Jornal dos Desportos

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Reportagens

Um contributo ao desporto

Manuel Neto - 16 de Novembro, 2010

Escola de Futebol da Terra Nova tem 170 crianças de ambos sexos

Fotografia: Nuno Flash

Nos últimos dias, o Campo da Terra Nova tem sido pequeno para albergar centenas de crianças que acorrem ao recinto nas primeiras horas do dia com sorrisos, gritos e boa disposição. Por detrás da forte animação, adormecem os sonhos de se tornarem em melhores futebolistas do país. O programa comporta 140 rapazes e 30 raparigas com idades compreendidas entre os 8 e os 16 anos de idade, para os rapazes, e dos 8 aos 19, para as meninas.

Para uma melhor conciliação entre a formação académica e a desportiva, a direcção da escola definiu o horário das 7 às 12 horas, para os meninos que estudam no período da tarde, e das 14h30 às 18 horas, para os que estudam de manhã. A técnica e táctica são os aspectos priorizados nesta faixa etária. A criançada é proveniente de distintos pontos da cidade de Luanda, designadamente, Terra Nova, Neves Bendinha, Tala Hady, Rangel, entre outros da periferia.

Ministério fecha porta ao projecto

Para melhor rendimento do projecto, a escola conta com uma equipa técnica composta de três elementos, Maninho Loid, antigo atleta do 1º de Agosto, Sagrada Esperança, Santos FC e da Selecção Nacional, é o técnico principal, enquanto Adriano Moniz é o treinador adjunto e Luís Gaspar, treinador de guarda-redes. No aspecto logístico, o grupo está apetrechado com duas mudas de equipamentos, 20 pares de chuteiras, quantidades consideradas insuficientes para os objectivos que se propõem seguir.

Apesar da boa vontade da equipa técnica em prol do desenvolvimento do projecto, as dificuldades por que passa é um adversário a enfrentar. A direcção não cruzou os braços, bateu as portas do Ministério da Juventude e Desportos, Delegação provincial dos Desportos, Elisal, entre outras empresas com o fito de acudir a situação. Para infelicidade da Escola, a Elisal é a única que se mostrou aberta e dá apoio, que se limita a transporte e algum material desportivo. Do Ministério da Juventude e Desportos temos apenas promessas.

Dinho, presidente da escola, diz estar desapontado com o comportamento do Ministério da Juventude e Desportos. O dirigente afirma que a instituição pública havia mandado uma equipa de inspectores para constatar os requisitos da escola para que, posteriormente, fosse prestado algum apoio. Depois de aprovado, o Director Nacional dos Desportos deixou de atender os telefonemas da direcção da escola e todos os contactos feitos no sentido de o contactar, pessoalmente, têm sido gorados.

O comportamento, na apreciação de Dinho, causa certa repulsa e dúvidas quanto ao futuro promissor do desporto, conforme propala o Ministério da Juventude e Desportos. Não obstante as dificuldades, o presidente da Terra Nova disse não virar cara à luta, pois a esperança é a última a morrer, Por isso, promete lutar até à exaustão com o fito de ver o projecto brilhar. Dinho assegura que algumas pessoas de boa fé dão grande apoio moral, nomeadamente, Nuno Valódia, fisioterapeuta e assistente social, que presta apoio às crianças, o antigo árbitro internacional, Brito Costa dá alguns seminários sobre o código de conduta do atleta em campo. Para o presidente do Clube, os apoios são bastantes valiosos para o prestígio e a progressão da escola.

“Apoios são exíguos
aos escalões de formação”

Depois de ter pendurado as chuteiras, Maninho Loid enveredou pela formação de novos talentos na formação da Escola da Terra Nova. Loid afirma ter grande amor pelo trabalho que faz, por ser um desportista de gema e ver no futebol a porta que o catapultou para grandes patamares. O ex-atleta acredita que mais jovens podem ter a mesma sorte. O jovem técnico considera o projecto Craque na Escola e no Futebol uma mais-valia para o desenvolvimento desportivo e social do país e aconselha às pessoas de direito no sentido de não se coibirem em apoiá-lo, porque “contribui para a melhoria do nosso bem-estar social com particular realce para o futebol”.

