Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Reportagens

Uma apendicite impediu-me de chegar muito mais longe

Augusto Fernandes - 21 de Fevereiro, 2012

António Cruz da Fonseca(SIGA)

Fotografia: Augusto Fernandes

António Cruz da Fonseca, mais conhecido por Siga entre os amigos e familiares, é um grande amante do futebol. Nos anos 70, jogou pelo Recreativo do Seles, sua terra natal, e no Sporting do Huambo. Jogava habitualmente a médio central  porque tinha grande visão de jogo e um porte físico que lhe permitia jogar e fazer jogar a sua equipa. É contemporâneo de Chinguito (ex-TAAG), Almeida (Petro do Huambo), Matias Comandala, Mateus Ferreira, Carlos Burity (não cantor, mas o actual Reitor da Universidade Independente) entre outros.

 António Cruz da Fonseca, ou simplesmente Siga, começou a jogar futebol muito cedo no bairro Katieper, na Vila do Seles, sua terra natal, já que os seus irmãos mais velhos e outras crianças do bairro morriam de paixão pelo futebol.“Naquele tempo, o futebol era a principal diversão da miudagem no meu bairro, tal como o era em toda Angola.

Comecei pelo futebol inter-escolas e aos 16 anos de idade ingressei nos juniores do Recreativo do Seles, que já disputava o campeonato distrital, ao lado das equipas do Sporting e Benfica do Novo Redondo (actual Sumbe),  Ara da Gabela, que era a mais forte, o Naval do Porto Amboim, o Desportivo da Quibala  e o   Recreativo da Cela (actual Waco Kungo)”, recorda.

Siga diz que o campeonato era disputado em simultâneo. Primeiro jogavam os juniores (ou reservas) e depois os seniores. “Por exemplo, se o calendário fosse Recreativo do Seles x Ara da Gabela, então os seniores da Ara viajavam também com os juniores para o Seles e assim por diante”.

No Recreativo do Seles, Siga jogou com Nelito Penteado, Humberto Marcelo, Paulo Abreu, José Angelino, Zé Santos, Rui Barros, Rui Araújo, Orlando Aguiar, Nanias, e muitos outros. Naquele tempo, os jogadores mais sonantes eram o Cabibi, do Naval do Porto Amboim, ponta-de-lança fogoso, o Joca Caetano, do Benfica do Novo Redondo, também ponta-de- lança, o Timorense, do Sporting do Novo Redondo, o Russo, da Ara da Gabela, e o Penteado, do Recreativo do Seles, que foi o melhor mercador do campeonato em 1974.

“Todos estes eram avançados de grande valia técnica de fazer inveja a qualquer um nos dias que correm”, salienta.Um dos jogos que mais o marcou pela positiva foi, diante do Desportivo da Quibala, no Seles. Siga conta: “Até aos 70 minutos nós perdíamos por duas bolas a zero, em pleno campo das mangueiras. O público estava todo triste e ninguém acreditava na reviravolta. Mas em 20 minutos nós demos a volta ao resultado.

Dos meus pés saíram os lances para Penteado marcar os três golos que nos garantiram a vitória. O público vibrou de tal forma, que parecia que tínhamos ganho o campeonato. Nunca me hei-de esquecer daquele dia, pois aprendi que enquanto o árbitro não der por terminado o jogo temos de acreditar. Em contrapartida, o jogo que me marcou negativamente foi a derrota  diante do Ara da Gabela, por 3-7, também em nossa casa. Foi uma grande humilhação”, recorda. Ainda em 1974, devido aos estudos, foi transferido para Nova Lisboa (actual Huambo).

E como peixe não vive fora da água, Siga ingressou no Sporting Clube do Huambo, onde encontrou Chinguito, que mais tarde acabou por dar cartas no Girabola pela TAAG (actual ASA), tendo ficado famoso  pelos  dois golos que marcou na vitoria de 2-1, contra o 1º de Agosto, num dos dérbis entre ambos, que ficou conhecido por “Duas Chiguitadas”. Siga jogou também com Almeida, que depois representou o famoso Petro do Huambo, Matias Comandala, Mateus Ferreira, Guto  Pascoal e outros. O campeonato distrital era disputado pelo Ferrovia, Benfica, Recreativo da Caála  e, naturalmente, o Sporting, tudo isto em juniores.

Em 1975, devido ao agravamento da situação político-militar em Angola, não foi possível dar seguimento ao campeonato distrital, que já vinha tremido desde 25 de Abril de 1974. Em 1976, o antigo ponta-de-lança do Recreativo do Seles refugiou-se na capital do país onde já se encontrava o grosso da sua família, também fugida da guerra.

Em Luanda, e como funcionário da Judiciária, foi convidado por Toni de Sousa para jogar pelo Independente do Rangel.“Num dos primeiros treinos, senti-me mal e caí. Fui acudido pelos companheiros e  levado de emergência para o hospital Américo  Boa Vida. Depois de observado pelo médico foi-me diagnosticado uma apendicite e  tive de ser operado de imediato. Foi o fim do meu sonho de ser um grande jogador de futebol”, lamenta a sorte.

Apesar disso, Siga foi dando sempre uns toques na bola em jogos amigáveis no seu bairro, pois já não podia fazer muita força. Apesar de ter muito para dar ao futebol angolano, Siga viu-se obrigado a parar muito cedo. Mas contenta-se com o pouco tempo que teve como jogador, pois permite-lhe poder ser um bom crítico de futebol, modalidade pela qual nutre uma grande paixão.

Siga diz que foi com muita tristeza que viu os Palancas Negras serem eliminados no CAN-2012. Embora não se tenha surpreendido, pois a má campanha do “onze” nacional na fase de apuramento já dava indicações do que podia acontecer durante a fase final, que decorreu no Gabão e Guiné Equatorial. “Acredito que os responsáveis pelo futebol nacional vão fazer as mudanças necessárias para que no CAN, em 2013, sejamos bem representados”, disse.Actualmente Siga é quadro sénior do Ministério dos Transportes.

Por dentro

Nome completo:
António Cruz da Fonseca
Filiação: António Lopes Cruz da Fonseca e Maximiana  Moreira dos Reis
Local e data de nascimento: Vila Nova do Seles (Kwanza-Sul), 05.01.58
Estado Civil: Casado
Filhos:
09
Hooby: pratica de desporto saudável e uma boa conversa com amigos
Prato preferido:
Funge com carne seca
Bebida: um bom vinho tinto
Calçado: 43
Discoteca:  já não vai
Musica: Semba
Filme: ficção científica
Perfume: Cartie de claression
Política: Participo
Poligamia: não sou contra nem a favor
Religião: Católica
Clube do coração: Sporting de Luanda.
Acredita em Deus: Ele é o criador do universo.
País: Austrália
Cidade angolana: Huambo
Sonho: Ver Angola como um país com oportunidade para todos viverem bem