Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" Deixo o Petro de cabeça erguida"

Avelino Umba - 27 de Outubro, 2015

Treinador, comandou, Petro, épocas

Fotografia: Jornal dos Desportos

Jornal dos Desportos
A época de 2015 termina e com ela o fim do vínculo contratual com o Petro de Luanda. Que balanço faz dos dois anos que esteve no comando técnico da equipa?

Alexandre Grasseli
Quero dizer que este ano (2015), assumimos um projecto que tinha a sua projecção até 2018, iniciando pela reformulação geral dentro do clube, com particular realce na equipa principal de futebol, o que foi feito com muito sucesso. Hoje a equipa está totalmente rejuvenescida para dar o seu melhor dentro de três anos. Administrativamente, apesar de não ter contacto directo com a vida do clube, percebe-se que o Petro respira um outro ar em relação ao passado neste capítulo. Por esta e outras razões, o balanço é positivo.

O que o motivou trabalhar no Petro de Luanda?
O meu contacto com o Petro aconteceu em 2013, por intermédio do finado presidente Mateus de Brito, com uma proposta para trabalhar por duas épocas, ou seja 2014 e 2015 à frente da equipa sénior, e percebi que podia ser uma boa oportunidade profissional. Desta feita, deixei o Cruzeiro, onde na altura trabalhava, clube onde fiz uma parte da minha formação como treinador. Vim para o Petro e inicie o meu trabalho em 2014. Naquela altura, encontrámos uma equipa madura e o objectivo maior era ser campeão. Tinha uma equipa com jogadores consagrados no futebol angolano, uma equipa que buscava a sua afirmação, já que vinha de uma conquista da Taça de Angola em 2013, mas no Girabola não tinha grandes expectativas da parte da direcção.

Que desafios lhe haviam sido propostos para os dois anos de contrato?
O grande desafio era para no primeiro ano, em 2014, treinar uma equipa vencedora.     Quando iniciamos o trabalho houve uma grande motivação, que é normal sobre o treinador e a sua comissão quando chega ao clube, mas ao longo do ano percebemos que o Petro apresentava alguns problemas.  
 
Que problemas está a referir?
Problemas esses já comentados ao longo da época pela imprensa, principalmente de ordem financeira. Isso para quem estava no dia-a-dia do clube, percebeu que foi algo que de certa forma atrapalhou o andamento do trabalho que culminou no final do ano com a saída de jogadores e o afastamento de outros atletas. Ainda assim, considero que a época de 2014 foi interessante, principalmente ao nível continental, pois o Petro foi a equipa que melhor fez, foi na Taça da Confederação, em que chegou até à última eliminatória, posição esta que muitos outros clubes com investimentos maiores não conseguiram chegar. Naquela altura percebi que tinha uma grande equipa mas que precisava de muitos investimentos, sobretudo para aquela competição africana.

Quanto ao Girabola?
Relativamente a maior prova de futebol nacional, com todos os desafios que tem a competição, um jogo em casa é totalmente diferente o de fora. Tivemos bons resultados dentro dos nossos domínios em 2014 e fora de casa, infelizmente, não conseguimos os maiores resultados, o que quebrou algumas expectativas no seio da direcção, devido algumas debilidades financeiras.

No tocante à equipa em particular?
Foi feita uma reformulação profunda na equipa, onde em abono da verdade, diga-se, foi muito bem-feita. A equipa tinha um perfil que não tem a ver com a actual. É totalmente diferente. Tem uma equipa mais jovem, que ficou apenas com alguns veteranos que achamos que tinham de ficar para passar as suas experiências aos mais jovens, oriundos das camadas de formação do clube e outros que já faziam parte do elenco, mas sem grande participação.

“Equipa técnica
teve autonomia”
Durante as duas épocas à frente da equipa técnica houve interferências no seu trabalho?

Nunca! Toda equipa técnica teve autonomia, com apoio incondicional da direcção do clube na pessoa do presidente Tomás Faria, dentro daquilo que tinha sido planificado. Devido a boa relação entre a equipa técnica e a direcção do clube, qualquer atitude tomada fazia parte de um plano. Como exemplo, a ideia foi começar trabalhar com 25 jogadores e assim aconteceu, tal como a contratação de alguns jogadores para reforçar a equipa, no caso do Duarte e do Jiresse.

Com o grupo que teve à disposição acha que podia fazer mais do que fez ou esteve limitado por alguma situação?
AG - Temos que ter a noção clara de que o que foi colocado à equipa técnica no início da época, em relação as três contratações que foram feitas e outros 22 jogadores que tínhamos no elenco, foi cumprido. Agora, se pensássemos o que era necessário para ser campeão do Girabola ou estar entres as primeiras posições, não é este o grupo que seria para a competição.

Pode justificar a sua afirmação?
É um grupo de formação. É um grupo que ainda necessita de rodagem e experiência para o Girabola. E como disse antes, a pontuação que tivemos não foi uma pontuação que nos deixou longe daquilo que os jogadores poderiam render, ou seja, render naquilo que no contexto geral oferecia com jogadores em formação e que necessitam de uma rodagem maior.

As condições de trabalho postas à disposição da equipa técnica eram suficientes para realizar uma época sem sobressaltos?
AG - Como disse antes, em relação as condições de trabalho, tudo que foi planificado no início da época, orçamento e tudo que foi prometido à equipa técnica foi rigorosamente cumprido pela direcção do clube. Nós, enquanto a equipa técnica, não tivemos qualquer tipo de queixa, porquanto tudo que foi planificado antecipadamente foi posto à disposição.

