Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" Pas tem talentos por lapidar"

Hermnio Fontes - 19 de Março, 2014

Fotografia: Francisco Bernardo

O antigo futebolista do Atlético Sport Aviação (ASA), do 1º de Agosto e do Sporting de Portugal, Joaquim António Dinis, manifestou-se preocupado com o futuro do futebol nacional. Em entrevista ao Jornal dos Desportos, “Brinca na Areia”, como é conhecido nas lides futebolísticas, chamou a atenção aos responsáveis do desporto no país, no sentido de serem implementadas políticas que possam alterar a realidade, pois na sua visão, Angola mantém talentos que precisam de serem descobertos e aproveitados.
Dinis sustentou o que diz com a competição realizada recentemente, que fez parte da equipa técnica com o antigo guarda-redes da Selecção Nacional, que esteve no Mundial da Alemanha de 2006, João Ricardo, e o treinador de formação do Petro de Luanda, Carlos Queirós.

JD- Como antigo futebolística e craque de dimensão mundial, qual deve ser o procedimento das equipas nacionais e centros de formação desportivas para que num futuro breve, o país tenha o maior número de estrelas no desporto rei?
- É necessário que se aposte no futebol jovem, mas quando falamos em aposta, deve ser mesmo algo muito sério.

JD- Podia explicar melhor o que diz?

- Quando falo em aposta, não falo apenas de promessas, pois o futebol jovem em Angola continua a precisar de apoios nas mais variadas componentes. Como sabem, os nossos jogadores em termos de peso ainda são fracos, o futebol hoje tem esta componente, que é a força física de cada jogador em campo. Por isso, temos de dotar os nossos jogadores com boa dieta alimentar. É preciso que os clubes saibam levar em conta a necessidade de se criar centros de treinos com todas as condições criadas, para além de construírem apenas estádios.
Exemplo disso,  é o centro de treinos  desportivo da Associação de Futebol de Angola (AFA), do 1º de Agosto, no ex-RI 20,  do ASA, na zona do aeroporto internacional 4 de Fevereiro e do Petro no Catetão. É nestes locais que se fabricam jogadores. Chamar aqui a atenção de que o futebol de Angola tem todas as condições para continuar a dar jogadores excelentes, que possam convencer o continente e o mundo, aliás, o país, desde o passado sempre soube dar a Europa grandes nomes do futebol. Atletas como Peyroteu, Zé Águas, Benge, Vasconcelos, Zé Maria, Jota Jota, Jorge Mendonça, Inguila, Laurindo, Joaquim Dinis, Akwá e Mantorras.

JD- O Joaquim Dinis está preparado para ajudar o país a encontrar soluções para que tenhamos num futuro próximo mais craques, como no passado, e que possam fortalecer a Selecção Nacional de honras para que possa marcar presença regular nos CAN, CHAN e até mesmo no Mundial?
- Nunca me engano no que, em termos de olho clínico, toca a potenciais jogadores de futebol. Lembro-me que comecei nas lides de futebol se calhar com 17 anos, e já era treinador de atletas mais velhos do que eu, isto na década de 60, lá na Escola do Zangado (bairro do Marçal). Para dizer que raramente me engano nas previsões. Lembro-me que quando os dirigentes do Progresso Sambizanga me convidaram para assistir os jogos dos juniores, estavam lá o Mantorras, o Miloy e o Zeca, eram três jogadores que eu lancei para a equipa sénior, pois que na altura treinava aquela equipa. Nesse tempo, o Mantorras já demonstrava grandes qualidades, deu saltos qualitativos, e foi a lesão que o impediu de ir mais longe, assim como também o Job, na altura miúdo na escola do ASA.

JD- Mantorras, Miloy, Zeca e Job fazem parte de um passado recente. O que tem sido feito para a descoberta dos futuros craques da bola?
 - Precisamos levar avante este projecto, quero com isto dizer que o trabalho deve ser contínuo, tudo por amor ao futebol e ao nosso país. Por exemplo, no ano passado participei da primeira edição do concurso infanto-juvenil de futebol, denominado “Astros do Futuro”, organizado pelo Grupo Adriano Maia Internacional, de onde o vencedor foi o adolescente de 15 anos de idade, de nome Domingos Mateus Bartolomeu, conhecido por Bebucho, da escola de formação desportiva do Petro de Luanda (Catetão).

