Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

" Estamos a perder os jogadores"

Augusto Panzo - 11 de Dezembro, 2014

Direco sente pouco contributo na alocao integral das verbas para preparar a prxima temporada desportiva

Fotografia: M. Machangongo

A direcção do Atlético Sport Aviação (ASA), presidida por Elias José, está a sentir dificuldades financeiras que impedem o clube de recuperar a mística, no mosaico futebolístico nacional. Em entrevista que concedeu ao Jornal dos Desportos, o dirigente clama para que os potenciais patrocinadores do clube aloquem o mais rápido possível as verbas, sob pena de não  efectuar contratações de reforços.

Qual  a real situação financeira do clube?
É uma situação complicada, na medida em que tudo gravita à volta do dinheiro, que é um componente importante  sem o qual nada se pode fazer. Hoje, as coisas são totalmente diferentes de outrora e a situação vai de mal a pior.

Como tem sido a gestão?
É uma gestão conturbada. A título de exemplo, o clube está há dois meses que não paga salários ao seu pessoal administrativo e não só. A situação neste momento agudizou-se, daí, que não tem sido nada fácil dirigir o clube.

O momento  é de renovação de contratos e aquisição de novos jogadores. Como pensa enfrentar os problemas, sabe-se que o clube não está bem financeiramente?
É de facto muito complicado. Já estamos com problemas sérios no que toca à renovação de contratos dos jogadores, assim como da contratação de novos atletas. O tempo é curto, o momento urge, mas a realidade é essa. Não há dinheiros para sanar essas questões.

E os patrocinadores?
Existem, mas não têm cumprido integralmente a alocação das verbas nos prazos que deviam ser feitos. Dentro dos nossos patrocinadores existem os que já vão no quinto mês sem cumprir com esse dever. Isso, complica ainda mais a nossa situação.

É deficitária a situação financeira, o ASA não arrisca a perder o núcleo básico do que foi o plantel de 2014?
É uma pergunta muito pertinente. Hoje em dia, infelizmente, as coisas materiais falam mais alto. Então, ao negociarmos no vazio, cria-nos alguns embaraços porque nem todos percebem, nem toda a gente está apta a aguardar. A partir daí, as tentações  aparecem e é claro que entre o aguardar e o ter aquilo que já está na mesa nalgumas equipas, vamos perder alguns atletas.

Pode o clube sofrer uma sangria por isso?
Estou com receio disso, porque apesar de não perdermos ainda o esqueleto, já perdemos alguns jogadores. A continuarmos assim, e como não há uma resposta imediata da parte dos nossos patrocinadores, que são a nossa sobrevivência, vai ser extremamente difícil. Gostava  de apelar aos nossos patrocinadores, na qualidade de garante da existência deste clube,  e acredito na boa fé deles que esta situação vai se inverter, porque o quadro urge, é necessário e imediato.

Fala da fuga de jogadores. Pode citar alguns nomes?
Sem nenhum receio. Temos os casos de Enoque, Gomito, Ady, Amarildo e Alex. Estes jogadores já estão noutros clubes, porque o ASA não conseguiu contê-los no plantel, devido às dificuldades financeiras.

CONTRATAÇÔES
“A tendência é colmatar o vazio”

O ASA pensa em novas  contratações?
Claro, quem perde alguém, a tendência é colmatar o vazio que deixa. Em função do que acabei de explanar, nós avisámos o técnico que neste momento está em gozo de férias sobre os acontecimentos. Aquando da sua estada pôde indicar alguns jogadores para que fossem assegurados os seus serviços. Com a condição económica deficitária que atravessamos estes jogadores procuraram outros rumos.  Para colmatar as vagas, a direcção do ASA pesquisou no mercado e encontrou outros que vão entrar no plantel. É uma pena que eu ainda não possa revelar os seus nomes, mas no momento certos vão ser divulgados.

Valeu então apenas a presença do técnico cá no país com alguma antecedência?
Sim, porque isso permitiu-lhe ter momentos para observação de jogadores que lhe interessavam e que nos propôs a contratação. Infelizmente, por razões que já avancei, ficámos sem solução para manter esses atletas, tal como o técnico quis.

