Jornal dos Desportos

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Reportagens

Vettel: a história do menino vruuum

21 de Novembro, 2010

A história dos campeões do mundo de 2010

Fotografia: AFP

Entrou no restrito clube de campeões da categoria rainha do desporto automóvel após a vitória em Abu Dhabi, no último GP do ano, e juntou-se à lista onde figura aquele que é para ele o «maior desportista de todos os tempos», ou não fosse o heptacampeão mundial Michael Schumacher o seu ídolo e onde foi buscar inspiração. A Alemanha regozijou-se com a descoberta do sucessor do seu maior herói e o jovem piloto mergulhou na euforia por demais conhecida pelo mestre: a da consagração.

Tal como Schumacher, que é oriundo de Kerpen, Vettel nasceu numa pequena localidade da Alemanha, Heppenheim, a sul de Frankfurt. É o terceiro filho de Norbert, carpinteiro de profissão, enquanto a matriarca Heike é doméstica e mãe de mais três filhos. Vettel tem duas irmãs mais velhas, Stefanie (27 anos) e Melanie (25) e um irmão mais jovem, Fabian, de 11 anos, que também já acelera no karting. O progenitor costumava fazer corridas por diversão e levava com ele Vettel. Apesar de no início se ter assustado com o ruído do motor, o pequeno só lhe pedia «mais vrruum, vrruum», daí que lhe tenha oferecido o primeiro kart quando tinha apenas três anos. Todos os dias era um castigo para convencer o filho a deixar o carro.

Troféu das mãos de  'SCHUMI'
Quatro anos mais tarde aconteceria o primeiro contacto com o seu herói e o momento decisivo para dar origem à carreira de piloto. Correu no famoso kartódromo de Kerpen, onde os irmãos Schumacher começaram a carreira e onde Vettel ganhou a sua primeira corrida. Foi das mãos do próprio Schumacher que recebeu o troféu. «Era fã de Michael e da Ferrari e usava regularmente o boné dele. Quando fiz aquela corrida e depois parei na grelha tirei o capacete e pedi para colocar o boné de Michael», recorda.

Mas foi o desempenho de Vettel que impressionou o compatriota, quando observou que enquanto os outros meninos mudavam para pneus de chuva, o pequeno Vettel arriscava continuar com os de piso seco para sentir mais adrenalina. A ousadia valeu-lhe a vitória, mas também a recomendação de Schumacher àquele que foi, igualmente, o seu primeiro mentor e o mesmo empresário que o ajudou no início da carreira: Gerhard Noack, para alívio da família, para quem suportar a carreira do filho se tornara grande sacrifício, pois Noack também passou a investir nele depois de ouvir o conselho de Schumi: «Neste vale a pena apostar!»

Desde essa primeira corrida que o jovem Vettel fixou posters do alemão nas paredes do quarto, ou não fosse fã do compatriota. Mas não só, quando costuma dizer que é fã dos três Michael (Schumacher, Jordan e Jackson), tendo sido para ele enorme desilusão quando descobriu não ter voz para seguir os passos do rei da pop. Perdeu-se um cantor, mas ganhou-se um piloto cheio de talento, um jovem prodígio.

“Justiça falou mais alto”

Entrou na Fórmula 1 para substituir um lesionado Robert Kubica, pontuou na primeira corrida e, ao fim de quatro épocas, foi campeão mundial, o mais novo de sempre. Sebastian Vettel continua nas núvens e confessa nem saber muito bem "o que é suposto dizer-se numa altura destas". "A época foi muito dura, para todos, tanto física como mentalmente. Mas sempre acreditei em mim e no meu carro. No final, cheguei à conclusão que nunca liderei sozinho o campeonato [apenas em igualdade pontual com Mark Webber] a não ser depois da última corrida". Mas é aí que se fazem as contas e as desta época colocam Vettel no círculo restrito dos campeões do mundo. "Estou extremamente orgulhoso. Fazer parte dessa lista, ao lado de nomes como Senna, Michael [Schumacher] ou Lewis Hamilton e Jenson Button… nem sei o que dizer", confessou.

