Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"A surpresa pode acontecer no final"

Aro Martins - 28 de Maio, 2018

Fotografia: Jornal dos Desportos

A posição alcançada pelo Desportivo da Huíla na primeira volta, surpreende - o, ou acha que podia fazer melhor?
Podemos não falar em termos de classificação, mas de pontuação. No princípio da época, perspectivamos pensar jogo após jogo, depois o somatório podia indicar-nos a nossa classificação. Somamos os pontos possíveis, terminamos a primeira volta na quarta posição. A classificação, é algo que pouco nos interessa, porque não estamos muito virados nela, mas na pontuação, já que isso é que nos satisfaz.

De um modo geral, independentemente de todos estes condicionalismos, que avaliação faz do desempenho do Desportivo?
Podemos considerar que o desempenho da equipa esteve dentro da normalidade, e do que foi idealizado por nós, já que este ano tivemos poucas saídas no plantel. Perdemos apenas dois jogadores, que eu considerava fundamentais no sector atacante e no defensivo. O Belito foi transferido para o Recreativo do Libolo e o defensa central Bonifácio foi para o 1º de Agosto.

Como é que conseguiram colmatar à saída dos dois atletas influentes?
A preocupação ficou sanada, porque tivemos uma aquisição boa, que foi a contratação do Lionel, o melhor marcador da equipa com 5 golos, na primeira volta. Os dois jogadores deram conta do recado e criamos um equilíbrio considerável, nos dois sectores. Implementamos boa dinâmica, para além das transições rápidas, com transições rápidas e sempre com a posse de bola. Os resultados obtidos na primeira volta foram idealizados por nós, por isso, não estamos surpreendidos com a nossa prestação.
Considera que a actual posição, aumenta a responsabilidade da  equipa ou acredita que ainda podem protagonizar mais surpresa na segunda volta?
A surpresa pode acontecer no final do campeonato, mas o nosso foco continua  melhorar jogo após jogo. Terminamos a primeira volta e já estamos a pensar no Interclube, que é o nosso adversário no primeiro jogo da segunda volta. Repito o nosso foco é sempre o jogo mais próximo, neste caso é o Interclube.

A preparação é feita em função do potencial do adversário, ou todos merecem o mesmo tratamento?
Vou reiterar, por mais que pressionem, nunca vamos mudar o nosso foco que é  jogo após jogo fazer o maior número de pontos e no final do campeonato, a pontuação conseguida de jornada após jornada, vai ditar se houve ou não surpresas. Mas o nosso objectivo principal continua a ser o mesmo, a permanência no Campeonato Nacional da Primeira Divisão. Eu digo sempre, que isso só é possível se continuarmos com os pés assentes no chão, e pensarmos jogo após jogo, as nossas possibilidades de pontuarmos em qualquer partida.

Como é que justifica o facto de na primeira volta a equipa conseguir resultados positivos com os grandes, e baquear com equipas do seu campeonato?
Quem anda no futebol sabe, que esses factores não são surpresas, pois, podemos ter um excelente resultado hoje e amanhã um negativo. Além da estratégia que se prepara para o jogo, o momento também conta. Ainda assim, procuramos sempre ter uma equipa regular, mas nem sempre é possível acontecer.

Quais são os factores que imperam para que isso não se concretize? 
Há factores subjectivos, que obrigam que determinados factores ou a forma de se apresentar em campo, pode não acontecer neste ou naquele jogo. No futebol, também há factores adicionais que nos favorecem, para que neste ou naquele jogo nos apresentemos de forma normal. Não podemos nos sentir surpreendidos, por este ou aquele resultado, mas  preparados para ultrapassar todos os obstáculos. Creio, que todos os resultados que tivemos na primeira volta, tiveram sempre dentro do nosso prognóstico. Ainda assim, dizer que alguns resultados não foram o que esperávamos, mas acabaram por acontecer.

Pode citar um deles?

