Jornal dos Desportos

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Reportagens

Trajectória de um mestre do futebol angolano

Augusto Fernandes com João Francisco - 04 de Setembro, 2012

É contemporâneo de Augusto Carneiro, Henrique, Capindiça, Carlos Romão, Nicola Berardineli, Chalé, Santana, Peliganga, Ramalhoso, Lourenço Bento, Prado e Eduardo João.

Fotografia: João Francisco

Não se pode falar do futebol angolano e do Petro Atlético de Luanda, em particular, sem mencionar o nome de Carlos de Sousa Queirós, ou simplesmente “Man Queiras”, com é carinhosamente chamado por todos aqueles que lhe são próximos. Natural da Quibala (Kuanza-Sul), praticou futebol no Atlético de Luanda desde os juvenis, entre 1960 e 1974, e foi uma vez campeão distrital em 1966. É contemporâneo de Augusto Carneiro, Henrique, Capindiça, Carlos Romão, Nicola Berardineli, Chalé, Santana, Peliganga, Ramalhoso, Lourenço Bento, Prado e Eduardo João.

Como treinador, foi duas vezes campeão nacional com o Petro de Luanda. É dono de uma habilidade de fazer inveja a qualquer jogador da actualidade. “Man Queiras” trata a bola por “tu” e com ela faz grandes acrobacias, inclusive o famoso “Pai Nosso”, que consiste em fazer o sinal da cruz com a bola nos pés. A carreira de Carlos Queirós como futebolista teve início na pequena vila da Quibala, província do Kuanza-Sul no futebol escolar, dos sete aos treze anos de idade, com colegas de carteira como Vilarinho, Joaquim Carvalho e Reinaldo Miranda.

Em 1960, com 13 anos de idade, o rapaz “Bigode” (alcunha dada por uma tia), como é carinhosamente chamado pelos familiares e pessoas mais íntimas, muda de ares rumando para Luanda em companhia da mãe. “Em certa ocasião, desloquei-me ao campo do Atlético, na baixa de Luanda, para assistir aos treinos das raparigas do basquetebol. Elas até que não jogavam lá muito bem. Mas, por serem muito bonitas, o campo ficava cheio só para se assistir aos treinos delas”, revelou Carlos Queirós sobre o seu primeiro contacto com o clube.

“Depois do treino, entrei no campo com outros rapazes e fui dominando a bola, fazendo algumas acrobacias. Aí um ‘kota’ que me conhecia avisou um dos dirigentes do clube, alertando-lhe que estava um rapaz a fazer o ‘Pai Nosso’ com a bola”, continuou. “A notícia despertou o interesse do dirigente, que inclusive deu-me algumas moedas e mandou-me aparecer no ‘Catetão’ para fazer testes dias depois. Fui muito bem sucedido. Desde aquela data, em 1960, fiquei ligado ao Atlético até hoje”, frisou.

Primeiros passos

Quando chegou ao “Catetão”, encontrou o Henriques, Chilala, Capindiça,  Zé Sobrinho,  Augusto Carneiro, Joãozinho, Santana, Zé Luis e Carlos Romão, todos orientados tecnicamente por Galiós e depois por Rui Clington. No Campeonato Distrital em Juvenis, as equipas mais fortes, segundo Carlos Queirós, eram o Futebol Clube de Luanda e o Ferroviário. “Estas equipas tinham jogadores muito talentosos, porque davam melhores condições que as demais. Era muito difícil jogar contra elas”, reconheceu. Quando ascendeu ao escalão de juniores, Man Queiras, que jogava em todo o corredor esquerdo, mas especialmente à defesa, jogou esporadicamente pelos seniores. Em 1965, passa definitivamente para este escalão.

Na equipa de honras, teve como companheiros Capindiça, Ramalhoso, Diamantinho (o mais velho), Miguelito e Peliganga. Em 1966, venceu o seu único título nacional, num jogo decisivo em que o Atlético derrotou o Benfica de Luanda na final por 4-2. No ano, “Man Queiras” foi considerado pela imprensa o jogador mais “pendular” do futebol luandense. Para Carlos Queirós, as equipas mais fortes do Campeonato Distrital  de Seniores  eram  o ASA, que na altura actuava com jogadores como o Prado, Eduardo João, Dinis, Mateus, Gindungo e Garito.

