Jornal dos Desportos

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Reportagens

Vila Clotilde o embrião do Basquetebol angolano

FRANCISCO CARVALHO - 26 de Março, 2018

Crianças e adolescentes deram corpo ao projecto local.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Em cada um dos lares do bairro Maculusso havia um motivo de felicidade. Um representante estava inscrito no FC Vila Clotilde. O projecto cresceu e atraiu desportistas de outros bairros. O nome entra para a história do desporto em Angola. O clube defendeu um único objectivo: a formação académica do homem. O desporto era o escape para unir as mentes brilhantes.
Tal como nasceu, o FC Vila Clotilde está sem patrocinador. O clube de bairro Maculusso não tem sponsor. Vive como gente de bairro, mas humilde. Em seis décadas e meia de existência, ainda mantém os laços ligados às terras de Fernando Pessoa. Como outras instituições, os fracos apoios continuam a chegar da Europa. São institucionais e importantes, mas não são determinantes.
No seu historial, a tristeza contrasta com a alegria. Um quadro único que só os anfitriões sabem pintá-lo. No início dos anos 60 do século XX, em meio a dificuldades financeiras, a direcção decidiu pôr fim ao futebol e ao hóquei em patins. Os custos altos de gestão impediam a contratação de bons jogadores para equilibrarem as partidas com o Atlético de Luanda, Maxinde, Atlético Sport Aviação, Sporting de Luanda e outras agremiações. A fúria dos adversários ofuscava qualquer pretensão dos meninos do Maculusso.
Para manter o nome, o FC Vila Clotilde vê o basquetebol como desporto de eleição e desactiva o futebol e o hóquei em patins. O clube arrisca na formação de basquetebolistas. Foi uma aposta acertada. Em Luanda, nasceu a melhor escola do país.
Sob a liderança de Fernando Simões, a transição foi pacífica em 1962. Os patins, stickes e camisolas ganharam roupagem (ver peça à parte). O basquetebol ganha nova dimensão. São incorporados crianças e adolescentes com vontade de ganhar competições.
Fernando Simões é um \" visionário excelente\", faz do Vila Clotilde a força do basquetebol jovem do Distrito de Angola. Além de formar os homens para a comunidade, o técnico introduziu métodos inovadores de treino desportivo. Na galeria constam nove troféus de campeão de Distrito de Angola, nas classes de jovens, entre 1966-1975.
Carlos Fonseca, antigo pupilo, recorda com nostalgia o treinador. O antigo tabela, hoje conhecido como poste, assegura que entrou no clube no momento de desactivação do futebol e do hóquei em patins. O Vila Clotilde tinha as categorias de Bambis e de Gales. O primeiro era formado por crianças até nove anos de idade e o segundo incorporava as de 10 aos 12 anos.
\"O Vila Clotilde era um clube pobre e Fernando Simões tinha a vocação de educador de homens e de desportistas. Entrei aos nove anos de idade. Tínhamos um basquetebol diferenciado. O nosso jogo era de equipa\", recordou.
O Secretário - Geral do Vila Clotilde, Fernando Sousa, reitera que a agremiação desportiva \"é um dos poucos clubes de bairro sobreviventes no país\". As dificuldades não o impedem de pôr os jovens a praticar o desporto e formá-los como homens. O Maxinde, São Paulo e Maianga ficaram na história. Não existem mais.
\"O clube continua a formar atletas e homens com maior prazer\", disse com alegria.
Na idade avançada, Fernando Sousa manifesta a satisfação de ver jovens, sem as condições económicas, inseridos nas diferentes universidades de Luanda, pois, é apanágio do clube contribuir na formação de homens.
\"No Vila Clotilde não há salários, pagamos as propinas e o transporte dos que estão nas Universidades. O valor das propinas depende da instituição académica. Para a deslocação, cada atleta recebe 15 mil kwanzas. Os que não estudam, recebem 25 mil kwanzas para a alimentação\", esclareceu.
Além de basquetebol, o FC Vila Clotilde movimenta o karaté-dó e a esgrima. A modalidade mascote movimenta 250 atletas, as lutas congregam 200 elementos, dos quais 50 estão inscritos na disciplina de esgrima.

