Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"A gesto do boxe uma aventura"

Silva Cacuti - 24 de Janeiro, 2019

Simo Muanda quer encontro nacional para juntar a famlia de boxe

Fotografia: M. Machangongo | Edies Novembro

Há a impressão de que no ano de 2018, os pugilistas tiveram pouca actividade. Que balanço se lhe oferece fazer da época desportiva? Estamos no bom caminho?
Tivemos actividades que são da responsabilidade da Federação Angolana de Boxe, como o campeonato nacional, disputado no Uíge, e a Taça de Angola, realizada em Malanje. Mas não basta termos essas actividades. Um atleta de alta competição deve ter, por ano, um mínimo de 20 combates, ou seja 80 a 100 por cada ciclo olímpico. Para darmos esta média aos pugilistas, devem existir várias provas, não só campeonatos nacionais; devem disputar também os provinciais, torneios de abertura, eventos comemorativos e acrescer com a actividade internacional. Só assim, poderemos sonhar ter atletas de gabarito mundial.

Para muitos, 2018 foi ano de três ou quatro combates...
Principalmente na categoria de pesos pesados. Os combates é que determinam o \"à vontade\" do atleta. Imagine um atleta sem competir no país é convocado para uma selecção! Esse pugilista não tem rodagem para competir com outro que tenha um número aceitável de combates.

Qual é a solução para este mal?
O problema é que as coisas têm de ser revistas desde o início. É isso que temos alertado. Temos de parar no tempo e voltar a fazer tudo de novo. Até o momento, fazemos mal. Mesmo no meu tempo, fizemos tão mal que não tivemos resultados. Houve atletas com algum nome, mas não passaram disso: apenas tiveram nome no país. Não conseguiram alcançar grandes objectivos. É exactamente por falta de actividade.

O que se augura para 2019?
Isso depende muito das políticas federativas. Cabe à Federação Angolana de Boxe criar as políticas para que as competições apareçam. A nível nacional, estamos mal. As províncias deixaram de ter representantes nas competições nacionais, com excepção de Cabinda, que ressurge, a par de Benguela, com o Electro do Lobito. Já não temos a Lunda Norte, uma das grandes referências do boxe no país, Namibe, Huíla e Huambo. Nessas províncias, por causa do seu clima, a Federação Angolana devia encetar políticas de desenvolvimento de boxe, ao contrário das cidades do litoral, por exemplo.

Que outra entidade devia intervir para a alteração do quadro, uma vez que a Faboxe parece não dar conta da coisa?
O Ministério da Juventude e Desportivo (Minjud) é a instituição reitora do desporto no país. As federações representam simplesmente o Minjud em cada modalidade. Então, devia ser o Minjud, se é vontade do Estado, fazer o desenvolvimento dos desportos individuais por via de acompanhamento.

Como seria feito o acompanhamento?
No boxe propriamente dito, devia existir um Encontro Nacional promovido pelo próprio Ministério da Juventude e Desportos para que não se excluam as pessoas ligadas à modalidade. Todos os especialistas e agentes de boxe devem ser convidados. Nada de separatismo.

Tem havido separatismos? Explique bem isso!...
O que existe no momento é o afastamento propositado. Noto isso. Cria-se formas de se afastar até as pessoas entendidas da
modalidade. Hoje, temos um elenco federativo que não tem uma referência no seu quadro de pessoal. Isso não é normal.

O que é normal?
Quando estás a liderar uma certa organização, é bom ter pessoas que foram referências dessas organizações para servirem de espelho para aqueles que vêm. É como se não tivesses um Akwá ou um Mantorras num projecto do futebol. Porque não tens um Pedro Quinda a desenvolver o boxe na Huíla? Porque não tens um Gregório Capita em Cabinda? Por falar em Capita, deixa dizer que é a maior referência do nosso boxe, a nível internacional. Desde a independência nacional, Capita é o atleta que conseguiu os melhores resultados internacionais. Teve dois bronzes em Jogos Panafricanos. Se não os tiverdes em conta, matas o boxe.


