Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Académica do Lobito pretende crescer mais

Júlio Gaiano - Lobito - 12 de Abril, 2018

Fotografia: Júlio Gaiano / Edições Novembro

A Académica do Lobito está a conhecer momentos memoráveis da sua história. Tudo por culpa da sua direcção que teve a ousadia de contratar, um “ilustre” desconhecido para orientar a sua equipa principal. Rui Manuel Sampaio Garcia é o homem de que se fala, nas lides do futebol nacional.
Contra todas as expectativas dos adeptos e de alguns observadores, provou com o seu saber que a competência não tem rosto. Está a revolucionar na forma de jogar da sua equipa. Ou seja, duas décadas depois, os estudantes estão a reencontrar-se com a sua identidade futebolística.
Nesta sua primeira grande entrevista que concedeu ao Jornal dos Desportos, dentre outros assuntos abordados, o professor Rui Garcia fez revelações importantes sobre o trabalho que desenvolve na Académica do Lobito, tendo em conta ao modelo de jogo que interiorizou no grupo.
Para além de enaltecer a entrega dos seus atletas nos treinos e a confiança que a direcção depositou em si, garante existir harmonia e sintonia entre o técnico principal e seus colaboradores directos, desmentindo rumores que davam conta de um suposto desentendimento com o técnico-adjunto, Júnior Paulino.

Depois de trabalhar por duas temporadas na Académica do Lobito como preparador físico (de Maio de 2015 a Junho de 20017), transferiu-se para o Interclube de Angola e seis meses depois, regressou à procedência. Qual foi o estado anímico que encontrou no seio da colectividade?
Como deves calcular, a Académica do Lobito desde que milita na primeira divisão, tem sido muito oscilante em termos de resultados. Tentamos alterar este ano e, de certa forma, temos conseguido, com muito trabalho e sacrifícios, tendo em conta as circunstâncias.
Não obstante, termos a consciência da realidade do Girabola, encontrei o grupo animado e disposto a enfrentar as adversidades. Razão disso, são os resultados registados até agora (9ª jornada), coisa que não acontecia até algum tempo à esta parte.

Como tem sido a entrega dos jogadores nos treinos? O comportamento deles, falo dos possíveis jogos invisíveis, agrada a equipa técnica?
Estamos a fazer um trabalho que, de forma gradual, vem crescer desde a pré-época. Confesso que não foi fácil. Tentámos introduzir a consciencialização táctica do ponto de vista individual, potenciar a capacidade dos jogadores em prol daquilo que são os resultados que pretendemos do ponto de vista colectivo, num modelo de jogo, de acordo com as características (individuais) dos jogadores que temos no clube no sentido de que estejam aptos de servirem o clube com este próprio modelo de jogo. Não estamos longe disso, aliás, os resultados estão ajudar neste propósito.

Fala-se de actos de indisciplina movida por determinados jogadores no plantel. O que pode adiantar a respeito?
Como em todo o lado, os jogadores duvidam aquilo que é  os princípios e ideias do treinador. Os resultados consolidam e fazem com que as pessoas começam a acreditar na competência do treinador e leva com que a liderança começa a ganhar sentido. Os jogadores passam a identificar com o rigor e a exigência do próprio trabalho a implementar.
Neste momento, não tive qualquer problema sobre esta situação. Posso dizer que, do ponto de vista disciplinar, não há qualquer caso que possa ser destaque, pelo menos, este ano, não tenho nada a assinalar.

Qual tem sido o papel da direcção neste processo de trabalho?
A direcção tem um papel fundamental, naquilo que está a acontecer, não obstante as dificuldades reinantes, tendo em conta a conjuntura económica e financeira que o país vive. Felizmente, a Académica tem uma direcção que desenvolve muito esforço para que o essencial não falte aos jogadores, ao contrário daquilo que algumas pessoas dizem transparecer.
Sem medo de errar, asseguro que este clube não deixa nada a dever, em termo de cumprimentos laborais. Tem tudo em dia para com os jogadores e treinadores.