“O Luanda, com o Oliveira Duarte, Belmiro e Justino Fernandes, bem como outros jogadores que faziam a diferença, como os da ‘geração de ouro’ – o Inguila, Prata, Juvenal (do ASA), Caçador (do Vila Clotilde), Lourenço Bento (do Escola do Zangado), Belmiro (do Luanda), Gomes (do Ferrovia), Rui Clington, Carlos Romão, Almeida (do Ferrovia) e José Sobrinho – também fazem parte dos meus tempos memoráveis”, assegurou.

Pontos altos da carreira

Os pontos mais altos da sua carreira como jogador foram as convocatórias para as selecções provinciais de futebol, bem como a disputa de jogos com clubes portugueses, como o Varzim e o Belenenses. “No jogo contra o Varzim, a minha mãe alugou um rádio para ouvir o meu nome no relato. Quando ela ligou o rádio eu já estava a ser substituído. Portanto, ela só ouviu a minha substituição. Mas mesmo assim ficou satisfeita e eu tive que arcar com as despesas do aluguer”, recordou.

Carlos Queirós, homem de trato fácil e com grande sentido de humor, terminou a sua carreira de jogador em 1974, aos 28 anos de idade, embora tenha participado em alguns jogos não oficiais, depois de ter pendurado as sapatilhas, para “desenferrujar” os músculos, como frisou.
Entre 1973/74, foi proposto pela direcção do Atlético para trabalhar nos escalões de formação, onde demonstrou vocação e dedicação na preparação dos atletas, ensinando-lhes o “ABC” do futebol.

Como treinador, venceu vários campeonatos de infantis, juvenis e juniores. Em 1981, “Man Queiras” frequentou no Brasil um curso sobre organização, detecção de talentos e métodos de treino de futebol dos escalões infanto/juvenis”. Seguiu-se um estágio de superação técnica e física de trinta dias no Sport Lisboa e Benfica, com os treinadores Ericsson e Tony. No mesmo ano, participou em Luanda num “clinic” de 15 dias, organizado pela FIFA.
Em 1982, Carlos Queirós fez o curso de treinador de futebol na Escola de Educação Física do Exército do Brasil, no Rio de Janeiro, que teve a participação de ex-jogadores históricos e campeões do Mundo, em 1962 e 1970, como Dida, Joeli e Jair.

TREINADOR  PROFISSIONAL


A sua carreira como treinador profissional começou em 1983, no Petro Atlético de Luanda, como adjunto do brasileiro António Clemente. Em 1984, assume o comando técnico da equipa principal do Petro Atlético de Luanda, mas no fim da primeira volta é afastado por insucesso.  Mas, em 1985, foi novamente chamado para ser adjunto da equipa principal do Eixo Viário, na altura liderada por José Abrão. Em 1986, foi campeão nacional, exercendo as funções de treinador de campo e preparador físico, com Carlos Silva como técnico principal. Como treinador adjunto foi campeão nacional em 1987 e 1988.

Já como treinador principal do Petro Atlético de Luanda foi campeão nacional em 1989 e 1990. Também foi seleccionador olímpico em 1990/1991. Além disso, também treinou o Benfica do Huambo (“Mambroa”), Grupo Desportivo da Nocal e Académica do Lobito, com a qual conquistou um segundo lugar no Girabola, e o Benfica do Lubango, que concluiu o campeonato da primeira divisão na oitava posição.

POR DENTRO

Nome completo: Carlos de Sousa Queirós
Filiação: Álvaro de Sousa Queirós e Inês Geovetti
Naturalidade e data de nascimento: Quibala (Kuanza-Sul), 31 de Março de 1946
Estado civil: Viúvo
Filhos: Oito
Altura: 1,72 metros
Peso: 84 quilogramas
Calçado: 42
Prato preferido: Funge de calulu com quisaca e catato
Bebida: Vinho à refeição e cerveja quando está calor
Hobby: Música, televisão e leitura especializada
País de sonho: Namíbia
Ciúme: Um mal necessário
Defeito: Os outros que o digam
Virtude: Ser alegre e contagiar toda a gente
Religião: Católica
Homossexualismo: Respeito
Traição: Pode acontecer a qualquer pessoa
Temor: Chegar à velhice pobre
Sonho: Continuar a ter boa saúde, dinheiro e muita virilidade
Clube de coração: Petro Atlético de Luanda
Camisola que habitualmente usou: Nº3 como defesa esquerdo e nº11 quando actuava como médio no mesmo flanco.