Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

A pirmide est invertida

Fernando Cunha/Huambo - 31 de Outubro, 2017

Joo Calo Manuel Figueiredo, Director Provincial da Juventude e Desportos

Fotografia: Jornal dos Desportos/ Edies Novembro

Também pactua com a ideia de que o desporto no país está moribundo, ou defende que é possível resgatar os valores deixados por aqueles que trabalharam bem em prol do seu surgimento, nos primeiros anos de Angola como Nação Independente?
Não tenho qualquer receio em afirmar, que o desporto nacional está doente. Sei que isso pode ferir susceptibilidades, mas devo afirmar sem medo de errar, que as coisas no capítulo desportivo estão muito mal, e este mau momento reflecte-se em tudo aquilo que se faz fora de Luanda. No caso em concreto da província do Huambo, os problemas são enormes, e isso não é de hoje, por uma razão muito simples: a pirâmide do desporto em Angola está invertida, ou seja, não está orientada no seu sentido padrão…

Pode ser mais claro no que diz ser a inversão da pirâmide desportiva?
Não existe uma clarificação, para o que se quer para o desporto, apesar da boa vontade que é manifestada por muita gente que anda pelo dirigismo desportivo nacional. O desenvolvimento desportivo passa, claramente, pela edificação e conservação, passa pela massificação do desporto nos escalões de base, pelo reforço do papel do associativismo e das Federações desportivas, enquanto parceiros do Estado; numa aposta séria na camada juvenil, com a identificação de futuros talentos para a prática desportiva entre outros aspectos, mas isso emperra quase sempre no imediatismo e na falta de vontade de fazer bem, por parte de quem toma as decisões finais.Ainda assim, acredito que os próximos tempos podem ser positivos, mesmo com escassez de dinheiro. E, digo isso, porque nos primeiros anos de nação independente, não havia dinheiro disponível, mas foi nesta altura que surgiram os grandes talentos e referências desportivas que ainda temos como exemplo a seguir por esta Angola fora. E sabe porquê? Porque, independentemente de querermos mostrar a nossa capacidade e qualidade enquanto nação, havia a vontade de querer fazer bem, em tudo que disse respeito ao associativismo desportivo.

E, muitas destas referências da Angola desportiva saíram do Huambo…

Sem dúvidas. O Huambo sempre foi uma referência de primeira hora. Daqui, saíram o Chimalanga, Mascarenhas, Pedro Luciano, os irmãos Leitão, Manecas e Arlindo, o Ralph, o Savedra, o Picas, o Maria e muitos outros, que marcaram os anos de ouro do desporto nacional. Tudo isso, dilui-se devido primeiramente a factores exógenos que todos nós conhecemos – a guerra foi a principal - também porque não existiram políticas públicas fortes no âmbito desportivo, principalmente no início deste século, que pudessem proporcionar o aparecimento de novos talentos na nossa província.

O discurso à Nação, do Presidente da República, transmite-lhe alguma esperança  no ressurgimento desportivo em força em Angola, ou é mais um instrumento orientador, como muitos dirigentes faziam questão de pontualizar no passado?
Sem qualquer exercício narcisista, devo dizer que o discurso do Presidente da República à Nação, traduziu-se num aviso claro à navegação, como nós dissemos no desporto. Não vejo apenas um discurso orientador. Antes pelo contrário, aponta o caminho que devemos tomar nesta fase difícil, para todos nós. O desporto não está imune a isto, o Presidente foi claro quando afirmou ser necessário o resgaste da mística e da nossa identidade desportiva, ao pedir o reforço do papel das Associações e das Federações desportivas, enquanto parceiras do Estado, pedir aos agentes deste fenómeno que arrasta e unem os povos, uma séria aposta nas camadas jovens, na massificação, no resgaste do desporto na escola, factores que seguramente a implementar-se, vão assegurar a identificação de futuros talentos para a prática desportiva.

Pela sua mesa de trabalho passam todos os dias muitos “dossiers”, que posteriormente aprovados, refletem-se na condução e gestão da política desportiva do Planalto Central. Qual afinal, o estado do desporto no Huambo?

