Jornal dos Desportos

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Reportagens

Técnico João Pintar aborda os desafios da sua carreira

Júlio Gaiano no Lobito - 06 de Março, 2010

João Pintar da Silva é o técnico de futebol da nova vaga

Fotografia: Paulo Mulaza

Gorados os intentos do Petro Atlético do Huambo na Segundona, que passos existem para o seu futuro, uma vez que está desempregado?
Acabei de receber mais uma proposta, que se junta a outras quatro. Resta-me estudá-las de forma cuidada para depois decidir a que clube trabalhar. Por enquanto, preciso de repouso e reflectir sério sobre o que devo fazer no futuro. Isto é, depois de uma campanha frustrante no Petro do Huambo, precisamos não nos precipitarmos, pelo contrário, devemos ter muita calma sob pena de cairmos em erros mais graves. Garanto-vos que, em termos de treinamento desportivo, não tenho como me preocupar; é só uma questão de tempo, nada de pressas.

Falou de propostas em mãos. Podia apontar os clubes que já manifestaram o interesse pelos seus serviços?
Como disse, estou a estudar as propostas que me chegaram às mãos e seria incoerente da minha parte revelar os nomes dos respectivos clubes, até porque nada de concreto está acertado. São propostas e apenas isso. É preciso termos calma suficiente para analisá-las com exactidão sobre aquilo que nos é favorável e em benefício do clube contratante. É nesta vertente que devemos ter o máximo cuidado de avaliar as vantagens e desvantagens que podemos colher. Lamento por não vos satisfazer a vossa questão. Nos próximos dias, estaremos em condições de abordar sobre o meu novo clube. Por enquanto, fica no segredo dos deuses. Inclusive, eu próprio desconheço literalmente o nome do clube a que estarei vinculado.

 Dos clubes que pretendem tê-lo como treinador principal, existe alguns do Girabola ou são apenas da Segundona?
Para vos ser claro, já fui contactado pela direcção de dois clubes, cujas equipas estão a militar no presente Girabola. Mas, por razões contrárias aos entendimentos, inerentes à acção contratual entre as partes, achei por bem declinar os referidos convites e tocar para as outras aventuras. Isto é, estudar outras propostas que tenho em mãos. São clubes de pouca expressão competitiva, mas podemos moldá-los aos níveis mais competitivos, caso concordam com a minha contraproposta que, nos próximos dias, poderei enviar às suas respectivas direcções.  

Pessoalmente, tem alguns projectos virados ao futebol ou continua a depender de um eventual convite que lhe possa surgir de clubes nacionais?
Tenho alguns, mas por falta de recursos financeiros engavetei-os, esperando que surja no mercado empresarial do país alguém que se interessasse pelo meu projecto de massificação e levamo-lo a materialização. Enquanto isso não aconteça, continuarei a dar os meus saberes aos clubes, desenvolvendo projectos credíveis como aqueles que visam relançar o futebol a partir dos escalões de base, até porque gosto muito de trabalhar com crianças. Não esqueçamos que foi com crianças que comecei a trabalhar e, hoje, se aqui estou, é porque tive de partir de algum lado: começar com garotos. Logo, se de facto existir alguns projectos virados nessa vertente e endereçarem-me convite, abraça-lo-ei sem grandes condicionalismos. Para mim, não está em causa o dinheiro, mas a vontade e o espírito de se honrar compromissos. O resto pouco interessa.

Há rumores de que a direcção do FC Bravos de Maquis, equipa que continua vinculado contratualmente, estuda a possibilidade de o emprestar aos Leões de Tchifuxi do Moxico que se prepara para disputar a Segundona, época 2011. Existe alguma verdade nisso?
Desconheço. Ainda assim, não deixa de ser interessante voltar a trabalhar no Moxico, já que é uma província que conheço muito bem. Fiz aí muitas amizades e sou como "filho" da terra. Para mim, o clube não está em causa ou a localização geográfica. Sou profissional e vivo do meu trabalho; o futebol fascina-me. Assim sendo, tudo que for para o bem do clube, desde que apresente um projecto credível, lá estarei para dar os meus préstimos. O mesmo pode suceder nos Leões do Tchifuxi ou num outro clube qualquer. Portanto, é uma informação que desconheço e até prova em contrário, considero-a como falsa.

