Jornal dos Desportos

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Reportagens

UEFA contra partilha de passes

13 de Março, 2012

A ameaça da UEFA vai ao encontro dos desejos das federações inglesa e francesa, que já proíbem a participação de terceiros.

Fotografia: AFP

A UEFA prepara-se para abrir guerra à partilha de direitos económicos dos jogadores com terceiros, um mecanismo muito usado em Portugal, sobretudo pelos clubes grandes, que recorrem com frequência a fundos de investimento para comparticipar na compra de craques.A confirmação surgiu pela boca de Gianni Infantino, secretário-geral do organismo, que se mostrou preocupado com o “enorme crescimento” desta forma de propriedade dos direitos sobre futebolistas. “Vamos debruçar-nos sobre o assunto porque as coisas não podem continuar assim”, sustentou o italiano.

A ideia da UEFA, de acordo com a edição do jornal inglês “The Guardian”, é que os jogadores cujos passes não pertençam na totalidade aos clubes pelos quais estão inscritos sejam impedidos de participar nas provas europeias. “Seguramente que é uma hipótese”, adiantou Infantino. Nesse caso, Portugal seria um dos países mais afectados, pois os nossos principais clubes têm parcerias com vários fundos. Só para se ter uma ideia, nesta altura, FC Porto, Benfica e Sporting têm nos respectivos plantéis um total de 43 jogadores cujos passes não lhes pertencem na totalidade, sendo que os leões contam com um total de 19, contra 12 de águias e dragões - dados recolhidos dos últimos relatórios e contas das SAD.

A ameaça da UEFA vai de encontro aos desejos das federações inglesa e francesa, que já proíbem a participação de terceiros - fundos, empresários, outros clubes ou até os próprios atletas - nos direitos económicos dos jogadores que actuam nas suas ligas. “A regra é: um jogador apenas pode pertencer ao clube que o regista. Nada mais”, explicou a “O Jogo” Dan Jones, especialista da Deloitte e orador no recente “Football Talks”, organizado pela Liga. “Um acordo de transferência pode incluir cláusulas que determinem que o clube vendedor tenha direito a uma percentagem numa futura venda. Mas nunca tem direitos ou controlo sobre o jogador em causa”, destacou.

Além de seguida pelos principais clubes nacionais, a partilha dos passes de jogadores é muito comum em Espanha, Itália e Alemanha.Ingleses e franceses acreditam que este mecanismo pode ser usado para contornar as leis de fair-play financeiro que a UEFA está a começar implementar e, por isso, querem bani-lo em toda a Europa. “A partilha dos passes dos jogadores é algo que está tão difundido que será difícil agora alterar as regras. Mas, tal como disse em Portugal, concordo que os direitos sobre os futebolistas devem pertencer na totalidade ao futebol e não a terceiros”, opinou Dan Jones.

Regresso ao Porto
Lucho trocou a fortuna pelo futuro


Onde é que o destino de Lucho se cruzou com os de Nasri e Fàbregas? Há meio ano, quando o Arsenal sofria uma razia no seu meio-campo, Wenger pensou no argentino para compor as perdas, mas o Marselha negou-lhe a transferência, prometendo que estaria disposto a negociá-lo numa futura janela.Lucho cobrou essa mesma palavra quando a possibilidade de regressar ao FC Porto, que esteve sempre em aberto, ganhou contornos reais. A aproximação definitiva aconteceu há duas semanas e El Comandante foi rápido a responder às outras três propostas que tinha em carteira: “não”.

Lucho sabia que, para regressar, tinha de perder. Os cerca de seis milhões de euros que receberia até final do contrato com os franceses (Junho de 2013) são uma miragem face ao que vai encaixar nos dois anos e meio que acordou com o FC Porto. O argentino, que ganhava 390 mil euros por mês no Sul de França, abdicou de mais de metade do vencimento para voltar ao Dragão, mas também fechou os olhos a prémios que ainda tinha a receber do Marselha.

