Jornal dos Desportos

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Entrevistas

A renovao deve comear na mentalidade de quem dirige

Augusto Fernandes com Joo Francisco - 25 de Setembro, 2012

Salviano notabilizou-se como futebolista actuando na posio de defesa central

Fotografia: Augusto Fernandes

Actualmente com 61 anos de idade, Salviano, ou simplesmente Man Tai, como é conhecido pelos seus companheiros e amigos de infância, começou a sua vida futebolística como médio ofensivo na Textang, aos 17 anos de idade. Salviano notabilizou-se como futebolista actuando na posição de defesa central, tendo representado apenas o Progresso do Sambizanga. Fez parte da primeira selecção nacional em 1976, a qual representou por 16 vezes e disputou o célebre torneio Angola-Cuba, ao lado de jogadores como Napoleão, Mateus César, Inguila, Alves, Arménio, Dinis, Sabino e Lourenço. 

Para Salviano, tudo começou no largo da Brasileira no Sambizanga, onde nasceu, cresceu e vive, com o Venâncio, Velho, João, Zeca Americano, Chico Kauta, sem desprimor dos demais, onde faziam alguns jogos entre bairros, por volta dos oito aos dez anos de idade. Os principais jogos eram realizados no campo do Académica do Ambrizete (hoje Mário Santiago). Foi aos 17 anos que Man Tai começou a jogar como federado na equipa da Textang,  onde era trabalhador, e disputou o torneio corporativo. Na época, o treinador era o senhor Virgílio Azevedo. Na Textang jogou com o Nando Mulato, Manuel João, Manbiki, Jorge e Eugénio. A Textang tinha futebol onze e de Salão e Salviano jogava em ambas as especialidades.

Aos 19 anos, foi convocado para a selecção corporativa dos trabalhadores em Angola que ia disputar um amistoso com a sua congénere da França.
“Infelizmente, não pude dar o meu contributo porque estava abrangido para o serviço militar. Tudo foi feito para que eu fosse jogar, mas não foi possível e fui substituído pelo Mingo. Tive de avançar para o Moxico, onde fiz vida militar. Mesmo como militar fui fazendo alguns jogos entre quartéis e tive sempre boas referências porque marcava muitos golos, pois eu era médio ofensivo”, disse o kota “Man Tai”. Em finais de 1973, Salviano regressou a Luanda. Com o 25 de Abril passou à reserva. Depois do 25 de Abril até finais de 1976, não houve Campeonato algum em todo o território nacional.Em alguns bairros eram realizados torneios de futebol para compensar a falta de jogos oficiais.

O grande papão dos torneios, realizado no Sambizanga era o “Santo Rosa”, do Bairro Operário, que tinha uma grande equipa com jogadores como Simão, Cafumana, Capemba, Bonducho e Marito. Assim, para acabar com a hegemonia do Santo Rosa, o “Kiferro” teve a ideia de formar uma equipa forte, que originou o Progresso do Sambizanga, acabando com a hegemonia daquela equipa. “Mobilizámos os melhores jogadores, começando pelo Santinho e o Praia, depois o Ginguma, Nekita, Bastos e o Badú. Estes são os fundadores ou os alicerces do Progresso do Sambizanga”, recorda-se Salviano. “A equipa foi ganhando espaço no contexto futebolístico a nível do bairro e tivemos o privilégio de fazer um jogo amistoso e internacional contra o Kabué da Zâmbia, nos Coqueiros”.

“No tempo regulamentar daquele jogo histórico, empatámos a um golo e fomos derrotados aos penáltis. Em 1978, o Progresso tornou-se uma equipa federada e o seu primeiro jogo no Provincial foi contra o Benfica de Luanda, que tinha grandes jogadores como o Alves, Gomes, Santo António, Simão, Manuel. Vencemos o jogo por 3-1 se a memória não me atraiçoa”, recorda-se. Na estreia do PAS no Girabola em 1980 actuou com o seguinte onze de luxo: à baliza Luís Cão; Jaime, Manuel, Salviano, Santo António, Praia, Augusto Pedro, Abreu, Santinho, Eduardo André e Ferreira Pinto. Com esta equipa, o Progresso atingiu o quarto lugar da prova tendo sido a melhor classificação de Salviano em termos de Girabola, que disputou de 1980 a 1983.