ADAPTAÇÃO
Camisola de futebol para a “bola ao cesto”


Sem dinheiro para custear as despesas de equipamento de basquetebol, o FC Vila Clotilde exibia o \"charme\" de pobreza. A ansiedade de erguer o clube associou-se à imaginação. Fernando Simões, o responsável, encontrou apoio na sua mulher. Costureira de profissão, a sócia atribuiu às camisolas de futebol e de hóquei em patins nova utilidade, sem alterar as cores da equipa do bairro Maculusso.
\"Lembro-me de encontrar no lavatório, patins e stickes a apanharem pó. A mulher de Fernando Simões deu às camisolas de futebol uma utilidade diferenciada. A experiência de costureira foi muito importante, reduziu os tamanhos e adaptou-as ao basquetebol\", revelou Carlos Fonseca.
O antigo tabela (poste) afirma que \"o clube era pobre, mas a riqueza estava nos dirigentes e nos atletas\".           FC

FINANÇAS
Orçamento anual apertado


A sobrevivência do Vila Clotilde resulta da astúcia de um grupo liderado por Carlos Ferreira. O presidente de direcção em colaboração com os demais membros procuram gerir a instituição com um orçamento apertado. Os custos não ascendem a um milhão de kwanzas na equipa sénior.
Na condição de escola, a finalidade é potenciar os clubes ricos com atletas bem formados. Assim, os atletas passaram a ser os principais activos no novo contexto de mercado desportivo. No passado, os jogadores transferiram-se sem dar \"cavaco\" à direcção. Infelizmente, hoje a realidade ainda acontece com beneplácitos de alguns dirigentes.
Fernando Sousa, o executivo do FC Vila Clotilde, assegura que só o Interclube respeita a ética desportiva em Angola. Os demais clubes comportam-se como se vivessem na selva, onde impera a desorganização.
\"No passado, havia ética no desporto, hoje não há no dirigismo desportivo. Os clubes não obedecem às normas de boas relações institucionais\", disse.
Fernando Sousa sustenta que as agremiações \"atraem os jogadores formados desde os sete aos 18 anos de idade, sem a contrapartida financeira, conforme orientam os regulamentos e a ética desportiva\".
O gestor estende a culpa do mau comportamento dos clubes à inoperância das instituições afins que velam pela transparência, transferência e a gestão da modalidade, no caso, a Federação Angolana de Basquetebol (FAB).
\"No final da época passada, perdemos quase todos os atletas. Do lote, apenas ficamos com três. A Academia Helmarc absorveu 12 atletas formados no nosso clube a custo zero\", lamentou.
Fernando Sousa apela à FAB a impôr os regulamentos da FIBA relativamente às transferências de jogadores. Em meio à desorganização, \"o basquetebol angolano está a morrer\".
O dirigente revelou que parte dos jogadores levados ao Helmarc abandonaram as Universidades por dificuldades financeiras. É mais um grupo que perde a oportunidade de reforçar os quadros angolanos nessa fase de transformação económica e política no país.
O FC Vila Clotilde é um celeiro de formação de atletas. Todos os clubes de Luanda têm jogadores com a chancela do bairro Maculusso. Além da Academia Helmarc, no Petro de Luanda, encontra-se o extremo -poste Leonel Paulo como principal esteio. Geraldo destaca-se no Desportivo da Marinha de Guerra. O extremo Aldemiro João voa no ASA. O extremo -poste Godalfin Freitas \"estuda\" na Universidade Lusíada. No Interclube, estão o base Gerson Domingos, o extremo Alexandre Jungo, o extremo -poste Fidel Cabita e o extremo Gilson Martins. No Sport Libolo e Benfica está Milton Barros.
                     
FONTE DE RECEITAS
Armazém suporta formação

Para suportar os custos de formação dos atletas e incentivo a outros da classe sénior, o FC Vila Clotilde dispõe de alguns empreendimentos arrendados. Na sede social, a parte frontal do edifício está entregue a uma loja de material de construção civil e a um escritório.
As receitas das duas unidades juntam-se à do Parque de estacionamento do pavilhão. Todos os dias, 60 viaturas são acomodadas num espaço com segurança. Os valores arrecadados por mês não foram revelados.
Fernando Sousa assegurou que a empresa Jofrabo disponibiliza cerca de 12 milhões de kwanzas anuais pelo arrendamento do armazém.
O valor total do orçamento anual do Vila Clotilde ronda 30 milhões de kwanzas, \"uma bagatela comparada  aos grandes clubes como o Petro de Luanda e  o 1º de Agosto\".
Os poucos sócios pagam jóias e os amigos do clube, como a SOGEST, apoiam com material desportivo os escalões de formação. Do lote de oferta, a direcção tira algum equipamento para os escalões mais avançados.
Outros amigos apoiam os escalões de juvenis e de juniores, quando participam nos campeonatos nacionais. A Farmácia Moniz Silva, os amigos Pires Ferreira, Aclides e a Federação Angolana de Basquetebol ajudam o clube do bairro Maculusso. A participação numa prova nacional está avaliada em 1,5 milhões de kwanzas.
\"É muito dinheiro para o nosso orçamento. Sem o apoio dessas entidades, é impossível participar\", disse Fernando Sousa.
O cinema existente no pavilhão de mini -basket está desactivado. As máquinas de projecção foram para a Força Aérea Nacional e a infra-estrutura sofreu remodelações. No passado, era uma fonte de receitas para os escalões de formação.
O dirigente reitera que se tivessem mais instalações desportivas, apostavam na classe feminina. Por essa razão, apela às autoridades do país a ajudarem o FC Vila Clotilde pela essência do seu objecto social.
\"Tiramos muitos jovens dos maus vícios e colocamo-los no caminho certo e útil para a sociedade. É o caminho encontrado para evitar o destino igual ao do Mário Octávio, que morreu em condições não abonatórias. Com o desporto, as despesas de saúde são reduzidas nas famílias\", sustentou.
Mário Octávio passou por clubes com grande poder financeiro, como Ferroviário de Luanda, Atlético Petróleo de Luanda e Vila Clotilde, mas nada fizeram para a sua estabilização.   

