Jornal dos Desportos

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Entrevistas

A revelao do taekon-d nas terras do Cristo-Rei

Gaudncio Hamelay, no Lubango - 18 de Março, 2013

Rosalina Cludia representa a academia do Benfica do Lubango

Fotografia: Arimateia Baptista

Uma nova promessa para o taekwon-dó nacional desponta na cidade do Cristo-Rei. Trata-se da jovem Rosalina Cláudia Canduco, de 16 anos, que enveredou pelas artes marciais em 2008, influenciada pelo pai e por uma amiga. Hoje, Rosalina representa a academia do Benfica do Lubango.Rosalina Canduco tem outras duas irmãs menores, que também treinam na academia do Benfica do Lubango. “O que me motivou a praticar o taekwon-dó, foi o facto de gostar muito dessa arte, depois de ter observado o meu pai e, por influência de algumas amigas, que me motivaram bastante. Apesar de uns puxões de orelha do mestre António Pena “Yang Hu”, estamos dispostos a caminhar para atingir altos patamares”, disse a atleta.

Franzina e tímida, Rosalina reconhece que, desde que começou a praticar as artes marciais, lida com todos os extractos sociais e estreita mais facilmente os laços de amizade com outras pessoas. Para ela, as artes marciais merecem respeito e não devem ser utilizadas de forma leviana, a não ser em competição ou, em situações em de auto-defesa. “Tenho guardado na memória uma lembrança triste de uma vez ter batido de forma involuntária, devido a uma desavença, numa colega de escola. Posta em casa, quando contei o sucedido aos meus pais e deram-me um castigo”, conta a atleta.

“Aquilo serviu-me de lição e a partir daquela data só prático arte marciais quando estou no local dos treinos. Na rua, procuro sempre evitar situações desagradáveis”, acrescentou. Neste mês de Março, dedicado à mulher, Rosalina Canduco apelou a todas as mulheres para praticarem desporto. “É muito emocionante ver uma mulher a praticar qualquer tipo de desporto. De princípio, é difícil aderir, mas com o andar do tempo torna-se tudo fácil.Por isso, devem aderir ao desporto”, sublinhou. Graduada com o cinturão azul na categoria dos menos de quarenta e nove quilogramas (-49), Rosalina é uma da promessa do taekwon-dó huilano, com uma boa margem de progressão no mosaico desportivo nacional e internacional.

CONSELHO
Nada na vida se alcança sem sacrifício

Rosalina Canduco afirma que a modalidade de taekwon-dó, tanto na província da Huíla como em todo o país, está bem servida, embora muitas praticantes, depois de encararem a realidade e “dureza” dos treinos, acabem por desistir. “Nada na vida se alcança sem sacrifício. São bem-vindas mais praticantes femininas nas artes marciais, porque é uma forma de também manifestarmos a nossa emancipação e luta por direitos iguais. Sei que na Huíla existem boas atletas e com excelentes perspectivas de futuro”, disse. Rosalina Canduco referiu que não tem tido problemas para conciliar a prática do desporto com a sua formação académica, estando a frequentar a 11ª classe do curso médio de Ciências Económicas e Jurídicas.

PALMARÉS
Primeira internacionalização
falhou por falta de documentos


Rosalina já conquistou três medalhas em campeonatos nacionais, além de ser a eterna vencedora das competições internas e torneios inter-regionais, tendo efectuado a sua estreia neste tipo de desporto de combate nos campeonatos nacionais realizados em 2009, na cidade do Uíge. Seguiram-se as provas de Benguela, em 2010, e Luanda, em 2011. Este ano, participou no regional realizado no Huambo. Fruto das suas prestações nas competições nacionais, em 2012 foi convocada para a pré-selecção nacional de taekwon-dó, que participou no Campeonato Africano, em Madagáscar, embora não tenha integrado o grupo, naquela que seria a sua primeira internacionalização, por falta de documentação.

Ultrapassados os aspectos que a impediram de representar o país em competições internacionais, Rosalina Canduco manifestou-se confiante em arrebatar medalhas nas próximas oportunidades que ainda tem pela frente. Dona de uma invejável elevação de pernas quando executa movimentos de ataque, crê que, com muito esforço, pode chegar aos propósitos traçados, pois, para ela, o essencial é a força de vontade, determinação e empenho.“Espero que, com a determinação e confiança, venha a fazer parte da Selecção Nacional para futuros compromissos internacionais.Atingirmos os nossos sonhos exige dq nossa parte muito esforço e dedicação”, afirmou.

A PALAVRA DO TREINADOR
“Excelente atleta”

António Domingos Pena, conhecido nas lides desportivas por Mestre “Yang Hu”, graduado com o cinturão negro 2º dan, é um dos técnicos de Rosalina Canduco e da equipa do Benfica Petróleos do Lubango. Em relação a Rosalina, o Mestre “Yang Hu” não tem dúvidas de que é uma excelente atleta, tanto nos treinos como em competições. “Mostra sempre vontade de aprender mais. Possui muitas qualidades. Obediente, cumpre sempre com os seus deveres. Tudo o que é exemplificado, ela executa e revela motivos suficientes para ser a campeã que já é”, realçou.

Na óptica daquele treinador, a atleta tem tudo para não defraudar os amantes da modalidade que podem esperar dela resultados positivos. “Quando a Comissão Técnica da Federação Angolana de Taekwon-dó voltar a convocar a nossa atleta para os trabalhos da Selecção Nacional, temos a certeza que vai conseguir dignificar o nome de Angola”, disse. António Pena é de opinião que, para se ter uma atleta de grande gabarito, como se pretende que seja Rosalina Canduco, há que aperfeiçoar e melhorar as técnicas de salto.

“Ela apresenta ainda algumas deficiências que estão a ser já melhoradas em técnicas de salto. Mas do ponto de vista físico e técnico, está bem dotada. É detentora de três títulos nacionais. Estivemos numa prova em Luanda e em outros dois campeonatos onde demonstrou ser uma verdadeira Campeã nacional, o que valorizou os títulos provinciais que ostenta”, revelou.

PING PONG
“Combato para ganhar”

Jornal dos Desportos - Durante o seu percurso desportivo, o que mais lhe marcou?
Rosalina Canduco -
Foi a final dos menos de 49 quilogramas (-49) do Campeonato Nacional realizado na província do Uíge, quando ganhei uma medalha de ouro.

JD - Qual foi a situação mais triste que já viveu?
RC –
Nenhuma, porque todos os campeonatos em que participei foram excelentes para mim. Daí não ter nenhuma recordação triste da minha carreira como desportista.

JD - Que avaliação faz do taekwon-dó feminino em Angola?
RC -
Vai bem, embora muitas praticantes, depois de encararem a realidade dos treinos, acabem por desistir, alegando ser difícil. Mas nada na vida se alcança sem sacrifício. Que venham mais praticantes femininas. Na Huíla, em particular, existem boas atletas, com boas perspectivas para o futuro, mas não treinam.

JD - Que apoio recebe da sua família?
R -
Os meus pais apoiam-me muito. Só recebo alguns ralhetes quando volto para casa com lesões e que às vezes o clube nada faz para o meu tratamento. Mas são de opinião que uma mulher deve praticar desporto de combate até como forma de auto-defesa.