Já foram encontradas alternativas?
Exactamente. Neste momento estamos a aguardar a resposta dos atletas.

Pode adiantar os nomes ou prefere mantê-los no segredo?
Prefiro mantê-los em segredo.

Mas por quê?
Porque há outras equipas que podem mostrar interesse neles e que podem antecipar nas negociações, o que também pode proporcionar o “roubo” desses trunfos a favor dos outros financeiramente mais capacitados.

Mas um determinado órgão de comunicação social avançou o nome de Gláucio?
Quanto a este já não há receio de afirmar que sim. É jogador do ASA para a próxima época. Está confirmado. Mas com relação aos outros, só o tempo pode dizer.

PREPARAÇÃO
“Estágio pode ser
realizado no exterior”


O presidente não teme que o ASA possa ter má preparação de pré-época para 2015, sem estágio ou mal preparado, devido aos atrasos financeiros?
É verdade. Como disse a princípio, tudo gravita à volta do dinheiro. Quando isso não acontece, criam-se muitos constrangimentos. Todas as dificuldades surgem. É claro que estamos no fim de ano e os patrocinadores também têm as suas dificuldades, mas ainda assim, se nos forem alocadas as verbas a qualquer momento, vamos ter de refazer os nossos programas  e procurar fazer o melhor.

Mas a acontecer, o receio é certo e o atraso é incontornável?
Sim. É certo que o estágio devia  ser feito com alguma antecedência, com algum momento mais salutar, mas sabe que depender não é fácil. Assim, quando acontece temos de reformular o programa.

Ainda assim, mantém a ideia de realizar o estágio no Brasil?
Se houver a disponibilidade financeira,  porque estamos atrasados com relação ao nosso programa, por falta de verbas, o estágio pode ser realizado tanto no Brasil, em Portugal, na África do Sul e quiçá,  mesmo aqui em Angola. Vai depender, desde que as condições estejam criadas para o efeito.

Mas por quê não fazê-lo mesmo aqui em Angola?
Aqui tem sido um pouco difícil, porque imaginemos que a escolha recaia  na cidade do Lubango. Ali só tinha duas equipas no Campeonato Nacional, com o agravante de uma delas ter descido de divisão. Agora interrogo-me com quem vamos fazer os jogos de controlo? Só com o Desportivo da Huíla? Não sei pudessemos encontrar equipas disponíveis para  fazer jogos de controlo.

BALANÇO
“Direcção assume
temporada negativa”

Que balanço se lhe oferece sobre o Girabola de 2014?
Para a equipa de futebol sénior do ASA o ano de 2014 não foi nada positivo. Devo ser honesto em dizer a verdade.
Os resultados não foram os que esperávamos. Mas se por um lado os resultados desportivos não foram grande coisa, por outro, ganhámos uma certa estabilidade a nível de clube.

Aqueles momentos difíceis que pairavam sobre o clube, hoje graças a Deus já não se vivem, o que é extremamente importante.
Isso cria alguma tranquilidade à direcção?

Claro que sim, porque isso  permite-nos  ter cabeça fria, termos momentos saudáveis para pensar no futuro.  E como almejamos um futuro risonho para o clube, desde que certamente tenhamos os apoios financeiros necessários, na minha perspectiva, eu ia dizer que para a época futebolística de 2015, o ASA vai lutar para pelo menos ficar a meio da tabela no mínimo, ou assegurar o quinto lugar.  

Mesmo com essas dificuldades todas que acabou de enumerar?
Sim. Até podemos atingir um lugar melhor que o quinto, mas não gostavamos de ficar abaixo dessa posição.

Acha isso sinal de tendência de devolução ao clube o seu lugar que merece no mosaico desportivo do país?
Exactamente. Essa é a nossa intenção, para começarmos a devolver paulatinamente a mística que sempre foi peculiar neste grande clube. Mas repito, isto só pode ser possível, se porventura formos acompanhados dos apoios financeiros. Hoje não está fácil isso, porque o orçamento que o clube vive anualmente, não satisfaz.