A título de exemplo, o jogo disputado em casa com o Interclube, em que acabamos por empatar, por 1-1, por nossa culpa. Lembro-me, de termos sofrido um golo estranho, numa partida em que dominamos. O mesmo adversário, acabou por liderar a prova durante várias jornadas e nós, com altos e baixos. Depois fomos buscar pontos onde o Interclube ou mesmo os clubes grandes não conseguiram. Perdemos e empatamos jogos em que era impensável alcançar estes resultados, mas quem anda no futebol tem de estar preparado para tudo isso. E, todos os dias, temos de nos preparar para podermos ultrapassar os nossos obstáculos.

\"Querer mais
não é exagero\"


 Durante a primeira volta, foi possível observar que moldou uma equipa competitiva, nos vários sectores. É esse grupo que sempre desejou?
Acredito que podiamos ter um grupo melhor, se não fossem alguns condicionalismos que aconteceram. Não vou estar aqui a frisar os condicionalismos, mas dizer que o Desportivo da Huíla, como qualquer outra equipa, tem as suas dificuldades, embora, blindamos as nossas dificuldades, e isso, dificultou em algum momento.

Pode explicar-se melhor?

Tivemos momentos em que os atletas mentalmente não compreenderam quais eram as nossas ideias, embora boa parte deles perceberam com alguma facilidade, o que  transmitíamos, mas fico com o sentimento de que durante a primeira volta, podíamos fazer um pouco mais, para melhorar o que fizemos. Contudo, temos de nos sentir satisfeitos pelo que fizemos. O facto de querermos um pouco mais, não é exagero nenhum, porque reconheço a qualidade individual dos nossos atletas. É isso, que me obriga pensar, que podíamos fazer um pouco mais.
Que avaliação faz dos reforços que recebeu? Corresponderam à expectativa?
Na primeira volta, reforçamos o plantel com 3 atletas. O médio trinco Manucho Dinis e o defesa Sargento, vieram do 1º de Agosto,  o avançado Lionel foi contratado ao  Progresso da Lunda - Sul. O Sargento fez  um jogo na primeira volta, porque foi infeliz no período preparatório, contraiu uma lesão e condicionou a presença no arranque do campeonato. Para a reintegração no grupo, teve dificuldades porque encontrou o “barco” no alto mar.

Em relação aos outros dois atletas, as coisas parece que foram muito mais fáceis?
O Manucho acabou por ser um grande reforço, é o líder que todos conhecemos. Foi uma mais-valia, não só no capítulo técnico e táctico, mas é um elemento forte no balneário. Acabou por ser um grande reforço. O Lionel marca os seus golos e penso que com mais tempo de adaptação, pode fazer um campeonato melhor. Acabou, realmente, por ser um grande reforço.

A direcção acaba por estar de parabéns, pela aposta que fez...
Continuo a dizer que o grande reforço que tivemos, foi o facto da direcção impedir de sofrermos alguma sangria, no que seriam as saídas do núcleo duro da equipa, tendo em conta o Girabola 2017 para 2018. Penso, que isso, foi um grande reforço. Vamos ver o que vai ser a segunda volta.

Técnico encantado
com atitude do grupo


Depois da excelente primeira volta, que Desportivo da Huíla temos na segunda volta?
Tudo vamos fazer por melhorar. O que fizemos na primeira volta, dá-nos mais responsabilidade, e temos de fazer melhor na segunda volta. Não podemos dizer que as outras equipas estão mais preocupadas connosco, e já visualizam mais jogos. Não podemos decepcionar, tudo  que envolve a nossa responsabilidade, que é fazer parte da festa da bola. Creio, que na primeira volta, fizemos algo e na segunda volta, temos de fazer algo melhor.

Continua acreditar que \'cocktail\' entre  jogadores mais experientes e a juventude, contribuíram para ter um grupo mais unido e muito competitivo para o que der e vier?
Acredito, e isso, é visto a olho nu. Por isso, fiz referência ao Manucho Dinis, um jogador com muita experiência no Girabola e conhece bem a casa, pelo facto de ser lançado pelo Desportivo da Huíla. Temos também o defesa Chiwe, o capitão da equipa, que também é uma mais-valia, sem esquecer outro mais experientes que não  aparece nos jogos, mas tem a sua influência na nossa preparação. Estamos a falar do Avex, Sidney e do Kembwa. São jogadores com muita experiência que transmitem essa experiência aos miúdos, assim como têm dito entre eles, “mulecada”, que são os mais jovens no grupo, com a sua irreverência encaixam-se, mas sempre no princípio do respeito.

