Jornal dos Desportos

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Reportagens

Temos de investir na formao do homem

Valdia Kambata - 17 de Março, 2010

Raul Duarte defende carteira profissional para treinadores

Fotografia: Jornal dos Desportos

O que levou à revitalização da Associação de Treinadores de Basquetebol?
A Associação existe desde Dezembro de 1998, após a eleição de um corpo gerente que esteve em funções até ao ano de 2003. Depois daquela data, não apareceram pessoas para a eleição de novos corpos gerentes e acabou por se diluir no tempo. Há pouco menos de 10 meses, um grupo de pessoas decidiu trabalhar para o ressurgimento da Asssociação. Foi assim que, de Junho a Novembro, o grupo discutiu os estatutos, montou uma nova direcção e convidou pessoas para integrar na comissão eleitoral. Esse processo terminou recentemente com a eleição dos novos corpos gerentes.

Qual é o obejctivo da criação da associação?
O principal é a formação de treinadores, bem como criar parcerias com o Comité Olímpico Angolano, a Federação Angolana de Basquetebol e outros órgãos ligados ao desporto. Queremos também editar uma revista (com periodicidade trimestral) para informar os nosssos treinadores sobre as actividades da colectividade. Por outro lado, queremos  pressionar a Federação para continuar com a formação permanente de treinadores. 

Como pensam alcançar  o objectivo de formação? 
Com a realização de clinic, seminários, cursos de nível 1, 2 e 3 e de monitores para que, no fim, todos tenham a carteira de monitor.

Sempre sentiram a falta de actualizações de treinamento desportivo?
Sim. Todas as modalidades desportivas vivem esse problema em Angola. Se queremos desenvolver o desporto, temos de investir na formação. Se queremos ter jogadores das camadas de formação com boa qualidade, temos de investir na formação de treinadores. A metodologia de treino, psicologia de treinamento, técnica desportiva, fisiologia do desporto, só para exemplificar, devem ser do domínio dos treinadores para que façam bom trabalho. Se não investirmos no homem, a qualidade do nosso desporto não vai melhorar; o nosso desejo vai continuar adiado. A formação de treinadores é uma responsabilidade de todos. Não é digno que uma modalidade com dez títulos em África tenha treinadores nas equipas seniores sem cursos de treinamento desportivo.

A reactivação da Associação é a maneira encontrada para savalguardar o basquetebol angolano?
Não somos os salvadores da pátria. Queremos contribuir e ajudar a definir as coisas. Por exemplo, quem deve treinar a categoria de cadetes? Que nível é necessario para treinar os juniores ou seniores? Quais são os níveis  necessários para treinar a selecção nacional? Queremos que a Federação emita carteiras profissionais num futuro próximo. Para o efeito, deve  criar legislação que defenda o treinador em relação à sua carreira. Tudo isso não é nossa tarefa, mas a Associação quer levantar essas questões para que todos os agentes do desporto arranjem uma solução. 

Quem não tiver a carteira profissional, não vai exercer a função de treinador de basquetebol em Angola?
Estamos há dez anos sem acções de formação contínua. É necessário  estabelecer um tempo que permita os treinadores frequentar cursos que os habilite a exercer a função a que estão ligados. Mas num futuro breve, esperamos que a Federação possa emitir carteiras profissionais para se definir quem se pode sentar no banco de treinador. Com os treinadores estrangeiros, vai ser necessário algum cuidado. Por exemplo, não podemos trazer um treinador sem os requisitos desejados pela A ssociação. Vamos rubricar vários protocolos com a Federação para que tal coisa não aconteça, porquanto o nosso basquetebol está aberto ao mundo. 

"Não estamos ligados à xenofobia"

Quem pode ser membro da Associação?
Os treinadores estrangeiros podem integrar a Associação. Aliás, podem fazer parte todos os treinadores que estejam ou não no activo, mormente os professores de Educação Física ligados ao basquetebol, jogadores com mais de 30 anos que tenham estado na selecção nacional por mais de três  anos.

Por que os treinadores estrangeiros, muitos dos quais membros de associação congénere nos seus países de origem, também podem integrar na Associação angolana?
O professor Luis Magalhães fez parte do processo de implementação da Associação. Não estamos ligados à xenofobia, antes pelo contrário, queremos a participação de pessoas para a melhoria dos treinadores e confronto de ideias. Não podemos pensar todos na mesma coisa, tem de haver diferença. É nas diferenças que surge o desenvolvimento.

