Jornal dos Desportos

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Reportagens

Viveiro de talentos nasce em Cacuaco

Paulo Caculo - 26 de Maio, 2017

A dimensão do espaço, de quase 150 mil metros quadrados, obriga a que o olhar se perca, embora sem nunca nos escaparmos das atracções da Academia

Fotografia: DOMINGOS CADÊNCIA | Edições Novembro

Localizado nos arredores da Centralidade de Sequele, em Cacuaco, a Academia de Futebol do Sport Luanda e Benfica é a mais nova atracção dos jovens residentes na vizinhança. Para quem está no centro da cidade, é preciso afastarmo-nos um pouco e seguirmos um percurso de mais ou menos 50 kms de asfalto, que nos leva depois para uma estrada à esquerda da nova centralidade, por um caminho de terra batida, acompanhado pelo verde da paisagem, para dar de encontro com autocarros cheio de crianças de fato de treino da cor vermelho e branco.

É por aqui que passam todos os dias Leonardo Jósias, 16 anos, Costa, 16 anos, e Valter Santos, 16 anos, e outras várias jovens promessas da Academia do Benfica de Luanda. Passando o portão, uns 50 metros à frente, damos de encontro com o verde de dois campos relvados e o agitar de crianças e bolas, numa rotina diária, cujo principal propósito visa preparar talentos para a futura equipa de futebol das águias da capital do país. O contacto permanente dos petizes com a bola, no relvado, é uma imagem que fica impressa na retina.

A dimensão do espaço, de quase 150 mil metros quadrados, obriga a que o olhar se perca, embora sem nunca nos escaparmos das atracções da Academia. Miúdos estão em  todo o lado, cerca de 120 crianças, divididos pelos escolinhas, iniciados, infantis e juvenis. No local, não há confusão, não há barulho. Parece haver alguém a cortar relva longe, mas nada que incomode o normal trabalho dos petizes e dos treinadores Joaquim Muyumba, Manuel Costa \"Nelinho\" e Manuel Carvalho \"Luras\", que com afinco interagem com os talentos.

Para além dos aspirantes a craques, há todo o staff de dezenas de funcionários, treinadores, dirigentes e roupeiros, para os quais há relvados, balneários, piscina, salas de convívio, musculação, refeitório, dormitório, salas de hidromassagem, salas de estudo, bibliotecas, e gabinetes, condições que fazem da Academia das águias, o local privilegiado para ser o maior viveiro do futebol angolano.

Não só de futebol se trata na Academia. No local são formados jogadores e homens. É o que nos diz o professor Manuel Costa \"Nelinho\", 48 anos, coordenador dos escalões de formação. \"Os miúdos aprendem de tudo um pouco, desde a táctica, a técnica ao comportamento na vida diária. São orientados a estarem bem na vida, quer como futebolistas, quer como homens\", garantiu o também antigo seleccionador de Sub-17 da FAF, na era Oliveira Gonçalves.

 Joaquim Muyumba, 43 anos, ex-jogador e técnico das águias e responsável pelos jovens das escolinhas da Academia, explica que existem duas vertentes no futebol de formação do clube: \"Tentamos que tudo o que sejam jogadores com boa qualidade integrem as nossas equipas. A primeira observação é feita em idades como os 9, 10 anos. Caso haja algum miúdo com talento e boa relação com a bola não desperdiçamos. Portanto, isto requer a dedicação de muitas pessoas, um esforço muito grande \".

A Academia do Benfica de Luanda nasceu em 2015 com o objectivo de institucionalizar uma vocação natural do clube das águias reconhecida por muitos – a formação de talentos. Como vimos, conhecem há muito a receita e neste caso não há dúvidas. Para além de um campus extraordinariamente bem equipado, houve jogo de cintura para a manobra económica – e em cada um destes pormenores se reconhecem pilares para o sucesso. A ideia é que se trilhe com os actuais talentos o mesmo sucesso que tiveram os atletas Amaro, Mabiná, Vado, Kumaca, Locó, Mussumary, Zé Kalanga e Manucho Gonçalves, estes dois últimos que tiveram uma passagem pela formação das águias.

Foi desta forma que se conquistaram os talentos de ontem, e é desta forma que os encarnados de Luanda acreditam que se conquistam os talentos de amanhã. Aqueles que há muito partiram, como Kumaca, Mabiná, Fofaná, Locó, etc., dão lugar àqueles que também vieram aqui nascer. Jósias, Costa e Valter Santos, são alguns dessas jovens águias que \"dão cartas\" no campeonato de juvenis, que decorre sob a égide da Associação Provincial de Futebol de Luanda.

PROJECTO
Bases para o futuro

Desde que o clube encarnado anunciou a retirar do principal campeonato de futebol do país, este ano, todas as atenções foram voltadas para a Academia, com o propósito de garantir a formação de talentos para os futuros compromissos da equipa \"A\". O grande objectivo é criar estrutura futebolística para que nos próximos três anos o Benfica de Luanda volte a disputar o Girabola, sem quaisquer dificuldades financeiras.

Ao contrário do que se especulara, a iniciativa de abandonar o campeonato impunha-se, segundo Mário Rocha, vice-presidente para o futebol profissional, evitar que um dia as consequências pudessem obrigar a extinção definitiva do clube. Dentro da mesma estratégia, há três anos, optou-se pela extinção do conjunto de juniores e juvenis, e a manutenção dos infantis e iniciados. A actual equipa de juvenis, segunda classificada do campeonato provincial da categoria, é a que vem dos iniciados, preparada nos últimos três anos.

