Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

" Vamos revolucionar o nosso futebol com inteligência"

AF - 08 de Abril, 2015

Além disso, também jogava-se muito entre os bairros”recorda-se.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Por volta de 1950, com pouco mais de sete anos de idade, começou a ganhar o gosto pelo futebol. Aliás, era comum os garotos dessa idade na escola  Evangélica Metodista da dona Rebeca, no bairro Zangado, jogarem futebol nos intervalos das aulas. “Levávamos a nossa bola feita de meias e jogávamos descalços, porque os quedes ou os sapatos tinham de ser  guardados para irmos à missa aos domingos” começou por dizer o Kota Zé Cambuta.

Naquele tempo, segundo o nosso entrevistado, mesmo nas escolas haviam grandes trumunos entre turmas  pois “entre nós haviam muitos jogadores talentosos. Era comum nos intervalos das aulas os campos das escolas ficarem abarrotados de gente inclusive de  alguns professores para verem os desafios. Jovens como o José Eduardo dos Santos(o Presidente da República) que jogava a estremo direito ou a ponta de lança, Coimbra,  Pinto, Mário Surdo e outros já davam nas vistas na nossa escola.”

Entretanto, como o seu pai não tinha Bilhete de Identidade, "a minha mãe matriculou-me na escola do São Paulo, ali onde é hoje a Rádio Ecclésia e fui recebido pelos Padres Apolinário, Fulgêncio e Mariano.  Os professores eram os senhores  Guilhermino  e Mangueira. Aí fui companheiro do Fogo Negro, Dino Matross, Justino Fernandes, Rufino,  Zé Poio,  Manuel Júlio (Novato) agora Ngola Kabango, que era um ponta de lança possante e muitos outros com quem joguei futebol a nível da escola. Além disso, também jogava-se muito entre os bairros”recorda-se.

Mudança para
o Bairro Popular


Em 1951, mudou-se para o Bairro Popular com a  madrinha e posteriormente a  mãe também seguiu o mesmo rumo. No Bairro Popular havia apenas um clube chamado Espalha Brasas, onde despontavam nomes como o de João Capindiça, Vimk, Vitor, Zinho Palhadaço, Carlos Alberto Zacarias.  Entretanto, conta “ficávamos muito atentos aos trumunos dos kotas. No Bairro Operário os destaques eram: Copé, Garrido, Mascarenhas, Felix Matias, Bernardino e outros. Todos aprendíamos  com eles.

Com o surgimento do Botafogo, o Zé Cambuta passou a fazer parte da equipa, jogava na maior parte das vezes na equipa jovem porque nos jogos a doer entre bairros, só os kotas é que jogavam. “Naquela época o nosso campo principal era onde hoje se encontra o hospital dos queimados e era circundado por vários imbondeiros. Depois puseram lá um chafariz e posteriormente um mercado no bairro. Em consequência, passamos a jogar noutros campos como o do Kubaza, onde se encontra hoje  a Igreja Metodista e noutro que ficava  onde hoje se localiza escola 123”. 

Por volta de 1960, alguns kotas  do bairro dentre eles o Jacinto João que veio a jogar posteriormente no Belenenses, em Portugal,  fundaram o Brazzaville Futebol Clube. De entre esses e outros, o Zé Cambuta também fazia parte dos fundadores da equipa. Depois da independência do Congo Brazzaville, os integrantes do clube Brazzaville Futebol Clube passaram a serem vistos com maus olhos pelas autoridades colonialistas e considerados terroristas. Zé Cambuta diz: “por isso tivemos de mudar de denominação e passámos a chamar Perdidos na Bola Futebol Clube.”

Os Perdidos na Bola rapidamente ganharam espaço no Bairro pois  traziam grandes nomes da anterior denominação, como o Jacinto João(JJ), Ninito, Bastos, Baio, Adérito Maria, Puma, Victor, Nerú, Pimenta e companhia. No entanto, o nosso interlocutor disse que  “como  eu,  o Bibila, o   Jerónimo e outros  tínhamos poucas chances de jogar ao lado daqueles craques, então  decidimos fundar uma equipa a que denominamos  Assimilados Futebol Clube, para fazer frente aos Perdidos. A verdade é que sempre levamos “porrada”. Nunca vencemos nenhum jogo contra eles”. ...( risos)

Primeira derrota
do Ginásio Futebol
Clube


Depois, o nosso entrevistado da semana foi jogar para o  Estrela  Futebol Clube onde de entre outros destacavam-se o Fidel João Capindiça, André Elias, Machado, Satélite, Mário 102 e Adérito. O Estrela foi a primeira equipa a bater o Ginásio Futebol Clube. “Naquele tempo, por volta de 1958, o Ginásio, com Daniel, Justino Fernandes, Fragoso, Arcanjo, Loy, Mário Santiago, José Eduardo, Rufino, Vieira Dias, Tomás, Madaleno, Morais e outros, batiam quase todas as equipas dos Musseques. Aquela era uma equipa muito forte” recorda-se.

