Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" A nossa aposta é formar"

Gaudêncio Hamelay/Lubango - 10 de Outubro, 2017

Presidente da FAF, Artur de Almeida e Silva

Fotografia: José Cola | Edições Novembro

Depois de ter visitado o Estádio Nacional da Tundavala, com que sentimento sai daqui?
A impressão é de desolação. Para quem conheceu este estádio, quando construído e depois dos jogos aqui realizados para o Campeonato Africano das Nações de futebol, CAN-Orange 2010, o sentimento é de desolação e profunda tristeza. É lamentável vermos as nossas infra-estruturas construídas com o sacrifício do erário público a ser naturalmente destruído desta forma. Quer dizer, é uma situação lamentável. Extremamente desagradável. Fico sem palavra para exprimir aquilo que me vem à alma, porque infelizmente se assiste à degradação de uma estrutura como esta, e as pessoas parecem estar impávidas e serenas. 

Porque afirma que as pessoas parecem estar impávidas e serenas?
Tive a oportunidade de visitar também as infra-estruturas e instalações do Clube do Benfica Petróleos do Lubango e sente-se que quando há vontade, com o pouco se pode fazer muito. A relva do estádio de futebol do Benfica do Lubango está a ser recuperada. Está a ser uma coisa agradável. Quer dizer, já se pode praticar futebol. É isto que queremos. O dinheiro não é tudo. A vontade de as pessoas fazerem e o nível de responsabilidade que devemos ter para com aquilo que está sob nossa responsabilidade é que conta. E, quer me parecer, aqui no Estádio Nacional da Tundavala, não responsabilização e nem cuidado absolutamente nenhuns.
É lamentável, mas os responsáveis devem ser cobrados. E nós, estrutura de futebol, a Federação Angolana de Futebol, vamos apelar ao nosso Ministério da Juventude e Desportos. Temos que fazer parte da gestão dessas infra-estruturas. Trazer maior responsabilização e dar a César aquilo que é de César.

Está difícil aceitar o que o senhor vê hoje aqui no Estádio da Tundava?
Não se compreende que os clubes aqui no Lubango tenham dificuldades de treinamento, de recintos para treinar quando um recinto como este está aqui a ser degradado. Quer dizer, as crianças podiam ter aqui actividade permanentes, festivais de futebol e de outras modalidades como o atletismo. Podemos aproveitar melhor as infra-estruturas que temos. Infelizmente, estou a perceber que há pouca criatividade e responsabilidade de quem de direito para que essas infra-estruturas possam ser cuidadas e utilizadas para aquilo que foram concebidas. Daí que nós saímos daqui com o sentimento de insatisfação absoluta e pensamos junto do nosso Ministério da Juventude e Desportos, com a senhora ministra, iniciar um processo onde as federações possam ter a sua mão também nessas infra-estruturas e com outras iniciativas darmos outra vida, cuidarmos melhor dessas infra-estruturas que o governo teve o cuidado de investir para o bem do desporto em Angola.

Este cenário é extensivo a outras províncias, sobretudo Benguela e Cabinda. Como pensa intervir para que tenhamos novamente os estádios construídos no âmbito do CAN-2010, em condições de receber jogos de carácter internacional ?
É aquilo que disse, o futebol não é só Luanda. Angola é imensa e temos algumas províncias com infra-estruturas como esta. Nomeadamente em Cabinda, Benguela, Huila e Luanda, onde existem infra-estruturas que infelizmente estão abandonadas e entregues ao alheio ou a sua sorte, o que faz com que nós não possamos levar, por vezes, os jogos das selecções nacionais nessas províncias. Eu antes de realizarmos o último jogo com o Madagáscar, visitei a província de Benguela e infelizmente a relva também não estava em condições. Não está como o da Huíla, mas também não estava em condições para nós levarmos lá jogos. Tínhamos intenções de levar o jogo para a província de Benguela mas não podemos levar porque não tínhamos um estádio com relva em condições para albergar o jogo. E isto não é bom.

Resumindo, não vai ser tão cedo que a federação vai levar jogos internacionais da Selecção Nacional fora de Luanda?
Acredito que Benguela ainda tem condições porque nesta altura e talvez até lá a relva já esteja recuperada. Há aí, a nível das infra-estruturas, alguns meios que não estavam em condições, mas creio que facilmente se conseguiria repor. Agora, aqui no Lubango, sinceramente o Estádio Nacional da Tundavala vai ser um pouco mais difícil. A intervenção vai ser maior. Estou em crer que esta relva que não é relva, tem que ser reposta uma nova. E não acredito que este trabalho seja feito num curto prazo.