E a juventude demonstra  vontade de aprender?
Sem dúvida. Não só com os treinadores, mas com os colegas de mais experiência, o que pode ou está  a ser uma mais-valia na nossa equipa. É assim, que nós consideramos. Por este motivo,  blindamos o nosso balneário e quando assim acontece, os frutos podem ser colhidos de uma forma natural.

Os atletas estrangeiros trouxeram um valor acrescentado ao plantel, ou nem por isso?
Eu tenho como princípio, nada de xenofobia, para ter um estrangeiro na equipa é para fazer a diferença, porque não vou querer  um expatriado para ser suplente. Ele tem de fazer a diferença. Desde a altura que assumi o comando da equipa, permiti que três jogadores, o guarda-redes Kissi (Ghana), o médio Christian e o avançado Lionel, ambos dos Camarões, fizessem parte do nosso plantel para fazerem a diferença. Temos de dizer que os três jogadores, cada um na sua posição, oferecem ou transmitem confiança à equipa.
 
 \"Faço o meu trabalho de forma séria\"

Notamos, que o Desportivo é mais forte a jogar fora do Lubango do que em casa, qual é a explicação?
Tenho muito a dizer sobre isso. Apesar de estarmos a falar de jogadores com experiência, o plantel é composto, maioritariamente, por jovens. E, essa juventude tem ainda muito a aprender com a pressão do Girabola, sobretudo, a jogar em casa. Repare que houve jogos em casa, que por termos a obrigação de ganhar, alguns aspectos técnicos foram feitos de forma precipitada e essa pressão obrigava também, em alguns momentos do jogo a perderem a concentração, porque estavam muitos preocupados em agradar o público que nos acompanha. Isso, retirava alguma qualidade.

O que está a ser feito para alterar o quadro?

Fora de casa sentiam-se muito mais à vontade e sem pressão. Daí, as qualidades individuais, técnicas e capacidades psico-motoras aparecerem de forma natural. Estamos a ultrapassar com o tempo, porque nas últimas partidas conjugamos bons resultados com boas exibições.

Acredita, que na segunda volta as coisas podem inverter para melhor?
Creio, que a segunda volta pode ser melhor para nós, porque os jogadores começam a saber, como e quando fazer as coisas dentro de casa. O facto de nos obrigarmos a trabalhar mais, deve deixar-nos mais à vontade e acreditar no que  são capazes de fazer. Os jogadores estão a transmitir-nos tal confiança e esperamos fazer melhor na segunda volta.

Notamos ser um treinador muito aguerrido e insistente, isso não pressiona, e influência de certa forma a  atitude para os atletas nos jogos em casa?
A minha forma de estar é de viver o futebol. Vivo para o futebol e ninguém me tira disso. Eu ganho o meu dinheiro, diverto-me e entrego-me completamente ao trabalho. Conheço bem os meus jogadores e sei como é que eles se comportam com o meu posicionamento durante o jogo. Devo dizer, que mesmo a divertir-me, procuro de forma séria e insistente, fazer o meu trabalho. Só os persistentes têm a possibilidade de vencerem.

Qual foi o jogo que mais o marcou na primeira volta?
O jogo que mais me marcou, nesta primeira volta, de forma negativa, apesar da especificidade de cada partida e a capacidade do adversário, foi perder com a Académica do Lobito. Devo dizer, que não esteve nas nossas previsões. Em termos positivo, foi a vitória diante do Kabuscorp do Palanca, por 1-0, no Estádio dos Coqueiros. Não apenas pelo facto de vencer, acima de tudo, como aconteceu e toda envolvência para que o jogo se realizasse com sucesso. Há outros jogos em que podíamos fazer um pouco mais e não fizemos, assim como alcançamos resultados que muitos não contavam.