Está muito mal. Tem problemas que eu considero serem sérios e que requerem intervenção urgente. Neste um ano e meio em que estamos na direcção das políticas juvenis e desportivas da província, fizemos um plano exaustivo de todo o desporto no Huambo, e isso, levou-nos a propor um plano estratégico de dinamização do desporto na província, apontando as principais modalidades a serem dinamizadas, a visão desportiva para daqui há cinco anos, mas sempre com a perspectiva de recolar a pirâmide desportiva da nossa província, no sentido real, porque aqui os agentes desportivos estão mais preocupados em participar em competições, mesmo a saber muitas vezes, que não dispomos de atletas minimamente preparados para competir ao mais alto nível.

Qual é o caminho que aponta para a mudança deste tipo de mentalidade que enferma o desporto no Huambo?

Primeiramente, a massificação em grande escala, com a dinamização do desporto escolar, porque além de contribuir para a educação física e também mental, é seguramente o caminho para a descoberta e lapidação de valores, posteriormente o alto rendimento e desportivo do atleta,  no desporto amador e no profissional. Porque a prática do desporto é uma ciência e requer padrões de cumprimentos rigorosos, que se  escamoteados podem muitas vezes comprometer, primeiramente, o futuro da pessoa humana, e seguidamente de um futuro desportivo, que podia ser brilhante para a mesma pessoa.

DEFENDE FORMA DE DISPUTA POR ZONAS
GIRABOLA PERDEU QUALIDADE


É um forte defensor de que as regras de disputa do Girabola, futuramente, devem ser alteradas. Quais os fundamentos de razão que levam a tal pensamento?
Primeiro, os desequilíbrios financeiros, que são claros entre os ditos mais fortes e os mais fracos, a maior parte deste último grupo baseado no interior do país, nomeadamente, Lundas, Moxico, Huambo, Bié, Cuando Cubango, só para apontar estas províncias, cujos clubes participam com alguma regularidade no Girabola e na Segundona. E, segundo, a falta de verdade desportiva. Para mim, o Girabola devia ser disputada por regiões, a exemplo da sua primeira edição em 1979, para se evitar desistências prematuras que aparecem e quase sempre pelos mesmos motivos: falta de suporte financeiro para aguentar o período longo da competição.
 E, aprofunda ainda mais a sua tese:
- A FAF devia criar um gabinete técnico, para avaliar o projecto dos clubes antes entrarem para a disputa do Girabola. No projecto em causa,  deviam estar bem especificadas as formas de financiamento, com a indicação dos possíveis ‘sponsers’, e outro tipo de possibilidades para serem analisadas, e ser viabilizada a credibilidade dos mesmos projectos, porque hoje por hoje, existem muitos dirigentes com boa vontade de estarem no desporto, mas precisam de conhecer aspectos de gestão desportiva, que entretanto ficam pelas boas das intenções. E, isso, não se compadece com o desporto de alto rendimento.

Pode ser mais claro, relativamente aos moldes de disputa, que defende para o Girabola. Ou seja, por regiões?

O actual modelo de disputa, não se coaduna com o actual momento económico do país. A disputa por regiões, do principal campeonato, ia diminuir as assimetrias que existem no nosso campeonato. Sejamos realistas, os clubes que têm dinheiro e disputam esta competição, com muito poucos constrangimentos – para não dizer nenhum -, são apenas três: 1º de Agosto, Petro e Interclube. O resto, tem sempre, dificuldades grandes. Posso apontar exemplos de clubes, que foram campeões, mais de uma vez, e hoje arrastam-se no panorama desportivo, fruto de desequilíbrios financeiros que apresentam, nomeadamente, ASA, Kabuscorp e Libolo, este último pode até não competir na próxima época pelas razões de sempre, as finanças. Isso, é inadmissível para um país, que quer crescer desportivamente. A disputa por regiões podia proporcionar algum conforto aos clubes do interior, que perdem muito para aqueles que estão localizados no litoral, em que o investimento por parte do Estado e de entes privados, é mais evidente. Não digo que ia repor a verdade desportiva, mas ia trazer mais dignidade, e ia permitir aos clubes do interior disputarem o título no percurso da fase final.