Só o treino continuado e empenhado produz efeitos

Quais são as características específicas que um treinador de jovens deve ter?
Identificar claramente os objectivos do basquetebol juvenil, que decorrem de uma ideia ampla de desenvolvimento e evitar fazer dos praticantes um veículo de afirmação pessoal. Só assim se pode valorizar a aprendizagem e o progresso dos praticantes. Relativamente aos resultados nas competições, impregnar as práticas de valores éticos e morais, privilegiar os conteúdos fundamentais, os que são consistentes e não as modas, ser persistente e paciente perante os erros e as dificuldades de aprendizagem. Tendencialmente, um jovem treinador deve manifestar a abertura à tutoria supervisão de treinadores mais velhos e experientes, factor essencial de formação e desenvolvimento.

Passou grande parte da sua carreira a treinar equipas jovens. Que conselhos pode dar aos jovens jogadores?
Só o treino continuado e empenhado produz efeitos e aprender a treinar é indispensável à evolução e progresso, que sejam leais e respeitem os princípios do espírito desportivo. A antes de ganharem aos outros, ganhem a si próprios e meditem sobre este pensamento: "o mais importante do que querer ganhar, é querer preparar-se para ganhar".

Que caracterização se lhe oferece fazer sobre o actual estado do basquetebol em Angola?
Ao nível dos resultados internacionais, naturalmente, que identificamos um desempenho muito positivo na generalidade dos escalões, o que não deve nem pode ser omitido ou desvalorizado. Todavia, esse é apenas um segmento da modalidade correspondente, em sentido figurado, a parte visível do iceberg. No que respeita à parte inversa, a que está para além dos centros de treino e de alto rendimento e das competições seniores de primeiro plano, há lacunas de concepção e organizacionais com reflexos objectivos nos recursos humanos e materiais disponibilizados. Perdeu-se a componente associativa, que tornou forte a modalidade, o que no mínimo, é estranho num desporto colectivo. Essa ausência impede que tenhamos uma visão global e de perspectiva do basquetebol. Resta a consciência de existir uma imensa massa crítica que, se inteligentemente mobilizada, pode inverter essa tendência, o que nos permite ter esperança.

Associação precisa de
sete milhões de kwanzas por ano

O funcionamento de uma associação exige despesas administrativas. Onde vão buscar os recursos financeiros para cumprir o programa prometido?
É muito difícil falar de finanças neste momento. Solicitamos alguns apoios a vários organismos e estamos à espera. Aproveitamos o ensejo para pedir  publicamente os apoios para as nossas actividades.

Quanto precisam para realizar as vossas actividades?
Precisamos de 80 mil dólares norte-americanos (cerca de 7,2 milhões de kwanzas) para o ano corrente. Queremos realizar quatro clinics em Luanda, mas suportar quatro convidados com hospedagem é muito difícil. Mas, se não conseguirmos, vamos fazer os clinics com dois prelectores. O mais importante para a Associação é realizar os cursos para treinadores de bom nível. Esperamos que as empresas possam ajudar-nos na realização dessa actividade. Já enviamos as notas de encargos das nossas actividades a muitas delas e temos de realçar que a Unitel aceitou, pelo que estamos contentes.

Para além de clinics, que outras actividades pretendem realizar em 2010?
Queremos editar uma revista, realizar um colóquio sobre metodologia e  psicologia de treinamento.

"O que está em
causa é a instituição"

Tem-se apregoado a falta de união entre os treinadores em Angola. Até que ponto  é verdade?

A resposta que recebemos até agora sobre a nossa instituição é positiva. Claro que há pessoas com pensamentos diferentes que não estiveram na tomada de posse nem na eleição e ainda não são sócios. Apelamos para que façam as inscrições para dizer olhos nos olhos o que não está bem e não enviem recados, que venham à reunião e digam o que não está certo. O que está em causa é a instituição e não são os nomes das pessoas. A Associação Nacional de Treinadores de Basquetebol é uma colectividade criada para a defesa dos interesses dos treinadores.

Solicitaram algum apoio à Federação Angolana de Basquetebol?
Seria impossível realizarmos alguma actividade sem o apoio da Federação. Tivemos de usar a sala de reuniões, as máquinas copiadoras, entre outras coisas.