Mesmo sem dinheiro da patrocinadora (Esso Exploração – Angola/Sonangol, EP), a direcção tem sabido honrar compromissos contratuais. Como consegue isso?
Há pergunta que só a direcção deve responder. Sei que tem feito tudo aquilo que está ao seu alcance, os possíveis e impossíveis, de maneira que os jogadores e os técnicos estejam de consciência limpa para poderem servir o clube e, assim, dar o melhor rendimento possível.
Aliás, prova disso, são os resultados que a equipa está a produzir nesta fase do arranque da competição, apesar de ser muito cedo para se tirar as devidas ilações.

Já se pode falar de uma Académica diferente daquela que aparecia com o objectivo único de assegurar a sua manutenção no Girabola Zap? 
Estamos numa fase muito embrionária daquilo que é o campeonato. Obviamente, é a partir daqui que se percebe aquilo que está à vista. Há perspectivas de que a equipa está no bom caminho e com fortes possibilidades de poder garantir a permanência.
O nosso objectivo é tentar garantir a permanência muito antes daquilo que tem sido habitual. Infelizmente, no futebol as coisas não podem mudar de um momento para o outro.
Todas as variáveis possíveis (vitórias, empates e derrotas) podemos controlá-las e, a partir daí, estaremos a merecer daquilo que propomos a alcançar.

Há condições materiais e funcionais para se arregimentar com afinco neste pensamento?
Tenho a consciência do trabalho que estamos a desenvolver. Neste momento, a equipa ainda não está onde desejamos. Pretendemos consolidar e atingir os objectivos propostos pela direcção.



“Sou rigoroso na forma de trabalhar”


Como se considera no plano de treinamento desportivo?
Sou um técnico que está na fase inicial da sua carreira. Nunca foi minha ambição trabalhar como treinador principal. Assumi este desafio no sentido de servir o clube que sempre foi digno e correcto comigo.
Não tenho ambições desmedidas. Recebo aquilo que me foi dado a gerir. Sou rigoroso comigo próprio e exijo o mesmo com quem trabalha à minha volta, seja a direcção, os jogadores e toda agente. Sou daqueles treinadores que começa às 6h00 da manhã a pensar nos treinos para poder servir os meus jogadores da melhor maneira possível e, paralelamente, ao clube, no sentido de criar as melhores ferramentas pedagógicas no contexto técnico-táctico, físico e fisiológica para que os meus jogadores estejam bem servidos.

Quer com isso dizer que é um técnico que dificilmente se deixa influenciar por pressões que vêm de fora do seu circuito funcional.
Acho que quando trabalhamos de forma séria e digna não devemos ter receio de qualquer pressão. De certa forma, acho que a pressão é boa, porque exige mais de nós a trabalhar e provar o que realmente somos capazes. Neste contexto, a direcção nunca me pós esta pressão. Não põe, naturalmente.
É normal que esta venha do público. Um público exigente que gosta de ganhar. Tem aquele espírito de vitória. Tem a Académica como ícone de motivação para que se sinta bem no seu dia-a-dia. É natural que reivindicam dos dirigentes, dos treinadores e dos jogadores o melhor para o clube. Se trabalharmos arduamente todos os dias, visando aquilo que se pretende em prol dos objectivos, fica-se mais próximo do sucesso e a pressão diminui.

Ao contrário da época passada a equipa está a realizar os seus jogos no estádio de Ombaka (em Benguela), quando o ideal seria no Buraco, seu reduto. O que tem a dizer sobre essa mudança?
Não vou esconder que a equipa tem tido bons resultados no Ombaka, mas é no estádio do Buraco, onde o público se identifica. Todavia, temos a consciência que esta decisão de levar os jogos naquele campo foi com base naquilo que é a questão de segurança para os jogos de dimensão elevada.
De um tempo à esta parte, tivemos algum problema no nosso campo e a direcção resolveu tratar a relva, razão pela qual tivemos que levar alguns jogos no estádio nacional de Ombaka.
Ultrapassadas que foram esses condicionalismos, julgo estarem reunidas as condições paro estádio do Buraco voltar a albergar os jogos do Girabola.