Como se pode evitar que a culpa por essa situação que os estádios do CAN enfrentam não morra solteira, passe a expressão?
Tem que se pedir responsabilidade. As pessoas têm que ser responsabilizadas pelos seus actos. Eu acho que o país precisa disso. O país precisa de se moralizar. Alias o Presidente da República, João Lourenço, disse que nós temos que ter um pouco mais de cuidado com aquilo que está sob nossa responsabilidade. Não podemos continuar a assistir situações dessas e olharmos serenamente por elas sem cobrarmos responsabilidades. Nós como entidade que gere o futebol em Angola, vamos pedir que sejamos também integrados nestas acções a nível da gestão dessas infra-estruturas por forma a que possamos também acompanhar e aí se tiverem que nos cobrar responsabilidade, que nos cobrem responsabilidade. Mas tenho a certeza que vamos poder fazer um bom trabalho daqui para frente porque está toda gente imbuída no espírito de mudança e acredito que o futebol e as infra-estruturas terão melhores momentos que estes.

Que comentário faz sobre a utilização de recintos desportivos para outros fins, como espetáculos culturais, actividades religiosas, entre outros?
 Deixa-me dizer, esses espaços podem ser utilizados por serem multiusos. Podem ser utilizados para uma outra actividade qualquer. Mas sabe-se que para um espectáculo por exemplo num estádio como este, a relva tem que estar completamente protegida por materiais apropriados de modo que no final do espectáculo não haja danos à relva. Se não haver este cuidado, não vale apenas utilizarmos para outras actividades que não sejam aquelas para o qual o estádio está concebido. A utilização para outros fins é possível sim, mas com regras e princípios próprios para que não se danifique uma infra-estrutura como esta. Daí que eu sou contra a má utilização. E penso que nós temos que começar a ganhar outra consciência sobre a utilização das infra-estruturas desportivas, sobretudo de estádios como estes que estão num estado lastimável. 

SELECÇÃO NACIONAL
“A nossa grande aposta é fazer
um bom trabalho de formação”


Como é que descreve o actual momento da Selecção Nacional de futebol de honra?
O actual momento da Selecção Nacional é de mudança. Nós queremos mostrar que é possível com o pouco fazer muito. Mas temos que começar na base. É claro que temos que manter um certo nível da nossa Selecção de Honras, porque temos que melhorar o nosso ranking. Mas a nossa grande aposta é sobretudo fazer um trabalho de formação com as classes de formação. Ou seja, atender os Sub-15, 17, 20 até os Sub-23. A Selecção de Honra será apenas a manutenção de um bom nível e da imagem do futebol de Angola. Isso é, melhorar o nosso ranking.
A nossa grande aposta como devem estar a reparar hoje é a formação. Formação de quadros que vão ministrar o futebol, que vão trazer para aos clubes uma melhor qualidade no treinamento dos nossos jovens e crianças. É isto que estamos a fazer.

Este acto que veio testemunhar no Lubango, com a formação de treinadores é uma amostra daquilo que pretendem?
Hoje (quinta-feira, dia 5), com o encerramento do curso de treinadores de futebol de Nível I, decorrido aqui no Lubango, com 104 formandos, acho que iniciamos um novo ciclo. Estamos a fazer formação de treinadores, mas também estamos a fazer formação de árbitros e a começar até com árbitros de 15 anos. Criar a cultura do bem-fazer. É isto que a federação angolana de futebol irá fazer para os próximos tempos e que foi uma das apostas durante a nossa campanha eleitoral. É preciso que as pessoas tenham e detenham conhecimentos sólidos para fazerem bem as coisas nas áreas em que actuam, e isso só possível com formação contínua, permanente, e esta vai ser a nossa divisa.

Pela realidade que o nosso futebol apresenta é possível inovar a trabalhar na formação e continuar a competir?
É possível. Mas nós é que temos que saber dosear esses dois níveis. Quer o nível de formação, quer o de competição. Não queremos embandeirar em arcos. Não vamos fazer grandes performances por aí, vamos sim fazer com que o nível se eleve desde os Sub- 17, 20 e até os nossos Sub-23, por forma a que a Selecção de Honras nos próximos 3 a 4 anos possa ter jogadores já formados por nós e que venham dar uma boa prestação, com qualidade à essa selecção.

"Programa de licenciamento
de clubes vai ser exigente"

Um assunto de momento é a questão que houve agora com o Recreativo da Caála em relação ao pagamento de árbitros. Como é que a FAF está a olhar para estas situações a faltar poucas jornadas para o término do Girabola?
É um olhar bastante crítico. A FAF está bastante preocupada. Se devem ter reparado o Concelho Central de Árbitros não fez realizar dois jogos, o último foi de facto o do Recreativo da Caála porque nós estamos a preparar um programa de licenciamento dos clubes que vai estar bastante exigente. Quem não pode estar na Primeira Divisão não esteja. Vai para a segunda ou terceira divisão porque é preciso honrar a imagem do nosso futebol; é preciso dignificar com honra e com verdade desportiva o jogo de futebol. Por isso, não pode um clube sem condições mínimas financeiras e olhando para fair play financeiro, prometer uma coisa que não vai poder fazer. Se você não tem condições financeiras não pode vir para a Primeira Divisão.