Ora, mesmo sem saber o que dizer agora, Vettel garante que o título esteve nos seus planos desde o início da temporada. "Concentrei-me e trabalhei duro, mas depois do incidente com o Jenson Button em Spa, tive má Imprensa. Não foi fácil ter tanta gente a falar mal de mim", recordou, frisando a importâncias das lições que se aprendem nos momentos mais complicados. "É nessas alturas que sabemos quem são os nossos amigos. A longo prazo, há uma coisa que se chama justiça e, no final, foi ela que acabou por falar mais alto".

Os dois amores
O que têm em comum Luscious Liz e Randy Mandy, para além de serem nomes de mulheres? Foram os carros que esta época conduziram Sebastien Vettel ao título. O piloto alemão tem a mania de dar nomes de mulheres aos carros. Este ano foram dois amores, depois de já ter passado por uma Julie, uma Kate e a Irmã Depravada da Kate com que terminou em segundo em 2009. Um piloto desconcertante para os adversário, mas que se pela por uma brincadeira. Ainda no ano passado não deu descanso a Jenson Button, na última corrida, insistindo para que ele dissesse que se ia casar.

Outros campeões do mundo de 2010

O ano de 2010 não foi muito pródigo em títulos mundiais para o desporto português. Antes de Armindo Araújo só dois portugueses tinham feito tocar "A Portuguesa" em provas planetárias. Em Setembro, numa prova realizada na Catalunha, o canoísta Nuno Barros, do Náutico de Ponte de Lima, ganhou o título de maratona em K1. Já este mês, o jovem ginasta do Lisboa Ginásio Clube André Lico tornou-se, em Metz (França), bicampeão de duplo-minitrampolim

No palco das estrelas
Ser campeão tem destas coisas. Ainda mal pôde festejar o título Mundial de Produção e já está prestes a entrar no avião, rumo a Itália, para mais um rali. A convite da Ralliart Itália, Armindo Araújo vai participar, no próximo fim-de-semana, no rali de Monza, uma espécie de prova-espectáculo, com 155 quilómetros de troços cronometrados, incluindo passagens pelo circuito de Monza. O piloto Dani Sordo será um dos cabeças de cartaz, mas a grande maioria dos "famosos" vem das duas rodas, como o espanhol Jorge Lorenzo (campeão mundial de MotoGP), Marco Melandri ou Marco Simoncelli.

Rossi já foi campeão
Começou a ser disputado na década de 1970 mas tem atraído a nata do desporto automóvel, numa altura de final de época. Mas curiosamente, tem sido um campeão das duas rodas a brilhar. Valentino Rossi já leva duas vitórias (2007 e 2008) e um segundo lugar (no ano passado). Este ano não poderá participar por ter sido operado anteontem ao ombro esquerdo.

Armindo Araújo e Sebastien Loeb

Armindo Araújo e Sebastien Loeb têm mais em comum do que o facto de serem campeões do mundo de ralis, ainda que em categorias diferentes. Se o piloto francês tem dominado na classe principal (WRC), Armindo Araújo não deu hipóteses à concorrência na Produção (PWRC). Ambos têm trajectórias semelhantes, pois começaram pelos troféus da Citroën, que dominaram e venceram, assim como os respectivos nacionais. A diferença é que um teve o apoio de praticamente um país para chegar à equipa oficial. O outro, mesmo sendo bicampeão do mundo e tetracampeão nacional, não sabe sequer se terá apoios para continuar no Mundial.

"Vamos conversar com os patrocinadores, ver o que fazer", repetiu várias vezes Armindo Araújo ao longo dos últimos dois dias. Uma coisa é certa, em 2011 o piloto, nascido e criado em Santo Tirso numa família de empresários da indústria têxtil, e que cedo despontou para a competição, mas nas motos (e às escondidas dos pais), quer bater-se com Sebastien Loeb, Petter Solberg e companhia. "Preciso de uns três milhões de euros", dizia ontem a O JOGO. Até porque confessa ter algumas portas entreabertas, haja dinheiro para as escancarar. "São equipas semioficiais", revela.

O problema é que o campeonato é muito extenso para a bolsa de um português. "Se fizer o WRC, serão apenas umas oito a dez provas e nunca as 13 do calendário", assegura, resignado. Habituado a lutar contra as adversidades, um traço moldado no Enduro que gosta de praticar, promete tudo fazer para bater o pé a Loeb e companhia. Os carros parecidos com o seu "São os carros mais parecidos com os do dia-a-dia." É assim que Rui Madeira, campeão mundial de Produção em 1995, e piloto de WRC nos anos seguintes, explica, em traços gerais, o que são os carros do Agrupamento Produção, o PWRC.

