Jornal dos Desportos

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Reportagens

Vamos priorizar os jogadores angolanos

: Jorge Neto - 16 de Novembro, 2009

Faça uma avaliação do recém terminado Girabola-2009, no qual a formação que dirige conquistou mais um título?
De forma geral, o campeonato correu bem. Quando digo correu bem, é no sentido de todas as equipas aparecerem bem, incluindo a arbitragem. Acho que, pese embora pontualmente tenha havido aqui e acolá algum descontentamento de uma ou de outra equipa em relação a arbitragem, na globalidade ela esteve muito bem. Esteve acima da média. Acho que os árbitros este ano tiveram um nível bastante aceitável. É evidente que os erros continuem a existir porque existe em todo o mundo. Recentemente tivemos a oportunidade até de ver um jogo do Liverpool com o Sunderland em que o árbitro valida um golo que não poderia e acabou por ser penalizado.

Como viu o desempenho das outras equipas?
Algumas delas viveram problemas que influenciaram os seus desempenhos em campo, como foi o caso da Académica do Soyo, sobretudo na segunda  volta toda. Aconteceu também com a Académica do Lobito e do 1º de Maio de Benguela, embora tenham feito os jogos da segunda volta em sua casa. Viveram grandes problemas, sobretudo no início do campeonato fase em que é importante começar bem.

Naturalmente nem todas atingiram o seu objectivo….
É o caso do 1º de Agosto. Esperava também um pouco mais da equipa do Interclube, que foi campeã em 2007 e no ano seguinte esteve quase a descer de divisão. Pensei que este ano ainda pudesse voltar a “incomodar” as equipas que se posicionaram para ser campeãs nacionais. Sabemos que o ASA é uma equipa que está numa fase de reconstrução do seu plantel; que vive alguns problemas

O que diz sobre a troca constante de técnicos?
Não é habitual, mas, talvez, por força das circunstâncias e porque, se calhar, do ponto de vista pessoal neste último caso do Marinho Peres não se sentir, porventura, perfeitamente adaptado e talvez também por razões de saúde teve de abandonar a equipa. Penso que foi isso, porque no ASA as razões têm que ser muito maiores do que os resultados alcançados para despedir um treinador.

E quanto a sua equipa?   
Fizemos uma primeira volta a todos os níveis extraordinária. Recomeçamos o campeonato com excelentes resultados também. Aquele segundo jogo que tivemos com o 1º de Agosto, no qual vencemos por uma bola a zero e nos colocamos a onze pontos de distância sobre este adversário directo, naturalmente trouxe-nos algum conforto moral. A nossa auto-estima e confiança a partir daí aumentaram. Penso que vocês (imprensa) também perceberam que o campeonato dificilmente fugiria ao Petro.

Mas na segunda volta não tiveram desempenho igual ao da primeira…
Nesta segunda volta, o último terço não foi muito bem conseguido. Talvez aqui e acolá tenha havido algum excesso de confiança, que é perfeitamente normal embora a gente peça sempre aos nossos atletas que mantenham os níveis de concentração altíssimos, mas às vezes só isso não chega.

Porquê?          
Porque as facilidades e a diferença pontual que tínhamos em relação as outras equipas foram realmente muito grandes. Acabou por nos dar alguma folga e acabamos por sofrer um pouco neste último terço do campeonato, fruto também de uma segunda volta extraordinária do Benfica de Luanda, equipa que a todos os níveis foi competitiva, sobretudo ao perdeu poucos pontos e chegar a pôr em causa a conquista do nosso título, embora nunca tivéssemos perdido a confiança nesse sentido. O Libolo acabou, sorrateiramente, por vir do anonimato e atingir o segundo lugar que não deixa de ser honroso, sobretudo pelo facto de ter feito uma segunda volta bem equilibrada, muito bem orientada. Penso que o Mariano Barreto fez um trabalho impecável e acaba por conquistar um lugar que se calhar quatro, cinco jornadas antes de terminar o campeonato ninguém acreditasse.

Está a querer dizer com isso que o campeonato foi competitivo?
Penso que foi interessante, um campeonato vivo, com pontos positivos e negativos, como já referenciei, como são todos os campeonatos e acho que não oferece qualquer tipo de dúvidas a nossa vitória.