Qual vai ser a estratégia a implementar?
Nós por ano, com o lançamento das regas de licenciamento dos clubes, vamos com certeza fazer um campeonato que seja com 12 equipas, 10, 11 ou 8. Mas vamos fazer com aqueles que podem. Não com clubes que logo na terceira, quarta ou quinta jornada, começam a gritar e a clamar por apoios. Invocando que tem que ser o governo a suportar as suas despesas. Não é bem por aí. Compreendemos que há boa vontade de se querer fazer futebol. E nós até honramos, esses presidentes que fizeram um grande esforço no sentido de participarem no Girabola. Mas daqui para frente tem que haver uma inversão.

Como vai ser essa
inversão?

Tem que haver o mínino de capacidade e caso não, vamos andar a chantagearmos uns e outros. O que não faz sentido absolutamente nenhum. Só vai para a Primeira Divisão de futebol nacional o clube que tiver capacidade financeira para lá estar.

Para quando a implementação desta medida de licenciamento de clubes?
Estamos a envidar esforços para que na próxima assembleia-geral da FAF, se possa aprovar uma série de regulamentos. Estamos a trabalhar em vários regulamentos, quer da Primeira Divisão, Segunda e Terceira inclusive, e de uma Supertaça também. São documentos que vão ser submetidos às associações e aos clubes para que eles tomem conhecimento e possam dar o seu contributo para que nós na próxima assembleia-geral da FAF possamos aprovar esses documentos que vão reger daqui em diante o futebol de Angola.

GARANTIA
“Girabola vai terminar
dentro do prazo  previsto”

Na calendarização da FAF, está em disputa os quartos-de-final da Taça de Angola. Acha que vão terminar o Girabola dentro dos prazos previstos?
Vamos terminar o Girabola dentro dos prazos previstos. Não atrapalhou absolutamente em nada as paragens que tivemos. Antes pelo contrário, vamos procurar na medida do possível cumprir com aquilo que está pré-estabelecido e iniciar um ciclo de 2018 com algumas mudanças que poderão ser bastantes substanciais relativamente àquilo que estamos a fazer hoje. A parceria FAF e a operadora ZAP já há sectores que questionam a forma de remuneração dos clubes.

Nesta altura, essa é forma ideal uma vez que os clubes que jogam na condição de visitantes não são agraciados com valores?
 Não é a melhor forma e nós federação já manifestamos isso. Chamamos a nossa parceira ZAP, mas sabem que são situações que nós encontramos. Mas tivemos que herdar o activo e o passivo da FAF. Tivemos que assumir essa responsabilidade apesar de sermos uma direcção nova. Já conversamos com a ZAP. Iniciamos essa conversa e inclusive temos praticamente uma conversa com os clubes, vamos assim dizer os G7 do nosso futebol no sentido de darem responsabilidade à federação ou darem poderes à federação para fazer uma negociação que seja agradável para todos. Quem recebia dez, pode ser que receba vinte.
Mas quem recebia zero tem que receber dez no mínimo para que haja o mínimo equilíbrio.

Como vê a performance das equipas no Girabola e apostura dos árbitros neste término do campeonato?
Sabem que a federação está a fazer um trabalho com a arbitragem que pensamos também estar a surtir os seus efeitos. É claro que encontramos uma série de vícios e algumas situações menos favoráveis para o futebol no geral, quer em relação a  dirigentes, quer de situações de outras pessoas que intervêm directamente no espetáculo do futebol que nós temos que mudar. E se as pessoas perceberem, acho que nunca houve tantos árbitros castigados como houve este ano. E temos que perceber isso. Mas a nossa perspectiva não é castigar. Nós temos estado a conversar com as pessoas.  Por isso, aqueles que persistirem em acções como aquelas que temos estado a perceber, vão ser suspensos até possivelmente alguns irradiados do futebol, quer dirigentes, árbitros ou quem quer que seja que cometa os mesmos erros que foram cometidos no passado. 

Poderemos ver casos encaminhados para o tribunal?
Até podem ser levados à barra do tribunal. Inclusive já temos dois casos que levamos aos Serviços de Investigação Criminal (SIC) por forma a que seja a Polícia a prosseguir com os casos. Mas nós não gostaríamos de entrar muito neste caminho. Mas se nos obrigarem estamos com capacidade para fazê-lo e sem qualquer remorso porque sabemos que estamos a fazer o melhor para o futebol de Angola, porque o nosso lema é servir o futebol e a Nação. Temos de servir esta Nação, da melhor forma possível.

Que sentimento lhe vem a alma ver árbitros angolanos a ajuizarem nos jogos do apuramento ao Mundial da Rússia?
É fantástico. Temos estado a procurar fazer um trabalho que dignifique também a imagem do nosso futebol lá fora. E este trabalho não pode consubstanciar-se somente nas selecções nacionais. É transversal. É no treinador, no árbitro e no dirigente. Claro que é um trabalho que estamos a começar agora. Estamos apenas a 8 ou 9 meses à frente da federação e acredito que só não percebe quem não quer. Mas que as coisas já mudaram, isso sim já começaram. E quem não acompanhar essa mudança terá problemas de persistir no futebol. Por isso, aconselhamos todos a darmos as mãos que é aquilo que fizemos aqui na Huíla, no sentido de elevarmos cada vez mais os níveis do futebol em Angola e do nosso desporto no geral.