Jornal dos Desportos

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Entrevistas

" Sonhar ser presidente do Petro"

Paulo Caculo - 02 de Outubro, 2017

O guarda-redes garante manter frescura física e mental para discutir um lugar na baliza do Petro e da Selecção

Fotografia: Jornal dos Desportos/ Edições Novembro

Luís Mamona João "Lamá" dispensa qualquer apresentação. O guarda-redes, é o exemplo vivo de longevidade, no futebol angolano.  O jogador realiza a 23ª temporada consecutiva, ao serviço do Petro de Luanda, clube que o projectou para a alta competição.
Aos 36 anos, Lamá representa o símbolo de um dos jogadores mais experientes do Girabola Zap,  um dos que está há mais tempo no mesmo clube.
Na sua primeira Grande Entrevista ao Jornal dos Desportos, o guarda-redes confessou vários sonhos, entre os quais o de um dia tornar-se presidente do Petro de Luanda. "Com Deus nada é impossível", garantiu ele.
E, com a mesma fé, Lamá assegurou estar confiante de que mantém a "frescura física" para realizar mais três épocas no Catetão.




Não costuma ser habitual, na história do futebol, ver um jogador ligado a um clube durante 23 épocas consecutivas. Alguma razão especial?
Devo confessar que já esperava há algum tempo, para falar sobre estes meus anos no Petro. Em primeiro lugar, é  Deus na minha vida, em segundo, a disciplina no meu trabalho. Sou um jogador que cuida do corpo, não perco noites, e nem faço uso de bebidas alcoólicas. Também não tenho muitos vícios, e penso ser a razão pela qual conquistei estes anos todos na permanência no Petro de Luanda.

Ao longo destes anos, surgiram outros clubes interessados nos seus préstimos, o Petro não o deixou sair ou foi opção sua, apostar na continuidade no clube?
Houve cobiça de outros clubes, durante este período. Tive propostas, quer em Angola como no Egipto e na África do Sul, mas como tinha contrato com o Petro,  sempre estive preso a um contrato, o clube achava que fazia falta, tornou-se difícil sair.

Pessoalmente, em algum momento chegou a sentir desejo de trocar de camisola?

Sim. Foi nos finais do ano 2001, na altura, tivemos uma campanha brilhante com o Petro na Liga dos Campeões, com o malogrado técnico Djalma Cavalcanti, que depois transferiu-se para o Mameloud Sundows, da África do Sul, nessa altura, acabei por receber uma proposta deste clube, que estava muito interessado na minha transferência para o futebol sul-africano. Foi nessa altura, que pensei seriamente em trocar de camisola. Infelizmente, não houve maneira de haver acordo com o Petro.

Ao longo destes anos todos, que grandes memórias guarda das anteriores épocas rubricadas  ao serviço do Petro de Luanda?
Muitos títulos, muitas conquistas, mas também alguns dissabores, que é normal. Na vida nem tudo é um mar de rosas. Existem também decepções. Contudo, só com trabalho foi possível alcançar os resultados todos. O primeiro jogo, que fiz na Liga dos Campeões , em que fomos jogar com o Asec Mimosas de Abidjan, lembro-me de uma história caricata. Na altura, tinha 20 anos,  tinha feito o jogo da primeira mão, em Luanda, mas como era miúdo e com pouca experiência, tive medo de fazer o jogo em casa do adversário, como se diz na gíria do futebol, decidi fugir do jogo.

Porquê?
A pressão era demais, era tanta gente no Estádio e decidi ir ter com o médico, na altura o doutor Caetano, e disse-lhe: «doutor Caetano estou com uma dor no joelho, acho que não vai dar para jogar». O doutor, por sua vez, deu-me um comprimido, e depois perguntou: «como é que te sentes agora», ao que respondi que já estava a sentir-me melhor. Depois de algum tempo, o doutor volta a chamar-me para dizer: «lembras naquele jogo em que te dei um comprimido para tomares? Não sabias de que comprimido se tratava. Era uma vitamina!». Este foi um dos momentos mais marcantes.

