Jornal dos Desportos

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Entrevistas

A associao sempre foi me e madrasta para os corredores

Hlder Jeremias - 19 de Fevereiro, 2011

Responsvel associativo quer apoios para os pilotos angolanos

Fotografia: Santos Pedro

Como caracteriza o actual estado do motocross?
É exercício que carece de alguma cautela, pois são várias as vertentes que condicionam o seu desenvolvimento, se partirmos do pressuposto dos custos que a modalidade acarreta. Todavia, num contesto geral, podemos aferir que estamos a caminhar de forma razoável graças à vontade que os amantes do desporto têm demonstrado ao longo dos anos.

Referiu-se aos custos relativos à modalidade. Pode entrar em pormenores?
Pormenorizar os factos levaria tempo considerável. Vamos nos ater à compra de motorizadas e equipamento, à manutenção, para não falar do aluguer de máquinas, compra de água para se trabalhar no circuito sempre que há competições, e às taças e prémios destinados aos concorrentes.

Independentemente desses custos, notamos que o motocross nunca esteve parado e todas as corridas são premiadas com taças… Essa questão tem-nos sido colocada com muita frequência. Felizmente, temos na Associação pessoas que não medem esforços para que o motocross continue a levar alegria ao povo e, vezes sem conta, retiram das suas economias valores monetários para a realização de trabalhos e compra das taças que habitualmente atribuímos aos três primeiros classificados de cada categoria.

Quer isso dizer que a Associação depende de si mesma para sobreviver?
De maneira nenhuma! Temos de reconhecer os apoios que, de quando em vez, recebemos de algumas instituições, no âmbito da realização de provas para comemorar as festividades, com destaque para a Sonangol que, por exemplo, assumiu a 100 por cento as despesas inerentes à prova internacional que amanhã (hoje) fazemos disputar no circuito internacional “Jorge Varela”. Aproveitamos para agradecer todo o apoio que aquela empresa nos tem dado. Porém, não seríamos justos se não agradecêssemos também às autoridades provinciais e às pessoas singulares que frequentemente procuram levar o motocross aos amantes da modalidade.

Como se relaciona a Associação com os clubes?
De facto, temos vários corredores a militar em alguns clubes, situação que tem sido vantajosa para os nossos corredores, pois seria mais difícil ser a Associação a pagar toda a factura. Entretanto, lamentamos que a celebração dos respectivos contratos decorre, na maior parte das vezes, longe do olhar da Associação, que não obtém qualquer percentagem dos valores em causa. Trata-se de uma fase em que qualquer proposta é aceite pelos corredores, a julgar pela carência de equipas no mercado, e fazem jus ao princípio de que “quem não tem cão, caça com gato”, situação que esperamos vir a alterar-se com o evoluir das coisas.

Como sobrevivem os corredores individuais?
A Associação sempre foi considerada como a mãe e a madrasta para os corredores, uma vez que canaliza os apoios para os mesmos até que consigam alcançar os melhores níveis. Os nossos recursos são limitados. Por isso, colocamos ao dispor dos corredores as motorizadas existentes. Só que essas condições deixam de ser as ideais para corredores de alta competição, como são os casos do Zé Cazenga, Carlos Soweto, entre outros de primeira linha, que necessitam de uma motorizada própria e outras condições. Garantias dadas apenas por uma equipa. 

Estamos perante a realização de uma prova internacional, em que vão estar presentes pilotos estrangeiros de alto nível. Com os problemas que avança, os corredores angolanos estão à altura de competir de igual para igual?
Os nossos corredores têm-se saído muito bem nas outras provas internacionais, não obstante a conjuntura de factores que emperram o normal desenvolvimento do motocross no país. Estamos em início de época, depois do período de defeso e podemos notar, durante a prova que realizámos na província de Malange, que os nossos pilotos ainda estão um pouco presos nos seus movimentos técnicos. Por isso, não é possível avaliar, com rigor, as probabilidades quanto ao desempenho frente aos seus opositores. Tanto é que também não sabemos se estão na sua melhor forma desportiva. Existe um trabalho a ser feito e esperamos que haja melhorias significativas até à hora da partida.

Fala-se em sete pilotos da Namíbia e três da República Democrática do Congo. Convidaram pilotos de outras nacionalidades?
É evidente que seria benéfico termos a presença de pilotos vindos dos melhores campeonatos, mas é muito oneroso trazer corredores ao país. Contávamos com um número maior, o que não foi possível, porque temos limites no orçamento que nos foi atribuído pela Sonangol e a indisponibilidade de alguns que convidámos. Mas é importante realçar que estamos abertos para que outras provas sejam realizadas e a trazer mais pilotos estrangeiros, desde que tenhamos instituições a patrocinar, porque isso serve para engrandecer o desporto nacional e elevar a qualidade do motocross praticado no país, através da troca de experiências.

O que se espera dos corredores que ascenderam de 150cc a 250cc?
Esperamos que, a médio prazo, possam representar a nata de pilotos da maior categoria. Trata-se de um processo que leva o seu tempo e uma preparação rigorosa. Contudo, estamos confiantes no potencial dos corredores, depois de se terem exibido com muita qualidade na época finda. Mas gostaria de deixar claro que esses só correm nos 250cc nas provas do Campeonato Provincial de Luanda, cujo arranque está marcado para o dia 26 de Março. Por outro lado, queria referir-me à questão que nos tem sido levantada quanto à permanência do Ricardo Jorge nos 150cc. Independentemente de ser um dos melhores pilotos, preferimos mantê-lo na classe devido à sua tenra idade. É necessário agirmos de forma pedagógica para que o potencial do piloto seja explorado da melhor maneira e acreditamos que, no próximo ano, ao completar 15 anos, vai estar na idade própria para a categoria mais exigente do ponto de vista físico.

Que perspectivas existem em relação à construção do novo circuito, uma vez que o espaço onde se encontra o actual vai ser confiscado pelas autoridades, no âmbito da urbanização de Luanda?
Até agora não existe nada de concreto. Negociámos com as autoridades no sentido de nos cederem um espaço para desenvolver o nosso trabalho, tanto o circuito como os escritórios. Continuamos esperançosos que algo de bom venha a acontecer ainda este ano. Julgamos que é altura de termos o reconhecimento das autoridades sobre o trabalho em prol, não só do desporto, mas, sobretudo, da alegria que damos ao povo durante muitos anos.

Que comparação faz entre o passado recente e o presente?
Do ponto de vista técnico, deu-se um passo importante, aliando-se ao facto do mercado estar mais apto quanto à aquisição de motorizadas e equipamento de ponta. Mas reconhecemos que o motocross teve no passado os seus momentos de maior efervescência, numa altura em que as pessoas (muitas das quais já não se encontram entre nós) deram o seu máximo para que até hoje possamos levar alegria ao público com espectáculo sobre rodas.