Jornal dos Desportos

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Reportagens

"Vamos desafiar frica

Mrio Eugnio - 24 de Novembro, 2009

Alberto Cardoso Pereira presidente de Direco do Petro de Luanda

Fotografia: Nuno Flash

Inevitavelmente, presidente, vamos começar com o Girabola. Mais um título, o segundo no vosso consulado. Será que se pode já dizer que a mística foi reconquistada no futebol depois do jejum de seis anos?
Antes de mais gostaria de agradecer ao Jornal dos Desportos pela oportunidade que me dá para se dirigir ao grande público angolano, adeptos e massa associativa em geral do Petro de Luanda. Indo ao encontro da sua pergunta, ia dizer que trabalhamos há muito tempo com a intenção de criar as bases necessárias para que o Petro volte a ser aquele clube que encheu de alegria e de orgulho os seus adeptos e o povo angolano. O título do Girabola fugia-nos há aproximadamente seis anos, fomos capazes de o reconquistar, estamos há dois anos no pódio e pretendemos manter esta hegemonia por longos e felizes anos. É óbvio que isso nos traz outras responsabilidades, pois ao habituarmo-nos a conquistar títulos, as exigências também vão ser maiores. Portanto, é o indício de que o Petro está a voltar aos tempos gloriosos, mas hoje não podemos apenas pensar no Girabola; temos de pensar também em conquistar a Taça de Angola, a Supertaça e, acima de tudo, as competições africanas.

Acredita que a dois anos do término do vosso mandato é possível chegar próximo daquela proeza da conquista do maior número de títulos consecutivos que o Petro registou entre 1986 a 1990?
Estamos a trabalhar, em primeiro lugar, para a melhoria da nossa organização interna e, em segundo lugar, para continuarmos a melhor substancialmente a performance da nossa equipa de futebol. Se conseguirmos o primeiro objectivo, estou em crer que, nos dois próximos anos, vamos continuar a ser os detentores do título. Aliás, faz parte dos nossos objectivos conquistar todas as competições em que participamos.

O título do Girabola’2009 foi conquistado já na ponta final depois de muito sofrimento e algum suspense, quando antes a situação era de puro conforto. Em algum momento, receou que o título fosse escapar?
CP: Não pensei, em algum momento, que o título escaparia; vou dizer-lhe o porquê. Não perdemos a liderança do campeonato, em nenhum momento, desde a primeira jornada. O que aconteceu um pouco antes das últimas jornadas, encontro explicação em dois motivos: Primeiro, algum grau de ansiedade; segundo, porque a equipa estava com o seu esqueleto principal a fazer também jogos pela Selecção Nacional. Isso começou a criar um certo cansaço nos atletas, provocando alguns soluços na ponta final, mas que de forma alguma ameaçou a conquista do campeonato.
Por ironia do destino foi o 1º de Agosto, maior rival de todos os tempos, quem acabou por confirmar o título para o Petro de Luanda...
É próprio do futebol. O 1º de Agosto tinha os seus objectivos, que passavam, obviamente, por ganhar jogos; quem tinha objectivos e altos como os que o adversário traçou, tinha de ganhar jogos. E neste processo de ganhar e perder, o Petro de Luanda saiu melhor beneficiado.

Esta situação terá diminuído de alguma forma o sabor da vitória?
De forma alguma. O Petro sempre fez o seu trabalho, sempre esteve na liderança e nunca precisou que as outras equipas perdessem para conquistar o título. Portanto, todos os outros jogos, cujos resultados beneficiavam o Petro de Luanda, de uma ou de outra forma, faziam parte do processo, ou seja, do campeonato. O futebol é assim mesmo, tem estas coisas maravilhosas.

Além da conquista do campeonato, o Petro de Luanda teve outros méritos no Girabola’2009, como o de melhor marcador e viu ainda distinguido pela Rádio 5 Bernardino Pedroto e Job como melhor treinador e Melhor jogador, respectivamente. Isso pode ser traduzido
como uma época em cheio?
Melhor do que Petro de Luanda, penso que todo o meio envolvente foi perspicaz em reconhecer isso. Quando nos propusemos a trabalhar, o nosso grande objectivo foi logo estabelecido a priori. É óbvio que não estabelecemos metas para ter o melhor jogador ou o melhor marcador. Agora, é verdade que isso vem, de facto, premiar todo um trabalho que tem sido feito desde o primeiro dia. Ficamos felizes, quando somos reconhecidos e temos de parabenizar a imprensa por promover eventos deste natureza.

