Jornal dos Desportos

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Reportagens

Trajectória de um dos melhores médios do futebol angolano

Augusto Fernandes com, João Francisco - 20 de Novembro, 2012

Zico marcou mais de duas dezenas de golos

Fotografia: Jornal dos Desportos

Com mais de 40 jogos pelos Palancas Negras, Zico marcou mais de duas dezenas de golos. No Petro de Luanda, ganhou cinco campeonatos nacionais, igual número de Taças de Angola e quatro Supertaças. Benguelense de gema, é contemporâneo de Minhas, Cacharamba, Nelo Bumba, Stopirra, Felito, Guedes, Renato, Amaral, Marito e Akwá.Por volta de 1980, quando tinha apenas 7 anos de idade, o garoto, a quem foi dado o nome completo de Fernando Domingos Francisco, já dava nas vistas, pois era dono de uma técnica incomum para alguém da sua idade.

“Devido aos meus dotes, o kota Vavá, que era o organizador dos jogos no nosso bairro, apelidou-me de Zico, pois, segundo ele, a minha forma de jogar era semelhante à do jogador brasileiro”. Recorda-se Zico que, com o surgimento dos “Caçulinhas da Bola”, organizado pela Rádio Nacional de Angola, foi elevando a sua qualidade como futebolista.Como “caçulinha”, jogou pela Congeral (fábrica de sabão), que dava por mês a cada jogador 20 quadras de sabão como compensação.

A seguir, Zico jogou pela ENAMA, com o Passarela, Totas e Sem Nome, treinados pelo mister Magui, e na Siga, treinado pelo velho Elias. Embora fosse muito habilidoso, Zico gostava de jogar a defesa central, mas na Siga o treinador experimentou-o a ponta-de-lança e foi bem sucedido, tendo sido melhor marcador do campeonato provincial, em 1986.Nesse ano, tentou a sorte no Progresso do Sambizanga. “Não tive grandes dificuldades para me impor no Progresso, porque já conhecia uma boa parte dos jogadores, muitos deles meus amigos, e já jogávamos antes no bairro. Conhecia o potencial deles e sabia que não teria problemas em ter lugar na equipa. Além do mais, alguns faziam questão que eu jogasse com eles”, conta ainda Zico.

Quando chegou aos juvenis do Progresso, o treinador era Bunduncho e encontrou o Paulo Dias, Zezinho, Jesus, Vata (não o kota).Começou a jogar como defesa central e líbero.Em 1988/89, ascendeu à categoria de juniores no mesmo clube, orientado pela dupla de ex-jogadores do Progresso Praia e Meco, já falecidos, e encontrou o Monhé, Malé e Tete. Nessa altura, disputou o campeonato provincial, que era dominado pela Nocal, com jogadores como Paulão, Bebé, Dioguito, Abel e Docas. O Petro de Luanda, com jogadores como Nelo Bumba, Valentim, Manucho, e o 1º de Agosto eram os clubes que seguiam a Nocal em termos de potencial.Aos 17 anos, Zico ascende à categoria de sénior, onde encontrou jogadores como Altino, Mitó, Ferreira Pinto, Janguelito, Dindinho, Lando e Augusto, treinados por Carlitos Romão. Zico ajudou o Progresso a regressar à I Divisão com Napoleão Brandão e Luís Cão  no comando técnico, tendo a equipa ficado entre os cinco primeiros lugares.

Transferência contestada para o Petro

Em 1993, contra a vontade dos adeptos e simpatizantes do Progresso,  Zico foi transferido para o Petro de Luanda. “Até àquela altura, não tinha a noção do valor que tinha para os adeptos do clube. Houve pessoas que foram à minha casa suplicar para que não saísse do clube, outras choraram. A direção teve muita dificuldade em gerir a minha saída do clube”, disse.No clube do Catetão, onde viria a jogar por dez anos, foi recebido pelo falecido treinador Goiko Zeck. Naquela época, jogavam no Petro de Luanda Chico Dinis, Nejó, Bodunha, Amaral Aleixo, Oliveira, Felito, Paulo Silva, Mbala, Zacarias, Jonas, Aurélio, Flávio, Chinho, Gilberto, Dias Caires, Betinho, Jonas e Marito,  tendo logo na sua primeira época ganho  tudo o que estava em disputa: Girabola, Taça de Angola e a Supertaça de 1993.

