Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" No terminei o meu projecto "

Paulo Caculo - 22 de Abril, 2019

Antigo

Fotografia: Edies Novembro

Foi sob seu comando que Angola alcançou as duas primeiras presenças em fases finais do Campeonato do Mundo, em 2001 (Sub-20), na Argentina, e 2006 (Honras), na Alemanha. 
Consta ainda no seu curriculum como o treinador, o inédito quartos-de-final dos Palancas Negras, no Campeonato Africano das Nações (CAN), disputado em 2008, no Ghana. O ex-seleccionador nacional acedeu ao nosso convite, para abordar a próxima participação de Angola no CAN do Egipto; analisar os adversários, e antever as possibilidades dos Palancas Negras realizarem uma campanha airosa.




Muito já se disse em torno do desfecho do sorteio do CAN do Egipto. O que se lhe oferece acrescentar...
 "É verdade. Penso que estamos numa série que, aparentemente, parece ser acessível, mas é difícil. Hoje, não há jogos fáceis, pois, todos são difíceis. Evidentemente, uns com maior grau de dificuldade que outros, mas quando se trata de uma fase final do CAN, são sempre jogos com elevado grau de dificuldade. 

 

As grandes preocupações prendem-se, precisamente, com a Tunísia e o Mali. Concorda? 
"Sim. Estamos numa série com o Mali e a Tunísia, esta última mundialista na Rússia 2018 e habitué do Campeonato Africano das Nações. Tem organizado CAN 's e, inclusive, em 2004, estive na prova que organizou, para observar os nossos adversários, pois, tinha assumido a selecção em 2003, na campanha que nos levou ao Mundial. Constatei, na altura, que eles têm um elevado nível de organização. Têm jogadores com grande qualidade, uns eventualmente a evoluírem em França, mas a maior parte dos atletas compete no campeonato local e acaba por ser, pelo seu historial e capacidade, um candidato a liderar o nosso grupo. 

 

Está a colocar o Mali como a provável segunda equipa do grupo? 
 "O Mali também é uma equipa muito forte. Tem muitos jogadores a evoluírem no estrangeiro. No CAN de 2010 defrontámos este adversário e estávamos a ganhar por quatro golos e houve aquele 4-4 que, na minha opinião, faltou um bocado de inteligência competitiva do nosso seleccionador, que não soube orientar os atletas no sentido de gerirem aquele resultado. Não se pode empatar daquela forma e nunca aconteceu comigo, enquanto seleccionador, porque sempre que me visse a ganhar, não perdíamos. Era preciso gerir isso, quer com a selecção de jovens, como com a principal. Mesmo com o Interclube, não me lembro de ter passado por uma experiência destas. 

 

Mas não existem jogos iguais e já lá vão nove anos?
"Com certeza que não. Não há jogos iguais. Hoje o seleccionador de Angola e do Mali são outros, e as duas selecções também têm poucos jogadores daquela geração. É evidente que, a nível da qualidade e da competição, ainda estão acima dos nossos jogadores. 

 

Acha que Angola tem alguma possibilidade de ir para além da fase de grupos?
"Angola tem a possibilidade de discutir o segundo lugar com o Mali, porque quer o Mali, quer a Tunísia são, em teoria, os principais favoritos. Estou a dizer que, em teoria, estes são os principais candidatos a qualificarem-se directamente para a próxima fase da competição africana no nosso grupo. Mas, creio que Angola tem possibilidade de ombrear com estas duas selecções. Agora, no ponto de vista da obrigação, somos obrigados a ganhar a Mauritânia. Mas isso não quer dizer que vamos ganhar. 

 

Mas, o que é que lhe diz nestes casos pela experiência que tem nestas andanças?
"Veja bem. Quando jogámos para o Mundial de 2006, estávamos numa série em que éramos o «out-sider». Portanto, não éramos candidatos, porque tínhamos no grupo a Nigéria, Argélia e o Gabão, que estava também melhor organizado e estruturado do que nós e, depois, o Zimbabué e o Ruanda, que tinham estado no CAN da Tunísia. Angola não se qualificava ao CAN durante oito anos, então, não era considerada uma favorita, mas acabámos por nos organizar e ser os favoritos. Quando toda a gente se assustou, já estávamos a liderar o grupo de pedra e cal. 

 

Qual foi a estratégia para tal feito inesperado?
"Quando estás à frente, queres continuar na frente e fomos nos organizando jogo a jogo, estudando os nossos adversários, os jogadores adversários, conversando e atingimos aquela união que houve com toda a gente, com os angolanos todos, imprensa, direcção da federação, embaixadas e conseguimos mobilizar toda a gente, porque todos deram a sua contribuição. Tivemos realmente a capacidade de liderar, mas usamos inclusive as embaixadas dos países onde íamos jogar e para onde íamos estagiar. Tínhamos informações a todo o momento de todos os adversários e isso concorreu, para que atingíssemos os êxitos. 

