Jornal dos Desportos

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Reportagens

Uma lenda chamada Zico

14 de Novembro, 2011

É muito pequeno, não dá. Esta foi a frase que Arthur Antunes Coimbra ou Zico ouviu logo no início da sua carreira, dita pelo técnico Modesto Bria,

Fotografia: AFP

“É muito pequeno, não dá”. Esta foi a frase que Arthur Antunes Coimbra ou Zico ouviu logo no início da sua carreira, dita pelo técnico Modesto Bria, treinador das divisões de base. Levado ao Clube pelo radialista Celso Garcia, que seguiu com perseverança, para acabar com a teimosia do técnico. E agradecemos a ele, pois em pouco tempo o franzino Zico já mostrava o seu belo futebol, nas divisões de base do Flamengo.

Maior artilheiro do Flamengo, segundo maior da selecção brasileira (atrás apenas de Pelé), líder do clube rubro-negro nas suas maiores conquistas, Zico sempre teve que suar muito para conseguir o que queria. Cedeu quase toda a sua infância em busca de um sonho, o de ser jogador de futebol e de jogar pelo Flamengo. Depois de muito suor e luta, conseguiu alcançar o seu objectivo. Tornou-se jogador, titular, e caiu nas graças da claque rubro-negra.

Mais tarde, conquistando três campeonatos brasileiros, um tricampeonato carioca, uma Taça Libertadores e um Mundial Interclubes em 1981, em Tóquio, Zico conseguiu calar os críticos e firmar-se de vez como ídolo da nação. Tornou-se na principal figura e o maior ídolo da história do Flamengo, clube que deve muito ao jogador, pela sua dedicação, pelo seu amor, pela sua vontade e luta pelos seus ideais. Zico preencheu a galeria de títulos do Flamengo com os mais importantes troféus que qualquer equipa do mundo pode almejar. Uma proposta fez com que ele se transferisse para a Udinese, mas foi por pouco tempo.

A falta de ambição da Udinese acabou por motivar Zico a voltar ao Flamengo. O retorno, em 1985, foi muito festejado pelos adeptos, mas, no mesmo ano, a sua carreira sofreu o mais duro golpe: numa partida contra o Bangu, Márcio Nunes fez uma falta criminosa, entrando com os dois pés no joelho esquerdo de Zico. A jogada rompeu os ligamentos cruzados do joelho do craque, que teve de se submeter a diversas operações e, segundo ele, “aprender a andar de novo”.

Mais uma vez teve de provar a sua paixão pelo futebol e a sua gana de vencer, e também demonstrou não guardar mágoas, perdoando o meio campista Márcio algum tempo depois. No ano seguinte, 1987, Zico encabeçou um Flamengo sensacional, que incluía jogadores experientes, como Edinho, Leandro, Andrade e Renato Gaúcho, e jovens como Leonardo, Bebeto, Zinho, Aldair e outros.

O resultado foi a conquista da Copa União, o equivalente ao Campeonato Brasileiro daquele ano, o quarto da vida de Zico. Dois anos depois, em 1989, Zico despediu-se do Flamengo pela segunda vez, rumo ao Japão, onde encerrou a sua carreira como jogador profissional. Na selecção brasileira, mais um desafio: ser titular. Teve de superar a desconfiança de treinadores, adeptos e imprensa, e provar, com golos e belas jogadas, que tinha valor para vestir a camisola que um dia fora de Pelé: a número 10.

Esta empreitada foi coroada com a chamada de Zico para o campeonato do Mundo de 1982 como cérebro de uma equipa que tinha os geniais Falcão, Sócrates, Leandro e Júnior e é até hoje considerada a melhor do Brasil desde o Mundial de 70. Maior do que qualquer dificuldade era a vontade de Zico de parar quando quisesse, e não por imposição de quem quer que fosse. Com esta ideia fixa, Zico dedicou-se como nunca aos seus exercícios de fisioterapia, lutando muito, para poder assim melhorar.

Eram pequenos, porém, regulares progressos a cada fase. Mas, em momento algum, baixou a cabeça e deixou de lutar pelo que queria, sempre alcançando os seus objectivos, por mais difícil que fosse. Zico conseguiu voltar a tempo de disputar o Campeonato do Mundo de 1986, no México, sob a batuta de Telê Santana, o mesmo da selecção brasileira de 1982. Zico não jogou muito, ainda por causa da contusão em 1985, e sua participação ficou marcada pelo pénalti perdido contra a França, no jogo em que o Brasil foi eliminado.