JD- Com base nos conhecimentos que tem, o vencedor deste concurso tem qualidades para que no futuro seja uma estrela para o nosso futebol?
 - O Bebucho é habilidoso, dotado de fortes e grandes qualidades técnicas. Sabe jogar a bola, o seu futuro, apesar da idade (15 anos), depende de certa forma do seu querer. É preciso correr atrás do sonho, ser bem acompanhado e também ter juízo, isto é, continuar a estudar para que no futuro seja um atleta formado, tanto no campo do futebol, como no académico.


EQUIPA TÉCNICA
“A nossa missão foi de observação”

JD- Na qualidade de “observador” de jogadores por que razão não fez parte do grupo que acompanhou os rapazes a Portugal, em atenção também à sua condição de figura emblemática naquele país da Europa?

-Tanto eu, como o João Ricardo e Carlos Queirós, fizemos parte da equipa técnica que trabalhou até conseguirmos eleger o “atleta craque” da competição. Por questões pessoais, não pude acompanhá-los à escola de formação do Sport Lisboa e Benfica, mas mesmo assim, os meus colegas fizeram um grande trabalho, durante a estadia com os futuros craques do nosso futebol.

JD - O facto de Joaquim Dinis fazer parte dos “imortais” do Sporting Clube de Portugal, não acha que caso os rapazes fizessem o estágio na Academia de Alcochete, pertença dos leões de Alvalade, tinham um melhor aproveitamento?
 - Risos! A decisão da realização do estágio em Portugal, concretamente nas instalações desportivas do SL e Benfica, foi tomada pela organização do evento desportivo e não da equipa técnica.

JD - Qual foi o papel da equipa técnica durante os testes feitos aos candidatos que sonham, um dia, profissionalizar-se na carreira futebolística?
- A nossa função, na qualidade de membro da equipa técnica, era mais de observação. Cingia mais nos aspectos técnicos, incluindo habilidade e também a componente física de cada atleta, que fez parte deste projecto “caça talento”, uma vez que precisamos de continuar a descobrir rapazes com qualidades aceitáveis para o engrandecimento do futebol nacional. Penso, que atingimos este objectivo. E o Bebucho, dos três primeiros classificados, Alberto e Nelson (segundo e terceiro), foi o que melhor desempenho teve, razão pela qual foi o vencedor da edição.

JD - À luz da actividade realizada, o que se lhe oferece dizer em relação ao projecto da Adriano Maia Internacional?

- O futuro do futebol de Angola depende destas organizações. Acho que valeu a pena, foi uma aposta muito boa, houve visão por parte do Adriano Maia Internacional, empresa responsável pela 1ª edição do Astro do Futuro, ao projectarem a descoberta de novos talentos para o futebol. Espero que mais edições se realizem, no sentido de promovermos o futuro das nossas crianças, uma vez que o país os espera. Tivemos uma aderência maior daquilo que pensávamos, sem exagero, a competição passou da expectativa.

VENCEDOR  DO “ASTRO DO FUTURO”
Bebucho ainda pode regressar a Lisboa


JD- O vencedor da primeira edição do concurso “Astros do Futuro” foi o único talento distinguido?
 - Não! Para além do Bebucho, atleta com qualidades para ser verdadeiramente um bom jogador, um outro garoto de nome Alberto também foi distinguido, foi o segundo classificado da primeira edição do concurso “Astros do Futuro”. Ambos, com certeza, fazem parte do número dos futuros craques da nossa selecção. Para estimular os dois atletas a continuar a carreira futebolística, a organização do evento, Adriano Maia Internacional, deu como prémio uma visita ao centro de formação do Sport Lisboa e Benfica, onde realizaram um estágio de uma semana. Na ocasião foram acompanhados pelo antigo guarda-redes da Selecção Nacional, João Ricardo, e pelo técnico Carlos Queirós, quadro do Petro de Luanda. Os rapazes tiveram a possibilidade de conhecer outro país, outra cultura, outros jogadores, trocaram amizades com os rapazes daquela instituição desportiva, conheceram também o Estádio da Luz, tudo isto foi uma coisa benéfica para o contributo de cada jogador. Se tudo correr bem, Bebucho pode voltar para o centro de formação do clube português, de onde se espera tornar-se um profissional.

JD- A prioridade dada ao vencedor da primeira edição do “Astros do Futuro” pode incentivar outros rapazes a participar em mais concursos desportivos, em particular o futebol?

- Esperamos que o testemunho do Bebucho, que se centra na possibilidade de formar-se no centro de formação do Sport Lisboa e Benfica e academicamente em Portugal, possa servir de motivação a outros concorrentes aos concursos infanto-juvenil em futebol em particular para o Astros do Futuro.
Hermínio Fontes