O ESTADO ASSUMIU O COMPROMISSO
“O Mambrôa terá o seu novo Estádio das Cacilhas”


A sociedade do Huambo sentiu-se regozijada quando em Fevereiro 2013, o então ministro da Juventude e Desporto, Gonçalves Muambumba, anunciou em pleno bairro das Cacilhas à uma multidão de adeptos do desporto, a edificação de um novo Estádio. Uma semana depos do lançamento da pedra, que simbolizou a “pseudo” edificação do novo Estádio das Cacilhas, o velhinho e histórico Estádio do Mambrôa foi mandado para o chão.
Porém, o acto do que se pensou que viesse a constituir trabalho de homens e máquinas durante 18 meses, não passou disso mesmo: um acto.
Joca Figueiredo, assegura que apesar de não se ter cumprido com os actos e prazos que iam levar à edificação do novo Estádio das Cacilhas, propriedade do Sport Huambo e Benfica, vulgo Mambôa, cuja data de inauguração esteve projectada para o princípio do ano de 2015 – se todos os procedimentos tivessem sido cumpridos -, será edificado e explica:
"O Estado angolano assumiu o compromisso e vai cumprir. É claro que neste momento, o caso é edificação do Estádio  que não pode ser tratado, porque o momento financeiro que o país vive não permite a realização da empreitada.À breve trecho, e dentro das políticas públicas que o nosso governo tem, o Mambrôa verá seguramente compensada a espera".

Os sócios, adeptos e simpatizantes do Sport Huambo e Benfica (Mambrôa), podem estar confiantes?

Claro, até porque diz um velho adágio, a “esperança é a última coisa que morre”. Portanto, nós enquanto gestores públicos, podemos assegurar que o Estado vai cumprir esta dívida para com o Mambrôa, clube com o qual simpatizo e me identifico. E, depois não nos esqueçamos que num passado muito recente, o Estádio Mártires da Canhãla, propriedade do Recreativo da Caála, foi reconstruído com fundos públicos e hoje temos na vila da Caála, um Estádio que reúne os padrões arquitectónicos para receber jogos de competições de gabarito mundial.

“Sou contra a naturalização
do brasileiro Tiago Azulão”


A naturalização de desportistas, que disputam diversas competições desportivas, em Angola, para que possam reforçar as selecções em diferentes modalidades, não merece a aceitação de Joca Figueiredo.
Para ele, o país, os clubes e as diferentes Associações e Federações, devem apostar fortemente na dinamização e massificação desportiva, proporcionar aos poucos talentos existentes, oportunidades de estarem nas diferentes selecções, e de singrarem lá fora.
Sobre a recente onda que se gerou, relativamente à hipotética possibilidade de naturalização do ponta - de -lança do Petro de Luanda, o brasileiro Tiago Azulão, não tem a aprovação de Joca Figueiredo.
“É o tipo de jogador que eu considero um craque, principalmente, na posição que actua, mas não sou a favor da corrente de dirigentes que defende a sua naturalização. Se ele (Tiago Azulão) tem a qualidade, que estes senhores tanto apregoam, devia estar a jogar no Brasileirão e na selecção do Brasil, ou num campeonato com mais visibilidade e não no Girabola. Devemos dar mais oportunidades aos poucos talentos que temos, acreditar mais neles, jogadores como o Azulão que  com a experiência e idade têm um contratado com um clube angolano, serviria como modelo para adicionar mais qualidade àqueles jovens talentos com quem  trabalham no Petro de Luanda.

Então, é dos que defende que a naturalização tem mais a ver com a bandeira?

Claro, porque se um jogador angolano com as qualidades de Tiago Azulão - e existem por esta Angola muitos -, tiver a oportunidade de jogar no Petro, seguramente,  estaria a fazer as mesmas maravilhas que ele. Entretanto, os nossos treinadores, raramente, saem da sua zona de conforto para assistirem jogos na região do Tômbwa, ou do Luena, para não apontar outras. Preferem partir, pelo princípio do mais fácil, e tal forma de agir lhes faz bons talentos. Raramente, adoptam uma política de prospecção de talentos.




DADOS BIOGRÁFICOS
Nome
: João Calão Manuel
Figueiredo
Idade: 49 anos
Perfil Académico: Licenciado em Ciências da Educação, Mestre em Governação e Gestão Pública, pós-graduado em Administração Pública e Governação Local
Cargo que desempenha: Director Provincial da Juventude e Desportos do Huambo
Carreira Desportiva: Atleta de futebol do Petro Atlético do Huambo, de juvenis à sénior (entre os anos de 1982-1990), Ferroviário do Huambo (1990-1995).  Vice -presidente
do Mambrôa (2006-2012)