Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" O Inter cresceu muito"

Valódia Kambata - 21 de Novembro, 2017

Paulo Torres técnico do Interclube

Fotografia: Vigas da Purificação| Edições Novembro

Qual a avaliação que faz da temporada finda, em que o Interclube ficou classificado em quinto lugar?
Foi uma época dividida em duas partes, fizemos coisas positivas e coisas  menos boas.  Como qualquer em equipa quando se inicia um processo, a equipa tem fases e pormenores na sua estrutura, que tem de ser bem consolidada.  E, no processo que foi desenvolvido, criamos uma concentração e dinâmica na transição defensiva, que tinha que ser tomada, pois, nos últimos anos o Interclube sofria muitos golos, por isso, era necessário estancar isso,  e dar consistência à equipa.
Na primeira volta, sofremos poucos golos, aos poucos começamos a ter qualidade. Porém, faltou o último terço, ou seja, faltou golo, embora, termos criado uma média de cinco a seis oportunidades de golo, e isso custou-nos caro, pois, foi uma primeira volta que em termos de pontos e golos ficamos abaixo do ideal para nós.

Os jogos fora de casa foram sempre mais difíceis...
Fora de casa,  tivemos muitas dificuldades de impor o nosso jogo e ganhar, bem como  impor situações difíceis aos nossos adversários, acabámos por fazer uma primeira volta muito em baixo.
Na segunda volta, tivemos que fazer uma reestruturação do plantel, e com a entrada de outros jogadores trouxeram outras soluções, com uma parte consolidada tínhamos que partir para outra parte, que era jogar mais alto e dar outra profundidade à equipa, e a partir daí, fizemos mais golos e ganhar fora.  Por isso, considero uma segunda volta positiva.

O que faltou ao Interclube, para ser uma equipa mais concretizadora, na primeira volta ?
Na primeira volta tivemos problemas de finalização,  não que seja desculpas, mas houve jogos que actuamos sem ponta-de-lança.  O Moco lesionou-se, e ficámos sem a nossa principal referência no ataque.  A equipa criava várias oportunidades mas não marcava. Faltou agressividade naquela zona, houve falta de criatividade nos  movimentos entre colegas em campo, ou seja, faltou alguma qualidade.

Terão pecado por não contratar mais pontas -de -lança na pré-época?
Nós construímos um plantel equilibrado. Tínhamos o Chico, que era um ponta - de -lança de referência, o Mayamba que não se adaptou, e o Chiló que não era propriamente um ponta -de -lança.  Mas aí, tivemos de alterar as estratégias, pois, com os atletas de referência não atingíamos o golo. Vale dizer, que nós no Interclube  trabalhamos em conjunto, há uma definição de estratégia do que é o perfil, e a escolha do atleta. Agora, pecamos, se calhar, em algumas decisões e isso serve para aprendermos, e viu-se na segunda volta, que fomos perspicazes na escolha do Richard, Roland e Duarte, jogadores que trouxeram algo de bom à equipa, a prova são os golos .O Interclube, na segunda volta, foi aquilo que eu pretendo. Uma equipa para ser campeã, que para disputar títulos tem de ser constante, determinada na busca da bola  e preenchimento dos espaços .

O Interclube  realizou uma boa segunda volta . Quais foram os segredos para a melhoria acentuada?

 Tudo o que temos feito deve-se essencialmente ao trabalho , e à forma como mentalizamos os jogadores, para o que representa a camisola deste clube. Além disso, houve também uma rápida assimilação, do que pretendíamos em relação ao Interclube. Temos ainda muito para melhorar defensivamente, e isso vocês verão. Em termos individuais, recuperamos jogadores para níveis maiores e  melhores, técnica, táctica e fisicamente em relação à primeira volta. Na segunda, a equipa cresceu muito.