Como foi a ascensão ao escalão de seniores. Foi um processo fácil, ou nem por isso...?
 Foi um processo normal. Comecei pelas camadas de formação, como é óbvio. Fiz uma época nos caçulinhas, outro ano nos juvenis, e dois anos nos juniores. Lembro-me ainda, na altura de que estava o professor Carlos Queirós, mister Santana, Man Franco, foram estes que me ajudaram a realizar as etapas todas da formação, até à equipa principal.

Disse, que viveu também dissabores. Gostava de partilhar algum connosco?
Um dos grandes dissabores, que me recordo, foi depois da minha subida ao escalão de seniores, em 1999, o treinador apostou em mim, no jogo da Taça de Angola frente ao 1º de Agosto. Depois de ter feito um bom jogo na primeira mão, perdemos por 4-0, na segunda mão. Foi um dos grandes dissabores que vivi na minha carreira.

Quantas épocas gostava mais de jogar?
Gostava de jogar mais três anos. Ainda tenho muito para dar ao futebol. Sinto-me bem, e em condições de continuar a jogar, e a cumprir a minha carreira. Estou a cumprir o último ano de contrato, mas tenho proposta de renovação, devo assinar nos próximos tempos. Costumo dizer que quem acredita em Deus, e coloca o trabalho e a disciplina em primeiro lugar na sua vida, tem caminho aberto para o êxito. Foi fruto disso, que o clube me chamou novamente para renovar. Não sei ainda por quantas épocas, mas gostava de ficar por mais três anos.

Tem jogado muito pouco este ano. A condição de suplente preocupa-o?
De forma alguma. Sei que o meu momento vai chegar. Estou a trabalhar para isso. Acredito no meu trabalho, na minha disciplina, e em tudo que sou capaz de fazer, para ajudar a equipa a alcançar os objectivos.

Foi campeão de sub-20. Representou quase todas as selecções. Sente-se um guarda-redes realizado?
Nunca estou satisfeito com aquilo que faço. Sempre quero mais, e mais. Há dias estive a brincar com o meu treinador, o professor Bianchi, que é também o seleccionador nacional, disse-lhe que havia de regressar um dia à selecção. Ele pôs-se a rir. Sou daquelas pessoas muito fortes mentalmente. Não me deixo abalar, por absolutamente nada, neste mundo. Acredito, que se continuar a trabalhar como tenho feito até aqui, ainda posso agarrar um lugar na selecção.

Mas, para tal, precisa de recuperar a titularidade...
Tudo ao seu tempo. Acredito em dias melhores, apesar de que Gerson está «duro» na baliza (risos..). Mas vou trabalhar, para que tudo seja possível. Com Deus nada é impossível.

Sente que a concorrência está muito forte na baliza?
Devo confessa que sim, está muito forte. Não posso esconder isso. Tenho visto a evolução de Gerson na baliza,  devo dar-lhe os parabéns, porque neste momento é o melhor guarda-redes que temos no País. Precisámos de trabalhar muito para superá-lo. Sei que para ser melhor, tenho de trabalhar muito, para ultrapassar o nível que ele atingiu.

Que avaliação faz do momento actual da sua carreira?
Normalmente, pela idade, acredito que qualquer jogador com 36 anos já não é o mesmo que quando tinha 20 anos. É claro que baixam um pouco os níveis, o importante é sermos fortes mentalmente, e trabalhar ao máximo. Quando a cabeça quer, o corpo obedece. Acredito, que se estou até hoje na equipa, e sou convocado, é porque a equipa técnica vê qualidades em mim. A questão é o que faço, para estar em forma. O que os meus colegas procuram fazer, eu tento fazer em dobro, de formas a que consiga chegar ao nível do que eles estão.

“Quero ser presidente do Petro”
Diz o adágio popular, que o sonho comanda a vida. E, o guarda-redes do Petro não tem cerimónias, quando a questão é abordar os seus sonhos. Afirma, que um dia vai ser o Presidente do Petro de Luanda, porque conhece muito bem a casa, ama o clube do coração, e vai estar disponível a  todo o seu tempo em prol das causas do clube.

