Jornal dos Desportos

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Entrevistas

A seleco de Angola treina em stios imprprios

Gaudncio Hamelay no Lubango - 26 de Outubro, 2011

Quintino Cabral diz que os judocas angolanos so heris.

Fotografia: Jornal dos Desportos

A direcção do clube BKE homenageia os atletas que subiram ao pódio nos campeonatos nacionais e internacionais. O que se lhe oferece dizer sobre o judo?
É um momento de satisfação, porque se homenageia o judo. O que se pratica na Huíla e nas outras províncias fazem o judo angolano. Não há federação sem judo em todas as províncias.É um momento de grande orgulho e sinto-me regozijado por ter sido convidado para testemunhar este acto.

A vitória da Huíla no campeonato nacional por equipas reflecte o equilíbrio competitivo no país?
Sim, mas tem de se recuar na história. A Huíla procurava um título nacional há muitos anos. Nada vem do nada. Em 2009, a Federação realizou uma prova regional na província, em 2010, o campeonato nacional e este ano  promovemos a primeira ediçao da Taça do Presidente. Estas iniciativas provam que alguma coisa está a ser feita na Huíla. É sinal que há trabalho interno e sério que deve ser melhor estruturado e pessoas que têm sabido tirar proveito disso porque sempre se realizaram competições nesta província.

Os clubes queixam-se da falta de recintos para a massificação de judo. Há um programa para inverter esse quadro ?
Não é responsabilidade da Federação criar infraestruturas nas províncias para a prática da modalidade. Isso cabe aos governos provinciais. A federação tem é de criar as condições de promoção e ajudar na metodologia de treinamento.

Até que ponto a federação pode influenciar para essas infraestruturas serem criadas?
Essa é a nossa luta. Quando temos reuniões no Ministério da Juventude e Desportos batemo-nos sempre por isso. Em 1992, a Federação perdeu as instalações localizadas no antigo Judo Clube de Angola, na Baixa de Luanda, que também serviam para a prepração da selecção nacional e tinha dois tapetes e um ginásio para musculação.

O que aconteceu para perderem as instalações?
Com o advento da guerra e depois dos Jogos Olímpicos de Barcelona, a Federação deixou de funcionar naquele espaço, que foi cedido não soubemos a quem. Até hoje, batemo-nos, no Ministério da Juventude e Desportos, pela sua restituição para repormos os materiais e a federação trabalhar em condições ideiais. A selecção de Angola treina em sítios impróprios. Embora o tapete seja da federação, o espaço é alheio. Enquanto não conseguirmos resolver questões de infraestruturas e organizativas, o desenvolvimento do judo no país está comprometido.

Quando fala das infraestruturas organizativas, refere-se exactamente a quê?
Às nossas associações provinciais e à organização interna da federação, pois também temos algumas debilidades, fundamentalmente, na capacidade de trabalho.  Não há uma sala de trabalho digna, nem fax, nem e-mail. Não temos uma estrutura organizativa que nos permita funcionar. Não posso prometer infraestruturas às provincias. Estamos a tentar mostrar aos governos provinciais as vantagens da modalidade e as possibilidades existentes. Está aqui uma prova no Lubango. Conseguiu resultados positivos a partir de um projecto bem estruturado. A federação tem a responsabilidade de persuadir as instituições. Estamos na huíla com essa intenção. Fomos ao

Huambo e ao Kuanza-Norte. Estamos em Luanda e em todas as províncias com o mesmo objectivo.
E quanto a equipamentos?
Temos um projecto de distribuição a todas as províncias de material oferecido pela Embaixada de Japão. Distribuímos os quimonos e uma parte dos tapetes, mas temos poucas candidaturas. É necessário que as províncias se candidatem e apresentem programas à Federação. A distribuição é feita em função do cumprimento de alguns parâmetros e não apenas manifestar  o desejo de ter os tapetes. As 18 províncias manifestaram essa intenção.

Quais são esses parâmetros?
Ter uma associação provincial constituída, anuência e compromisso formal do governo local nesse sentido, um espaço para conservação de tapetes exclusivamente para o judo, actividade desportiva regular e um número aceitável de praticantes. Sem cumprir estes parâmetros, a Federação não pode ceder materiais a uma província que tenha dez atletas e não o fazer à que tem mil.

Há Federações no país que realizam campeonatos nacionais com quatro equipas. A de judo não pode ponderar isso?
Os parâmetros definidos devem ser cumpridos e a federação não vai desviar-se dos que traçou, principalmente, os que se referem a associação constituída, compromisso com o governo provincial, instalações desportivas disponíveis e uma actividade regular da modalidade.

Que províncias já receberam os materiais?
Só a do Huambo reúne as condições, razões que a tornam na única beneficiada. Há bem pouco tempo, recebemos candidatura de uma outra província. Vamos analisá-la e já respondemos a dizer que faltava o cumprimento de um parâmetro.  Além destas duas, não recebemos mais propostas.

Os resultados dos atletas nas competições nacionais e internacionais satisfazem a Federação Angolana de Judo?
Agrada-nos, mas não nos satisfazem porque tenho consciência que os nossos atletas do judo são heróis, vão às competições internacionais sem receber um tostão de ajudas de custo. Não acredito que haja em Angola outra modalidade que aceite isso. Se perguntarem ao Ângelo António, que está a ser homenageado, quantas vezes recebeu ajudas de custo quando esteve nas competições internacionais a representar o país, a resposta pode não agradar a muitos. O Ângelo saiu da Huíla para receber 50 dólares para dez dias. Parece mentira, mas é a verdade. Esta homenagem é fruto da consciência dos nossos judocas.

Esse valor não cria frustração no seio do grupo?
Por não verem recompensados o esforço, às vezes sentem-se frustrados, tal como os dirigentes da Federação. O espírito patriótico dos atletas faz com que o judo não desapareça em Angola. Os atletas estão connosco e merecem o nosso carinho.

Quais as províncias que desenvolvem o judo?
Há judo regular em todas províncias, com excepção das do Kuando-Kubango, Cunene, Kuanza-Sul e Moxico que não participaram nos campeonatos nacionais nos dois últimos anos. Das 14 onde se pratica a modalidade, apenas duas, por falta de apoios, não se fazem representar com regularidade. Sempre que podem, juntam-se às outras. Para qualquer modalidade uma dúzia de províncias participantes nos eventos desportivos nacionais constitui motivo de orgulho.