A indefinição da equipa técnica, no começo da época terá atrapalhado alguma coisa?  
Tudo ficou definido, antes da pré-época. Eu estive em Angola, dois meses antes de terminar o campeonato, vi alguns jogos juntamente com o Filipe, houve o conhecimento mútuo do que era o jogador do Interclube, a pré-época foi definida e idealizada  com muito tempo de antecedência. Agora, dizer que eu era o treinador adjunto, longe disso. Eu não era adjunto, fui escolhido para treinar o Interclube, nas mesma condições que o Filipe Moreira, tinha de haver um principal, eram dois treinadores  e foi assim que a equipa técnica se organizou.O Filipe saiu, por questões que ele apresentou, e eu conhecedor do trabalho idealizado   bem como do clube e dos jogadores, naturalmente, alterei a metodologia de trabalho.  Penso, que em uma semana, ainda não tinha consolidado os processos, pois estava na fase de trabalho físico.

O objectivo traçado pela direcção sempre foi a conquista do título?
Em termos de título queríamos ganhar, mas em termos do que foi o processo iniciado, neste momento estamos muito melhor preparados, e a prova é que acabamos a época num nível que eu considero muito bom. No aspecto da dinâmica, consolidamos o processo da cultura táctica. Podemos dizer, que temos uma família estruturada, que  vai dar resultado, por tudo aquilo que foi feito.

RENOVAÇÃO
“Não foi por dinheiro mas pelo projecto”


Vai continuar à frente do Interclube, por mais dois anos. Está satisfeito com a renovação?
Chegamos a um acordo de renovação, por duas temporadas. É algo, que sempre desejei, não por dinheiro, mas pelo projecto criado pelo presidente do clube, que é uma pessoa muito dedicada, também pelos jogadores que acreditaram que era possível continuar com o projecto.Uma vez que mereceu a confiança da direcção, o que pensa fazer nestes dois anos? Este é um projecto bem pensado, e se calhar, daí, a minha continuação. Confesso que se tivesse de sair, ficaria muito triste, pois, ia  quebrar  um trabalho longo e muito árduo, em que estruturamos uma equipa que voltou a deixar a sua marca  no futebol angolano. Logo, nós não vamos fazer grandes mudanças, porque senão acaba-se com o projecto que começamos. Vamos melhorar algumas coisas, como é obvio, mas na equipa não vai  mexer-se muito, isso, em função  dos objectivos que temos, que é jogar melhor ainda.

Neste momento, quais os sectores que mais necessitam de reforçar? 

Na realidade, nós não precisamos de preencher alguns lugares, necessitamos de jogadores que venham ajudar a nossa equipa, ou seja, que estejam disponíveis para  a equipa. Vou dar um exemplo, o Tó Carneiro é um puro dez, mas que a determinada altura teve de ser adaptado a lateral esquerdo, e tornou-se num dos melhores laterais esquerdos do Girabola. É desse tipo de jogador, que nós queremos.

Quanto a dispensas, já sabe quem sai?
Penso, que os jogadores menos utilizados, devem ser dispensados. 

O Interclube classificou-se em quinto lugar. Como treinador, qual é a meta para a próxima temporada?

O que eu posso garantir, é que o Interclube vai jogar duas vezes mais, em relação ao que mostrou neste campeonato. Se vamos ser compões ou não, a verdade é que vamos ter uma equipa muito mais competitiva, que vai lutar de igual para igual com qualquer equipa, não só no Girabola  como no mundo. Já temos os processos bem alinhavados,  por isso, acredito que na próxima temporada terão um Interclube bastante agressivo a nível competitivo. 

ANGOLANOS
“existe bons treinadores”


Como avalia o trabalho dos treinadores angolanos, no Girabola Zap?
Olha existe muitos bons treinadores  angolanos . Treinadores com competência na organização de jogos, e estruturação das equipas. Ao logo do Girabola, vi muitos treinadores com capacidade para treinar qualquer equipa na Europa, penso que não devem nada a ninguém, e devem continuar a trabalhar .

Pode citar nomes de alguns treinadores, que lhe tenham chamado a atenção? 

