Jornal dos Desportos

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Reportagens

Uma histria com vrios fins

Avelino Umba - 15 de Abril, 2010

Campo do Zango vai merecer requalificao e ter nova gesto

Fotografia: Jornal dos Desportos

O Governo de Angola envida esforços na criação de condições para que o desporto no país tenha um desenvolvimento sustentável, como reconhecimento do serviço que essa área social presta a todos os angolanos. A conquista de um título africano exalta milhões de angolanos espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Foi com base nesse pensamento que o Governo de Luanda construiu cinco campos polivalentes em vários municípios, mas a política de gestão dessas infra-estruturas foi mal definida. Localizado na comuna do Zango 1, no município de Viana, o campo inaugurado a 13 de Novembro de 2008, pelo administrador municipal José Fernandes, encontra-se degradado, assim como o seu mobiliário. Vidros quebrados, louça sanitária, portas e os aparelhos de ar condicionado arrancados. O cenário é desolador para quem gosta de ver os jovens a praticar desporto.
 
Amadeu Baptista, membro do Movimento Nacional Espontâneo (MNE), que se encontrava no local, manifestou o seu descontentamento face à situação. O MNE, referiu, pretende manter uma parceria com a gestão daquele espaço com o objectivo de massificar a prática do desporto a todos os níveis, exceptuando o futebol, com vista a salvaguardar o investimento do Estado angolano e o objecto social das instalações.

Numa primeira fase, sugeriu a reabilitação do recinto. "O nosso objectivo passa, primeiro, por requalificar o campo, pois o mesmo nem sequer tem dois anos de existência e encontra-se quase totalmente destruído", disse Amadeu. que acrescentou: "as pessoas indicadas não deram o tratamento devido a um bem público, que custou milhões de kwanzas ao Estado".

Para Amadeu Baptista, o estado em que se encontra o campo "deve-se a problemas de mentalidade de pessoas de má fé, porque não é necessário que o Governo esteja aqui com ‘sete chaves’ para cuidar o recinto"."A sociedade e os próprios moradores deviam prestar atenção ao espaço, porque é um bem de todos. Não fizeram isso, o que indicia que há culpas acrescidas dos moradores vizinhos do espaço", afirmou.

Amadeu Baptista justifica as razões que levam a instituição a que pertence a criar uma parceria para a gestão do espaço: "O Movimento Nacional Espontâneo tem em carteira um trabalho de massificação desportiva, proveniente de uma orientação das suas estruturas centrais. Essa é a razão pela qual procuramos criar uma parceria para requalificar o espaço e dar-lhe outro cariz, que visa despontar a prática do desporto a nível local".

Actualmente, existe um contrato-promessa em fase avançada de avaliação entre o Movimento Nacional Espontâneo e o Governo Provincial de Luanda. Tão logo esteja concluído, o espaço vai passar a ser gerido pelo MNE, afirmou.O MNE já procedeu à avaliação das condições do recinto e uma das primeiras obras a ser realizadas é o levantamento do muro, estando já estabelecida uma parceria nesse sentido, referiu.

Proposta do MNE
é desconhecida


O fundador e secretário-geral do Clube Interc, José Fernandes, afirmou desconhecer a intenção do Movimento Nacional Espontâneo gerir o campo do Zango 1, porque nunca foi contactado. O treinador disse que a gestão do campo foi entregue ao Clube Interc, uma agremiação do município de Viana, pela Administração local.

José Fernandes revelou que quando o campo se encontrava em fase de deterioração por falta de segurança, convidou o actual presidente de direcção, Paulo Vaz, a integrar o grupo de dirigentes do Clube.Num determinado momento, para salvaguardar os poucos meios ainda existentes no campo, José Fernandes diz ter contactado a unidade da Polícia Nacional local, mas foi-lhe negada a protecção às instalações, tendo mesmo sido questionado sobre quem controla a Cidadela Desportiva e o Estádio dos Coqueiros.

Perante a atitude da Polícia Nacional, José Fernandes compreendeu que o melhor a fazer era contratar uma empresa de segurança privada.Sem recursos para o fazer, há um ano pediu uma licença de vedação à Administração local, mas foi indeferida pelo programa de habitação social. O mesmo aconteceu com a representante da Edel local, que também se recusou a fornecer electricidade.Apesar do recinto dispor de um tanque com capacidade para 50 mil litros de água, o mesmo está vazio há muitos meses. "A falta de água acelera a deterioração", disse. 

