Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" Antes tnhamos jogadores geniais"

Gaudncio Hamelay, no Lubango - 25 de Novembro, 2019

Ex-tcnico critica os clubes que ascendem a primeira diviso sem condies financeiras

Fotografia: ARITIMEA BAPTISTA

O ex-guarda-redes do Clube Ferroviário da Huíla, Zé do Pau, confessou em entrevista ao Jornal dos Desportos, estar bastante triste com o momento actual do futebol nacional. Justificou a sua avaliação no facto de o Girabola, competição que no próximo dia 8 de Dezembro completa 40 anos, está longe do nível competitivo e a qualidade do outro tempo.
Revelou, que na década oitenta e noventa existia em Angola grandes equipas a disputarem o campeonato nacional, com destaque para o Ferrovia do Huambo, Petro de Luanda, 1º de Agosto, Desportivo da Chela, Ferroviário da Huíla, ASA, Sassamba da Lunda Sul, Mambrôa do Huambo, Benfica de Luanda, Futebol Clube do Uíge, entre outras.
“Hoje o nosso Girabola é muito fraco. Temos que dizer com honestidade que o futebol neste momento atravessa uma fase crítica em termos de qualidade e competitividade, aliada ao facto de a maior dos clubes que ascendem a primeira divisão, reclamarem por falta de dinheiro. A Federação Angolana de Futebol tem que analisar esse problema”, sustentou.
Zé do Pau defende que as equipas sem capacidade financeira para suportar os custos de um Girabola, não devem ascender ao escalão maior do futebol nacional. “Fica muito mal para o nosso futebol”.
Destacou que as equipas, que almejam disputar a primeira divisão, devem ter suporte financeiro. “Por exemplo, o Sport Lubango e Benfica ascendeu de divisão e acabou por desistir por dificuldades financeiras”, referiu.
Afirmou que um clube sem dinheiro não deve disputar a segundona, competição que dá acesso a primeira divisão, devido os custos que essa prova impõe. “Antigamente as passagens eram baratas e podíamos ir de avião ou autocarro. Agora não, as passagens de avião estão muito caras”, salientou.
Revelou que em 1979, quando se disputou a primeira edição do Girabola, antes as equipas da Huíla competiam nos campeonatos provinciais com as formações dos municípios de Caconda, Caluquembe, Matala, Humpata, Chibia, Jamba, Humpata, Quilenguês, Lubango.
Disse que o vencedor depois disputava o campeonato por zonas entre as províncias do Namíbe, Benguela, Cunene e Cuando Cubango. “O campeonato nacional era jogado por 32 equipas, que começava em Março e terminava em Novembro”, assegurou.
Zé do Pau recordou que no dia 11 de Novembro disputava-se sempre a final da Taça de Angola.

“Foi quando disputou-se o primeiro Girabola em Angola, em 1979, que os campeões provinciais ascendiam a primeira divisão e, a partir desta altura começou haver equipas que desciam de divisão e outras que subiam”, atestou.
Recordou que a província da Huíla contava com quatro equipas no Girabola, nomeadamente o Sporting Clube do Lubango, Desportivo da Chela, Clube Ferroviário da Huíla e o Inter da Huíla.
Adiantou que outrora havia grandes jogadores e muitos  foram evoluir em clubes no exterior do país, sobretudo em Portugal.
“Muitos jogadores foram jogar na Europa. No meu tempo havia jogadores muito tecnicistas. Tínhamos o Justino Fernandes, Eduardo Machado, João Machado, Dinis, Lourenço, Maluka, Saavedra, só para citar este. Tínhamos também grandes equipas e os estádios enchiam”, destacou.

