Jornal dos Desportos

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Reportagens

Um imbondeiro africano

25 de Julho, 2011

Milla fez quatro golos na Copa, comemorados com um samba.

Fotografia: REUTERS

Albert Roger Mooh Miller, mais conhecido como Roger Milla, é um ex-futebolista camaronês que actuava como atacante e começou sua carreira profissional no Eclair de Douala, em 1965. Dono de grande técnica e famoso pela maneira como comemorava os seus golos, foi um dos destaques do Campeonato do Mundo de 1990, na Itália, levando a selecção camaronesa até aos quartos-de-final, facto até então inédito em Mundiais, pois uma selecção africana até então não tinha chegado tão longe - e podiam ter avançado mais, estando perto de bater a Inglaterra e ir às semi-finais. O país já havia surpreendido na estreia, ao derrotar a Argentina, detentora do título.

Milla fez quatro golos na prova, comemorados com um samba que, segundo ele, era uma homenagem ao brasileiro Careca e à inspiração que o futebol brasileiro levara a África com as excursões do Santos de Pelé pelo continente nos anos 60. Foi só nesta competição que ele, que já havia disputado o mundial de 1982, apareceu para o mundo e para a própria França, onde jogava - ressentia-se de que havia passado 13 anos no país, para onde fora em 1977 jogar no modesto Valenciennes, sendo ignorado.

Saíra de África com o título de melhor jogador do continente, em 1976. No futebol francês, foi herói de outro clube pequeno, o Bastia: pela equipa da Córsega, marcou o golo do título da Taça da França de 1981 sobre o então poderoso Saint-Étiene de Nichel Platini.
Ainda assim, só foi ao mundial de 1990 por interferência de seu amigo Paul Biya, então presidente dos Camarões. Milla estava na época à beira da aposentação no JS Saint-Perrpoire, da ilha de Reunião, para onde se “exilara” após a morte da sua mãe e a gravidez da sua esposa.

A sua performance no mundial trouxe-o de volta ao Tonnerre Yaoundé, de onde havia saído para a França. Ficou no clube nos quatro anos seguintes, mas sem actuar pela Selecção. Quando os Camarões se classificou novamente para o Mundial, Milla resolveu voltar e novamente contou com a ajuda de Biya. Foi no mundial dos EUA que ele entrou de vez para a história dos Campeonatos do Mundo, mais especificamente para as estatísticas do torneio; tornou-se, aos 42 anos de idade, o mais velho atleta a disputar a competição, quebrou a marca do norte–irlandês Pat Jennings.

Aos 42 anos e 39 dias, idade em que tinha na última partida dos Camarões, superou a própria marca que tivera no mundial anterior, estabelecendo-se como mais velho também a marcar: foi dele o “golo de honra” da goleada de 1-6 que o país sofreu da Rússia.

A aposentação
Talvez o mais importante ícone do futebol africano no mundo, Milla fechou de vez a sua longa carreira em 1997, aos 45 anos, pelo clube indonésio do Putra . Após parar, tentou organizar um torneio de futebol entre pigmeus para levantar recursos para saúde e educação, mas o projecto fracassou, ao causar escândalo: os pigmeus foram aprisionados e mal alimentados quando chegaram a Yaoundé, além de terem sido apupados pelo público pagante. A bilheteira registou apenas cinquenta ingressos vendidos. Até hoje Roger Milla é referência no futebol africano, sendo chamado pelos seus conterrâneos camaroneses de “Excelência” sempre que é citado.