GESTÃO DO BOXE
PROFISSIONAL

O quadro do boxe amador é o mesmo que se vive no profissional ou se diferencia?
Hoje, o boxe profissional é tratado de forma amadora. É uma vertente do boxe à parte do amador. Enquanto o boxe amador tem acompanhamento da AIBA, o profissional tem acompanhamento de organismos afins, que são associações próprias. Nunca um atleta envolvido no boxe profissional em Angola estará nas elites mundiais, porque não é convidado. Faz o profissional no âmbito do federado. Dificilmente, a Federação Angolana vai receber um convite de um campeonato africano da IBF. Essas organizações não correspondem com a AIBA.

Os antigos praticantes, promotores e outros agentes trabalham para a inversão do quadro, com a criação da Associação para o boxe profissional. Como está esse processo?
Tivemos esta iniciativa, porque a actual legislação desportiva, a Lei 5/14 e a Leis 6/14, uma lei das associações desportivas e outra lei do Desporto, diferente da legislação anterior, já orienta a prática do profissionalismo. Neste âmbito, juntamo-nos a fim de criar a Associação. Infelizmente, deparamo-nos com uma interpretação errónea da Federação Angolana, que continua a evocar a sua comissão para controlar o boxe profissional. A lei orienta a criação de um organismo autónomo; obriga as federações nacionais, que têm desporto profissional, a constituir organismos autónomos.

Então surgiu um impasse...
Tivemos de levar este processo às instâncias superiores; tivemos reuniões e encontros com altas entidades do Ministério da Juventude e Desportos. Reunimo-nos com o Secretário de Estado para o Desporto. A qualquer momento, de certeza, o Minjud há-de se pronunciar. Temos de tocar para frente. Não basta termos algumas galas de boxe. O projecto não é só fazer galas, é fazer crescer os atletas que fazem boxe e elevá-los a outros patamares.

Nesses contactos, sentiram-se amparados pelo Ministério? Sentem que têm respaldo e apoio do Minjud na implantação da Associação?

Até o encontro mantido com o Secretário de Estado, mostra-nos que o Ministério tem interesse de ver resolvida a situação. O que há, nesse momento, é apenas as interpretações erradas. Daí, recorremos ao órgão reitor do desporto no país. Daquilo que sabemos da Direcção Nacional, vamos ter o desfecho da situação que, atenção, decorre da Lei. O Minjud tem a palavra final.

Apesar deste impasse, já têm instalações para a Associação?
Foi uma das questões principais levantadas por pessoas que são conselheiras da Associação. Hoje, podemos dizer que temos as instalações e aguardamos apenas o desfecho da questão de interpretação.


MARKETING DE CARLOS LUÍS
Vinda de Mayweather
a Angola é uma farsa


Foi anunciada a possibilidade de Floyd Mayweather visitar Angola. Criou em ti alguma expectativa?
A possível vinda de Floyd Mayweather, anunciada pelo presidente da Federação Angolana de Boxe, é uma estratégia de distracção. assim tem sido recorrente. Sempre agiu dessa maneira em resposta a uma acção da Associação de boxe profissional. Fez o primeiro anúncio público, quando a Federação estava a encetar contactos para a série mundial de boxe. Para as pessoas que desconhecem, esta é uma série que envolve atletas amadores, mas que fazem combates profissionais. O evento é inteiramente controlada pela AIBA. Já tivemos este anúncio da série mundial em 2017. Agora, em Agosto de 2018, tivemos o anúncio da vinda do Mayweather para um protocolo com a Federação. Já não se falou mais nada. As datas passaram. Assim, vamos retardar o crescimento do boxe. Penso ser algo propositado. Para mim, o presidente da FAB não está interessado no desenvolvimento do nosso boxe.

Curioso é que dois antigos campeões mundiais trabalharam com o nosso boxe. Primeiro foi o Cristopher Eubank e, há alguns anos, temos no país o Enrique Carion. Temos sabido sugar os técnicos?