"Job está vinculado
à nossa equipa"

Há um ditado que diz em equipa que ganha não se mexe. Sabemos que o vínculo com o técnico Bernardino Pedroto termina apenas no próximo ano, mas há jogadores, cujos contratos terminam no final deste ano, como é, por exemplo, o caso de Job. De um modo geral, qual é a situação contratual da equipa?
A equipa dorsal do Petro de Luanda vai manter-se; dos atletas que tiveram maior performance nenhum vai deixar o clube. Vamos reforçar-nos pontualmente em alguns sectores nos quais não estivemos muito bem. Estamos a falar fundamentalmente do sector atacante, mas é óbvio que se tivermos oportunidade, vamos também reforçar outras áreas. Dentro do que o mercado oferecer, vamos reforçar melhor o nosso meio campo. Portanto, serão essencialmente estes dois sectores: o meio campo e o ataque. Estamos à procura do melhor que o mercado tem disponível e o que não encontrarmos, vamos procurar a nível de África ou de outros países que tenham tradição em termos de futebol. O treinador tem mais um ano de contrato, até agora não tivemos razões para não pensar na continuidade; pautamo-nos pela estabilidade e se não acontecer nada de extraordinário não teremos razões para não continuarmos com o treinador.

Quanto ao Job?
Como lhe disse, todos os atletas no Petro Atlético de Luanda, principalmente aqueles que fazem parte da espinha dorsal, já têm a situação regularizada.
Mas ao que sabemos, o ASA notificou o atleta para que se apresentasse ao clube por ter terminado o vínculo com o Petro...
(Risos, seguido de uma pausa demorada). O Job tem contrato com o Petro, mas foi formado nas escolas do ASA. No que tiver de ser tratado com o ASA para a continuidade do Job, vamos fazê-lo. Mas realço, desde já, que o Job está vinculado ao Petro Atlético.

Temos informação de que para a próxima época, o clube já começou a movimentar-se para reforçar a equipa, falando-se mesmo na contratação de um ponta-de-lança congolês e do médio Avex. O que nos pode adiantar sobre essas duas e outras eventuais contratações?
Sim, confirmo que contratámos um congolês e já está a trabalhar connosco há mais de três meses, não tenho agora presente o nome; estamos no mercado à procura de atletas que possam dignificar o nome do Petro. O Avex é uma hipótese e como ele há outros. Portanto, neste momento, o que temos a dizer é que vamos reforçar a equipa com alguns atletas que se mostraram disponíveis em representar o Petro de Luanda esta época e quando chegar o momento certo, vamos revelá-los.

Houve uma grande agitação nas hostes do Petro e do 1º de Agosto, quando se pôs a circular a informação segundo a qual Love Cabungula iria para o Catetão...
Foi só mesmo uma agitação. Quando se fez sair essa informação interessava a uma das partes que se ventilasse esta hipótese. O Love é um bom jogador e se pretendesse ingressar nas hostes do Petro de Luanda, logicamente, ingressaria, mas não foi o que aconteceu; tratou-se tão-somente de uma especulação do mercado, provavelmente, desenvolvida por alguém, que não o Petro Atlético, para tirar vantagens da situação.  
 
O técnico Bernardino Pedroto disse recentemente que a aposta do Petro, no próximo ano, quanto a reforços, passa por jogadores nacionais. Esse processo vai ser com recurso aos escalões de formação do clube ou vão somente optar por jogadores disponíveis no mercado?
Procuramos fazer com que os atletas que são formados nas escolas do Petro Atlético tenham oportunidade de ingressar na equipa principal. É óbvio que isso não é fácil, porque a equipa do Petro compete ao mais alto nível e os jovens, às vezes, têm alguma dificuldade em entrar pela exigência do próprio plantel; mas têm de entrar! É preciso torcer o pepino enquanto é pequeno. Formamos bons atletas e contamos com eles; na medida do possível, vão entrar na equipa principal para, naturalmente, mudarmos na continuidade. Não vamos de forma alguma dizer que atletas estrangeiros não vão entrar no Petro Atlético; todos os atletas que se mostrarem reforço, vamos apostar. Só não podemos continuar a ter atletas estrangeiros que ficam no banco; o atleta estrangeiro que for contratado é mesmo para jogar e, se possível, obter 90 por cento de utilização nas competições que participamos. Portanto, vamos dar prioridade a prata da casa, mas não vamos descurar naquilo que for primordial. Se não encontrarmos cá, no mercado, vamos buscar lá fora.

Já disse que a política de contratação de estrangeiros vai continuar, mas ao que parece as apostas não têm sido muito felizes. Jogadores como o jamaicano Beneth, o queniano Wanga, o nigerino Moussa e alguns brasileiros em anos anteriores não foram bem sucedidos no Girabola...
Falando dos jogadores estrangeiros, às vezes, é difícil a adaptação por causa de problemas culturais, ambientação e familiares; por estas razões, muitos atletas não se adaptam. Se repararmos, quando o Moussa começou a jogar, a opinião geral era de bom jogador, de referência, portanto, um bom reforço. Mas com o desenrolar do tempo começaram a surgir alguns problemas a nível do comportamento do atleta que não permitiram a continuidade dos níveis de performance que trazia no início. Isso levou-nos a crer que o abaixamento de forma desportiva tivesse relacionado com problemas de vivência, problemas culturais, afastamento da família e por aí fora. Continuamos a diagnosticar o problema, não temos dúvidas de que é um bom atleta, não rendeu na época passada e vamos ver o que dirá, nos próximos meses, relativamente, o seu comportamento.   

