Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" O futebol está doente"

19 de Janeiro, 2016

Armando Machado iniciou dirigismo desportivo no Petro do Huambo

Fotografia: Jornal dos Desportos

O antigo presidente da Federação Angola de Futebol (FAF), Armando Augusto Machado, disse em entrevista exclusiva aos Jornal dos Desportos, enquanto a prioridade for comercializar, o futebol angolano vai continuar doente. O carismático dirigente disse, que “ não há dúvida alguma de que o nosso futebol não está bem, toda gente apregoa que vamos renovar vamos fazer escolas diz-se um monte de coisas, mas no fundo não se faz nada”.

Na sequência, o antigo número um  da FAF disse que “contam-se pelos dedos os clubes que fazem formação, não temos um campeonato regular de Sub-15, Sub-17 e Sub-20, conforme fazíamos há vinte e poucos anos atrás”.

Armando Machado  iniciou a vida no dirigismo desportivo em 1958, no Atlético Clube de Nova Lisboa hoje Petro do Huambo, recordou que “ "foi com base na aposta que fizemos no futebol jovem que gánhamos o CAN de Sub-20, em 2001” “Não podemos descorar este facto. Só pode haver renovação e continuidade se apostarmos seriamente nas camadas jovens”, sublionhou o experiente dirigente.

Armando Machado lembrou, que “houve uma altura em que eu precisava de formar uma selecção, para ir jogar ao Togo. Treze jogadores influentes da seleção nacional, não aceitaram fazer parte da mesma, caso não se resolvesse alguns pendentes em atraso da anterior direcção”. “Fiquei paralisado com a posição deles, mas falei com o Arlindo Leitão na qualidade de treinador principal, para recorrer aos sub-20 e formar uma seleção urgentemente. Fomos ao Togo, e ganhámos por uma bola a zero, com jogadores totalmente jovens", recordou.

Armando Machado, também foi vice-presidente para o futebol  do Petro de Luanda, de 1989 a 1990, alertou que “ o futebol hoje está completamente industrializado, comercializado”. Por isso, disse que “vai ser muito difícil inverter o quadro actual do nosso futebol, pois a ideia  de muitos jogadores, agora,  se há dinheiro corro e marco um golo, ou não há dinheiro não corro e não faço golo algum.

O antigo dirigente federativo, que para muitos futebilistas, o sentido patriótico desapareceu. "Este é o sentido das coisas”, considerou. Para piorar as coisas, Armando Machado disse que “ foi aprovada uma lei que permite que cada clube no Girabola pode usar cinco jogadores estrangeiros, em simultâneo, numa partida. Essa lei, favorece os clubes  economicamente estáveis, que se preocupam mais com títulos a nível do campeonato nacional.”

ESTRANGEIROS
"Cinco jogadores prejudicam a selecção


Armando Machado considera, que a decisão de aumento de inscrição e ultilização simultânea de cinco jogadores estrangeiros nas equipas do Girabola, traz aspectos negativos. “Consequentemente, a selecção nacional poderá ressentir-se desta medida, especialmente se os jogadores estrangeiros ocuparem as  posições nucleares, cinco jogadores representam quase 50 por cento  do onze inicial, é muito”, disse.

“Que dirigente, quererá lançar jovens das suas escolas, quando precisa de rentabilizar os gastos feitos com a contratação de reforços estrangeiros? Não nos venham com ilusões. Poderiam ter continuado com os três estrangeiros em campo,  aí sim, talvez tivéssemos mais espaços para os jovens” sublinhou.

O antigo dirigente da FAF reforçou, que “os que têm dinheiro e direito a voto, acabam satisfazendo a sua vontade, por apoiar medidas que favorecem os seus clubes e não o país.  Os demais, se vão degradar mais ainda, em função da situação económica que o pais vive”.
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GESTÂO
" Com Hotel Palanca poupavam gastos aos cofres da FAF"

Armando Machado mostrou-se descontente, com o facto da actual direção da FAF não estar a fazer uso do Hotel Palanca, construído no seu mandato e que ajudava a poupar muitos gastos. “ Com a construção do hotel Palanca, nós poupávamos muitos gastos à FAF, além de alojarmos ali  os nossos jogadores, na maior parte das vezes, alojávamos as selecções adversárias. Nesta altura do campeonato, o hotel Palanca dava um grande alívio aos cofres da FAF. Infelizmente, o hotel está abandonado”, frisou.