Pénalti esse que foi um dos raros momentos de infelicidade da relação entre Zico e o futebol, servindo como único álibi de quem coloca a carreira gloriosa de Zico em questão. Mas quantos jogadores já não falharam pénaltis ou cometeram erros marcantes em horas de decisão? Isso aconteceu e serviu de experiência para o Galinho, que deu a volta por cima e hoje é sempre lembrado pelas suas autuações e o seu amor pelo futebol. Em Março de 1998, Zico foi convidado pela CBF para ser o coordenador-técnico da Selecção Brasileira no Mundial de 1998, em França.

Disse que aceitou o convite “para servir ao país”.
Quis o destino que Zico, o maior atacante brasileiro depois do Rei Pelé, não fosse campeão mundial pela selecção brasileira. Foi campeão de inter-clubes, no “show de bola” diante do Liverpool, em 1981, e com a camisola do Flamengo ganhou tudo o que disputou. Mas esse estigma não o perturba. “Outros grandes craques brasileiros também não tiveram a felicidade de ser campeões mundiais”, disse ele.

Primeiras experiências

A sua primeira experiência numa comissão técnica foi como assistente de Zagallo, para o Campeonato do Mundo de 1998. Zico foi chamado após resultados medianos do Brasil nos amistosos preparativos, já que o “Escrete” não jogara as eliminatórias devido à sua classificação automática como campeão da edição anterior. Ficaria marcado por ter sido o encarregado de transmitir a Romário a informação de que este seria cortado.

Apesar da decisão ter sido feita por toda a comissão, o “Baixinho” culparia Zico pelo corte, e apenas em 2009 lhe pediria desculpas. Depois, Zico assumiu interinamente como treinador do Kashima Antlers, quando o clube passava por uma crise. Ele então director técnico do clube, que demitira Zé Mário por maus resultados. Na emergência, Zico comandou a equipa e a sua figura motivou os jogadores, fazendo a equipa sair das últimas posições e terminar entre os primeiros da J-League.

Selecção japonesa
A partir de Junho de 2002, passou a exercer o cargo de seleccionador do Japão, no qual sucedeu o francês Philippe Troussier, que treinara o país no Mundial daquele ano. Foi chamado logo como a primeira opção de Masaru Suzuki, presidente da Associação de Futebol do Japão - Suzuki fora o presidente do Kashima na época em que Zico teve bons resultados como técnico interino do clube.

Após a eliminação na primeira fase na Taça das Confederações de 2003, Zico levou os nipónicos ao título na Taça da Ásia de 2004. Com o título continental, o Japão credenciou-se a disputar, no ano seguinte, a Taça das Confederações e, embora eliminado na fase de grupos, não esteve mal de todo, tendo ficado perto de eliminar a selecção brasileira nessa fase. O Japão de Zico reencontraria o Brasil no ano seguinte, no Campeonato do Mundo de 2006, com nova eliminação na primeira fase e um futebol aquém do que se esperava.

Zico afirmou que fez o melhor que pôde pela selecção japonesa e que não se arrependeu de nenhuma decisão que tomou. Apesar de não ter conseguido os mesmos resultados do antecessor, o seu trabalho foi reconhecido por ter inspirado melhor postura dos jogadores japoneses, ensinando-lhes a ter mais confiança e capacidade de improvisação. Foi na selecção japonesa que Zico desenvolveu o gosto para ser treinador. Até então, a sua intenção após abandonar os relvados era ser dirigente.

Fenerbahçe
Após o Mundial, Zico foi contratado para treinar a equipa turca do Fenerbahçe, ajudando a popularizá-lo no Brasil. Comandando uma equipa cujo elenco contava com vários ex-jogadores do futebol brasileiro (Alex, Edu, Deivid, Fábio Luciano) e, depois, Roberto Carlos, além do naturalizado turco Vederson, do uruguaio Diego Lugano e do chileno Claúdio Maldonado), ganhou na sua primeira temporada o campeonato turco e, na seguinte, levou a equipa aos quartos-de-finais da Liga dos Campeões da UEFA de 2007-08, sendo esta a melhor participação de um clube da Turquia no principal torneio europeu de clubes.

Dirigente
A 30 de Maio de 2010, a convite da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, assumiu o cargo de director executivo de futebol do clube.

Comentarista
Em 16 de Fevereiro de 2011, foi anunciado como comentarista desportivo na TV Esporte Interativo. Fez a sua estreia em 22 de Fevereiro na partida entre Lyon e Real Madrid. Em 28 de Abril, estreou-se no seu próprio programa, também na TV Esporte Interativo, “Zico da Área” com o jornalista desportivo Mauro Beting e a participação do ex-futebolista Bebeto. O programa é semanal, todas as quintas, e tem a duração de uma hora.