Contas feitas, vai jogar mais uma temporada e receber cerca de dois milhões de euros a menos. É o primeiro estrangeiro a regressar ao clube depois de ter sido vendido e as cedências que fez sensibilizaram a SAD e confirmaram que Lucho tem uma relação com o FC Porto que vai muito além das quatro temporadas (e outros tantos campeonatos) que somou de azul e branco. Com 31 anos e algumas épocas desportivas pela frente, Lucho parece destinado a cumprir o sonho de terminar carreira no Dragão. É cedo para antecipar o fim, mas o seu empresário, Federico Simonian, admite a O JOGO que Lucho não esconde que imagina o seu futuro associado ao FC Porto muito para além do seu papel em campo. “Há alguns anos pela frente, mas é verdade que ele gostaria de continuar ligado ao clube como dirigente”, revela Simonian.

Com casa na cidade e uma ligação que se estende à sua companheira, que é portuguesa, Lucho dividiu o seu tempo, nos últimos anos, entre o contrato com o Marselha e as férias no Porto, para onde viajava regularmente e onde chegou a passar largas temporadas.
Sendo certo que tem um contrato largamente acima da média do plantel e até do onze-tipo dos dragões, a verdade é que Lucho fez cedências significativas para poder regressar. Para o FC Porto, caiu que nem sopa no mel, até porque nem gastou um tostão, já que o Marselha se arriscava a ver o médio sair a custo zero.

Sporting
Investimento estrangeiro como salvação da falência

A situação financeira crítica do Sporting não apanhou ninguém de surpresa, em particular economistas, dirigentes e conselheiros leoninos, mas causou burburinho. É que, pela primeira vez, uma auditoria, cujos resultados foram divulgados, referiu-se ao emblema centenário como estando em falência técnica, com um endividamento de 276 milhões de euros e uma situação líquida de prejuízo, que já em 2010 atingiu o valor dos activos líquidos.

Contudo, e apesar de não ser uma medida muito popular, Godinho Lopes tem uma solução que os economistas também aconselham: a entrada no clube de capital estrangeiro. A auditoria apresentada, em “condições únicas de isenção, independência e imparcialidade”, visava dar a conhecer uma análise específica à evolução patrimonial do Sporting e empresas participadas de 1999 até à tomada de posse da actual direcção (ficaram por analisar os anos desde o Livro Branco, que foi até 1995, mas, em caso de desvio, os números foram integrados).

O estudo apresentou uma conclusão previsível, mas dura: “As contas consolidadas do Grupo Sporting, reportadas à data de 30/06/2010, apresentam capitais próprios negativos de 183 milhões de euros, situação estruturalmente desequilibrada, usualmente denominada como de falência técnica.

Liga Europeia-Compra de Jogadores
Clubes europeus reduzem gastos


As seis principais ligas europeias gastaram, esta época, em reforços de Inverno, menos de metade do dinheiro que na época passada.
Em conjunto, os principais campeonatos de Inglaterra, Espanha, Itália, França, Alemanha e Portugal despenderam 232 milhões de euros em Janeiro de 2012, enquanto no mesmo mês de 2011 se tinham ficado pelos 511 milhões.Desta vez, não houve Fernando Torres por 58 milhões ou Andy Carroll por 40 - a transferência mais cara foi a de Papiss Cissé, do Friburgo para o Nescastle, por 12 milhões.O apertar do cinto é reflexo da crise financeira generalizada, mas, sobretudo, das novas regras de fair-play financeiro impostas pela UEFA.É que, entre esta e a próxima época, cada clube não pode ter mais do que 45 milhões de euros de prejuízo, sob pena de poder ser excluído das provas europeias em 2013/14.

Só assim se explica que emblemas de bolso cheio como Manchester City, Manchester United, Real Madrid ou Barcelona não tenham gasto um único cêntimo em reforços neste período de reabertura de mercado, mesmo estando plenamente empenhados em conquistar títulos nacionais ou europeus.O emblema que mais gastou foi o Wolfsburgo, da Alemanha - 30 milhões, 4,5 dos quais por Vieirinha -, representante de uma liga que manteve os gastos da última época. Sem surpresa, o PSG surge logo a seguir, com 20 milhões de euros.Em grande parte graças aos parisienses, a Ligue 1 foi a única que gastou mais do que em 2010/11.