"A equipa evoluiu em todos os aspectos"

Notou evolução na sua equipa em relação ao ano passado?
A equipa está sempre a evoluir. Mantemos a nossa filosofia de trabalho, a nossa estabilidade emocional e profissional que era aquilo que desejaríamos. Obviamente que os jogadores ficam com outro tipo de “facilidade” porque a apreensão e o conhecimento das acções tácticas individuais e colectivas e dos objectivos individuais e colectivos que temos já ao longo destes anos, acabam por transmitir ao jogador uma estabilidade emocional, confiança e um sentido profissional muito grande. Naturalmente que a equipa evoluiu em vários aspectos da sua maturação que pretenderíamos e que continuamos a pretender que os nossos atletas cada vez estejam mais preparados. Sentiu-se um grupo mais personalizado, confiante e mais fluido nos seus processos de jogo. Acho que a equipa evoluiu em todos os aspectos.

Está satisfeito com as estatísticas?
Sinceramente, para nós treinadores, os números não são muito importantes. O que é importante é ver que é um conjunto de jogadores que se vem destacando, evoluindo e tendo uma maturação extraordinária ao ponto de chegarmos ao momento em que tivemos sete, oito, nove jogadores convocados para servir a selecção. É perfeitamente notório o trabalho colectivo que a equipa faz, em que estas individualidades se vão destacando. De alguns anos a esta parte temos convivido com a saída dos melhores jogadores, sobretudo aqueles que são sempre os melhores marcadores da equipa, acabam por dar o salto, se me permite a expressão, para outros objectivos também pessoais que têm de jogar no estrangeiro. Foi o caso do Manucho, há dois anos, o Santana, no ano passado, que foi o nosso melhor marcador com 20 golos.

No que toca a goleadores, este ano tiveram uma grata surpresa…
Este ano, acabámos por ter o nosso melhor marcador que foi um médio ofensivo, o David. A dinâmica da equipa e os conceitos que trabalhamos favoreceram esta situação do David em ser o melhor marcador.

Equipa prioriza o jogo colectivo

A equipa que possui oferece garantias para a próxima época?
Acho que, do ponto de vista da sua globalidade, sobretudo nos aspectos tácticos, individuais e colectivos, que são fundamentais para a nossa equipa, bem como nos aspectos mentais, em que teve um crescimento e uma maturação bastantes interessantes e que nos deixam margem para que no próximo ano possamos ainda nos tornar mais competitivo. Para isso, é necessário criarem-se outros tipos de condições competitivas dentro dela.

Há quem diga que o sistema táctico que utiliza não favorece os avançados?
Favorece aos avançados e os médios ofensivos. Qualquer modelo de jogo é bom desde que a sua dinâmica tenha êxitos. O importante num modelo de jogo é a sua dinâmica, as suas variações, a estabilidade defensiva e ofensiva, que são o ponto-chave. Portanto, não é por ser o 4x3x3, o 4x4x2 ou 3x5x2, que são apenas estruturas iniciais. Há um conjunto de variações e dinâmicas na equipa que sugerem que um, dois ou três jogadores possam aparecer em zona de finalização. O resto, são questões de equilíbrio defensivo e ofensivo. Não podemos única e exclusivamente pensar nos aspectos ofensivos. Hoje, sentimos que as defesas são cada vez mais sólidas, que os treinadores se preocupam muito com os aspectos defensivos, porque é a base fundamental para se vencer, e depois os aspectos ofensivos, o qual a parte mais difícil é organizar um jogo, planear o ataque, etc.

É ai onde entram os jogadores que fazem a diferença…
São jogadores com características próprias para este tipo de acções e que, a nível do futebol mundial, são mais difíceis de encontrar. São os “Messis”, os “Cristianos”, ou seja, os que se destacam. Repare que as botas de ouro, de prata são sempre ou quase sempre para os jogadores ofensivos, salvo raras excepções, como foi o caso do Canavarro, considerado há três ou quatro anos, o melhor jogador do mundo. Neste caso, como deve compreender, não é fácil arranjar jogadores para esta posição, que transportem para a equipa aquilo que é necessário em termos ofensivos. Por isso, a nossa equipa funcionou mais do ponto de vista colectivo.

