Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

\" Ir ao Mundial é obra grandiosa\"

Matias Adriano - 20 de Junho, 2017

José Luís Prata uma voz autorizada do futebol nacional

Fotografia: José Cola |Jornal dos Desportos

Seis meses depois das eleições na Federação Angolana de Futebol, está digerida a derrota ou nem por isso?
- Considero ser uma questão ultrapassada. Afinal vivemos num Estado democrático e de direito. Éramos três concorrentes e com base nas regras do jogo só um podia vencer. Portanto, devo dizer que a derrota eleitoral faz parte do passado.
O senhor era para muitos entendidos em futebol visto, entre os três concorrentes, como o mais favorito à vitória, sobretudo em função do seu histórico.

Se viu de algum modo surpreendido pelo resultado?
-O que estava em causa era FUTEBOL e não os nomes. Foi minha a primeira eleição e aprendi muito como se ganham eleições. E de que forma se ganham, não interessa como.

Hoje avaliando as coisas de forma mais calma e ponderada, onde terá falhado na sua campanha?

Por inerência de funções profissionais, sou um homem sério e honesto, não sei viver de promessas eleitorais desonestas, não sei mentir. Durante 45 anos sempre que trabalhei como piloto, ia com uma máquina voadora para os céus e cheia de pessoas, sobrevoando Cidades, Países, Continentes e Oceanos.

A luz do direito internacional, estava autorizado e tinha credibilidade profissional, pois tinha essas prerrogativas e confiança de ser um profissional competente. Antes de fazer um voo, tinha que saber tudo sobre o mesmo, todos os aspectos operacionais, como rota, destino e alternantes. Se avião estava bom tecnicamente e bem carregado/centro de gravidade, catering, passageiros, meteorologia em rota, destino e alternantes, etc.

Nesta minha profissão não podemos ser desonestos nem fazer propostas megalómanas que não pudemos cumprir, pois se fizermos isso morremos a seguir. Avião mata, não se pode brincar com coisas sérias e se estou vivo até hoje e nunca tive problemas técnicos profissionais é significativo. Isto que digo, aplica-se também às eleições e ao desporto. Em suma, na minha vida  não sei mentir. Trabalho com Verdade. Sou uma pessoa séria, honesta e frontal. A minha profissão obrigou-me a ser assim e não consigo ser diferente, custe o que custar.

Teve alguma dificuldade em reconhecer a vitória da lista vencedora?
-As regras de jogo estavam viciadas, havia muitos interesses em jogo e muitas mentiras. Como o importante, tal como já disse atrás, era futebol, não as pessoas, desejei a lista A que revertesse a actual situação em que o futebol se encontra(va) e que tivesse muito sucesso na sua gestão.

Esteve ausente do acto da tomada de posse da direcção eleita. Não foi convidado ou ainda não estava refeito da derrota?

-Pura e simplesmente não fui convidado.

Durante a campanha em algum momento foi aventada a possibilidade da constituição de uma lista de consenso?
-Lista de consenso não, mas sim foi-me proposta a possibilidade de juntarmos as listas B e C. Porém, isto foi já muito tarde, a poucos dias das eleições.

Não será que juntos José Luís Prata, Artur de Almeida e Jesus dariam numa equipa vencedora?
- Nós somos poucos no futebol. Na vida nunca digas não, mas seria muito difícil convivermos juntos, olhando principalmente pelos nossos passados desportivos e não só…

Quatro anos correspondentes a um mandato numa federação passam num abrir e fechar de olhos. Estará pronto para a outra em 2020?
Vamos ver. Como disse o problema é a organização estruturante do futebol e não pessoas. Se o futebol estiver bem, com certeza que irei apoiar a direcção em exercício. Se continuar como até aqui, vamos analisar e repensar o futebol. Depois vai-se ver. Vamos deixar as pessoas trabalhar.

A nova federação está em funções há seis meses. No seu ponto de vista já se vislumbram sinais de melhorias no nosso futebol?
No meu programa iria atacar nos primeiros 100 dias questões estruturantes que não estão a ser feitas e não vejo que esta federação tenha algumas medidas para atacar questões de fundo. Estou algo céptico, mas vamos dar tempo ao tempo. O que esperava é que tivesse a mesma dinâmica como foi prometido durante a campanha e até agora pouco ou nada se viu mas continuo à espera, além de a comunicação não fluir para os agentes do futebol no seu todo.

Sem demérito para Artur de Almeida e sua equipa, com senhor os passos seriam mais expressivos?
Das 20 medidas para o futuro da FAF propostas por mim ao eleitorado, sem dúvida que já estariam a ser implementadas numa proporção de mais ou menos 20% da sua realização.

O regresso da Selecção Sub-20 ao torneio de Toulon não pode ser entendido como uma conquista?

- É meritório o regresso. É preciso dar-se jogos internacionais aos jovens

 Acredita que o futebol nacional venha a dar um passo de gigante nos próximos quatro anos?
- As pessoas têm que ter um Projecto, uma Estratégia e ter ambição de o implementar com rigor em prol da uma federação colaborativa, mais confiável e mais transparente e que este caminho seja trilhado com todos os clubes, APF,atletas, técnicos, dirigentes, árbitros, técnicos de Saúde, jornalistas, instituições de Ensino Superior, Governo e Sociedade Civil. Se for assim acredito, mas!...