Guarda-rede com “fama”
de feiticeiro


Com 76 anos de idade, Álvaro Manuel Faria Gomes mais conhecido nas lides futebolísticas por Zé do Pau, natural da província da Huíla, foi um dos grandes guarda-redes mais temidos pelos adversários por usar na baliza um boné, o que lhe valeu a “fama” de jogar com feitiço.
Salientou que num dos jogos entre o Desportivo da Chela e o Ferroviário da Huíla, o jogador Lucas Caluvi chutou várias  bolas para a baliza mas não conseguiu marcar, pois ele defendia todas as bolas.
“O Lucas Caluvi irritado chegou na minha baliza, agarrou o meu boné e com pontapés atirou distante de mim. Fui buscar o boné que ele pontapeou coloquei-lhe na cabeça e depois me pediu que retirasse da cabeça, porque não podia agarrar com suspeita de que tinha feitiço”, recordou.
A partir daí, revelou Zé do Pau, muitos jogadores pensavam que jogava com feitiço, o que não correspondia a realidade por se tratar apenas de um mito. Confessou que as vezes deixava também entrar golos, porque a história do boné e do palito era apenas para amedrontar os adversários.
“Mas confesso que as vezes, eu também deixava entrar os meus frangos. Qualquer guarda-redes está sujeito a isso. As vezes, deixava entrar golos. Foram bons tempos. Gostaria que o futebol voltasse como era antigamente”, frisou.

AVALIAÇÂO
"No meu tempo tínhamos
muitos  bons árbitros"


A conduta dos jogadores em campo era digna de realce e sem muitos problemas, que levassem os árbitros a exibirem cartões por acções disciplinares. Afirmou sem receio que no seu tempo os homens do apito eram mais competitivos, comparando com os actuais.
“O comportamento dos jogadores em campo era tão bom, que não havia muitos problemas de indisciplina numa partida de futebol. Também tínhamos grandes árbitros como o Manuel Pimentel, Luís de Aveiro, Dionísio de Almeida, entre outros. Mas estes eram excelentes árbitros”, destacou.
Acrescentou, que nos dias de hoje existem também bons juízes, mas sem a qualidade do antigamente.
“O futebol antigamente era superior que o de hoje”, comparou. No concernente aos apoios aos jogadores, disse que era aceitável. Exemplificou que o clube Ferroviário da Huíla no dia 28 de cada mês, pagava os seus atletas e quando jogassem recebiam no fim de cada desafio, o prémio de jogo.“Eu, por exemplo, tinha dois vencimentos, o de trabalhador e outro de recompensa como jogador. Os atletas do Desportivo da Chela também estavam bem, porque recebiam apoios da Sonangol e nunca ficou a dever nenhum jogador. O clube Ferroviário da Huíla logo que o jogo terminasse o prémio era pago na hora”, elogiou.
“Hoje, está difícil. Um jogador não ganha menos de 600 mil kwanzas ou um milhão por mês. Aqui em Angola muitos jogadores ganham isso. Antigamente ganhávamos por aí 50 escudoS no clube Ferroviário da Huíla e era muito dinheiro. Dava para suportar despesas de um mês e ainda restava”, descreveu.

ESTÁDIOS
Nível técnico dos atletas afasta público

A qualidade técnica evidenciada pelos jogadores e o futebol praticado pelos clubes no primeiro Girabola, assim como os subsequentes, levava com que os estádios enchiam em todas províncias.
Zé do Pau lembrou que no Lubango, quando jogavam o Clube Ferroviário da Huíla e o Desportivo da Chela, o campo a partir das 11h00 já estava cheio, o que não acontece actualmente. “Hoje você vai no campo de futebol em qualquer província, os estádios estão quase sempre vazios”, lamentou.
Afirmou que com excepção dos jogos em que são intervenientes os chamados grandes do futebol nacional, “ o 1º de Agosto, Petro de Luanda, Inter, Kabuscorp, porque sempre foram equipas de grande nível. De resto, você vai a qualquer estádio em que não estejam em campo o Petro de Luanda ou 1º de Agosto, os campos ficam vazios”, admitiu.
Argumentou que o "divórcio" do público tem a ver com “o momento actual que a modalidade enfrenta”, confessou. Sublinhou que a falta de bons jogadores tem influenciado bastante. “Antes tínhamos jogadores geniais na forma como tratavam a bola”, realçou.
Essa qualidade, de acordo com Zé do Pau, fazia com que os adeptos acorressem aos estádios. Recordou, que quando foi jogar no clube Ferroviário da Huíla saído do Sporting Clube do Lubango como juvenil, a primeira coisa que fez foi pedir emprego.
“O Caminho-de-Ferro empregou-me como trabalhador e ao mesmo tempo jogador. Joguei 19 anos como guarda-redes titular. Depois eu e o saudoso finado David, passamos a treinadores, mas era treinador e ao mesmo tempo jogador. Foi assim que lancei o guarda-redes Jaburu”, esclareceu.