EM DOIS ANOS
“Revelámos
muitos atletas”


Que lugar no campeonato a direcção do clube havia pedido à equipa técnica, a julgar pelo projecto de renovação da equipa?
Fala-se em quinto lugar, mas na verdade em momento algum me foi colocado pela direcção do clube esta posição no Girabola de 2015. Na verdade, se a memória não me atraiçoa, a diferença foi de sete pontos em relação ao quinto classificado. Entre a equipa técnica e a direcção do clube, existiu sempre entendimento, de formas a que daquilo que tínhamos às mãos, era o trabalho que realizamos durante a época com projecção de um lugar melhor. Mas como disse antes, a distância de uma ou de duas posições, não muda na minha opinião o objectivo que foi alcançado no primeiro ano.

Que objectivos foram alcançados durante o seu comando da equipa?
A revelação de jogadores, o lançamento de muito deles para o escalão sénior. A afirmação dos jogadores, protecção de outros que aconteceu na época passada. Enfim, os valores humanos que o Petro tem e que com certeza irão se revelar. Este foi o primeiro passo que vejo ter dado de maneira segura dentro daquilo que foi planificado.

Quer com isso dizer que cumpriu os objectivos da direcção do clube?
Vejo que foi uma época em que cumprimos com todos os objectivos traçados, pois não tenho nenhum tipo de atribuição de rendimento em relação a sorte ou azar, ou seja, de uma expectativa que não foi alcançado. Pelo contrário. As expectativas de investimentos e de objectivos de projectos foram alcançadas de maneira significativa, tal como foi proposto no início da época.

Mas acabaram por fracassar na Taça de Angola, pois não foram para além das meias-finais.
O Petro de Luanda eliminou duas equipas que na minha opinião têm o melhor plantel. Criamos boas condições para que 2015 conseguíssemos bons resultados, mas do ponto de vista de resultados, infelizmente não aconteceu.

GIRABOLA 2015
Técnico minimiza
sétima posição


Com dois anos de contrato e mais de um de opção, acha que o sétimo lugar  fruto de 38 pontos na tabela classificativa comprometeu as suas aspirações?
Volto a dizer que tudo que foi traçado no início da época cumprimos à risca. O clube tinha a opção de renovar ou não, assim como eu também tinha o mesmo objectivo de renovar ou não. Mas no meu entendimento, na minha visão particular, tudo aquilo que foi planificado foi cumprido. Portanto, o clube tem os seus objectivos, assim como o treinador também tem os seus.

Foi fácil ou difícil chegar até à sétima posição?
O Petro sempre avaliou a sua sequência para bons resultados, mas a falta de experiência da maioria dos jogadores nesta competição (Girabola) fez com que a equipa ficasse naquela posição (sétima).

As arbitragens foram algum condicionante para o seu trabalho?
Em 30 jogos no campeonato o Petro sofreu 11 penalidades, um número que indica elevadíssima tendência de algo fora do normal, por isso quem ajuizou os  jogos do Petro lhe compete fazer as suas análises se condicionou ou não alguns resultados a favor da minha ex-equipa.

Terminado o vinculo contratual com os tricolores, vai continuar em Angola ou regressa ao seu pais. Durante a época recebeu algum convite de clubes angolanos?
Enquanto treinador do Petro, não recebi convite de algum clube angolano, até porque se tinha um contrato em vigor, não era correcto conversar com um outro clube a respeito disso. Tive sim um convite de um clube japonês no meio desta época, mas na altura descartei esta situação. Nesta altura em que estou desvinculado, tenho sim recebido alguns convites, tanto em Angola, como do Brasil.

Que momentos guarda com a sua passagem no futebol angolano, particularmente no Petro?
Foram vastas as experiências adquiridas no Petro, a julgar pelas oportunidades dadas aos mais jovens, no caso de Paizinho, Mavambo, Sozito, Francis, Carlinhos, apesar de ter encontrado alguns já na equipa sénior, mas que não tinham oportunidades de jogar. O Mira, o Abdul e o Diógenes que jogaram na época como titular, apesar de algumas lesões, mas foram jogadores que deixaram bons indicadores para aquilo que se pretende no futuro.

Grasseli elogia Gilberto

Fale-nos um pouco das razões que levaram Gilberto a abandonar a equipa? 
O Gilberto é um jogador de muita personalidade, mas  quando a integridade  ou autoridade do clube fica comprometida há que se pesar o que é mais importante no clube. Sempre disse que o problema do Gilberto, na minha opinião como treinador, aliás o assunto não esteve envolvido comigo, mas esteve em causa a independência, autonomia e a autoridade de clube. E Quando isso acontece, o clube toma decisões como tomou, mas não houve nenhuma polémica na época, ele continuou a sua carreira de forma brilhante, ajudando o clube e a Selecção Nacional e que continue a trilhar os seus caminhos tal como o Petro e Alexandre Grasseli

Mas afinal, quem é Alexandre Grasseli? treinador de competições ou formador?
Eu tenho uma história que considero extremamente rica no futebol . Existem treinadores que nunca passaram por formação. Há treinadores que foram directo para profissional sénior e trabalham. Eu vejo como extremamente rica a experiência que tive ao longo da formação e depois os anos que trabalhei com a equipa profissional. Tive uma grande oportunidade que foi trabalhar com a equipa profissional do Cruzeiro, uma das maiores do mundo.