Ndulu é aposta ganha dos técnicos


O que tem a dizer sobre as preocupações levantadas pelos associados no que toca à posição um (da baliza)?
Inicialmente, andámos à procura de um guarda-redes experiente no mercado e verificámos que, em termos de qualidade, estão todos empregados. Neste sentido, avaliámos as condições que temos no clube e verificámos que tínhamos um guarda-redes que é da formação. Foi daí que resolvemos apostar em Ndulu que já vinha a trabalhar com a equipa sénior desde o ano passado.
É um guarda-redes tecnicamente bastante evoluído, não obstante precisar de ganhar maturidade. Tivemos que correr riscos e apostar nele de forma a ganhar ritmo competitivo. É um jogador que tem trabalhado muito. O treinador dos guarda-redes e eu temos trabalhado, do ponto de vista psicológico, com ele, no sentido de perceber quais as suas potencialidades. Felizmente, tem compreendido e estamos satisfeitos com o resultado que tem apresentado. É uma aposta e uma mais-valia para o clube.

E quanto a outros dois guarda-redes?

Em relação ao Fany, temos a consciência de que em outras épocas, também, desenvolveu um trabalho que, de certa forma, contribuiu para o êxito, para assim dizer, dentro dos objectivos que o clube pretendia. Assim sendo, não era uma pessoa que se poderia descartar. O Príncipe é outro guarda-redes que tem muitas qualidades. É um jovem que está a ser trabalhado, mas de acordo com as circunstâncias actuais e as necessidades do clube, vamos contar com todos eles para a grande empreitada que se chama, Girabola Zap 2018.


Rui nega divergências com adjunto


Há informações que apontam a existência de alguma crispação entre o técnico Rui Garcia e o adjunto Júnior Paulino. Até que ponto há verdade nisso?
Para lhe ser sincero, nunca me transpareceu que houvesse esta possibilidade. Entre nós existe uma cooperação salutar. Partilho com os meus adjuntos (Júnior Paulino e Pickot Sambaka) todas as informações possíveis. Nos nossos encontros de trabalho falamos e estamos em sintonia. Daí que sempre que necessário, Júnior Paulino é a primeira pessoa a partilhar comigo as questões tácticas durante os jogos.
Como podem reparar, não existe qualquer assunto que possa beliscar o nosso ambiente de trabalho. Caso existisse qualquer coisa parecida, seria eu, na primeira pessoa, a reagir e cortar o mal pela raiz. Sou daqueles que pugnam pela franqueza, seriedade e sentido de responsabilidade. Felizmente, não é verdade que exista um mal-estar entre mim e os demais elementos da equipa técnica.

A ser verdade, as justificativas aqui apresentadas, o que estará acontecer para que se fizesse tais especulações?
Disseste bem. Trata-se de mera especulação movida por pessoas com intenções malignas. A pura verdade está à vista de todos. Na equipa técnica da Académica reina harmonia e compreensão mútua entre as partes. Se houvesse crispação seria impossível conseguirmos os resultados como aqueles que estamos a produzir nesta fase inicial do campeonato. Quer dizer que há trabalho de equipa. O resto não conta para os nossos propósitos, que passam, necessariamente, pela formação de uma equipa forte, competente e capaz de surpreender ainda mais no presente Girabola.

A Académica do Lobito pontifica-se entre os clubes nacionais que mais formam jogadores. Muitos deles a evoluir nas principais equipas do Girabola Zap. Neste processo de trabalho, qual o contributo do técnico principal, já que se fala de um modelo novo de jogo que se está a implementar no escalão de alto rendimento?
Está-se a desenvolver um trabalho excelente, com a coordenação do mister Chiby, um conhecedor do futebol angolano.
A equipa técnica sénior, em paralelo com a direcção, tem dado seguimento a esse processo no sentido de termos jogadores a fazerem parte do plantel principal. Com base aos resultados de um trabalho profundo que se desenvolve na formação, temos estado a lançar de jogo após jogo jogadores na equipa sénior. É óbvio, que não podemos lançá-los de um momento para o outro.
Há todo um processo de adaptação de um trabalho neste escalão, tendo em conta a contingência física, psicológica, fisiológica e técnico-táctico que é aproveitada da base que trazem da formação e, depois, poderem integrar nos seniores com maior sustentabilidade.