 

Foi um arregimentar de forças...
"Exacto! Por isso, quando alcançámos o Mundial, não aceitava que as pessoas diziam que o professor Oliveira é o único responsável pela qualificação ao Campeonato do Mundo. Dizia que não, somos muitos e como dizia o outro, somos milhões e contra milhões ninguém combate. Conseguimos nos organizar melhor, enquanto outros, se calhar, estavam a trabalhar apenas com a federação do seu país e os jogadores que tinham. Nós estendemos a possibilidade de toda a gente trabalhar connosco.

 

Em relação a Mauritânia, um adversário que Angola conhece, e que chega ao CAN como principiante, o que se lhe oferece dizer...
"É preciso ter em conta a Mauritânia. Ninguém quer dar por ela, estão aí nas calmas, tidos como o out-sider do grupo, mas quando assustámos podem estar acima da classificação do grupo. Basta ver que, antes do ultimo jogo do seu grupo, já estava qualificada para o CAN. Angola precisava de vencer o seu último jogo para se qualificar, caso contrário seria o Burkina Faso. No entanto, é preciso ter em conta a Mauritânia, mas acredito que é preciso levarmos em conta que, em teoria, o Mali e a Tunísia são os principais candidatos a passarem para os "oitavos", e mesmo assim, Angola tem a possibilidade de trabalhar, no sentido de ser o melhor terceiro colocado da fase de grupos.

PRIMEIRO JOGO
Ex-seleccionador defende mentalidade vencedora

Considera imperioso, a selecção cumprir um estágio de preparação ao nível dos adversários que vai defrontar no Egipto. Aplaude o facto do seleccionador ter os jogadores nas "mãos" e merecer do grupo enorme reconhecimento, pelo trabalho que está a desenvolver. Confessa, por isso, que se revê no perfil técnico de Srdjan Vasiljevic, por ser humilde e aceitar as criticas. 

Acha que começar a ganhar será determinante ou nem por isso?
"Nestas competições curtas e rápidas é sempre bom entrar a ganhar. Agora, temos de ter em conta, que estamos diante de adversários com historial e que a nível do ranking, prémios de jogos e condições estão acima de nós. Mas Angola tem que se preparar bem, no sentido de fazer tudo para ganhar. Depende do modelo e da estratégia táctica, que o treinador vai utilizar. É importante que o seleccionador não peça aos jogadores, para perder por menos, senão vai perder por muitos golos. Nunca se deve pedir aos jogadores para irem ao campo e perder por menos. É preciso colocar os jogadores em campo, fazê-los acreditar que é possível vencer o adversário e entrar em campo para lutar pelos três pontos.  

Qual seria, para si, a estratégia para o jogo inaugural?
"Do ponto de vista táctico e estratégico, não jogar cá atrás. É preciso arriscar. Por exemplo, defrontei treinadores que defendiam e que depois aos 90 minutos sofriam um golo. Se for para perder, então perco o jogo aos cinco, dez ou 15 minutos. Vamos jogar aberto e tentar ganhar e acabámos por ganhar. O que é preciso é trabalhar a equipa, no sentido de conquistar um bom resultado e um empate seria muito bom para Angola, mas é vidente que também não se deve jogar para o empate. Se conseguíssemos um empate já seria bom, porque teríamos a qualificação em aberto para o primeiro ou segundo lugar, ou construirmos a possibilidade de sermos um dos quatro melhores terceiro colocado.
 
Mas o adversário é a «toda poderosa» Tunísia...
"Não importa o adversário. Teremos de entrar com objectivo de ganhar a Tunísia, mas com algumas cautelas, se calhar manter um bloco médio e baixo, sem defender muito cá atrás e no nosso processo ofensivo sair em contra-ataques rápidos e, na perca de bola, defender rapidamente, tapando todos os furos. Vamos defrontar uma equipa, cujos jogadores executam com bastante rigor as habilidades motoras, circulam bem a bola, de pé para pé, conhecem os timings exactos para cruzar, passar e como passar e onde passar a bola. 
 
Mas existem pontos fracos nesta selecção da Tunísia e que Angola pode aproveitar para explorar...
 "Há um ponto fraco nesta equipa da Tunísia. Ela é lenta, porque tem os jogadores muito pesados, com bom porte físico, e nós temos jogadores rápidos. São vantagens que temos, a rapidez e movimentação dos nossos jogadores. Aqui, é imperioso que o seleccionador potencie cada vez mais esta qualidade dos nossos jogadores, para superarmos a Tunísia, porque vai ser difícil. A seguir, penso que teremos a Mauritânia e, neste caso, podemos dizer que temos que ganhar este jogo, para manter em aberto a qualificação já no último jogo, diante do Mali. Acho que estão criadas as condições para nos qualificarmos, desde que haja também uma boa preparação.