Zé Cambuta, considera histórico o dia  em que  o Estrela venceu o Ginásio por 1-0. Conta-nos: “foi num domingo. O jogo estava marcado para as 14h30. Mas duas horas antes, o campo do Académica do Ambrizete, hoje Mário Santiago, estava totalmente cheio. Fomos transportados no  camião do senhor Paulo Diahongo. Não fiz parte da equipa porque aquele trumuno era para os kotas. Quando marcamos o golo, por Carlos Alberto Zacarias, os homens do Ginásio, não se intimidaram porque estavam acostumados a virar o resultado. Quando assustaram já era”.

Zé Cambuta jogou também pelo Santistas Futebol Clube, com Diogo da Fonseca Mucongo (general Mucongo) à baliza, Miguel Neto e muitos outros. Nesse clube, o nosso entrevistado fez vários jogos a nível do bairro e outros tantos entre bairros. Naquela altura, os fins semanas nos musseques eram animados com jogos entre equipas de bairro com destaque para os Perdidos, Académica do Ambrizete, Las Palmas, Escola do Zangado, Benfica do Congo (que eram os donos do campo de São Paulo), Benfica de Calumbunze e outras.

De acordo com o Zé Cambuta, em Angola havia muitas equipas fortes. “Em  Benguela havia o Portugal de Benguela, seis vezes campeão Provincial (na era colonial Angola era considerada uma Província de Portugal), com Miau,  Januário Kandengandenga, Neto e outros, o Catumbela, com Frugier dos Santos, G Jordão e companhia, o Independente do Porto Alexandre (hoje Sonangol do Namibe) com os Manos Gancho e outros.

O “espião” de António Clemente

Com a chegada de António Clemente, o homem que revolucionou o futebol do Petro de Luanda, o clube do Catetão, destronou o 1º de Agosto, que mandava no futebol nacional. O mais velho segredou-nos: “tive o privilégio de privar com o falecido António Clemente e com ele aprendi muito sobre  futebol. Ele gostava muito de mim e ensinou-me muito sobre  treinos de futebol. Várias foram as vezes que ele me pedia para espiar os adversários com quem fossemos jogar sem que muitos ou quase ninguém soubesse, e por isso viajei muitas vezes com o Petro como membro da caravana a nível do Girabola. Foram grandes momentos para mim”. Actualmente, com 72 anos de idade,  Zé Cambuta, vive no Bairro Popular, na rua das Violetas, é engenheiro electrotécnico.

Perguntas e respostas
Jornal dos Desportos:

Em sua opinião onde reside o problema do futebol Angolano?
Zé Cambuta: Em primeiro lugar temos de acabar com  o empirismo no dirigismo desportivo. Depois fazer o que Petro de Luanda está a fazer. Dar oportunidades aos jovens formados nas escolas dos clubes. Dentro de um ou dois anos esses miúdos vão me dar razão. Portanto, vamos organizar o nosso futebol com inteligência, imitando os bons exemplos da  Alemanha que levou cerca de 12 anos a organizar-se para ganhar mais um Mundial.

Vem aí a Conferência Nacional sobre o futebol. O que espera do importante evento?
Espero que haja um debate franco. Deixem as pessoas falar livremente sem receios de represálias, só assim podemos atingir os objectivos preconizados para esse fórum.

Romeu Filemon é o homem certo para comandar os Palancas Negras?
O rapaz já deu mostras que é competente e  estudioso. Agora é preciso dar-lhe  mais autoridade e consideração.

Parece que não é desta vez que o 1º de Agosto regressará aos títulos. Quer comentar?
Desde que terminou o “mimo” de que todos os jogadores bons iam obrigatoriamente jogar para o 1º de Agosto, estamos a ver agora o que eles estão a passar! Está é que é a verdade desportiva. Só ganha quem merece e quem luta para ter os melhores jogadores na sua equipa por competência e visão e não por força de leis.

POR DENTRO


Nome completo:José António da Silva
Data e local de nascimento:2 de Junho de 1943 em Luanda
Estado Civil:Casado
Filhos: 09
Netos: 24
Hobby: Ler tudo sobre a minha especialidade
Profissão:engenheiro electrotécnico
Altura: 1.66m
Jogava habitualmente
com a camisola: nº 6
Musica:semba e latina americana
Medo: Ser agredido
Perfume: desde que tenha um bom cheiro
Prato preferido:Calulú de peixe grosso...
Bebida: quissângua e água
Cor preferida: azul
Peso: 80 kgs
Calçado nº: 41
Acredita em Deus:sim, porque a natureza revela a existência de alguém superior a nós.
Religião: metodista
Carro próprio: tenho
Casa: tenho
Amigos do Peito:Carlos João Francisco e o Sebastião Bento Lourenço
Clube do coração:Petro de Luanda e Belenenses de Portugal
Virtude: respeitar a todos
Defeito: sou ciumento
Político ou pastor: pastor
Como vê o futuro de Angola: Vamos atingir níveis espectaculares. Haja calma.