Claro que não vou citar . Temos visto  muitos treinadores  a desfilarem no Girabola,  e por isso, não é necessário citar algum treinador . Agora, eu acho que se deve dar mais valor a estes treinadores angolanos.

Como assim?
Os treinadores estrangeiros vem para Angola, mesmo com o nível C, treinam sem qualquer problema.  Os angolanos com o nível C, não podem treinar fora, porquê? É altura de valorizar o treinador nacional, e uma das formas é exigir o mesmo, que exigem lá fora. Assim, estaríamos a valorizar o treinador, que muito faz para o crescimento do futebol nacional .

Há muita gente que não
conhece o futebol angolano”


Ficou aborrecido com as declarações de Jorge Jesus, quando classificou o futebol angolano, igual ao da segunda Divisão B, de Portugal ?
Há muita gente que não conhece o futebol angolano, há bem pouco tempo, um treinador top em Portugal  disse, que o campeonato angolano está ao nível do campeonato da segunda divisão B. Devo dizer, que não estou de acordo. O campeonato angolano é extremamente competitivo, é forte, pois, uma equipa que está a descer de divisão pode ganhar o primeiro classificado, tal como aconteceu esta época, e nós passamos por isso. É para dizer, que os jogos são bem disputados.
O campeonato  angolano está num nível muito bom, e não tenho dúvidas que muitos  jogadores que estão aqui no Girabola,  podem jogar na primeira divisão em Portugal. E, não me venham dizer que não, pois, eu joguei na primeira divisão e sei, como é lá.

O que acha da qualidade do futebolista angolano?

O jogador angolano é bom,  não podemos estar aí a ouvir, que o jogador angolano precisa de melhorar tacticamente . Agora, as pessoas têm de perceber, que o jogador africano não deve ser tratado com um pau na mão, temos de perceber que crescem com muitos problemas. Nós os treinadores, é que temos de os ajudar.
Agora, se vais massacrá-lo, vai acontecer o que se diz, o atleta tecnicamente é zero,  isso, é mentira. Um treinador deve saber tirar o que tem para dar. O jogador africano, tecnicamente é bom, temos de falar isso, não podemos entrar no ridículo. Trabalho há muito tempo em África, e sei que jogador africano tem cultura táctica, é inteligente, e merece respeito.

Sendo um treinador português a trabalhar em Angola, como se sentiu ao ouvir as declarações de Jorge Jesus?
Senti-me triste. Na altura não respondi, pois, achei que não era o momento. Acredito que ainda vou ter oportunidade de falar sobre isso, em Portugal. Por outra, em Angola não me sinto estrangeiro. Aliás, quem vem trabalhar para Angola, deve adaptar-se ao país, e não o país adaptar-se a ele.  Por outra, fiquei meio triste com alguns treinadores, que passaram por aqui,  conhecem a realidade angolana, o futebol, e ainda assim, ficaram calados ante essa barbaridade. 

Já conhecia o futebol angolano?
Já conheço o futebol angolano, há muitos anos. Quando estive na selecção da Guiné Bissau, tive dois jogadores que passaram aqui, o Ibraim e o Mendes , para além de ver muitos jogos, eles falaram do que era a competitividade deste campeonato. Obviamente, que chegar aqui, e ver tudo na prática, é completamente diferente.

O que o surpreendeu mais, desde a chegada a Angola ?

A grandeza do clube. Uma coisa é não vivermos cá e ouvirmos falar do Interclube, e outra completamente diferente, é chegar à cidade e constatar a dimensão enorme do clube. As pessoas exigem que joguemos bem, que ganhemos, e que lutemos pelos troféus. Quem gosta realmente de futebol, vive o Interclube de maneira muito intensa.

A equipa conseguiu aliar os resultados às boas exibições. Sente que podem melhorar mais o futebol praticado, e o quinto lugar no último Girabola Zap?
Podemos fazer sempre mais,  melhores exibições e resultados. Em termos de tabela classificativa, o quinto lugar não é mau. Claro que queremos melhorar, ter mais vitórias e mais golos. Temos de nos certificar, que os jogadores não se acomodem, e que semana após semana queiram jogar melhor, e ter mais êxitos. Esse é o caminho a seguir. Representar o Interclube, exige que lutemos por lugares condizentes, com a história do clube.