Regresso ao Maquis está condicionado

Sabemos que continua vinculado aos quadros técnicos do Futebol Clube Bravos do Maquis do Moxico. Quando pensa retomar as suas actividades naquele clube do Leste do país?
Não gostaria comentar esta questão através dos órgãos de comunicação social, dado ao respeito que tenho por certas pessoas que labutam na direcção do clube. Mas, porque me foi colocada e para acabar com os mal-entendidos aventados sobre a minha pessoa, digo-vos que o meu regresso ao FC Bravos do Maquis continua dependente da aclaração de algum mal-entendido, que a meu ver deve merecer a atenção e reflexão do professor João Machado, a quem foi induzido em erros, chegando ao ponto de não mais confiar em mim como o seu colaborador no clube. Estamos diante de uma situação grave(!), se levarmos em conta à dimensão e o peso da pessoa contra a qual se encontra de costas voltadas.

Poderia dizer-nos o que teria acontecido nesse azedar das vossas relações? 
É um caso complicado. Para além de ser uma pessoa idónea e figura que merece respeito e admiração de todos que andamos nessas lides do futebol nacional, o professor tem feito muito em prol do futebol angolano. Não faz sentido confrontar-lhe por mais que a situação exija. Muito mais, quando pessoas mal-intencionadas estejam metidos no meio dessa confusão. Lamento por tudo que está a acontecer, o que não abona em nada tanto para mim, quanto para o próprio clube.

Continua a não dizer o que na verdade terá acontecido para que a vossa relação atingisse a crispação.
Só tenho a lamentar que depois de o professor João Machado ter sido induzido em erros, a minha imagem como pessoa e como profissional, acima de tudo, ficaram fortemente prejudicadas. Para que as coisas não se agudizassem e atingissem negativamente no comportamento do colectivo de trabalho que compete no Girabola, achei por bem apartar-me por algum tempo do clube e esperar que o clima se amenize e daí pensar no meu regresso, já que é a casa que muito bem conheço e sinto-me como o "peixe na água". Enquanto esse dia não chegue, continuo aqui sentadinho sem poder provar o contrário daquilo que foi dito contra a minha pessoa, infelizmente.

Infelizmente, por quê?
Infelizmente, porque ao me ver afastado dele, perdi mais uma das grandes oportunidades de beber da sua experiência. O professor João Machado não é um técnico qualquer. É uma figura que o nosso Girabola possa se orgulhar. E mais, foi um dos grandes jogadores, quer no país, quer em Portugal. Logo constitui da minha parte uma grande perda se levarmos em conta a teoria de que o homem aprende até à sepultura.
 
Mesmo assim, já teve algum contacto com a direcção do clube maquizarde para o possível regresso à casa?
Os contactos existem e hão-de existir sempre. Até porque faço parte dos quadros técnicos do clube, mas como podem reparar, o meu regresso ao FC do Maquis não depende somente de mim, mas depende de uma concertação com o professor João Machado e a direcção do clube.

Espera que o técnico João Machado lhe peça desculpas públicas pelos danos morais que causara contra a sua pessoa?
Esperar isso de alguém que nutrimos respeito, um homem que pode ser dado como o meu tutor, constitui, no mínimo, uma autêntica falta de respeito. O professor João Machado é uma pessoa séria e íntegra nas suas convicções, por isso não merece que passe por essa situação. Aliás, cabe a mim provar o contrário dos actos imputados contra a minha pessoa. Por isso, quando falo do condicionalismo que envolve o meu regresso ao Maquis, estou a associar-me a forma de como lidar com o técnico principal no clube, já que ao regressar para lá, trabalharei com ele. De outra maneira, por mais que disfarçarmos, não vai funcionar a contento. É isto que procuro evitar. Chocar contra as pessoas não faz parte do meu estilo comportamental.