Com algumas excepções
É verdade, embora haja destaque, como houve agora, na atribuição dos prémios da Rádio Cinco para aqueles jogadores que realmente ressaltaram desta dinâmica ofensiva. Mais uma vez fica provado que o que fica na retina das pessoas são aqueles que atacam e não os que defendem.

Os prémios atribuídos pela Rádio Cinco foram o reconhecimento pelo desempenho da equipa. Comente.
Nessa atribuição de prémios ganhamos quatro troféus, o que nos congratula a todos, começando pelo treinador que foi o melhor do ano. Mais uma vez agradeço publicamente a amabilidade e a simpatia de todos os desportistas e analíticos dos órgãos de informação e da Rádio Cinco, que estiveram comigo, embora eu continue a destacar que estes troféus nunca são individuais; são sempre colectivos porque sozinho nada conquisto. É um trabalho de equipa, da família chamada “Petro”. Juntando a isso, tivemos o de melhor marcador, David, melhor jogador, Job, e o da melhor equipa. Estes troféus acabam por ser também dos adeptos que nos apoiaram na nossa caminha.
“Neste caso, como deve compreender, não é fácil arranjar jogadores para esta posição, que transportem para a equipa aquilo que é necessário em termos ofensivos. Por isso, a nossa equipa funcionou mais do ponto de vista colectivo”

"Os reforços emprestaram-me mais soluções"

Os reforços que receberam trouxeram a mais-valia que esperava?
Emprestaram-me mais soluções. É evidente que tivemos inicialmente algumas dificuldades, porque a questão da adaptação muitas vezes é fundamental, e há um ou outro jogador que acabou por não se adaptar à grandeza que é este clube, às exigências que o mesmo tem para com todos os profissionais.

Está a falar, por exemplo, do Moussa e do Massinga?   
Estou a falar de todos aqueles que tiveram oportunidade, que jogaram menos vezes, de todos os que não se destacaram. Não vale a pena estar a referir individualidades, mas quando perspectivamos a construção de uma equipa atendemos a um conjunto de factores que são importantes. Em primeiro lugar está a qualidade humana. Temos de conhecer o carácter daqueles que nos vêm servir porque é sempre importante, a sua personalidade, a sua forma de estar na vida, juntando-se a isto, depois, naturalmente, as suas qualidades técnicas ou tácticas e físicas. Há jogadores que têm alguma dificuldade de adaptação nesse sentido e porventura têm que se lhes dar mais tempo e outro tipo de preparação sobretudo do ponto de vista mental a estes jogadores para poderem enfrentar essas dificuldades.

Vai contar com os mesmos atletas na próxima época?
Tenho a certeza absoluta que eles fizeram tudo para dar o seu melhor. Esperamos que, no futuro, as coisas corram melhor neste sentido. Vamos procurar, naturalmente, continuar a ter estes jogadores. Uma parte dessa equipa vai manter-se no clube porque temos extrema confiança neles e esperar que os outros que apareçam, que vão entrar no clube pela primeira vez, possam ter a felicidade de se adaptar a essas circunstâncias e poderem emprestar a equipa a mais-valia que necessita nos sectores que precisamos.

Os mais jovens têm prioridade?
Sim. Vamos manter, embora a nossa perspectiva neste sentido é a seguinte: vamos manter alguns jogadores na nossa equipa que são da formação, porventura também dar oportunidade a outros que tenham a possibilidade de jogar noutras equipas do Girabola para que a sua maturidade, os seus níveis competitivos aumentem. Também para fazermos uma observação contínua da evolução destes jogadores para que um dia, quando tiverem oportunidade de voltar ao Petro, que é o nosso desejo, venham suficientemente preparados do ponto de vista competitivo para assumir as responsabilidades que esta equipa tem para com todos os seus profissionais.