Como homem do futebol e a favor da sua evolução aceitaria dar uma colaboração à actual direcção da FAF se fosse convidado?
- Se você analisar o comportamento das promessas eleitorais do elemento da lista A, vencedora, e aquilo que eu explanei como meu perfil de homem e desportista no ponto 3, deixo a resposta à sua pessoa. Sou coerente comigo próprio, com a minha vida, com o meu comportamento pessoal, peço desculpa.

Que memórias guarda da "revolução" positiva verificada no nosso futebol em meados dos anos 90, que nos levaria ao primeiro Campeonato Africano das Nações CAN'96 ao tempo que era vice-presidente para as Selecções Nacionais?
- Foi um trabalho muito positivo e solidário, futebol é colectivo e não individual, onde tive dentro do colectivo uma grande participação, eu próprio e a empresa AAC na qual era Diretor Geral a financiar a selecção. Pedi ao ministro da Juventude e Desportos instalações. Mobilei tudo, coloquei A/C e computadores e montamos o Departamento das Selecções Nacional na Cidadela. Também não nos podemos esquecer do Eng. Délio Costa, da Teixeira Duarte, que sem ele não haveria selecções nacionais e nunca teríamos ido ao CAN.

Em resumo, podemos concluir que houve  muita colaboração para aquele boom verificado entre 1995 a 96?
-Houve sim. Aqui também posso citar o Eng. Joaquim David, meu amigo pessoal,  ainda dos tempos de controlador de tráfego aéreo (família aeronáutica), que a meu pedido autorizou que fizéssemos as refeições na ESTA (ai próximo à Igreja Nazaré). Lembro-me que o Alhinho era muito possessivo/acutilante e virou cabeça do mais velho Amorim, responsável da ESTA, que ainda esta vivo e pode testemunhar isso, assim como Valente Silva, a selecção começou logo a beneficiar das refeições mesmo muito antes da autorização do Eng. Joaquim David, que quando lhe contactei limitou-se a rir. Cito ainda o mais velho Rita, da Casa do Desportista, que nos cedeu um andar e tive eu do meu bolso que mobilá-lo, comprar roupas de cama e meter Ar Condicionados em todos os quartos.

Ao que se pode inferir houve para aquele momento uma forte conjugação de esforços que valeram para a memorável explosão verificada. Certo?

-Certo. Aliás, não devo esquecer da audiência que Camarada Presidente José Eduardo dos Santos  nos concedeu, a mim e ao Carlos Alhinho. Estou a pensar escrever um livro sobre isso e sobre os mundiais, pois tenho muita documentação que mais ninguém tem para deixar de haver pessoas que se querem vangloriar daquilo que não fizeram.

Como se explica que aquela "revolução" positiva não tenha continuado. Pois, mesmo a qualificação ao Burkina Faso'98 já foi sofrível. O que terá faltado de concreto?
-Eu saí  da FAF no fim 1996, ninguém me meteu na rua, fui eu quem não quis continuar. O que se passou no Burkina Faso foi demasiado mau, aquela novela com Professor  Neca não se justificava. Eu não estive Burkina Faso, e não posso abordar com precisão o que aconteceu com a Selecção nacional naquela edição.

NA PRIMEIRA PESSOA
“Sempre que estive presente
 tivemos excelentes resultados”

Depois do CAN'98 a selecção só voltou às fases finais em 2006 no Egipto com o seu regresso ao Gabinete das Selecções Nacionais. O senhor está com o segredo do sucesso?
Digníssimos, aquilo que eu vou dizer, as pessoas não gostam de ouvir e ler. Nós devemos ser humildes e deixar que sejam as outras pessoas a elogiarem-nos. Mas, factos são factos e a história e a memória dos Angolanos ninguém apaga, e como é senhor jornalista que me pergunta, sem esquecer que futebol é solidário, colectivo vamos por factos daquilo que me vem à memória:

A) Dos 7 CAN fase final que Angola foi, eu estou em 6.
B) Chefiei a Delegação Angolana ao  Mundial 2006 .
C) Das três Taças COSAFA que ganhamos, estive em 2.

D) CAN SUB 20 Etiópia + Campeonato mundo SUB 20 Argentina.
 E) Algumas fases finais de CAN SUB 17/20.
F) Participação nos torneios TOULON, Torneio GAIA com as selecções da URSS; Alemanha e Portugal e a visita Angola dos SUB 20 Portugal BI – Campeões do mundo….

G) Estive na fundação LIVEGUL em 1975, trazendo a Angola selecções veteranas de Portugal, Brasil e Moçambique, Sporting e Benfica de Portugal, etc para além de ter comandado o Havemos de Voltar, eu e o Campos Neto.
H) Futebol feminino a sua implementação e formação, juntamente com Palmira Barbosa e Marina. Disputamos 1º CAN feminino do país com a África do Sul.