David “não se encaixa” na Académica
O sector ofensivo da Académica do Lobito produz poucos golos. O que faltou à direcção para contratar David e Jó Paciência que trabalharam com o grupo na pré-época?

Há uma ideia de jogo pré-concebida, com base no modelo com o qual me identifico e, por conseguinte, como qualquer outro treinador, escolhi os jogadores com características adequadas e que facilmente se inserem neste modelo de jogo.
Ao contrário daquilo que tem sido a forma caracterizada do futebol em Angola, bastante ofensivo, há aquela questão que é a interiorização de vários conceitos, comportamentos técnicos e tácticos inerentes a esse padrão. Por uma questão de formação de base ou por não ter obtido noutras situações, determinados jogadores têm certa dificuldade em compreender e há outros que interpretam de uma melhor forma.
Alguns estão adaptados a jogar no modelo 4x3x3, outros no 4x4x2, e outros ainda no 3x5x2. Infelizmente, David e Jó não corresponderam, de certa forma, àquilo que era as exigência requerida no modelo de jogo adoptado pelo treinador.

Neste caso, está querer dizer que os jogadores em causa não reúnem qualidades competitivas para constar no plantel da Académica do Lobito?
São bons jogadores e com provas dadas no Girabola. David, por exemplo, é um jogador que admiro muito. Infelizmente, tive que prescindir dos seus serviços, para contar com os jogadores que já se encontravam no clube. Como deves calcular, temos um plantel de 31 jogadores, incluindo os guarda-redes.
E, naquilo que é a minha forma de trabalhar e estar é que todos os jogadores estejam preparados de forma que ainda que se tire um e se coloque o outro, se mantenha a forma de jogar. Neste sentido, os jogadores têm estado em sintonia com as ideias de modo que não existam lugares cativos neste modelo de jogo implementado.

Carreira leva nove anos
Rui Manuel Sampaio Garcia, a nova aposta da Académica do Lobito, nasceu há 48 anos, na vila de Caconda, província da Huíla. Aos 4 anos, em companhia da mãe e parentes, deixou o país para fixar-se em Portugal, onde fez a sua formação académica e profissional. Licenciado em treinamento desportivo na área de futebol, para além de ostentar o 2º grau da União das Federações Europeias de Futebol (UEFA), é mestre em treino desportivo no âmbito de Prevenção e Recuperação de Lesões. Na Alemanha tirou a Licenciatura de Fitness.
Iniciou a carreira como treinador em 2009, em Portugal, nos escalões de formação (iniciados e juvenis) numa Escola de Futebol de Algarve, dedicando-se mais na área de preparação física, prevenção e recuperação de lesões, na qual se especializou.
Como futebolista, o professor Rui Garcia teve a sua formação (infantil e juvenil) na União Futebol Clube de Almeirim. Teve passagem por outras agremiações portuguesas como GD Estoril Praia e FC Alverca. Fora de Portugal, jogou em equipas da 2ª e 3ª divisões da Holanda e da Alemanha. 
Em Janeiro de 2015, é convidado para trabalhar no Recreativo da Caála, com o professor Bernadino Pedroto, todavia o projecto estagnou por razões adversas.
No entanto, foi a direcção da Académica do Lobito que o acolheu e, nesse mesmo ano (Maio de 2015) é contratado como preparador físico da equipa principal. Foi nessa condição que ajudou, em duas épocas consecutivas (2015 e 2016), a equipa manter-se na primeira divisão. Em Junho de 2017, a convite do professor Paulo Torres transferiu-se ao Interclube de Angola, onde trabalhou por um período de seis meses.
Entretanto, nem tudo foi um “mar-de-rosas”, nesse seu regresso ao país que o viu nascer, dadas as contrariedades que encontrou no futebol nacional. Ponderou, por isso, abandonar a carreira de treinador, pelo menos, em Angola, e dedicar-se noutras áreas, como a docência, por exemplo.
No entanto, valeu a conversa que manteve com o presidente da Académica do Lobito, Luís Borges, que o desafiou a assumir as rédeas da equipa principal, tendo em conta à formação e o grau da UEFA que ostenta.