“Sinto, que enquanto fui dirigente do futebol angolano, cumpri o meu dever. Com uma ou outra falha, como é normal nos humanos, acho que fiz o que pude com os poucos recursos que tivemos, e quando saí da FAF deixei os cofres cheios com um milhão de dólares” salientou. Armando Machado disse que “nos dias de hoje a nível do mundo do futebol, as pessoas estão mais interessadas em ocupar posições para benefício próprio, do que para servir o desporto ou seja o futebol. É o que estamos a ver, com estes escândalos na FIFA, UEFA, CAF e em  outros organismos que regem o futebol mundial”.

Visto que o futebol é a modalidade rainha, e a mais bem quista entre os angolanos e não só, “creio que o governo tinha de criar leis  para proteger o futebol, todo o dirigente deveria seguir à risca as referidas leis. É uma pena se isto não acontecer”, criticou. Para o homem que no seu mandato "levou" pela primeira vez Angola a uma fase final de um CAN, isto em 1996 na Africa do Sul, “todos os esforços devem ser feitos para que os nossos jovens tenham espaços nas principais equipas do país, para termos uma selecção nacional forte”

“Temos de aprender com o erros dos outros. Veja por exemplo, na gala de eleição do melhor jogador do mundo. Estavam três jogadores que jogam no melhor campeonato do mundo, mais nenhum deles é espanhol”, alertou Armando Machado. “Naturalmente, não sou contra contratações de jogadores estrangeiros, mas preocupo-me muito quando não vejo caminhos ou espaços abertos para os nossos jovens, econsequentemente, para o futuro do nosso futebol” argumentou.
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CASOS DE GERALDO E FILEMON
"Temos de ser  correctos
e  nobres no carácter"

Armando Machado não está a leste do que se passa no futebol nacional, acompanha as situações vididas pelo médio Geraldo que não assinou pelo Petro de Luanda, preferiu o 1º de Agosto, e também a suspensão que a FAF impôs ao ex - seleccionador nacional, Romeu Filemon, às portas do CHAN.
 “ A situação vivida pelo Gerado, é mais um exemplo triste, de como anda mal o nosso futebol. Como, primeiro a pessoa assina um contrato, e depois manda uma adenda? Isto é caricato!”, considerou Armando Machado.

“ O normal é primeiro ler o contrato, fazer as devidas  correções, e depois assinar. Não é, depois de assinado o acordo, vir com exigências descabidas. Depois vem outro clube, que mesmo a  saber do comportamento super negativo do atleta, ou de seu representante, fica com ele. Não podemos alinhar neste diapasão. Temos de ser mais correctos e nobres de carácter”.

Em relação ao caso Romeu Filemon, Armando Machado considera que a imprensa que normalmente tem um papel preponderante na resolução de casos do género, falhou por não ter ouvido, mesmo que em separado, tanto o presidente da FAF, Pedro Neto, como o seleccionador nacional. “Logo depois do anúncio da suspensão do treinador, deveriam ouvir o presidente Pedro Neto e o professor Romeu Filemon, isso evitaria o disse não disse e evitaria que cada um formulasse o seu pensamento, e talvez o treinador já tivesse voltado para o seu cargo”.

Armando Machado, disse  “que não entendi o que a  direcção da FAF pretende, porque por um lado  penalizou o treinador principal por ter faltado a um treino, mas por outro permite que o substituto tome conta da selecção nacional mesmo com a licença expirada”. O dirigente interroga, que se por um lado a direção da FAF não admite quem falte ao serviço sem aviso ou pedido, como é que permite que “um desencartado conduza a sua viatura.

“Sim, é essa a condição do professor e técnico Kilamba, sem requisitos exigidos pela CAF para  sentar-se no banco como treinador. É como se estivesse com a licença expirada, comparada a um individuo que conduz com a carta de condução expirada. Não pode conduzir”.
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CHAN
“Palancas devem manter
forte espírito ganhador"

Armando Machado,  actualmente é  presidente honorário da FAF, disse que durante todo o CHAN, " os Palancas Negras devem manter forte espírito ganhador". O jogo com os Camarões já passou e virão outros, mas lembra que “antigamente, só o nome Camarões já ganhava jogos. O Congo Democrático, pelo que sei está bem, e pode criar-nos alguns problemas”.

O mesmo acredita, que neste tipo de competições como o CHAN, as equipas estão quase equiparadas, as chamadas “feras” que militam no futebol europeu, como é o caso dos Camarões e a RDC, não são convocados. "A primeira vez que participámos no CHAN fomos à final, agora podemos também fazer uma boa figura, mas atenção, os nossos jogadores precisam de muita motivação”, lembrou.

GIRABOLA
Com relação ao Girabola de 2016, Machadinho prevê que vai decorrer em função da saúde financeira de cada clube,  aponta o Libolo, 1º de Agosto, Petro de Luanda, Kabuscorp do Palanca, como os principais candidatos ao título, mas puxa também pelo Benfica de Luanda e  Interclube, porque podem surpreender.