\"Percebemos que, se continuássemos no Girabola nestas condições mais tarde ou cedo iríamos ter a nossa morte anunciada, porque não havia sustentabilidade. Hoje já não existe pessoas disponíveis para dar dinheiro ao futebol sem contra-partidas. O Benfica sempre sobreviveu de fundos próprios e hoje estas pessoas que ajudavam o clube já não estão disponíveis. Há que mudar as coisas para que o clube continue a existir, mas com paradigma diferente. E a nossa Academia vai ajudar a projectar o futuro\", esclareceu Mário Rocha.

A infra-estrutura é propriedade da actual direcção do Sport Luanda e Benfica, encabeçada pelo engenheiro Joaquim Sebastião. Academia prevê conseguir com a exploração de espaços arrecadar igualmente contra-partidas para sustentar o seu projecto. O espaço pode não ser só visto como uma «mina» para a auto-sustentação do clube, mas sobretudo como um autêntica fábrica de produção de talentos para o futebol profissional.
 PC

JOVENS PROMESSA
Craques de palmo e meio

Valter Santos, Costa e Jósias são três jovens promissores que têm muito em comum: a idade, ambição, talento e o sonho. O trio aborda o futuro com olhos radiantes. Acreditam mesmo que podem fazer parte da futura equipa principal do Benfica de Luanda, projectada para ressurgir no Girabola, em 2020.

\"Estou há três anos na equipa e espero um dia subir com esta equipa no Girabola. É o meu maior sonho. Vou trabalhar muito para alcançar este sonho\", disse o jovem atacante, que garante estar muito feliz.

\"Estou muito feliz aqui e quero ajudar nos objectivos, porque jogar futebol sempre foi o meu sonho, desde pequeno\", disse Jósias. Já o médio Costa considera estar no maior clube de Angola. \"Sinto-me muito bem no Benfica. Estou aqui há cinco anos e foi aqui onde comecei a dar os meus primeiros passos no futebol e onde aprendi o ABC do futebol. Quero ser uma estrela da equipa o futuro\", prometeu.

\"Espero atingir a equipa de seniores, quero alcançar o patamar mais alto da categoria. Os trabalhos têm corrido muito bem. Tenho aprendido muito desde que cheguei aqui\", garante o jovem. Valter Santos, médio ofensivo, é outra das jovens promessas com futuro muito promissor. Titular da equipa de juvenis, o jogador está no seu primeiro ano de formação na Academia, mas já fala como veterano.

\"Somos um grupo muito forte e unido. Todos demo-nos muito bem e garanto que isso é prova evidente de que vamos triunfar na carreira. Quando cheguei aqui, fui muito bem recebido por todos, sobretudo pelos colegas da Academia, e os técnicos e espero retribuir com êxitos para a equipa tudo quanto tenho vivido aqui dentro. O meu maior objectivo é alcançar uma boa classificação para chegar ao campeonato nacional\", sublinha Valter.

MOLDAR O TALENTO
Treinadores em sintonia

Os treinadores Manuel da Costa, Joaquim Muyumba e Manuel Carvalho foram unânimes em afirmar que dentro de três anos a equipa do Benfica de Luanda estará em condições de disputar o Girabola com um conjunto, cuja base será formada por jogadores da Academia de Futebol.

Os responsáveis pelo acompanhamento e formação dos jovens talentos do clube acreditam haver \"matéria-prima\" suficiente, que permite aos dirigentes das águias acreditarem num futuro bastante risonho, mas sobretudo com garantias de rentabilização de todo o trabalho de produção de talentos feito ao nível da Academia, com os escalões de iniciados, infantis e juvenis.

\"O trabalho tem sido positivo e temos nos baseado no principio da continuidade. O grupo que está agora nos juvenis veio dos escalões anteriores do clube, de infantis. Temos trabalhado no sentido de trabalharmos até atingirmos os escalões de juniores com um conjunto forte. O objectivo é daqui a três anos o Benfica possa disputar o Girabola\", referiu Manuel Costa \"Nelinho\", antigo seleccionador da selecção de sub-17.

\"A gente trabalha todos os dias com foco no futuro do Benfica de Luanda.  Sabe-se que num grupo de 100 ou 200 atletas nem todos são capazes de se desenvolver e atingir a alta competição, mas temos um grupo de jogadores que acreditamos, com muita dedicação e trabalho, vamos alcançar o sucesso. O trabalho que estamos a fazer hoje aqui visa permitir que estes jogadores tenham no futuro capacidade para jogar na equipa profissional do Benfica e ajudar a equipa a atingir os seus objectivos\", acrescentou o coordenador dos escalões de formação das águias.

Por seu lado, Joaquim Muyumba, outro dos técnicos experientes da Academia e antigo treinador da equipa principal do Benfica de Luanda, considera estar muito satisfeito por continuar ligado a um projecto ambicioso e com futuro muito  promissor. Destaca o empenho da direcção do clube e realça o voluntarismo de Mário Rocha, enquanto responsável pelo futebol profissional, transpondo-o para uma realidade mais ampla.

\"Com a vontade e a experiência dos líderes do clube e com a ajuda do professor Zeca Amaral, que tem sido um grande conselheiro deste projecto, acredito que tudo vai dar certo. Esta equipa do Benfica daqui a três anos será muito melhor que àquela dos anos anteriores\", assegurou, para em seguida o seu colega Manuel Carvalho sentenciar:

Penso que qualquer um de nós sente-se orgulhoso por fazer pare deste projecto que o Benfica está a realizar. Acredito que, se não fugirmos daquilo que é o nosso foco principal, a base da equipa de seniores sairá deste grupo de jovens promissores\", disse o ex-técnico da Académica do Soyo, Bravos do Maquis e Domant do Bengo.