Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Temos de organizar o futebol na perspectiva comercial"

Teixeira Cândido - 12 de Novembro, 2014

Nós há muitos anos falamos em G-7, G-10 como estratégia para criarmos uma Liga, mas para concretizarmos essa ideia

Fotografia: Jornal dos Desportos

Luís Neves, ex-dirigente do Benfica de Luanda, empresário e conhecedor do mercado financeiro angolano, diz que essa abordagem tem duas vertentes. Uma legal e outra comercial, apesar de se interligarem. Neves considera fundamental haver uma clara distinção em relação à lógica que deve seguir o nosso futebol. Comercial ou de recreação.

Ou seja, quem regula o desporto tem de definir por que caminho devemos percorrer. Numa lógica de desporto de recreação, de manutenção da saúde ou numa lógica comercial. O ex-vice presidente financeiro do Benfica de Luanda diz que não aceitava patrocinar o Girabola, por que no actual quadro não é uma actividade ou produto rentável.

“O sistema de Lei Base do nosso desporto tem de ser repensado. Esses constrangimentos impõem-nos a uma reflexão, de outro modo,  é difícil atrairmos empresas que queiram associar-se de facto ao nosso desporto, em particular ao futebol. É necessário, que os clubes decidam se querem dar à Federação Angolana de Futebol o poder de organizar a competição. Ou se querem retirar dela o Girabola e constituírem uma Liga”, diz Luís Neves.

Diz por outro lado, que a questão legal é uma parte, e a outra prende-se com a falta de organização dos clubes, assim como a qualidade. “É uma prova em que falta quase tudo, desde a organização à qualidade. Olhem para os resultados das nossas equipas nas Afrotaças- Liga dos Clubes Campeões e Taça da Confederação Africana- e digam-me se convida alguém a investir nessa altura no nosso futebol?”, questiona.

Reforça a ideia de repensar o futebol desde a origem, os clubes, porque considera que o actual não é atractivo, o que se reflecte na pouca presença de público nos campos. “Tirando quatro ou três clubes, quantos outros conseguem colocar dez mil adeptos numa partida de futebol no Girabola? É uma questão de qualidade e enquanto os clubes não repensarem que são congregadores de valores comuns, não é possível”, disse.

O ex-responsável do Benfica de Luanda pergunta qual dos clubes consegue viver apenas da bilheteira no Girabola. “Isso é o reflexo de uma base organizativa fraca. A massificação precisa ser organizada de maneira diferente. Há muita boa gente que está nos clubes, mas não basta ter vontade. É necessário reestruturarmos toda a máquina desportiva. Porque temos hoje dirigentes amadores para atletas profissionais.

O nosso futebol continua a fazer uma transição, da primeira para a segunda república, altura em que tínhamos dirigentes profissionais para atletas amadores. A profissionalização deve ser transversal. Temos de vender um produto de qualidade. É necessário, que o futebol seja atractivo, quer na sua base organizativa como no aspecto competitivo.

Temos de organizar o nosso futebol numa lógica comercial. Os clubes têm de ser atractivos no seu todo, por forma a que tragam o excedente de liquidez da economia para o desporto. Só assim podemos falar em patrocinar as nossas competições e os clubes”, recomenda. Luís Neves diz que os clubes não estão preparados para trabalhar num ambiente comercial, e se se transportar essa realidade dos clubes para as Federações, então continuamos a ter Federações reféns dessa qualidade organizativa.

“São os clubes que têm de levar a qualidade para a Federação, e esta por sua vez assumir a liderança. Noutros países, optaram por separar o que é o desporto de recreação do profissional ou de alta competição, por essa razão é que têm ligas. Nós há muitos anos falamos em G-7, G-10 como estratégia para criarmos uma Liga, mas para concretizarmos essa ideia, é necessário decidirmos se vamos ou não tirar a competição das mãos da Federação Angolana de Futebol.

Ou então, deixemos que ela organize e encontremos soluções financeiras. É necessário atribuir essa competência de ir buscar aporte financeiro. É outra vez uma questão legal, se assim for,  é complicado pensarmos num desporto rentável”, diz.