 
Já pensou o que vai fazer depois de encerrar a carreira?
Com certeza. Já foi tudo analisado, está tudo escrito e acertado. Acredito, que as pessoas entendidas na matéria sabem. O objectivo do clube é fazer de mim, o próximo treinador de guarda-redes da equipa principal, e ser o coordenador das camadas jovens. Quem substituiu o Marito no Petro, fui eu. De lá para cá, já passaram cerca de 16 anos, e não houve mais qualquer guarda-redes que chegou e ficou anos e anos como tenho conseguido. Alguns estiveram aqui, fizeram a sua história, mas acabaram por sair depois. O objectivo do clube é formar guarda-redes e nunca comprar. Este, é o objectivo do clube, depois  da minha saída do activo.

Está acautelada a sua formação adicional?
Vou fazer uma formação antes, porque hoje em dia nada se faz, sem o recurso ao conhecimento cientifico. Quando terminar a carreira, vou dar sequência aos meus estudos, e fazer outros cursos suplementares de treinador de futebol, na especialidade do treino de guarda-redes.

De que forma o Lamá é tratado no Petro?
Sou muito bem tratado por todos, como um filho, um irmão, um amigo, e companheiro de todas as lutas. No Catetão, as pessoas chama-me carinhosamente, «Papá Lamá». Fiz muitas amizades, e todos os dias há pessoas a vir ter comigo, para pedir conselhos. Isso, faz-me feliz, e deixa-me muito satisfeito. Mesmo os garotos da formação recorrem a mim, com frequência, para solicitar a minha ajuda em todos os aspectos, quer seja para pedir dinheiro para o táxi, ou para comer alguma coisa. Ajudo-os, com total satisfação, como se fossem meus filhos.

Existe alguma referência no Petro, que um dia tenha servido de exemplo?
A minha maior referência, sempre foi o Marito. Gostava de o ver jogar, e sempre sonhei em seguir-lhe as pisadas. Foi emocionante, a primeira vez que treinei ao lado dele (Marito), na equipa principal do Petro de Luanda.

Qual é o seu grande sonho no Petro?
O meu maior sonho é ser o Presidente do Petro de Luanda. Tenho este clube no coração. Conheço todos os cantos da casa,  sei onde existem as dificuldades, e como ajudar a resolvê-las. Isso, é para materializar daqui a alguns anos. Com Deus nada é impossível. Pode demorar anos, mas para quem tem Deus, nada é impossível. Não é para breve. Por enquanto, espero jogar muito futebol, e ajudar a equipa a ser mais uma vez campeã do Girabola.

Lamá sonhava ser
engenheiro químico
A carreira de futebolística nunca esteve nas prioridades de Lamá. O guarda-redes do Petro confessou que sonhava ser engenheiro químico, dadas as excelentes prestações na carreira escolar, em que sempre se destacou entre os demais alunos da escola. As graves dificuldades financeiras enfrentadas pelos pais, na época, obrigaram - no a apostar no futebol, onde ganhava algum dinheiro para ajudar o pai, a mãe, e os irmãos menores. Abandonou os estudos à entrada da faculdade de engenharia.

 
Acredita que o Petro ainda pode ser campeão este ano?

Como existe uma grande competitividade este ano, entre o Petro e o 1º de Agosto, vamos precisar de manter a nossa humildade e o nosso trabalho, para conseguir os nossos objectivos. Acho, que tudo é possível, porque está tudo em aberto.

Como vê as possibilidades da equipa. A derrota com o Desportivo permitiu ao vosso crónico rival reassumir a liderança...

Até à última vitória, dependíamos de nós mesmos, porque estávamos na liderança, mas as coisas inverteram. Agora, precisámos de torcer por um deslize do nosso mais directo opositor, na corrida pela liderança. A derrota na Huíla não estava nas nossas previsões, aliás, nenhuma derrota entra nas nossas contas, mas fomos surpreendidos pelo Desportivo. Restam quatro jogos, e estes quatro jogos são para serem vencidos. São quatro finais, e as finais são para ganhar, e nunca para jogar.

Enquanto jogador mais experiente do plantel, que mensagens nestas ocasiões procura passar aos mais jovens no balneário?
Normalmente, quando noto que alguns colegas ou a equipa tem alguma dificuldade, procuro ser um conselheiro. Converso com os colegas, para primarem por uma vida mais regrada, e dormirem mais cedo. Peço a eles ,que sejam mais fortes, sobretudo mentalmente e acima de tudo serem humildes, porque a humildade ajuda-nos a crescer enquanto atleta.