FERNANDO SIMÕES
Pai do basquetebol de Angola


A qualidade do basquetebol angolano, exibido nos anos oitenta e noventa do século XX, mexeu com a África e com o mundo. Várias correntes atribuíram o mérito ao professor Victorino Cunha, antigo treinador do 1º de Agosto e da seleccionador nacional sénior masculina.
Agora, uma voz autorizada a falar sobre o basquetebol em Angola desvenda a matriz. Carlos Fonseca assume que \"Victorino Cunha marcou com ciência o que já se fazia nos anos 60 e princípio dos anos 70 do século XX no FC Vila Clotilde\".
Uma questão levanta-se: Afinal, quem é o pai do basquetebol angolano? As opiniões são divergentes, mas Carlos Fonseca, o antigo tabela (poste), assume peremptoriamente que \"foi Fernando Simões, o mentor da qualidade táctica e técnica\".
\"Sem tirar mérito ao trabalho de Victorino Cunha, a quem faço a minha vénia, um estudioso com fundamentos teóricos e práticos, a filosofia de jogo dos angolanos vem do carismático Fernando Simões\", defende.
Carlos Fonseca assegura que \"o professor Victorino Cunha passou pelo FC Vila Clotilde e bebeu a experiência do nosso treinador\".
O antigo tabela (poste) justifica que Fernando Simões, quando se apercebeu da baixa estatura dos angolanos, implementou um sistema táctico versado na transição rápida, velocidade e defesa cerrada, para contrapor as equipas formadas por atletas mais altos, como o Benfica de Luanda.
\"Assumo que o embrião do estilo de jogo de basquetebol dos angolanos está no FC Vila Clotilde. Os fundamentos eram aplicados desde os escalões inferiores a seniores\", esclareceu.
Carlos Fonseca sustenta também que o luso -guineense Mário Palma é um treinador com a \"estrutura nacional de Angola\". É outro profissional que ajudou a revolucionar o basquetebol angolano, mas com raízes no FC Vila Clotilde. 

FERNANDO SOUSA 
Herdeiro dos ideais de Simões

O futuro do FC Vila Clotilde depende da geração comprometida com o desporto. A melhor escola de formação de basquetebolistas do país vive dificuldades por falta de patrocinador, desde a génese. Passados 65 anos, a agremiação do bairro Maculusso continua de pé sem interrupção. A vontade e a dedicação dos dirigentes mantém-na nas lides de basquetebol.
Entre os nomes mais proeminentes do sucesso de formação está o de Fernando Sousa. O Secretário - geral é também director para o basquetebol e treinador de mini -basket.
O antigo atleta faz do clube a sua vida. O reconhecimento vem de Carlos Fonseca, antigo atleta da agremiação.
\"O FC Vila Clotilde é um clube pobre e as pessoas estão lá por amor ao desporto. Fernando Sousa é dos dirigentes que herdou as virtudes de Fernando Simões e continua a aplicá-las para o bem da formação académica de homens\", disse.
Carlos Fonseca sustenta que Fernando Sousa não está no FC Vila Clotilde para ganhar dinheiro, mas para manter o \"perfil de um clube dedicado ao futuro de homens\".
O temor surge no amanhã. Desde a chegada de Mário Palma ao 1º de Agosto, o basquetebol angolano foi inflacionado e nunca mais se reencontrou. O Petro de Luanda e o Sport Libolo e Benfica adicionaram as quotas. O modelo de basquetebol angolano perdeu a qualidade com a presença de treinadores estrangeiros, muitos dos quais sem as competências técnicas.
Perante o cenário, o FC Vila Clotilde aguarda a vontade dos deuses para voltar a vincar o nome no mosaico nacional. A esperança de ver o equilíbrio nas partidas e nos campeonatos são remotas. Fernando Sousa deve preparar a nova geração para manter a humildade que caracteriza o clube do bairro Maculusso.