Na visão de Loid, o escalão de formação tem uma avaliação média devido ao fraco apoio prestado pelos órgãos de direito, embora esses imitem constantemente uma boa imagem. O futebol, defende o treinador, devia começar a organizar-se a partir da formação ao invés dos seniores como acontece, actualmente. “Gosto muito de trabalhar com crianças, apesar de ser uma tarefa difícil”, disse Moniz, o treinador adjunto da escola. A dificuldade encontrada é superada por imposição de disciplina. “Implemento uma disciplina forte no seio das crianças e, felizmente, tenho êxitos”, afirma.

O trabalho árduo enche-o de esperança. “Espero que o meu empenho redunda em efeitos positivos para o desenvolvimento do nosso desporto”. Um desporto que a cada dia reclama de mais apoio. “Tenho a consciência de que o apoio aos escalões de formação são exíguos, mas acredito que o quadro pode melhorar”. Moniz tem o país enraizado na alma. “Temos recursos humanos e material para o efeito no país”. Para o sucesso e o resgate do percurso vitorioso do futebol nacional “deve aliar-se à formação dos petizes a boa vontade das pessoas que estão à testa do desporto”.

Maninho Loid não deixou de depositar o seu voto de confiança à qualificação da Selecção Nacional para o CAN de 2011, embora reconheça que os Palancas Negras necessitam de mais talentos, iguais a Daniel Ndunguidi, Abel Campos, Jesus, entre outros, sem desprimor para os que lá estão.

Roubos de talentos
A direcção da escola trabalha num diploma que visa regular melhor a formação e a transferência de atletas. O documento surge pelo facto de haver alguns casos de “furto” de jovens jogadores formados, protagonizados por distintos clubes do país, de acordo com o presidente. Esse comportamento, na óptica do presidente, em nada abona para o bem do futebol, pois não se deve tirar atletas sem contrapartida para a escola que os formou. Com a conclusão, discussão e aprovação do documento, “será mais-valia quer para a escola quer para os atletas” e apela ao bom senso dos clubes no sentido de não enveredarem por esse caminho.

Familiares e munícipes
solidários com o projecto

Os familiares e tutores congratulam-se com o projecto Craque na Escola e no Futebol e dão o apoio à direcção com o fito de um futuro risonho para os seus filhos. Adão Matias, morador do Rangel, de 44 anos de idade, diz sentir-se satisfeito pelo projecto da escola, porque é mais um parceiro que vem ajudar os pais na formação do homem novo. Por isso, diz o progenitor, todos os pais, amantes do futebol, bem como os dirigentes, sobretudo, da área desportiva, têm o dever moral de prestar apoio à escola para o bem da sociedade angolana.

“Quando ouvimos falar sobre o projecto, rapidamente, mandei o meu sobrinho e o meu filho inscreverem-se, porque é um projecto ambicioso”, diz o amante do futebol. Dotado de uma visão futurista, Adão Matias justifica-se: “Não são todos os dias que aparecem jovem empreendedor com projectos virados para o desenvolvimento da comunidade, tirando meninos da e na rua, delinquência e de outras práticas nocivas à sociedade”.

Como qualquer encarregado, diz sentir-se descontente por a Escola seguir sozinha a trilha de formação de talentos. “Quando escutei que o Ministério da Juventude e Desporto não quer dar apoio, fiquei triste e ao mesmo tempo admirado”, afirmou o morador do Rangel que considera uma atitude deselegante, porque “são os mesmos que gritam que o desporto não se desenvolve”.

Breve historial do Clube

A Terra Nova é um bairro tradicional na formação e no lançamento de talentos para o futebol profissional. Além de jogadores forjados no clube, com realce para o Canvunge, que nos longínquos anos 60 e 70 do século XX, fez estragos nos areais de Angola, destacando-se no inesquecível Torneio Cuca, que lhe mereceu convite para as Terras de Camões, outros nomes fizeram furor em Angola no pós independência. São os casos do habilidoso Jesus, que se destacou no Petro de Luanda e na Selecção Nacional, Gonçalves, o pai do Manucho Gonçalves.

Do bairro saíram também o Marito, ex-guarda-redes, Bodunha e Amaral Aleixo, todos ex-atletas do Petro de Luanda, André Macanga, Flávio Amado, entre outros. Coyó e Mário Jorge foram hoquistas no tempo colonial, e marcam a história do bairro. Sónia, actualmente advogada, Páscoa, Tânia, Jú, Detinha, Belinha, Lídia, Yola, Vivi e Manucha, actualmente, são atletas da Selecção Nacional feminina e têm o registo da Terra Nova.