Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

"Temos de dar oportunidades aos jovens formados nas nossas escolas"

Augusto Fernandes - 07 de Fevereiro, 2015

Mendes Pedro Fernandes, conhecido por Lambreta por ser um jogador muito veloz

Fotografia: Jornal dos Desportos

Como era hábito no seu tempo, desde muito cedo os rapazes tinham o gosto pelo futebol, que era a modalidade predilecta de todos, nos muceques, como eram chamados os bairros na era colonial . Mas foi aos 15 anos de idade que Mendes Pedro Fernandes, ou simplesmente Lambreta, começou a levar à sério o futebol.

Além dos trumunus normais que eram jogados com bolas de meias, plástico, borracha e posteriormente de cautchou, jogavam os famosos rede a rede que eram uma espécie de treino em que se aprimoravam os remates colocados e habituavam  os jogadores que tivessem queda para jogar na posição de guarda redes.

 O Kota Lambreta começou por dizer: “eu vivia no Rangel, mas passava os fins de semana em casa da minha avó, ao Cazenga.  No Rangel havia um kota, o falecido Filipe, que era um grande guarda redes e fazia muitas defesas a roquetes (defesas feitas com o antebraço) e por isso eu admirava-o e decidi seguir o seu exemplo.

“Além disso”, prossegue Lambreta,  “nós acompanhávamos de perto o campeonato de Portugal e ouvíamos os relatos de futebol e os nomes como o de Damas, Costa Pereira e José Pereira, que foram grandes guarda redes em Portugal, serviam  de fonte de inspiração. Foi assim que comecei a jogar a guarda redes”.

Tempo de grandes trumunus

No entanto, como passava a maior parte dos fins de semana no Cazenga, foi nesse bairro onde Lambreta jogava no clube Habilidosos do Cazenga, que era liderado por um jovem de nome Vigário. Nesse clube em companhia de Lilas, Esteves, Man Mateus, Zé Cadiapato e outros,  jogou de 1972 a 1974.

No período acima referido, “ nós fazíamos muitos jogos entre bairros. Era bonito ver os campos dos bairros repletos de gente para  ver-nos jogar. A maior parte de nós jogavam descalços em campos desnivelados. Mas mesmo assim, a qualidade do futebol era acima da média. Tínhamos jogadores de grande valia técnica em quase todos os bairros” recorda-se Lambreta.

À medida que o tempo passava, como diz  o nosso entrevistado, foi alternando a baliza com a posição de lateral direito porque “depois surgiu um indivíduo cujo nome já não me vem à mente que se tornou o primeiro guarda redes e quando ele não viesse eu cobria o seu lugar” disse. “Naquele tempo”, diz Lambreta, “ nós tínhamos uma grande capacidade de assimilação, mesmo sem grandes níveis de escolaridade. Por exemplo, só de ouvir o relato de futebol em que se falava de Eusébio e de outras grandes estrelas do futebol de Portugal, nós conseguíamos imitá-los como se os ‘víssemos  com os ouvidos’:”
Prosseguindo, o kota disse que “ nós apenas ouvíamos os nomes deles na rádio. Não havia televisão. Mas mesmo assim conseguíamos imitar até os gestos técnicos. Além dos relatos de futebol, também víamos grandes jogadores a evoluírem nos muceques de Luanda. Jogadores como Maventa, Lourenço Bento, Firmino Dias, Dinis, Xarico, Matreira e muitos outros, que nos serviram de grande  fonte de inspiração.”

Vida militar em
 nada impediu de
continuar a fazer
o gosto ao pé

Em 1974, Lambreta ingressou nas FAPLA e foi transferido para Cabinda para a Artilharia Terrestre. Mesmo na vida militar, Lambreta fazia o gosto ao pé em jogos entre unidades e quadrangulares agendados nas datas festivas. Depois de passar pelo Lobito, veio transferido para Luanda. Mesmo na vida militar, Lambreta, disputou o campeonato provincial de Luanda, pela EDAL, com a qual foi uma vez campeão provincial em 1984.

Lambreta diz que “o campeonato provincial de Luanda na altura era disputado por equipas como a Edipesca, Ferroviário, Cordel, Paviterra, Guedal e outras. No provincial joguei a ponta de lança e marquei muitos golos nas duas épocas em que participei e tive como companheiros o Bilimá, o Sete do Zangado, Procovite, o falecido Tara e outros.”

Mas antes da sua passagem pela Edal, Lambreta  foi convidado por um amigo para jogar na Académica do Lobito. “ O Coyó, jogava na Académica do Lobito e levou-me para lá. Mas por causa da minha situação militar não pude ficar. Mas tinha qualidade para jogar naquela equipa com Chiby, Batata, Jindungo, Sayombo e outras grandes ‘feras’ que foram dos melhores jogadores que a Académica do Lobito teve” afirmou.

Lambreta, como todos os amantes do futebol angolano, está preocupado com a actual qualidade do nosso futebol, mas acredita que melhores dias virão. “O mais importante é trabalhar de forma certa. Temos de pensar também na saúde e na educação, porque sem esses dois factores não podemos ter bons jogadores” alertou Lambreta.

Em sua opinião, “o imediatismo de alguns dirigentes quer a nível de clubes como das Selecções Nacionais tem contribuído para o mau momento do nosso futebol. Repare que quase todos os jogadores  juniores das principais equipas do país que chegam à idade de seniores são preteridos por jogadores formatados de outras origens, por isso, acabam por se perder.

Alguns até tornaram-se vendedores de saldos, outros  entregaram-se à bebedeira, de tanta desilusão. Temos de dar mais oportunidades aos jovens formados nas nossas escolas”.

 Actualmente, Lambreta continua nas Forças Armadas vive no Bairro do Cazenga próximo do Zamba 1


POR DENTRO

Nome completo: Mendes Pedro Fernandes
Filiação: Pedro Fernandes Cassoma e de Domingas Mendes Machado
Naturalidade: Luanda, aos 13 de Abril de 1957
Estado civil: Solteiro
Filhos: 7
Altura: 1,62
Calçado: 42
Jogava habitualmente com o número: 13 e 18
Peso: 92 kgs
Música: Kizomba
Filme: Acção e Romance
Prato preferido: Calulú com feijão de banha
Bebida: Vinho
Cidade Angola: Lubango
País que gostava de conhecer: Zâmbia
É ciumento: Sou
O que mais teme: Que me roubem a cara metade
Acredita em Deus: Sim, porque sem Ele não havia vida
Religião: Católica
É regular nas missas: quando tenho tempo
Qual é o seu maior defeito: Não sei ficar sem dinheiro
Virtude: Ser alegre
Clube do coração: 1º de Agosto
Cor preferida: Azul escuro
Sonho: Ter uma casa melhor e um mustang