Sente que pode recuperar a titularidade, apesar, do bom momento de Gerson?
Perfeitamente. Sinto-me muito bem fisicamente, e acredito que tenho muito para  dar à equipa. Por isso, não desisto e trabalho muito. Procuro ser sempre o primeiro a entrar no treino, e ser o último a sair. Os treinadores conversam muito comigo dão-me todo o apoio moral para prosseguir na minha carreira. Apesar, de que existia uma ideia, desde há muito tempo, que devia abandonar a carreira, tenho feito o contrário. Se o Gerson adormecer, vou passar-lhe o lugar. Se ele (Gerson) estive a ver que estou a subir, vai ter de trabalhar mais.

Jogar futebol sempre foi o seu sonho ou havia algo mais em primeiro lugar?
Sempre fui um menino estudioso. Pelas escolas onde passei, sempre fui um bom aluno, não apenas da minha sala, mas da escola toda. Sempre estive no quadro de honra. Mas com os momentos difíceis dos pais, tive de abandonar os estudos, porque não tinha possibilidades de conciliar os estudos com os treinos de futebol. Sou o primeiro filho do meu pai, e tinha de fazer alguma coisa para os ajudar. Houve períodos que estava muito apertado, porque era o guarda-redes de sub-17, sub-20 e da selecção de seniores. Não havia como estudar.

Qual era o desejo do seu pai?
Sempre conversei com os meus pais, queriam um engenheiro químico. Mas dadas as contingências da vida, não tive como concretizar o sonho. Cheguei a entrar na faculdade, mas tive de anular a matricula a meio do percurso, pelas razões que já enumerei.

FUTEBOL ANGOLANO
“Temos hipóteses de chegar ao CAN”
Lamá afirma, piamente, haver fortes possibilidades de Angola qualificar-se para o CAN de futebol, agendado para 2019, na República dos Camarões. Alimenta o optimismo com o facto de vislumbrar trabalho sério na selecção, mudança de mentalidade nos jogadores, e aposta da FAF.


Como vê o futebol angolano?
Falta ambição aos nossos jogadores. As pessoas hoje, contentam-se com muito pouco. Vejo jogadores, que acham que se venceu dois a três jogos, é o suficiente. No quarto jogo fica satisfeito mesmo com a derrota, só porque ganhou o jogo anterior. Vou dar só um exemplo: em 2001, no Mundial de 20, na Argentina, tínhamos um prémio de sete mil e quinhentos dólares para passar da primeira fase. Alcançar a segunda fase, recebemos o prémio, mas na segunda fase cruzámos com a Holanda, perdemos o jogo e depois da derrota, a caminho do Hotel, um colega olhou para mim e disse: «Lamá estás triste porquê, os sete mil e quinhentos dólares que recebeste não chega?». A partir daí, notei fraca mentalidade em alguns jogadores. O problema do nosso futebol é de mentalidade. Contentam-se como muito pouco hoje.

Que avaliação faz da actual selecção de honras?

A nossa selecção já teve mais dificuldades, e problemas no passado, depois da entrada do professor Beto Bianchi, houve melhorias. O novo seleccionador trouxe outra vivacidade ao grupo,  introduziu novos aspectos na selecção, que ajudaram a evoluir. Se repararmos, desde que o Bianchi assumiu a selecção, apenas tivemos uma derrota nos jogos oficiais, frente ao Burkina Faso. Angola subiu no ranking, e as pessoas passaram a acreditar muito mais no futuro. Acredito, que se formos mentalmente fortes, vamos atingir patamares muito alto.

Acredita que Angola vai qualificar-se ao CAN dos Camarões?

Penso que sim. Temos feito um bom trabalho. Se as coisas continuarem como estão, acredito que podemos nos qualificar para o CAN. Precisámos de ser mentalmente fortes, acreditar mais no nosso potencial, na capacidade do seleccionador e no trabalho que faz a Federação de futebol.

Gostava de fazer parte deste grupo que discute o apuramento ao CAN de 2019?

Queria muito estar presente. Sei que pode ser possível. Vou acreditar que posso chegar à selecção nacional. Já disse antes, sinto-me bem fisicamente, e estou em condições de continuar a trabalhar ao máximo.