Infelizmente não. Isso tudo passa por políticas. E quem traça essas políticas é o órgão reitor. Se não sabermos alguma coisa, podemos copiar dos outros, mas copiar bem. O Carion está no maior clube do país, o Interclube. O que fez ao longo dos seis anos em Angola? A resposta é zero.
É campeão, mas já encontrou o Interclube campeão. E a equipa é a mesma. Não temos atletas feitos pelo Carion. A Federação está distraída, não aproveita as valências desse treinador para formar outros treinadores ou atletas. Tem sido uma distracção tal, que poderemos um dia ver a ligação do treinador ao Interclube a chegar ao fim e não termos resultados dessa estadia. Isso não é culpa do treinador, é de quem traça as políticas da modalidade.


FINANCIAMENTO
Profissionalismo sem altos custos
Hoje, queixa-se muito da falta de apoios ao boxe. A modalidade está em condições de auto-financiar-se?

Sim. O problema é o mau uso da máquina de movimentar as pessoas. Se fizermos uma compilação de desportos que arrastam multidão, o boxe estará entre as cinco primeiras. Prova disso é que hoje o Anthony Joshua, campeão mundial de pesos pesados, tem como a sua casa o Estádio do Wembley. O boxe pode afirmar-se, porque não acarreta tantos custos como nas modalidades colectivas. Eu, com um atleta, posso fazer o nome do país, como acontece nas Filipinas com o Many Paquiao. Quando Paquiao tem de lutar, o mundo pára para ver.
Desde que abandonaste os ringues, consta que tens projectos para o boxe. Recentemente, vocês anunciaram a construção de um ringue.
Do levantamento feito acerca da escassez de material, criamos um projecto que tem por objectivo fabricar equipamento de massificação. Estamos a falar de luvas, sacos, plastons e ringues. O país não tem esses materiais. Todos os clubes têm carência. Então, criamos este projecto empresarial para facilitar a aquisição desse material num preço muito baixo. Concluímos que era possível produzir os materiais no país sem recurso à importação.


ORGANIZAÇÃO INTERNA
Faboxe devia olhar a Luanda
A inexistência de uma Associação provincial em Luanda preocupa-vos?

Fui a Malanje ver a Taça de Angola e perguntei quantos combates têm os atletas dos clubes e escolas de Luanda. A resposta deixou-me triste: um ou dois combates feitos naquele campeonato nacional. Cabinda esteve ausente, mas da mesma pergunta, teríamos como respostas mais combates realizados. Preocupa-nos muito a ausência de uma Associação desde 2012. Existe um capricho. Não sei se é propositado, mas não é normal que Luanda não tenha uma Associação funcional. A Federação também devia olhar para este aspecto com preocupação. Felizmente, sei que já há pessoas interessadas a levar avante essa Associação.

Por estas questões todas, caso a família de boxe lhe chamasse, voltaria a candidatar-se ao cadeirão da Federação?

Sempre estive no boxe. Apesar de não estar no dirigismo, dou apoio moral e material algumas vezes. Se alguém assim pensar, estou sempre aberto para a modalidade, não para ir buscar protagonismo. Felizmente, a história existe. Ninguém apaga a existência do atleta Simão Muanda. No que tem a ver com o boxe, sempre estarei presente. Não é normal que tenhamos um Capita esquecido ou um Francisco Moniz.

Uma palavra...

Quero apelar à união da família do boxe. Só podemos ser fortes com todos. Não se pode convocar atletas para uma selecção como aquela em que houve deserção. Há pesos pesados e não chamas Gregório Capita ou Simão Muanda. As pessoas esquecem-se que somos referências e temos uma palavra a dar. Se calhar, temos a melhor mensagem a transmitir que o treinador. Somos parte daquela categoria; que houvesse um contacto pessoal, ainda mínimo, e haveria outra mensagem. A forma como tem sido feita a gestão do nosso boxe é uma aventura!