 “No nosso tempo, o Girabola era muito renhido porque a maior parte das equipas tinham jogadores talentosos. Quase todos os jogos eram difíceis e arrastavam muita gente aos estádios. Jogar contra um Nacional de Benguela, de Quim, Silva, Samuel, Rasgado; Académica do Lobito, de Chiby, Sayombo, Batata e outros; um Mambroa, com Maria, Mascarenhas, Carnaval; o Chela, com Basílio, Lucas, Malé; um Construtores do Uíge, com Vicy e outros; ou o Futebol Clube do Uíge, com Arménio no comando, além dos colossos 1º de Agosto e Petro de Luanda, os Alves, Nsuka, Jesus, Lufemba a fazerem a diferença”, recorda-se com nostalgia.

Salviano recorda-se com muita satisfação de um dérbi contra o Petro de Luanda, na Cidadela. “Neste dia eu estava a fazer uma marcação cerrada ao irrequieto Lufemba, que era um senhor jogador, que mexia com qualquer defesa. Às tantas, o homem conseguiu marcar o golo fazendo um a zero. Inconformado, sem autorização do treinador, subi no terreno e pouco tempo depois peguei na bola no meio campo. Passei por alguns jogadores do Petro e fiz um grande golo, restabelecendo a igualdade (1-1) e o jogo terminou assim. Eu e o Lufemba fomos considerados os homens do jogo.”Salviano considera o Alves como o avançado que mais trabalho dava para marcar, pois tinha um grande poder de desmarcação, era forte no jogo aéreo e viril quando fosse necessário. Além de Alves, Jesus e o Basílio eram os outros jogadores que também davam bastante trabalho. Com a selecção nacional, participou também, nos II Jogos da África Central, em 1981, e em vários amistosos. Foi pupilo de Rui Clington, Amílcar Silva, Inguila, Skorik e Vidick.

O nosso ídolo sempre jogou no Progresso do Sambizanga e lamenta o facto de quando mais precisou do clube: depois de ter fracturado o fémur, não ter recebido ajuda. Graças à FESA, na pessoa do senhor Ismael Diogo, foi ao Brasil, onde chegou a ser operado. Salviano diz que actualmente, com a ajuda do presidente do clube mais carismático do Sambizanga, o senhor Paixão Júnior, as coisas mudaram muito. “Aos poucos vou refazendo a minha vida e espero continuar a dar o meu saber ao clube do coração”, disse. Salviano foi treinador do Progresso, tendo colocado a equipa por duas vezes na I Divisão. Como adjunto de Joaquim Dinis. Ganhou uma Taça de Angola. Treinou também o Desportivo da Cuca, bem como foi coordenador/treinador na Escola Norberto de Castro.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Jornal dos Desportos - O que ganhou com o futebol? Salviano - Ganhei muitas amizades e um bom nome. Sou do tempo em que se jogava por amor à camisola. Mas mesmo assim não me arrependo de ter sido jogador, pois hoje vivo do nome que fiz enquanto tal.

Sente-se bem no Progresso? Muito bem. O Progresso é a minha vida e tudo farei para ajudar a equipa a atingir os níveis mais altos possíveis, ajudando com toda a alma o presidente de direcção, que muito está a fazer pelo clube.

O que acha da renovação do futebol angolano? A renovação deve começar na mentalidade de quem dirige o futebol, para não se cometerem os mesmos erros do passado. Enquanto não se reconhecer este pormenor nunca haverá renovação no verdadeiro sentido da palavra. Deve-se apostar nos sectores chaves: nas camadas jovens, nos formadores, nas infra-estruturas e assim por diante.

Qual é a sua opinião sobre o trabalho do nosso Jornal? O vosso trabalho tem sido razoável.

POR DENTRO
Nome completo: Salviano Ferreira Magalhães
Filiação: Armando Ferreira Magalhães e Madalena Caduce
Naturalidade e data de nascimento: Luanda, aos 19/4/51
Estado civil: Solteiro
Filhos: Dez
Altura: 1,74m
Peso: 82kg
Calçado: 42
Música: Semba
Filmes: Acção
Hobby: Ler e ver TV,
especialmente desporto Prato preferido: Fungi
de calulú Bebida: Vinho