"Atletas sabotaram
o meu trabalho"

O técnico é dado como pessoa abençoada. Tem a fama de orientar com sucesso equipas na “segundona”. Fê-lo, recentemente, com a Académica do Lobito, quando antes já tinha feito, com outras formações com o destaque a Bravos do Maquis, FC Chicoil do Menongue (Kuando-Kubango) e Sporting do Bié, para citar apenas estas. O mesmo já não sucedeu com o Petro do Huambo. O que terá acontecido de concreto?
Faltou qualidade e sentido profissional por parte dos atletas que não foram suficientemente eficazes naquilo que era o objectivo traçado pela direcção do clube. A dada altura da competição, colocaram acima os seus interesses pessoais em detrimento dos interesses supremos do clube. Criaram um clima menos agradável no seio do colectivo, o que prejudicou (e de que maneira) um trabalho arquitectado para a prova.

Será que por detrás dessas tramóias estiveram metidas algumas pessoas afectas à direcção que eram contra a sua presença no clube, até porque a este tipo de comportamento é comum no Petro do Huambo?
Se existiu ou não, pouco tenho a dizer. Senti mais isso da parte de alguns atletas que, prontamente, alertamos a direcção do clube. Alguns foram expulsos e outros ficaram pela advertência. Faltou senso profissional da parte de alguns atletas do Petro Huambo; pude constatar isso, no torneio de Leguilha que decorreu em Luanda. Numa clara desobediência às ordens do técnico, na hora de se recolher para os quartos, alguns deixavam o Hotel para se divertirem até à madrugada adentro nas discotecas da cidade capital. Era uma desordem total que se viveu no seio do colectivo, logo me custa crer que por detrás desses acontecimentos estejam metidos pessoas afectas à direcção. Se assim for, estas mesmas pessoas desempenharam um mau serviço para o prestígio do clube que esteve em Luanda, com objectivos claro, que passava buscar o apuramento ao Girabola.

Afirmações que nos chegam do Huambo dão conta que a direcção do Petro Atlético decidiu acabar com a equipa sénior em retaliação ao comportamento menos digno por parte de alguns atletas e directores que na tentativa de forçar o afastamento do técnico (João Pintar da Silva), optaram por sabotar o seu trabalho, estimulando resistência passiva no seio do colectivo. O que tem de verdade nessas alegações?
Prefiro não falar de coisas que não pude comprovar, não obstante existir indícios claros que indicavam a esses pormenores. Contudo, seria injusto da minha parte, se dissesse que trabalhei com a equipa sénior do Petro do Huambo sem contar com o apoio dos directores. Pelo contrário, tive o apoio deles, tanto é que sempre se mostraram solidários comigo nos momentos difíceis que equipa atravessou ao longo da prova. Não tive razão de queixas no sentido afectivo, por isso, acredito serem falsas tais alegações. Portanto, estou um tanto quanto sentido pelo facto de não termos conseguido prestigiar todo o trabalho feito pela direcção que tudo fez para que a equipa atingisse o Girabola.

Extinção provoca choros
entre adeptos de futebol

Por aquilo que se sabe do povo do Huambo, bastante crítico quando confrontado com situações desagradáveis, como é que reagiu face a decisão de extinguir a equipa sénior por um período de três anos?
Como qualquer massa apoiante do desporto, ao povo do Huambo não fugiu à regra. Sabe-se que o Petro Atlético é um clube de grande referência naquela província do planalto central. Por isso, caiu mal o anúncio da extinção da equipa sénior por um período de três anos. Em contactos mantidos com pessoas amigas e residentes naquela cidade, dão conta que muita gente recebeu mal a informação e chorou amargamente, inclusive houve pessoas que foram hospitalizadas com sintomas ligadas a doença de coração. Os menos atentos não se cansavam de criticar a atitude tomada pela direcção do clube. Foi frustrante, mas nada se podia fazer, senão aceitar com naturalidade a decisão tomada.  

Benguela sem atletas
na selecção há seis anos

O Girabola´2010 arrancou, recentemente, e pela primeira vez na história do futebol angolano, a província de Benguela está sem um único representante. O que lhe oferece dizer sobre o assunto?
Lamentavelmente, esta é a realidade crua e nua que devemos contentar-nos com ela. Sempre disse, enquanto não existir união entre os benguelenses, vamos continuar a viver nessa senda, saindo cada vez mais prejudicado o futebol, em particular, e o desporto, no seu todo. Repare que Benguela não fornece jogadores para os clubes e tão-pouco para a selecção nacional de honra há seis anos. Um ou outro aparece nos sub-17 e sub-20, posto lá não singra como se esperava. Algo vai mal. Logo, há que se parar e reflectirmos a sério; traçarmos metas daquilo que pretendemos com o futebol em Benguela.