“Queremos lutar pelo quinto lugar”

O presidente do ASA, Elias José, tem esperança de que as dificuldades possam ser ultrapassadas e a pensar dessa forma, acredita que na próxima época a equipar dá muitas alegrias no campo competitivo, aos seus sócios e adeptos.

O que se espera do ASA em 2015?
Em 2015 o ASA augura melhorar a classificação obtida em 2014, galgar mais degraus na tabela até ao quinto lugar.

Mas se no plano financeiro o ASA não está bem como lutar para um quinto lugar não é uma contrariedade?
Sonhar não é proibido. Até porque, apesar das dificuldades financeiras que o clube vive, nós também temos as nossas ambições. Gostavamos de voar o mais alto possível e por essa razão não devemos de antemão dizer que, em função da crise vamos lutar pela permanência.
Não sou a favor desse pensamento. Aliás, em conversas que sempre mantenho com os técnicos e os jogadores, sempre defendi em função do nome que o ASA já granjeou na sociedade, um clube muito respeitado, que já conquistou três títulos, merece ser respeitado.

É essa a razão da intenção de lutar pelo quinto lugar?
Efectivamente, porque um clube com tamanha dignidade para ser respeitado, tem de pelo menos ocupar o meio da tabela, para honrar o nome do grande clube.

Qual é então o orçamento global, para que o ASA possa trabalhar sem sobressaltos?
Como sabem, o mercado actual ficou muito inflaccionado. Hoje negociar com um atleta não fica por menos de 80 mil dólares o seu contrato, um salário inferior a quatro ou cinco mil dólares e por aquilo que é o orçamento actual do clube não satisfaz. Na minha estimativa, só para a equipa de futebol, o clube precisa de pelo menos o equivalente a dois milhões e quinhentos mil dólares. Estou a falar em valores mínimos, capazes de cobrir um plantel de 25  jogadores. Aqui, ainda não está incluso o corpo técnico, os estágios, equipamento, deslocações e lesões. Só estamos a falar em termos salariais para termos no plantel aqueles jogadores de montra que estão ali, e que hoje gostávamos  também de ir buscar para tê-los no nosso plantel.

Pode citar algum exemplo disso?
Não tenho medo de errar de que o Love é o exemplo mais vivo disso. Ele foi para o Recreativo da Caála, salvo erro informações veiculadas pela Rádio Cinco, porque a proposta que o ASA apresentou não o satisfez. Em função disso, perdemos o jogador que tanto queríamos de volta à casa.

A isso se deve o facto dos patrocinadores não disponibilizarem o que devem devido a alguns atrasos na disponibilização dos valores?
O que queremos dizer é que o recebemos não satisfaz o clube e porque também os patrocinadores não têm sido pontuais. Alguns deles estão há quase seis meses que não alocam as verbas conforme está prometido, o que cria alguns estrangulamentos nos nossos programas.

Quem são os patrocinadores incumpridores?
Por razões de ética, sou obrigado a manter sigilo, porque não fica bem citar nomes.

CAMPO
“Em Fevereiro tapete renovado”


As infra-estruturas merecem atenção da vossa parte. Como está a reabilitação do campo de futebol, depois de assinar com a DMS em Maio?
Ainda ontem, estive reunido com o representante máximo da DMS e abordámos essa questão. Disse-lhe que as competições estão no defeso, era pertinente que aproveitássemos esse período para que as obras estivessem em marcha. A resposta que obtive deixou-me satisfeito. Prometeu o mais tardar, até mês de Fevereiro de 2015 o tapete sintético ia ser renovado e nos próximos dias um dos representantes  da DMS vai para Portugal, para firmar o acordo com a Ulembi, empresa encarregada de trazer o tapete.  Acredito até Março o mais tardar, antes do início do Girabola, o problema da relva sintética do campo de futebol possa estar resolvido.

Essa recuperação do campo de futebol é apenas a relva ou abarca outras áreas? 
Não. Prevê-se também a criação de alguns gabinetes de apoio e alguns balneários. É isso. que vai compreender os trabalhos de reabilitação do nosso campo na sua totalidade.   

