Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

" Arbitragem esteve a favor do Interclube no Nacional "

02 de Fevereiro, 2019

Constantino Diboche Afonso Carvalho quer verdade desportiva em Angola

Fotografia: Aro Martins

O segundo lugar conquistado nos XXXIX Campeonatos Nacionais de Andebol nos escalões de juniores masculinos e femininos compensa o trabalho?
Sim. Estamos satisfeitos. O nosso objectivo era melhorar a quinta posição alcançada no campeonato passado. Felizmente, também, conseguimos superar a nossa melhor classificação de sempre: o terceiro lugar alcançado em Malanje, em 2017.

Numa palavra, foi uma competição tecnicamente bem organizada?

Não. Estamos um pouco feridos por tudo que ocorreu ao longo da prova e destaca-se o jogo da final diante do Interclube. Vivemos situações menos boa: perdemos quatro jogadores do sete inicial por lesões e a arbitragem não esteve ao seu melhor nível. A nossa equipa foi prejudicada na segunda parte do jogo da final. Após o empate no placard, notámos a tendência dos árbitros: só assinalavam contra o Renascimento. As faltas do Interclube, que mereciam a suspensão de dois minutos, passaram aos olhos dos árbitros. Os atletas enervaram-se e, aliado ao desgaste físico, não conseguimos a pedalada. Estamos orgulhosos pelo nosso trabalho. Os meus atletas estão de parabéns, assim como a Empresa Transavo e o Governo Provincial do Uíge, os nossos patrocinadores.

Como avalia o nível competitivo exibido no campeonato?

É aceitável. Na fase de grupo, tivemos muitos resultados desnivelados. Algumas equipas precisam de trabalhar mais, pois perderem por diferença de 10, 15 e 20 golos. Na fase subsequente, observámos resultados mais equilibrados. Nos quarto-de-finais estavam as melhores oito equipas e, nas meias-finais, tivemos jogos a doer. Os resultados foram equilibrados. Por isso, afirmamos que os níveis competitivos foram aceitáveis.

O futuro do andebol nacional está garantido?

Acredito que sim por aquilo que as equipas estão a fazer. Apelamos aos agentes que haja mais verdade desportiva. Se queremos ter um andebol de luxo, no futuro, precisamos da verdade desportiva, senão, atribuímos os troféus de primeiro classificado às equipas que não justificam o reconhecimento. Não afastamos o mérito do Interclube, campeão actual, pois obteve-o com dignidade. É com muita pena que temos de dizer novamente: a arbitragem esteve a favor do Interclube na final.

O que quer dizer concretamente sobre a verdade desportiva?

Nós, Renascimento do Uíge, tivemos situações menos boas. Por exemplo, no campeonato de juvenis, notámos a tendência de os árbitros também favorecerem as equipas de Luanda. Voltámos a encontrar isso na final de juniores. As equipas ganharam bem, porque aproveitaram as situações. Perdemos as duas finais por favorecerem as equipas de Luanda.

Como está o desenvolvimento do andebol na província do Uíge?
A exibição do Renascimento nesse evento é o espelho do andebol na nossa província. Infelizmente, temos poucas equipas a praticar esse desporto. As que existem exibem um andebol aceitável. Acreditamos que, nos próximos anos, vamos ter outras equipas, além do Renascimento, a participar das competições nacionais. Garanto que o nível competitivo vai ser igual ao da nossa equipa.

Poucas equipas resumem-se a quantas?

Contamos com o Futebol Clube do Uíge, Renascimento e a Santa Rita. Apenas as três equipas desenvolvem o andebol na província do Uíge nos escalões de juvenis e juniores em ambos os sexos.

APOIO FINANCEIRO
Clube sobrevive da quotização de membros

Diante do aperto financeiro no país, como sobrevive o Renascimento?

O Grupo Desportivo Renascimento do Uíge sobrevive da contribuição dos membros, os grandes patrocinadores da massificação desportiva. Algumas instituições singulares e colectivas também nos apoiam. A título de exemplo, o governo provincial apoiou-nos em duas ocasiões para participarmos dos campeonatos nacionais.

