Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"A minha gerao foi prejudicada"

Joo Francisco - 22 de Janeiro, 2013

O antigo Pel do Luanda, como era conhecido naquele clube

Fotografia: Jornal dos Desportos

O antigo “Pelé do Luanda”, como era conhecido naquele clube, que representou na categoria de juniores, depois de sair do Benfica, onde jogou como juvenil, Ndunguidi Daniel é agora, aos 56 anos, conselheiro do vice-presidente para o futebol do 1º de Agosto.Foi no clube militar que Ndunguidi atingiu os píncaros da fama e se tornou ídolo para muitos adeptos do futebol em Angola. Embora tenha acabado a carreira no Petro Atlético de Luanda, é ao 1º de Agosto que o seu nome está ligado e com o qual se identifica.“Sou considerado embaixador e símbolo. Materialmente, não ganhei nada (como atleta), apenas fama e prestígio.

Na altura em que fui futebolista, os jogadores não eram renumerados como hoje, até porque não éramos considerados profissionais”, recorda o antigo craque.Ndunguidi afirmou que, a certa altura da carreira, ganhava cerca de seis mil kwanzas de salário, nada que se compare com o que auferem os jogadores de futebol nos dias de hoje em Angola.“É caso para dizer que a minha geração foi muito prejudicada”, afirmou o antigo futebolista, famoso pelas suas fintas estonteantes e pelos golos espectaculares que marcou ao serviço dos clubes que representou ao longo da carreira, com destaque para a agremiação militar.“No nosso País, não existe cultura de valorizar os nossos ídolos, tanto do Futebol como das outras modalidades. Só assim podemos compreender que apenas sejamos reconhecidos na sociedade em termos de prestígio e fama”, acrescentou.

CARREIRA
Do Benfica de Luanda
à Selecção Nacional


Ndunguidi Daniel começou a carreira como juvenil no Benfica de Luanda e seguiu depois para os juniores do FC de Luanda. Mas foi o 1º de Agosto, já depois da Independência, que ganhou notoriedade.Futebolista quase completo, Ndunguidi era temido pelos adversários devido às suas qualidades de exímio atacante, em que aliava a capacidade de drible a uma velocidade que deixava para traz qualquer defesa que o marcasse. O seu ponto fraco sempre foi o jogo de cabeça, como ele mesmo afirma. O jogador envergou em 78 jogos a camisola da Selecção de futebol, com a qual, apesar de não ter ganho qualquer troféu, granjeou o reconhecimento no continente africano.

“Não ganhamos nada nas competições pela Selecção Nacional da minha geração porque, na altura, era difícil conseguir qualquer coisa na alta competição, se tivermos em conta que as selecções tradicionalmente mais forte eram os Camarões, República do Congo e Republica Democrática do Congo. E estas mantinham os seus melhores jogadores no País, raramente exportavam, como acontece agora”, afirmou.Finda a carreira como jogador, Daniel Ndunguidi treinou o 1º de Agosto, o Desportivo da Huíla, Progresso Associação Sambizanga e Sporting de Cabinda. Foi no grémio do CODENM que permaneceu mais tempo e viveu o melhor período da sua carreira.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Jornal dos Desportos - Como de podem criar novos talentos?

Daniel Ndunguidi  - Temos de começar a trabalhar rapazes a partir dos 10 anos ou menos idade ainda, para quando atingirem os 15 anos poderem vir a ser craques, se forem bem trabalhados e acompanhados.

Não se tem obedecido a essas etapas?

Actualmente não se vê isso. Os miúdos aparecem sozinhos, sem o devido acompanhamento. Temos que acompanhar o desenvolvimento de países onde o futebol está mais avançado. A Alemanha é um bom exemplo a seguir. Aquele país não tem problemas de crise de talentos, nem de transição nas suas selecções nacionais. O segredo está nos escalões de formação. Um outro exemplo de boas políticas desportivas nos escalões de formação é o Uruguai. Talvez por esse motivo é que o Presidente da Federação Angolana de Futebol foi buscar Gustavo Ferrín, que era seleccionador daquele país nos escalões de formação, para cuidar do futebol angolano nos próximos tempos.  

Apoia a contratação de Gustavo Ferrín?

O projecto do Presidente da FAF, Pedro Neto, ao optar por esta contratação, é formar uma selecção que, no futuro, não tenha problemas de transição, o que implica dizer que temos com este treinador a perspectiva de uma selecção forte, com bases sólidas, no sentido de que, quando acabar uma geração, entra outra. Tenho fé que, daqui para a frente, o treinador Gustavo Ferrín estará bem enquadrado na realidade futebolística angolana e ficará patente a todos que a contratação é benéfica para os Palancas Negras.

Angola é um país de futebol?

Sim. Deu muitos bons jogadores a equipas de Portugal desde o tempo colonial e após a independência continua a exportar talentos de que são exemplos mais recentes Mantorras, Manucho Gonçalves, Djalma Campos, entre outros.

PROCURA DE TALENTOS

Ndunguidi Daniel defende que a maior dificuldade que enfrenta o futebol angolano reside na carência de infra-estruturas adequadas. “A juventude não tem locais para praticar futebol e, enquanto não se investir mais neste particular, os talentos não vão aparecer”, frisou o antigo futebolista. “Aos poucos vão-se construindo infra-estruturas. Isso significa que talvez daqui a oito, dez anos comecem a emergir novos talentos”, acrescentou.Os novos talentos do futebol nacional “estão espalhados na periferia e nos subúrbios”, disse Ndunguidi, que acrescentou ser possível o surgimento de novos craques, se “forem cumpridos os pressupostos que se exigem”. Ndunguidi elogiou as iniciativas do Executivo, através do Ministério da Juventude e Desportos, e dos governos provinciais, na criação de infra-estruturas, mas afirmou que muito ainda está por se fazer nesse aspecto.