Qual foi o momento mais difícil do presidente do ASA no Girabola?
Para mim, foi quando estávamos na luta para não descer de divisão. Perdi noites, mas estava convicto de que ainda assim ia salvar a aeronave. Foram momentos difíceis, mas depois do empate obtido em Benguela, saí da cidade com uma enorme satisfação. Senti-me aliviado e dali passei a dormir um pouco. Mas antes disso, tudo era muito difícil.

Como é que caracteriza o ASA?
É um clube que tem um nome e sua massa associativa, os seus adeptos  e seus sócios, são muito fortes. Não vemos isso nos órgãos de imprensa, mas dá-se conta pelo impacto, a natureza, o momento e o clima.  Alguns até evitam telefonar, mas à distância nós percebemos logo que a intenção é justamente salvar a aeronave. Daí concluir que foram esses momentos de pressão que vivemos, à semelhança do que foi a época do campeonato de 2013.

Em função disso, que apelo faz aos associados do clube?
Que esses momentos não voltem a acontecer no campeonato Nacional que vamos disputar em 2015.

ISENÇÃO
“Nego interferências
em questões técnicas”


Agora com o técnico “Robertinho”, em que condição fica o Samy Matias?
Mais uma pergunta pertinente que me faz. Nós falámos com Samy Matias e eu pessoalmente gostava de vê-lo integrar a equipa técnica que vai liderar o ASA no Girabola de 2015.

À semelhança do que aconteceu com o próprio professor Samy Matias pois foi ele quem constituiu a sua equipa técnica, sem interferências da direcção, sem intervenção do presidente, é a mesma coisa que gostávamos de ver o professor Robertinho fazer. Não queremos intervir nessa parte, seja na criação do plantel ou dos seus próximos colaboradores, para que amanhã não nos venha dizer que estou a trabalhar com uma pessoa que não colabora. Por isso, gostávamos de deixar essa parte sob responsabilidade do próprio técnico.

Acha boa neste capítulo, a presença de Robertinho em Angola?
Logicamente, porque à semelhança do que aconteceu com os jogadores, viu com quem pode contar na equipa técnica.

A direcção não é tida nem achada?
Bem, a nossa voz também pode ser tida ou achada, se porventura nós tentarmos convencê-lo de que este ou aquele são mais-valia, mas desde já deixo como caso independente, sob jurisdição do próprio professor Robertinho. Há alguma aposta sobre os jogadores dos escalões jovens.

AQUESIÇÕES
“Técnico apontou
possíveis reforços

O ASA não  vai conseguir jogadores de renome como o presidente quer?
 Esse é o meu receio. É uma preocupação, enquanto não virmos esse problema solucionado, à medida que o tempo passa, vai  tornar-se  escassa a possibilidade de podermos contar com atletas de grande monta. Então é um receio muito grande para mim.   E é claro que depois seremos obrigados a ter de  procurar aquilo que restar no mercado. Isso, realmente tem-nos criado muitos embaraços. Não temos como, porque vivemos dificuldades financeiras enormes, os recursos são alocados fora do prazo e à conta gotas. Em função disso, os embaraços e as dificuldades passam de ano para ano.

As aquisições que o ASA quer fazer foram por indicação do treinador, pelo facto de já cá ter vindo, ou por orientação da direcção do ASA?
Tal como disse, o técnico esteve cá, observou e no caso concreto dos juniores da nossa escola, foi ele pessoalmente que notou algumas potencialidades nos jogadores juvenis e apontou-os para possíveis reforços.Agora, num ou noutro caso, como o do jogador Gláucio, ele próprio viu e gostou da actuação do atleta, da mesma maneira que nós, é claro que a recomendação só veio coincidir com a nossa observação, então não tivemos dificuldades em contratá-lo.

Mas há os que continuam no segredo dos deuses?
Sobre um ou dois que estamos a contratar, nós também, apesar do treinador estar distante e porque estes saíram do ASA, informámos ao técnico de que aqueles jogadores que tinha indicado para a manutenção no plantel, por diversas razões optaram por outros clubes, nós aqui estávamos a fazer um esforço, no sentido de encontrar no mercado jogadores com características semelhantes.