Como a massa associativa do Progresso continuava em conflito com a direção, Zico teve de regressar ao clube do Sambizanga em 1994, para retornar ao Petro de Luanda em 1995, onde ficou até 2004. Nos dez anos que jogou pelos tricolores, Zico teve o privilégio de actuar numa final da Taça CAF contra o Espérance de Tunis. “Na primeira partida, em Luanda, ganhámos por uma bola a zero e em Tunes perdemos por duas bolas a zero. O mais triste nisso tudo, foi que podíamos ter resolvido o jogo em Luanda, pois tivemos várias oportunidades que não foram concretizadas”, recorda-se.Em outra ocasião, no Cairo (Egipto), Zico participou num jogo em que os tricolores humilharam o Al Alhy local por 2-4. Na primeira mão, os  Egípcios, venceram por 2-1.

Palmarés

O talento de Zico não passou despercebido a muitos treinadores que orientaram as selecções de sub-20 e de honras. A sua primeira internacionalização foi com a selecção de sub-20, que disputou o torneio de Toulon, França, sob orientação do falecido Carlos Alinho.Disputou o apuramento para o CAN da categoria, que se realizaria em 1995. Faziam parte daquela seleção o Akwá, Helder Vicente, Pedro, Bani, Marito, Cacharamba, Bongochi, Kinzinho, Yamba Asha.

Em 1995/96, fez parte da pré-selecção nacional convocada para a operação do CAN de 1996, que se realizou na Africa do Sul, e que viria a ser a primeira participação de Angola num CAN. Fez ainda a maior  parte de jogos de apuramento, mas no fim da operação do CAN de 1996, já no estágio em Portugal, depois de estarem apurados para a fase final, ficou fora dos 23 eleitos, porque o técnico convocou outros jogadores, na sua opinião mais experientes, como o Wilson e o  Fua. Zico também deu o seu contributo na conquista da primeira Taça Cosafa, marcando o golo da vitária na final contra a Namíbia. Na altura, o treinador dos Palancas Negras era Djalma Cavalcante.

Com Mário Calado, viria a conquistar a sua segunda Taça Cosafa. Embora muitos possam não dar grande valor a estas duas conquistas, na verdade, para os Palancas Negras, foram as primeiras grandes vitórias a nível do continente Africano. Por isso, para Zico e todos os que participaram destas duas conquistas foi um passo importante nas suas carreiras.Muitos entendidos do futebol nacional consideram-no  um dos melhores meio-campistas que Angola teve depois da Independência, ao lado de Praia, Amândio, Zeca, Geoveti e Arménio.No Girabola, além do 1º de Agosto, as equipas que no seu tempo mais trabalhos davam ao Petro eram o ASA, com Joni, Paulão, Mabululo, Quinzinho, Beto Carmelino, o Sagrada Esperança, com o Roque Sapiri, Franc, Jojo, o Progresso, com Janguelito, Abel, Paulo Dias Keep, Scura, e o 1º de Maio de Benguela, com Castela, Jacinto, Jorge Andrade e Saul. Em 2004, Zico regressou a casa que o lançou ao mundo do futebol angolano, o Progresso, onde jogou por mais duas épocas até 2006, altura em que pendurou as chuteiras. Actualmente, é técnico dos infantis do clube do Sambizanga e vive no bairro com o mesmo nome.

POR DENTRO

Nome completo: Fernando Domingos Francisco
Filiação: Domingos Manuel
Francisco e de Marcelina
Manuel Joao
Estado Civil: Solteiro
Altura: 1,75m
Peso: 78kg
Calçado: 41
Camisola com que
habitualmente
jogava: Nº 10 ou 4
Cor preferida: Vermelho
Hobbies: Jogar futebol e ver filmes
Filmes: Acção
Prato: Feijoada
Bebida: Cerveja
O que mais teme na vida: A morte
O que mais detesta: A falsidade
Qual é a sua virtude: Acho que sou
uma pessoa honesta
Defeito: Teimosia
Às vezes recorre a mentira: Sim, às vezes,
é necessário mentir
Religião: Católico
Clubes do coração: Progresso e Petro de Luanda
Sonho: Ser treinador principal de uma equipa da I Divisão