Mas não basta ir ao stand, pegar no primeiro carro e desatar a fazer ralis. "Têm de ter um reforço de carroçaria, ao nível de segurança do habitáculo, suspensões reforçadas, electrónica. São carros mais acessíveis aos pilotos amadores, pois representam menos custos", explica Madeira. "O carro do Armindo tem turbo e diferenciais electrónicos", explica. As caixas de velocidades são diferentes entre os WRC e os da Produção. Loeb, por exemplo, tem um caixa sequencial (não toca na embraiagem para as passagens de caixa), no PWRC são em 'h', ou seja, como nos carros normais, com a primeira velocidade à frente da segunda e as terceira e quartas ao lado.

"Estas caixas custam uns sete mil euros contra os 25 mil das sequenciais", sublinha. O próprio valor do carro difere. Uma época de PWRC custa um milhão, para os WRC são precisos, no mínimo, três. "O carro de PWRC ronda os 120 mil euros", adianta Madeira. Um WRC custará sete a oito vezes mais. Araújo entre os repetentes Apenas quatro pilotos conseguiram bisar o título mundial da Produção.

Um deles é Armindo Araújo. O primeiro foi Alain Oreille, em 1989 e 1990. Depois seguiu-se Gregoire de Mévius, em 1991 e 1992, ele que esta última década tem brilhado no Dacar. Gustavo Trelles, que bisou duas vezes, de 1996 a 1999, tinha sido o último repetente. Armindo Araújo entrou agora para o lote, ele que já ganhou quatro campeonatos seguidos em Portugal. Isto depois de ter chegado aos ralis após uma brincadeira de café, com outro amigo. A coisa correu tão bem, com um carro velho, que nunca mais parou.

"Ninguém facilita"
Se, em 2009, Armindo Araújo conheceu altos e baixos, este ano primou pela regularidade, subindo ao pódio nas seis corridas disputadas. "Mesmo assim foi muito duro, porque foi até à última prova", ao contrário de 2009, em que festejou a coroa a uma jornada do fim. "É sempre muito duro, ninguém facilita", sublinhou o piloto português.

Porta aberta no WRC

Os dois títulos mundiais consecutivos no Agrupamento de Produção já originaram vários convites a Armindo Araújo, que parece ter tudo encaminhado para uma equipa WRC. "Temos mostrado potencial, um piloto com experiência, que garante resultados. Abriram-nos a porta, vamos ver se conseguimos entrar", afirmou o piloto de Santo Tirso, à chegada a Lisboa. Apesar de não revelar os nomes das equipas que já o abordaram, Armindo Araújo confia no trabalho efectuado e as próximas reuniões com os patrocinadores serão decisivas.

"Este passo é de gigante. É entrar na Fórmula 1 dos ralis. Vamos ver, mas acredito que será possível.  No ano passado foi uma amostra, este ano confirmámos e mostramos o nosso potencial. O lugar está lá à nossa espera", prosseguiu o piloto português, que terá de resolver a situação até ao final deste ano. Para uma entrada no WRC, é imprescindível o apoio dos patrocínios e cerca de três milhões de euros.

Vitaly Petrov pensou
em deixar passar Alonso

Odiado por espanhóis e italianos por ter servido de tampão a Fernando Alonso, Vitaly Petrov chegou a ser ameaçado pelo espanhol. Mas no rescaldo da última corrida, confessou que ainda pensou "deixar passar Alonso". "Passou-me pela cabeça mas depois lembrei-me do que aconteceu em 2008 quando o Vettel quase comprometeu o título de Hamilton. Ele acabou por ser campeão mas só porque outro piloto desistiu", sublinhou. O russo põe o dedo na ferida espanhola e relembra que "ataques de verdade, só houve um". "O resto não foram ataques a sério", disse o russo, que ainda não assegurou continuidade no próximo ano. Mas como a Rússia vai acolher uma corrida em 2014, o Kremlin poderá estar interessado em contribuir.