Campo do Zango 1 serve a maratonas

Para alguns moradores do Zango 1, o campo nunca esteve ao serviço do desporto desde a sua fundação, mas sim a "maratonas de comes e bebes".O jovem Abekim (recusou identificar-se pelo nome próprio) disse sentir-se agastado com o funcionamento do empreendimento, porque foi construído para actividades desportivas, mas foi destinado à realização de farras, com reflexos no aumento da delinquência.

"Nos dias em que o recinto se encontra fechado, a população residente nos arredores vive uma certa acalmia, no que diz respeito à delinquência juvenil" afirmou.Engrácia, de 32 anos de idade, residente naquela zona há 10 anos, disse que o campo se tornou num "esconderijo de delinquentes". "Os meliantes fazem do espaço o local ideal para cenas nada abonatórias, como a violação de mulheres que se atrevam a passar pelos arredores a altas horas da noite ou roubo dos seus pertences, como pastas e até a roupa do corpo", disse.

Ante a inoperância do espaço, Engrácia apelou a quem de direito para que se vele pela a sua recuperação, porquanto o "recinto foi feito para actividades desportivas, recreativas e culturais e não para a delinquência". Desde que as entidades competentes decidiram encerrar os "comes e bebes"no local e fechá-lo, "gostei imenso e estou mais descansada", disse a jovem.

Vila Estoril é exemplo de gestão

Situado no conhecido prédio do Golf II, junto à Unidade dos Bombeiros, o Campo da Vila Estoril foi inaugurado a 13 de Novembro de 2008 pela governadora provincial de Luanda, Francisca do Espírito Santo. As condições à disposição dos utentes contrastam com as do campo do Zango 1. As instalações e o mobiliário no interior e exterior continuam intactos.

Dentre outras condições, o recinto possui bancadas, tabelas, balizas, casas de banho para público e para os funcionários, um gerador de 1000 KVA, um reservatório de água, com capacidade para 50 mil litros em funcionamento, e ainda uma área de lazer para crianças. Todos os componentes em estado funcional.

Para um aproveitamento racional e ajudar a manter a boa imagem, funcionam provisoriamente no local as secções municipais da Cultura e da Juventude e Desportos do Kilamba Kiaxi, de acordo com Armindo João, director interino do campo.O funcionamento consiste na massificação desportiva e cultural. Vários colégios da zona o aproveitam as instalações para as aulas de Educação Física, nos períodos da manhã e de tarde. Além dos colégios, o campo tem equipas próprias de futebol de salão e de andebol, em ambos os sexos.

No período da manhã, os treinos realizam-se da 6h00 às 10h00 e, à tarde, começam às 15H30 e terminam às 20h00.
O campo é frequentado por muitas equipas organizadas e de pessoas singulares, mormente, a juventude, que o procura para fazer exercícios físicos e actividades, tais como colóquios e palestras.Os custos de manutenção das infra-estruturas, água e electricidade são suportados pela Administração local. Armindo João afirmou que existem dificuldades, mas estas são "normais e são poucas".

Mulenvos
é um mostro adormecido


A quinhentos metros da nova estrada que liga ao aterro sanitário no município do Cacuaco, está localizado um mostro adormecido. Inaugurado a 29 de Agosto de 2008 pela governadora provincial de Luanda, Francisca do Espírito Santos, o campo de Mulenvos é uma infra-estrutura semelhante ao campo da Vila Estoril. Está apetrechado com mobiliário, desde secretárias de trabalho a sofás, computadores e bebedouros, entre outros equipamentos.

Contrariamente ao da Vila Estoril, o campo de Mulenvos está totalmente sub-aproveitado, talvez devido à sua localização, o que choca os amantes do desporto e as pessoas que se deslocam àquele recinto e se apercebem de que ninguém faz uso dele. A gestão do empreendimento desportivo está a cargo da secção municipal da Educação, após uma tentativa de assalto em 2009. O recinto estava desguarnecido e sem trabalhadores.

Domingos Sousa, director do campo, disse que a decisão foi tomada numa reunião colegial local, que envolveu todas as direcções municipais da Administração, depois de tomar contacto com o relatório feito por uma equipa de averiguação da tentativa de assalto.
Para salvaguardar o campo, o chefe da instituição tomou como primeira medida colocar um corpo de segurança e outros trabalhadores ligados à área de manutenção, num total de 14 funcionários.

O responsável assegurou que apenas uma actividade de vulto foi realizada até agora no recinto, pela Associação dos Amigos do Morro da Luz, em 2009. Aos fins-de-semana, realizam-se actividades esporádicas de jovens kudoristas, a custo zero.
"Estamos à procura de alguém interessado para arrendar uma das nossas naves para a explorar e rentabilizá-la", disse Domingos Sousa.