"A construção do estádio
começa a ser interrogação"

No capítulo das infra-estruturas continuam adiados vários projectos, sendo o do estádio de futebol, o mais visado...
O estádio do futebol começa a ser uma interrogação. Estão a surgir novas infra-estruturas para o futebol em Luanda e começamos a perguntar-nos se vale a pena fazer investimentos avultados nesse capítulo. Não está completamente fora de hipótese a construção do estádio para o Petro de Luanda, mas estamos essencialmente a estudar se vale a pena fazer um investimento de vulto e se haverá retorno com isso dentro dos períodos que achamos razoáveis. Olhando um pouco para o nível de aceitação e de adesão ao futebol em Angola, todo o projecto que leva a mobilização de capital para a construção do estádio requer uma ponderação.
Vamos melhorar as infra-estruturas já existentes, estamos a trabalhar no sentido de termos um dos campos que utilizamos no Catetão com relva sintética para permitir uma utilização mais intensiva das camadas de formação, porque é aí, onde queremos apostar. Estamos a trabalhar também no sentido de desenvolver um núcleo que depois vai desembocar, digamos, numa academia; estamos a criar as condições, temos um projecto para a criação das infra-estruturas necessárias para acomodar os futuros cadetes. Portanto, se tivermos as condições financeiras necessárias para o fazer, vamos tocar este projecto para frente.
Tudo isso virado exclusivamente para o futebol?
E não só. A nível do futebol, a prioridade será mesmo a transformação da relva natural em sintética num dos campos do Catetão; melhorar as infra-estruturas de apoio, nomeadamente, balneários, ginásio e o centro médico. No andebol, tenho de reconhecer que não temos acompanhado, a nível de infra-estruturas, a evolução que a equipa tem estado a demonstrar e precisamos melhor também as suas áreas de apoio. No basquetebol, vamos melhorar também o piso, porque do campo de treinos não podemos fazer muito mais; temos um ginásio novo para atender ao basquetebol, a ginástica e, quiçá, também rentabilizá-lo. Portanto, embora não de forma muito agressiva, porque os recursos não permitem que façamos como gostaríamos de fazer, mas no que é essencial, temos estado a atacar também as infra-estruturas para as adequar aos níveis de exigência que hoje o desporto requer.
Em que pé está o processo de transformar a Feira Popular num ambicioso projecto imobiliário enquadrado numa das formas de auto-sustentação do clube?
A Feira Popular é uma dor de cabeça muito longa, mas que tem estado a evoluir positivamente; temos estado a negociar e estamos em fase avançadíssima com a entidade que neste momento ocupa a Feira para que nos seja devolvida. Julgo que se houver empenho, estaremos em condições de concluir esse dossier nos próximos meses. O resgate da Feira Popular seria algo que gostaríamos de proporcionar à grande família do Petro Atlético de Luanda. Estamos a fazer o nosso melhor. Há partes envolvidas e é preciso que encontremos com estas a melhor saída possível. Quando tudo estiver terminado, vamos procurar as parcerias necessárias para desenvolver esse projecto imobiliário.
Quando é que o Petro vai dar o passo definitivo para a criação de uma SAD (Sociedade Anónima Desportiva)?
Já demos passos tímidos, com a criação de uma empresa que já funciona há alguns anos, a Sigesp, que de forma tímida tem estado a trabalhar neste sentido. A própria legislação também ainda não dá abertura suficiente para que entidades desta natureza possam implantar-se de forma firme no nosso mercado. Quando a legislação o permitir, também vamos dar a visibilidade necessária a este órgão e teremos uma SAD a representar todos os interesses do Petro Atlético de Luanda.

"Ainda não trabalhámos para sonhar com o título"

Estamos a pouco menos de dois meses para o CAN’2010. Por aquilo que tem visto da Selecção Nacional como encara a sua participação neste evento que o país acolhe no próximo mês de Janeiro?
Temos 40 e tal dias para afinar as agulhas, senti que a determinada altura a Selecção estava a evoluir bem, mas fiquei com algumas reticências no jogo com o Congo Brazzaville, mas que é também algo inerente ao futebol, com altos e baixos. A equipa ainda está em preparação, não precisamos tirar conclusões apressadas. Reconheço que se está a fazer um bom trabalho e julgo que se as coisas continuarem assim, havendo muita dedicação e empenho de toda a gente que está envolvida neste grande movimento, vamos ter uma Selecção Nacional a dignificar o futebol angolano. Esperemos também que independentemente das performances da nossa Selecção, tenhamos uma organização que dignifique o nome de Angola por sermos os hóspedes deste grande evento. Temos de estar preparados quer desportiva, quer organizativamente para que possamos fazer um acontecimento de registo.
Será que se pode sonhar com o título?
Sonhar não é pecado e nem faz mal a ninguém. Agora, não sei se já trabalhámos o suficiente para sonhar com o título. Pessoalmente, julgo que precisávamos trabalhar com muito mais antecedência, o treinador não tem um ano à frente da Selecção. Portanto, não vamos esperar que com este tipo de organização, sonhemos já com o título. Se estivermos a falar em sonho, vamos mesmo só sonhar, porque ainda não trabalhamos o suficiente para sermos candidatos ao título de campeões africanos.