Com a conquista do troféu de vice-campeão nacional júnior masculino, que ambições tem doravante?
O Renascimento do Uíge continua a ter as mesmas ambições. Vamos planificar, trabalhar mais e procurar mais apoios no ano corrente. Se surgirem os patrocinadores, vamos tentar ganhar as competições nacionais no próximo ano. Portanto, por coincidência, pela primeira vez, também chegamos à final dos escalões juvenis na cidade do Lubango. Pelos dados obtidos, temos as condições para corrigir o que esteve mal nas duas finais. Nos próximos campeonatos, vamos fazer o melhor.

Onde esteve mal o Renascimento do Uíge ao longo do campeonato?
As lesões dos atletas nas meias-finais e na final. Foi difícil para a equipa gerir a situação. Dois atletas do sete inicial e importantes na manobra do grupo ficaram no banco no primeiro dia da final masculina júnior. São os mais experientes para as nossas movimentações defensivas e ofensivas. Um não jogou e outro tentámos forçá-lo, mas não rendeu. Teve de ir ao banco. Ao longo do jogo, perdemos mais dois atletas. A situação pesou à equipa.

Quantos atletas movimenta a equipa de andebol do teu
clube?
Nos escalões de iniciados a juniores, temos 110 atletas nesse momento. Três já são da categoria de seniores, 40 são dos escalões de iniciados, 25 em juvenis masculino e 15 em feminino. Contamos igualmente com 30 juniores.

Para quando o surgimento da equipa sénior nas provas nacionais?

No ano corrente, pretendíamos participar da Taça de Angola, em regime de experiência, com uma equipa formada por atletas juniores e seniores. Era nossa intenção, mas não depende dela. Precisamos de apoios materiais e financeiros. Só a inscrição da equipa sénior está avaliada em 200 mil kwanzas. O Renascimento do Uíge sobrevive da quotização dos seus membros. Os custos são avultados para os bolsos dos membros de direcção do clube. Vamos tentar mobilizar as pessoas para os apoios necessários.

RECINTO DESPORTIVO
Condições difíceis de trabalho

As infra-estruturas desportivas são calcanhares de aquiles em muitas cidades. Como estão servidos nesse quesito?
Temos problemas sérios de recintos desportivos. A província do Uíge não viu crescer as infra-estruturas desportivas. Muitos jovens têm vontade de praticar desportos, mas não há acompanhamento nos investimentos de infra-estruturas desportivas. O Renascimento trabalha em condições extremamente difíceis.

Se o recinto é problema, que dizer do material desportivo?
Ao longo ano, trabalhamos com uma ou duas bolas. Quão difícil é trabalhar com o desporto de sala nas camadas de formação! Sem bolas é extremamente difícil. A exibição (apresentação) da nossa equipa nas provas nacionais resulta dos conteúdos técnicos e tácticos que, agora, estão bem apurados. Há falta de equipamento e material desportivos para melhorar os nossos níveis competitivos.

NOME DO CLUBE
Nascido Ressaca

Da Ressaca a Renascimento. Que lembranças guardas da transformação do clube?
Um grupo de ex-praticantes de desporto reunia aos finais de semana para retemperar as energias por meio de jogos de recreação, mormente, o futebol. Em 2009, decidiu-se criar o Grupo Desportivo Ressaca, por causa das \"ressacas\" (risos). No ano seguinte, começa a massificação do andebol. Até 2012, competiram com esse nome. A especulação a volta da designação obrigou a realização de uma Assembleia Geral extraordinária para alterar o nome. Os associados optaram pelo Renascimento. Em 2014, o andebol estreia-se nos campeonatos nacionais.

Qual é a modalidade de eleição do Clube?

O andebol. É o desporto mais visível da nossa agremiação. Por dificuldade de obter material desportivo, o futebol está reduzido à massificação desde 2015.

Há previsão para movimentar outras modalidades?
Caso as condições sejam criadas, pensamos em voleibol. A modalidade está na forja. Precisamos encontrar um voluntário para estar dentro do projecto de massificação do voleibol. O Renascimento do Uíge conta com voluntários, mormente, na massificação desportiva, porque não tem orçamento para custear os subsídios das pessoas inseridas nesses projectos. Trabalhamos como voluntários. Essa é a nossa realidade. Fizemos o desporto, porque estamos ligeiramente pouco livres nas nossas ocupações laborais. Se surgir outras ocupações, obviamente, vamos abdicar dele. Não ganhamos no clube. Com a excepção da visibilidade que nos dá no país, não ganhamos nada. Fizemos o desporto, porque gostamos.