Meio campo e ataque serão reforçados

Falando de reforços. Que sectores mais necessitam deles?
Sobretudo a nível do meio-campo e da zona ofensiva. Vamos procurar fazer com que a equipa melhore do ponto de vista competitivo e de qualidade nos nossos avançados. Este sector é fundamental para os objectivos que temos para a próxima época desportiva.
Há a possibilidade de os recrutar no estrangeiro?
Em princípio, vamos dar prioridade a todos aqueles que achamos, a nível nacional, que nos possam oferecer estas garantias, na medida em que podemos inscrever cinco jogadores estrangeiros, mas só utilizar três em simultâneo. Não me parece de bom-tom termos jogadores em excesso neste parâmetro, cortando a possibilidade de outros angolanos poderem, e mesmo os nossos jovens, aparecer para mostrarem o seu valor. Vamos, sobretudo, ser muito sensatos, muito criteriosos nas nossas escolhas mas preferencialmente dar oportunidade aos jogadores angolanos.

"Quero conquistar tudo o que for possível em Angola"

Que objectivos tem para as Afrotaças do próximo ano?   
Temos muitas responsabilidades sobre os nossos ombros. É neste sentido que temos de construir a equipa, no sentido dela ser mais competitiva. Este ano era um dos nossos objectivos, mas fomos eliminados pela equipa que acabou por se tornar campeã africana.
Antes de defrontar o TP Mazembe que visão tinha daquela equipa?  
Consideramos o TP Mazembe, na altura em que discutimos a eliminatória, eram algo diferentes quer do ponto de vista competitivo quer da sua alto-estima. O TP Mazembe foi 90 por cento da selecção que fez parte do CHAN realizado na Côte D´Ivoire, do qual foram campeões. Portanto, vinham com a moral extremamente elevada e níveis competitivos que já transportavam, não só desta competição mas também da prova interna.
Um facto de realçar é a insistência do presidente daquele clube em manter os seus melhores jogadores. Repare que, por exemplo, o Trezor Mputo, esteve várias vezes para ir para a Europa, mas o presidente não o deixou sair por razões competitivas…

Será esta a filosofia de trabalho que falta em outras equipas africanas?         
Naturalmente e falta muito em Angola! Se, por exemplo, o Petro tivesse capacidade financeira para manter nas suas fileiras jogadores como o Gilberto, o Flávio, que saíram para o Al Ahly, posteriormente o Zé Kalanga, o Manucho e o Santana, sem esquecer o Tana e o Félix Katongo, durante estes anos, provavelmente hoje teria construído uma equipa forte, que poderia ser campeã africana. Só que, infelizmente, não foi possível. Admitimos que, realmente, o estrangeiro é a todos os níveis para estes jogadores o sonho mais desejado. Acho que, neste aspecto, o Petro deve se honrar dos compromissos morais para com os seus profissionais. Obviamente ficará mais fragilizado do ponto de vista desportivo, mas a nossa vida é assim: não podemos ter tudo ao mesmo tempo.

O Petro está a criar estas condições?   
Não digo imediatamente, mas num futuro próximo, o Petro terá condições para poder ir construindo uma equipa à sua imagem e para se tornar competitiva a nível internacional. Neste momento, o primeiro passo que podemos prometer é a possibilidade de construir a imagem daquilo que sentimos. Aqui também é importante referir que neste momento os jogadores angolanos que desejamos, constituem um problema económico e financeiro muito grande para o clube. Se o clube conseguir ultrapassar esta barreira, indo ao encontro das exigências dos jogadores que pretendemos nas nossas fileiras, acredito que possamos formar uma equipa que nos permita sonhar, no mínimo, em entrar na fase de grupos da Liga dos Campeões. Este é o nosso objectivo. Por isso, espero que o esforço que a direcção está a fazer seja suficiente para termos realmente a equipa que desejamos.

É um técnico ganhador. O que espera conquistar mais em Angola? 
Tudo o que for possível. Primeiro, continuar a ser igual a mim próprio no trabalho; a ser o mais profissional possível, continuar a procurar melhorar sempre nas minhas características. Nas férias vou comprar livros, material que me ajude cada vez mais a preparar melhor o meu treino e preparar-me melhor para servir os meus jogadores. Nós, enquanto treinadores, temos de servir mais do que nos servirmos daquilo que fazemos. Esta é a minha meta, o meu objectivo, pois as minhas responsabilidades, depois destes títulos todos, são cada vez maiores. Diante destas dificuldades e a maior exigência que tenho, obriga que cada vez saiba mais. Esta é a minha filosofia de vida. Acho que não posso parar porque parar é morrer.