou às entidades que gostam do atletismo a dar o apoio indispensável para engrandecer as camadas de formação.

"O atletismo huilano dá muitas alegrias aos angolanos. Assim, almejamos que a província da Huíla seja escolhida como a cidade do atletismo nacional!", disse.A concretizar este intento, gostaria que "tivéssemos possibilidades para que a selecção nacional estagiasse sempre nessas paragens devido ao clima".

João Ntyamba disse que para tal, teria de haver condições criadas por parte das autoridades governamentais da província. Essa situação levou-o a elaborar documentos para esse propósito no ano passado."Só que até ao momento, não recebemos qualquer resposta das autoridades, mas vamos continuar a insistir", lamentou.

Nesse sentido, pediu mais sensibilidade às pessoas que tentam denegrir o atletismo. Ntyamba revelou que o projecto elaborado e remetido às entidades da Huíla não beneficiaria só o atletismo, mas o desporto dentro da província e a nível nacional.

"Do contacto mantido com o Governador Provincial, remetemos uma carta na qual ainda estamos à espera da resposta e com esperança de que as coisas podem acontecer em qualquer momento", disse.O dirigente justificou as razões."Sou muito persistente e vamos ver o que se pode fazer para que o atletismo seja completo nesta província".

Celeiro do atletismo
carece de mais apoios


A província da Huila constitui um dos pólos de desenvolvimento da prática do atletismo no país. Atletas de craveira nacional e internacional despontaram nessas paragens. Desse modo, várias pessoas ligadas à modalidade desenvolvem trabalho de descoberta de novos valores com dignidade.

O projecto de descoberta de talentos para o atletismo huilano (e não só) caminha a bom ritmo, apesar de inúmeras dificuldades de ordem material desportivo e outros apoios indispensáveis.Algumas pessoas do grupo estão confiantes no sucesso do projecto a curto, médio e longo prazo. Daí, envidam esforços com "sacrifícios" para que o atletismo tenha base de sustentação.

A antiga fundista Rosa Tomás é uma das pessoas que trabalha na formação de novos viveiros para o Petro de Luanda. Afirmou que, neste momento, trabalha com uma média de 20 crianças no processo de massificação.Devidos aos afazeres profissionais, preferiu dividir o grupo. Umas trabalham no período da manhã e outras à tarde.Os petizes têm idades que variam entre os oito aos 17 anos. Está esperançada no resultado do trabalho: “o fruto ver-se-á brevemente".

Rosa Tomás trabalha com crianças e as leva a participar nas competições para as habituar.O próximo campeonato juvenil é tubo de escape para que as crianças possam demonstrar tudo que sabem. "Vamos ver os resultados delas", disse.A vontade é tão grande quanto à dimensão do clube. "Acredito que tarde ou cedo darão alegrias ao Petro de Luanda", assegura.

Rosa Tomás sublinha que o atletismo angolano atravessa algumas dificuldades no que concerne à classe feminina. A aposta está virada especialmente na descoberta de talentos nessa classe. Alegou que o Petro de Luanda dispõe de um elevado número de praticantes do sexo feminino no processo de formação.

A nota da Federação Angolana de Atletismo realça que a classe feminina está mal. Por essa razão, "apelo a outros treinadores a apostar seriamente na camada feminina para superarmos a baixa que se verifica actualmente no atletismo nacional".
Rosa não tem problemas de materiais desportivos, pois"estou bem servida". O pouco que recebe do clube do Eixo-Viário “dá para remediar e fazemos com que as crianças se alegrem e satisfaça os nossos intentos".

Marta José, do núcleo de formação na Escola Primária nº 187, sustentou que o trabalho decorre bem, porém, releva que todos os que trabalham com esses escalões precisam de mais apoios das entidades de direito. Marta diz que aguarda por patrocinadores a fim de ver até aonde consegue suportar o projecto.

Actualmente, é apadrinhado pelo presidente de direcção da Associação Provincial de Atletismo da Huíla, Pedro Ndala, e o cidadão Sobral. O núcleo existe há cerca de um ano e seis meses e movimenta oito petizes, dos quais cinco do sexo feminino, com idades que variam entre os nove aos 13 anos.

O material recebe dos patrocinadores e às vezes "compro com os meus próprios recursos financeiros", revela Marta José.
Adriano Jamba trabalha na massificação no Clube Desportivo da Huíla (CDH) e o projecto vai no segundo ano de implementação. Tudo está a decorrer conforme o delineado pelo grémio.

"Estamos a massificar o atletismo no CDH, porque desde os anos 80 nunca mais houve novos valores" justificou.O CDH movimenta 13 crianças dos 10 aos 13 anos de idade em ambos sexos. É um clube, no qual passaram atletas de renome e os sucessores serão encontrados nesse processo de massificação.

Os apoios materiais desportivos constituem motivos de preocupação. "Vamos tentar fazer o possível para que no futuro surja desse grupo em formação um João Ntyamba, Adriano Popha, Kambilo Vingunga, Tchingui Teles, Miguel Dióciano", afirmou.Na escola Baptista, cujo processo é orientado tecnicamente por Manuel Pereira "Nelo" deste 2005, conta com 30 crianças com idades compreendidas entre os 10 aos 16 anos, em ambos os sexos.

Massificação ultrapassa
expectativa


O coordenador técnico da Associação Provincial de Atletismo da Huíla, Augusto Diogo "Seco", destacou o trabalho de massificação que se leva a cabo na cidade do "Cristo-Rei", Lubango. O dirigente associativo considerou "fantástico" o trabalho, pois está crente que brevemente se verá o esforço compensado dos treinadores imbuídos na formação sem apoios.

"O processo de massificação na Huíla ultrapassou as expectativas. Mais uma vez, na 2ª Corrida Nacional UPRA, realizada há dias, ficou provado que vamos contar com mais outros João Ntyamba, Ana Isabel, Eugénio Katombi, entre os demais, que dignificaram a província. Há muita criança a seguir as pedaladas dos atletas que já se retiram das pistas devido à idade avançada" frisou.

Augusto Diogo esclareceu que os frutos do atletismo "não são visíveis de um dia para outro". É a longo prazo. "Dentro de cinco anos, teremos bons atletas provindos da massificação. Todavia, acredito que bons tempos de recompensa desse esforço dos técnicos estão para breve", encorajou.

O coordenador técnico da Associação Provincial de Atletismo da Huíla confirmou que existem seis escolas a trabalhar na massificação, além de alguns núcleos de equipas de Luanda.