Jornal dos Desportos

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Reportagens

Um toque de qualidade

Silva Cacuti - 05 de Março, 2011

Técnicos de andebol de Luanda participam do curso

Fotografia: Domingos Cadência

O andebol angolano vive uma experiência nova. Não que seja benefício que nunca tenha merecido a atenção daqueles que o fazem no dia a dia. Alguma coisa vai mudar definitivamente na maneira de os treinadores prepararem este tipo de atletas, a mentalidade com que os dirigentes abordam o quadro técnico de uma equipa, enfim, vai haver um toque qualitativo na apreciação ao guarda-redes, depois do dia de hoje. O estudo especializado sobre o guarda-redes de andebol veio como uma “boa nova”. É um assunto actual e resulta, segundo José de Sousa, do departamento de andebol do 1º de Agosto, do levantamento das necessidades internas apresentadas pelos coordenadores Filipe Cruz e Paulo Pereira.

Daí para frente foi só accionar os mecanismos, identificar o prelector, alguém que tivesse algo a transmitir.Neste particular, o clube foi feliz. Trouxe ao país um gigante da baliza. Não só como atleta, mas como profissional especializado que vive dividido entre duas equipas, uma da Holanda e outra da Alemanha, cujos guarda-redes são por si preparados. O holandês Hermanus Breuer tem competências reconhecidas. Aliás, da sua sabedoria falamtodos os participantes, desde os mais conceituados do nosso mercado, passando por aqueles que estão a iniciar a carreira de treinador e até os que ainda são atletas.

O recinto do Miramar, afecto ao clubemilitar, dotado de quadras com piso moderno, ginásios, restaurante e um auditório é o palco ideal. Paulo Pereira, treinador do clube, fez de aluno- intérprete durante as aulas práticas e teóricas. Os guarda-redes do clube aprenderam e serviram de apoio para as aulas práticas do professor Hermanus. Foram sessões matinais e vespertinas. A media, com reportagens, fotos e imagens esforçou-se para mostrar aos amantes da modalidade os temas em abordagem e a forma animada como se fazia. Mas não foi só baliza e guarda-redes. Foi aprendizagem, foi interacção, foi camaradagem, foi mais.

Cabo-verdianos enchem malas
com material de aprendizagem

O país faz andebol à base de amadorismo, com atletas das escolas e outros que têm as limitações do trabalho na pedreira e outros. Algumas ilhas têm equipas e disputam campeonatos regionais, para em regime de “playoff”, entre os vencedores dos regionais, ser encontrado o campeão nacional. Na classe feminina, a equipa do Académica do Sal é dominante e tem só nove títulos dos 11 campeonatos disputados. Um papão à moda do Petro de Luanda, de Angola. Com o grosso de atletas da Académica da Ilha do Sal, a selecção cabo-verdiana logrou o passe para os Jogos Pan-africanos no torneio de apuramento recentemente disputado no Senegal.

Ao aperceber-se da realização do curso promovido pelo 1º de Agosto, a Federação cabo-verdiana mobilizou os seus filiados e, da Ilha do Sal, vieram Miguel Gomes e Emanuel Almeida, técnicos ligados ao Oderf, equipa que luta para chegar ao topo do campeonato local.
Estar em Luanda tem sido para ambos uma experiência única e, mais do que aprender de Hermanus Brouer sobre guardaredes, os técnicos fazem um verdadeiro estágio no clube militar, onde acompanham todas as sessões de treino das várias equipas e escalões.

“Viemos de um andebol totalmente amador, porque temos necessidades de trabalho específico com o guarda-redes. É um trabalho que não fazemos no nosso país e apercebemonos, pela Internet, do curso e conhecemos o potencial de Angola, o lugar que ocupa no ranking africano e sabíamos que aprenderíamos muita coisa”, disse Emanuel de Almeida. Aprender para si e para transmitir ao andebol cabo-verdiano é a missão secreta dos dois treinadores. “Estamos a fazer o máximo esforço para transmitir, quando chegarmos no nosso país. Temos imagens, vídeos e vamos mostrar a forma como os angolanos trabalham no andebol”, prometeu Miguel Gomes,
outro treinador cabo-verdiano.