SCOUTING e FORMAÇÃO
“Interclube está fazer um bom trabalho”

O Interclube está a lançar nos últimos anos jovens, provenientes de escalões da formação. É uma aposta arriscada?
O  Interclube está a demonstrar ao longo dos anos, que faz um bom trabalho de scouting. Têm sido descobertos bons jogadores, nesses escalões. Isso, deve-se a um trabalho invisível, que quando bem feito, permite colher frutos. É um risco calculado. Quanto às camadas jovens, o Vitória tem dado ao futebol jogadores de qualidade, como no ano passado. Este ano, também temos miúdos com potencial, como é o caso do Tó, e o Caleby, que é um jovem com muito valor e pode vir a dar muitas alegrias  ao nosso clube.

O que quer dizer, é que vão continuar apostar na formação?
Claro que vamos  continuar a apostar na formação.  Esta época tivemos duas grandes apostas, como é o caso  do Caleby e Tó Carneiro, dois atletas de selecção, e por isso, vamos continuar a olhar para a nossa formação. O Interclube está a fazer um trabalho extraordinário, e penso que ainda vamos colher muitos frutos deste trabalho. Nesta altura, temos  já cinco jogadores que vão trabalhar com a equipa sénior, o que mostra o nosso grande interesse na nossa escola.

CHAN-2018
Selecção  Nacional  já devia ter um técnico


Falta  pouco tempo para o CHAN-2018, e ainda não temos treinador para a Selecção Nacional...

Infelizmente. Para  uma competição como esta, já devia ter uma equipa técnica formada, que trabalhasse  na escolha dos jogadores. Penso, que com a saída do treinador perde-se muito, pois, já tinha trabalho feito com atletas catalogados, e com isso, quebra-se o ciclo, depois tem de começar de novo.

Mas o técnico já deixou uma pré-convocatória ?
 
O treinador que assumir o comando da Selecção Nacional, pode não concordar e fazer também as alterações que desejar, por isso, seria bom que continuasse.

É apologista de que o treinador de um clube deva ser também o seleccionador nacional ? 
Não. É necessário aclarar, que para esta situação em concreto, era fundamental manter o treinador à frente da Selecção, pois foi ele que estruturou o grupo de trabalho e trabalhou com eles para este fim, e por isso, naturalmente,  seria ele o treinador da Selecção Nacional  para esta competição. Agora, eu não concordo que o treinador para a Selecção Nacional seja também treinador de uma equipa,  em simultâneo.

Porquê ?
A Selecção Nacional precisa de um treinador, que trabalhe a tempo inteiro. Alguém, que se preocupa com a Selecção, mesmo quando não há competição. Que entra às 8 horas e sai às 18 horas, que se preocupa em ver os jogos do campeonato nacional, para então, fazer as escolhas justas. Quando o treinador não leva os clubes ao peito, faz uma convocatória equilibrada. Nós assistimos a isso, basta ver quem era o melhor guarda-redes do Girabola,  e quem é que jogava. 

Qual seria o perfil ideal, para o  treinador dos Palancas negras? 
Eu acho, que o treinador  ideal para a Selecção Nacional, tinha de ser um angolano que conheça bem os nossos jogadores. Existe muitos treinadores com qualidade, e que têm feito bom trabalho.  Por outra, atendendo o facto de falta de verbas, esse problema  de divisas que o país vive, seria  bom que fosse um treinador  de cá, pois, não havia problemas de ter de pagar em divisas, e isso, ia ajudar em muito a contenção de gastos.

Um treinador angolano seria para curto, médio ou longo prazo?

Seria  um treinador para médio ou longo prazo, desde que se criasse um plano de trabalho sério, e espaço para desenvolver o seu trabalho.