Falou que Benguela não fornece atletas aos clubes e à selecção principal há cerca de seis anos. O Enoque, actualmente a representar o Recreativo do Libolo, depois de curta passagem pelo Interclube e pelo Santos FC, e Joka Palana (Petro de Luanda) não lhe dizem nada? Enoque é um facto pontual; é produto das escolas do Electro Sport Clube do Lobito. Em momento algum foi produto da Académica do Lobito ou de outro clube qualquer de Benguela. Foi moldado por nós, logo, nos regozijamos por isso. Quanto ao Jokas Palana, conheço-o muito bem e vi-lo a crescer aí no Morro da Rádio. Sempre foi um miúdo que denotou dotes de um bom atleta. Não teve a sorte de brilhar no Interclube de Angola, mas dada a maturidade que adquire no Petro, está a dar amostras de ser um bom jogador. É produto das escolas da Académica do Lobito, facto que nos deixa regozijado. Mesmo assim, é uma gota no oceano por aquilo que representa a província de Benguela em termo de formação de novos talentos para o futebol nacional.

Clubes devem definir estratégias
para voltar ao Girabola´2011

A Série B que congrega as províncias de Benguela, Kwanza-sul, Huambo, Huíla, Namibe e Cunene poderá aparecer com mais equipas, sendo os benguelenses em maior número (1º de Maio, Académica, 17 de Maio, Nacional e União da Catumbela). Que se lhe oferece comentar?
O número de equipa em si não significa muito. O essencial deve pautar na organização interna dos clubes que vão participar da prova. Como disse antes, é preciso que as direcções dos clubes traçam uma estratégia, que passa por colocar uma equipa no próximo Girabola. Caso contrário, será uma aberração para os intentos da província.

Falou em concertação de estratégia entre equipas de Benguela que vão disputar o torneio de apuramento ao Girabola’2011. Não está a querer com isso a incitar pela promoção da inverdade desportiva, prática que a Federação Angolana de Futebol (FAF) condena?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Estou a falar da coordenação entre os clubes que vão disputar a prova. Sabemos de antemão que em cada série apenas vai subir uma equipa para ao Girabola e, a principio, a província de Benguela poderá participar com cinco equipas, destas apenas uma será apurada. As demais vão para participar e animar a festa, o que é natural. Perante essa realidade, nada mais há senão definir estratégias para se colocar uma equipa no Girabola. Como podem reparar, aqui não existe nada de anormal; aqui a coisa está na definição de prioridades através de uma estratégia colectiva entre os clubes, o que é diferente com o jogo baixo que em nada abona o futebol que pretendemos exemplar.

SEGUNDA DIVISÃO
DEVE SER NEGOCIADO


Os moldes de competição aplicados na segundona para se apurar as três equipas para o Girabola continuam a ser alvo de duras críticas dos analistas do futebol nacional. Qual é o seu ponto de vista?
 Em poucas palavras, digo: é negativo. Sempre fui um dos defensores acérrimos da alteração dos moldes de disputas do torneio de apuramento ao Girabola. A FAF deveria acertar com os clubes e com as Associações Provinciais de Futebol no sentido de se encontrar outros moldes de disputa, se quisermos assistir a uma maior competitividade. Atenção! São os próprios clubes que defendem a manutenção do molde actual de apuramento. Estamos lembrados que no ano passado, a FAF entendeu acabar com as séries e avançar com o Gira-Angola. Os clubes ameaçaram desistir por falta de dinheiro, o que obrigou a FAF a recuar da posição inicialmente tomada. É complicado responsabilizar quem quer que fosse. Vamos aguardar que se amadureça a ideia da FAF e os clubes concordam, porque forçá-los a competir nos outros moldes, corremos o risco de não termos a Segundona.