I) Caravana da Saudade organizado por mim, que íamos a todas as províncias nas eleições de 1992, que viria a dar lugar ao que é hoje Movimento Nacional Espontaneo.
J) Voltei em 2011 a FAF com Pedro Neto. Estávamos em ultimo lugar na série com o Uganda em primeiro e depois da minha entrada revertemos a situação e fomos ao CAN 2011 (Guiné Equatorial) e 2013 RSA.
K) Em finais de 2013 saí, ficaram todos os dirigentes. Mais uma vez, só eu saí e há quatro anos que não vamos a um CAN (2015 e 2017 falhamos a fase final).

CONCLUINDO – Modéstia à parte, sempre que eu estou na FAF as coisas correram bem, quando eu saio tudo bate no fundo. Um bom motivo, para uma boa reflexão. Viu o primeiro jogo da Selecção Nacional. Que leitura faz à sua prestação? Desta vez podemos acalentar esperança de qualificação à fase final?

-Na verdade, vi o jogo no seu todo e acompanhei através Comunicação Social e não só a preparação da selecção. Tirando o trabalho da equipa técnica e atletas, o resto foi demasiado mau para ser verdade. Era importante pontuar no Burkina Faso, e como se viu até era possível. Há quatro anos que não vamos a uma fase final de um Campeonato Africano e o nosso adversário directo é Burkina Faso, era importante não perder. Temos agora COSAFA  e  CHAN, e estamos a um ano (Março 2018) para prepararmos os próximos jogos. Vamos acreditar.

Quando se encontram com Armando Machado o que conversam sobre o futebol dos anos 90 e o dos nossos dias?
Não me tenho encontrado com o senhor Armando Machado. No entanto, não me custa dizer que é um homem do futebol, que fez muito pelo nosso futebol. No entanto, ele deve acrescentar propostas/soluções concretas com substancia para o momento actual do nosso futebol e quando falar do passado, deve ter em atenção que este País tem história, que está quase tudo escrito/documentado.

As pessoa muitas delas ainda estão vivas e o respeito que todos nós devemos a ele, ele também nos deve a nós. É recíproco. O que achou da cisão havida na direcção da FAF logo após à tomada de posse com a demissão de um dos vice-presidente, no caso Norberto de Castro?
- Não comento.

“Voltar ao mundial não será para já”
Este passo só é possível com homens certos em lugares certos


Estar no Campeonato do Mundo, em 2006, foi um marco histórico. Assim para terminar quantos anos mais dá para Angola voltar a um Campeonato do Mundo?
Quando chegamos da Alemanha, eu disse ao ministro da Juventude e Desportos que a ida ao mundial foi obra do Espírito Santo e que se quiséssemos voltar a um mundial, teríamos que mudar muita coisa. Como estávamos, nem pensar num regresso breve. O dinheiro não faltava e eu sai em 2008 ficaram todos da direcção anterior, e Angola bateu no fundo.

Numa série onde estavam as selecções do Benim, Níger,Uganda e Angola, nós não nos qualificamos para CAN 2010, só fomos porque organizamos, na Taça Cosafa fomos eliminados à primeira e o treinador teve que ser substituído e entrou Manuel José. Só saiu um elemento direcção da FAF que fui eu e tudo se desmoronou, o que levou Justino Fernandes a dizer várias vezes, que se eu não tivesse saído, nós teríamos ido ao mundial.
Mas ainda não disse sobre o que será preciso para Angola voltar a desfilar as suas cores num campeonato do mundo...

-Para se voltar a um mundial, só é preciso colocar as pessoas certas nos lugares certos, sem amiguismo, compadrio, religião, etc, etc. Precisam-se pessoas que sirvam o futebol e não se sirvam do futebol para sua auto promoção. O futebol é colectivo, a competência, organização, profissionalismo, verdade, saber, dignidade têm de estar presentes. Não vale a pena estar sempre a dizer que falta isto e aquilo, como por exemplo director técnico nacional, secretario técnico, etc.

Nós em 2006 não tínhamos nada disso e fomos a todo lado. Bastam pessoas certas e competentes nos lugares certos. Temos que falar a verdade, custe o que custar. Ainda agora os problemas graves das nossas selecções todos sabem e comentam em off, mas ninguém diz nada! Temos que ser críticos construtivos e sérios para se puder melhorar. Falar verdade é uma virtude pois ajuda a melhorar o nosso trabalho, a vida desportiva da Nação.. Melhorar o que esta bem e corrigir o que esta mal. Tudo fácil.

REPARO
“Girabola hoje
tem outro nível
competitivo”


Como avalia o nível do
Girabola?


-Desde anos 90 que o Girabola é a melhor organização desportiva do país. Tenho encontrado muitas melhorias de ano após ano e o nível de alguns clubes tem sido significativo com aparecimento de dirigentes de grande nível. Hoje já temos 5/6 equipas a disputarem o título, isto é muito importante, para o nível competitivo, além de o futebol ser a única modalidade desportiva que todas as províncias têm, e sozinho tem mais atletas federados que todas as modalidades juntas, sem contar com os milhares de atletas do Movimento Nacional Espontâneo e da Amangola e Escola de Jogadores.