“Nem tudo é novidade
mas tem muita coisa nova”

Com estas palavras, o seleccionador nacional sénior masculino Filipe Cruz começou por descrever aquilo que foi para si o curso. Depois de realçar o perfil de Hermanus Breuer, prelector, e de testemunhar que têm sido diasmuito proveitosos, o técnico reconheceu que a aprendizagem é oportuna. “Temos colhido uma experiência completamente diferente. Nem tudo é novidade, mas tem muita coisa nova que vamos passar a aplicar no nosso dia a dia”, disse. Felipe Cruz lamentou a ausência de treinadores das províncias e enalteceu a presença de confrades de Cabo Verde que, diz, engrandece a acção formativa.

“Desde já é de lamentar, porque a direcção do clube esperava mais adesão dos intervenientes do andebol no país e a presença de técnicos estrangeiros demonstra que a divulgação foi abrangente e engrandece este curso”, disse. Na mesma linha de pensamento, José Saraiva, conhecido técnico de atletismo, deplorou a ausência de treinadores angolanos no curso, com particularidade para os de Benguela. O categorizado treinador sugere que a Federação devia encontrar vias para facilitar a presença destes treinadores na iniciativa do clube.

Saraiva apontou alguns erros que se generalizam nos guardaredes angolanos que, espera ver superados após a participação de 35 técnicos na acção formativa. “Este é um curso de excelência desportiva. Cometemse erros em deixar espaços grandes na baliza, no guardaredes, quando faz a abertura nos membros inferiores; cometem- se erros no fechar os ângulos, entre outros, que espero serem debelados com esta formação”, comentou. Giovani Muachissengue, treinador e guarda-redes da Selecção Nacional sénior masculina, um dos mais activos na formação, prometeu praticar todas as novas técnicas para ser um “novo guarda-redes”.

Prelector aconselha a
outras especializações


O holandês Hermanus Breuer, prelector do curso de treinadores de guarda-redes, que encerra, hoje, no recinto do Clube dos Caçadores, aconselhou a que se trabalhe mais na especialidade com outros atletas e que a iniciativa do 1º de Agosto não fique pelo guarda-redes. O holandês fez um balanço à nossa reportagem, no final da jornada de ontem, dos dias em que esteve a trabalhar com técnicos e jogadores angolanos. “Pude ver umnível de andebolistas aceitável.Aliás, já tive informações, por exemplo, nível dos guarda-redes com que ia trabalhar e, para mim, são muito bons.

Deixa-medizer tambémque gostei de trabalhar com os treinadores, que são muito interactivos e isto, revelou que são técnicos capacitados. Acho que no futuro, devem ter acções de formação destas,mas noutras áreas de jogo, incluindomeia distância, pivots e pontas”, recomendou. Para Hermanus Breuer foi surpresa saber que em Angola se trabalha muito. “Na Holanda, Alemanha e noutros países europeus, os atletas treinam entre 3 a 4 vezes semanais; vocês aqui trabalham todos os dias. Para mim, isto foi uma grande surpresa e devem continuar assim, porque quem quer desenvolver tem de trabalhar muito”, ajuntou.

1º de Agosto
cumpre dever

Não fosse o alcance dos benefícios da acção formativa a que se propunha organizar para todo o andebol angolano, o 1º de Agosto teria optado por restringir o clinic aos seus treinadores. A vontade de contribuir para o desenvolvimento da modalidade falou mais alto e o chamamento da equipa militar passou as fronteiras do país. Hoje, em dia de encerramento do curso que juntou 35 treinadores, entre os quais dois cabo-verdianos, José de Sousa “Jeco”, chefe de departamento do clube militar, refere com satisfação que há na direcção do emblema o sentimento do dever cumprido.

“Temos o sentimento do dever cumprido, porque desde que Angola é independente nunca se organizou um curso tão específico como o treino de guarda-redes e com prelector de elevada qualidade”, opinou. Questionado sobre a ausência de treinadores das províncias, Jeco esclareceu que a sua agremiação fez tudo para ter o maior número possível de treinadores participantes. “Não compreendo as razões da ausências, porque tivemos o cuidado de divulgar com antecedência; mandámos e-mails. É lamentável, porque as informações que poderiam absorver em relação ao conhecimento, às técnicas, como ensinar, como fazer, perderam-se”.