 Agrada-lhe o trabalho do seleccionador  Srdjan Vasiljevic ?
"Eu me revejo neste treinador, sobretudo, pela forma como tem os jogadores nas mãos. É amigo dos jogadores e estes reconhecem nele capacidade e vejo que os atletas lutam e dão o litro pelo treinador. Felizmente, vê-se que é uma pessoa humilde. É um treinador que respeito bastante, fundamentalmente porque mesmo sem salário, continua a trabalhar. Já o fiz algumas criticas e aceitou com naturalidade. Aquele erro crasso que o seleccionador cometeu, de viajar logo após o jogo com a Mauritânia, por exemplo, não se faz em nenhuma parte do mundo. O repouso também faz parte da preparação. Depois do jogo, os jogadores querem tomar banho, comer e repousar. Já falamos sobre isso, ligou para mim e disse que aceita as criticas que o fiz e que vai melhorar. 

ANÁLISE AOS PALANCAS
“É preciso melhorar as exibições”

Agrada-lhe a qualidade do futebol praticado pelos Palancas?
"A selecção não tem jogado muito bem, mas agrada-me ver os resultados que tem obtido e conquistado. Não sou apologista de vitórias morais. Esta coisa de que jogámos bem, mas perdemos,  no meu dicionário não existe. O que é que nos faz estar presente nas fases finais de CAN? São as vitórias. Então, se conseguirmos aliar o útil ao agradável, jogar bem e ganhar é sempre bom para qualquer treinador e atleta, mas se não podermos jogar bem, vamos atrás do resultado. Vamos definir uma estratégia que nos permita ganhar os jogos. Sou das pessoas que defende que, mesmo que Angola não se qualificasse ao CAN, devíamos manter o treinador e pensar no Mundial do Qatar, em 2022. 
 
Acha que se deve apostar sempre num projecto a longo prazo?
"Com certeza. Em 2008, por exemplo, quando estávamos a fazer a campanha de qualificação ao Mundial, tinha dito ao presidente da Federação, que não estava a ser pessimista, mas achava que Angola teria muitas dificuldades em estar presente no Mundial de 2010 e 2018, porque tínhamos de renovar a nossa selecção. Estávamos a começar a renovar, porque já fomos à busca de jovens como o Job, Jamuana e o Manucho Gonçalves, que substituiu o Ákwa, mas estes jogadores estavam a ser apenas preparados. O Manucho foi preparado nos torneios da COSAFA. Não jogava na selecção principal, tanto quanto o Job, Locó e o Zé Kalanga. Estes jogadores, começámos a prepará-los na Taça COSAFA. 
 
Acredita que houve alguma precipitação da direcção da Federação, na altura?
"Sim, porque a selecção precisava de ser renovada e, sendo ela renovada, não teríamos capacidade, do ponto de vista de qualidade de jogadores, para o Mundial de 2010. Mas as pessoas defendiam que teríamos que ir a todos os mundiais. Na altura, ainda citei como exemplo o caso de Portugal, que ficou 16 anos fora do mundial, até 2006. Mas Angola queria ir a todos os mundiais, com as condições que tinha. Não tínhamos Centro de Treinamento, não havia condições. Ainda disse, o próximo mundial de Angola seria o de 2022, no Qatar. Tínhamos de começar a preparar a selecção, tendo em vista este Mundial, mas as pessoas não quiseram trabalhar neste projecto. 
 
Sente que não o deixaram acabar o projecto na Federação?
"Tive de interromper o projecto, porque não renovei em 2008. Deixei a selecção, numa altura em que também entendia que era possível vencer o CAN de 2010, organizado por Angola, porque estava tudo planificado. Mas houve pessoas que, depois, quiseram que fizesse política, mas não era meu objectivo, porque pretendia ganhar o CAN. 

 Acha que era possível vencer o CAN em Angola?
"Entendia que era possível dedicar-me à conquista desta competição, que estávamos a organizar no nosso país. E, se havia um treinador com esta responsabilidade, seria eu, que já estava à frente da selecção há cinco anos e que no CAN anterior tinha alcançado os quartos de final. Se calhar, se já tinha atingido os quartos do CAN, o mínimo que se exigia para superar o feito, era alcançar a final. E, por isso, disse, se formos a final do CAN, vamos ganhar, porque estavamos em casa. E a motivação não era só dos jogadores, mas também dos empresários, porque me lembro que começaram a surgir empresários a aumentar o prémio de jogo dos nossos jogadores, liderados pelo senhor Bento Bento.