Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Ainda no existe em Angola massificao do tnis de mesa

lvaro Alexandre - 11 de Outubro, 2011

No mundial da Rssia classificou-se em 12 lugar

Fotografia: Jornal dos Desportos

1-Que análise faz do actual momento do ténis de mesa em Angola?
Não digo que é péssimo. A Federação realiza grandes esforços para manter a máquina funcional. Neste momento, está a investir em alguns atletas, que vão manter a base da Selecção Nacional. É de louvar que algumas províncias desenvolvam o seu trabalho. Na Huíla, por exemplo, é visível o trabalho que se faz. A maior parte das integrantes da selecção feminina que participou nos Jogos Africanos, disputados em Maputo, com a excepção da Gerusa Borges, é proveniente da Huíla.

2-Isso prova que o programa de massificação está a resultar no país?
O trabalho de massificação não existe em Angola. Deviam haver resultados visíveis, sobretudo em Luanda. Não tenho dados de outras províncias, que me permitam falar com objectividade. O que sei, a título excepcional, é que a cidade de Lubango desenvolve um grande trabalho. Luanda devia fazer um pouquinho mais. Outro facto esquecido é a falta de apoios das identidades singulares, no sentido de canalizar recursos financeiros, materiais e outros, para se implementar com eficiência os diferentes  projectos de massificação.

3-Como está servido o país em espaços para a prática da modalidade?
Não estamos mal servidos. Temos o Centro de Alto Rendimento de Angola, com oito mesas. Uma mesa dá para 10 atletas. Quer dizer que, em cada sessão diária, 80 atletas têm acesso à prática de ténis de mesa. É um bom número de atletas. O importante é esboçar um programa de massificação eficiente, em colaboração com as instituições escolares, sem esquecer a comparticipação das instituições singulares, no sentido de darem suporte financeiro. Para a massificação, o material desportivo não é muito caro.

4-Como avalia o trabalho do Conselho Técnico da Federação Angolana de Ténis de Mesa face aos programas de desenvolvimento?
A Federação leva a cabo um projecto, para o qual seleccionou um grupo coeso, e desenvolve um trabalho aturado com os atletas escolhidos. O objectivo é desenvolver um trabalho permanente e dar-lhes mais coesão. Trabalhamos com um técnico que desenvolve um programa que tem a duração de um mandato da Federação. Há quatro anos, tivemos um técnico estrangeiro, o professor Abílio Cruz, de nacionalidade portuguesa, e continuamos o mesmo processo. A direcção está a trilhar o mesmo caminho, desta vez, a função foi entregue a um técnico nacional que trabalha com os melhores jogadores do país.

5-O número de provas realizadas anualmente no país é aceitável?
Diria que não. Infelizmente, a Associação Provincial de Luanda de Ténis de Mesa não dá conta do assunto. No presente ano, realizou algumas provas. No cômputo geral, a Federação organiza e realiza. E ao assumir algumas competências da Associação Provincial, torna-se um pouco pesado para a Federação. As competições organizadas pela Federação continuam diminutas. Com vontade política, poderia haver mais.

6-O número reduzido de provas tem a ver com as premiações?
A Federação faz grandes esforços. Em certos casos, claudica por falta de patrocínios. Os prémios atribuídos aos atletas seniores não compensam, ao contrário dos atribuídos aos juniores, que se contentam com os mesmos. Não vou entrar em detalhes para não ferir sensibilidades. O concreto é que o prémio não é satisfatório para os seniores.

7-Se os prémios não são compensatórios, o que os faz manterem fiéis à modalidade?
Crescemos no ténis de mesa. Somos parte integrante de um grupo e partilhamos as dificuldades. Em abono da verdade, muitas coisas que conquistei na minha vida foram graça ao ténis de mesa. Os clubes dão-nos algumas ajudas. Sou finalista do curso universitário e estou nessa condição fruto do apoio do meu clube, a Universidade Privada de Angola, que paga a minha bolsa. O clube paga para mais quatro ou cinco atletas. Dois estão formados com a ajuda de clubes e com um empurrão da Federação.

8-Além da bolsa, há outras vantagens no contrato? Há cumprimento desses acordos?
As falhas existem em toda a parte. Até os grandes clubes vivem esses problemas. Por isso, o incumprimento é normal. No seu todo, existem momentos altos e baixos. Quando acontecem situações do género, pautamo-nos pela compreensão. No meu caso, está tudo bem. Há fases em que ficámos dois ou três meses sem salários. Quando a situação volta à normalidade, são repostos na íntegra. O que não falha é o cumprimento da bolsa de estudos, pois os pagamentos estão sempre em dia. Prova disto, é a formação com mérito de dois atletas na UPRA, que concluíram a faculdade com distinção. Estou prestes a terminar o curso de Gestão e Contabilidade.

9-Qual é a contrapartida a favor do clube?
Conquistei todos os títulos com a camisola da Universidade Privada de Angola. Já dei a essa equipa quatro títulos de seniores e mais cinco a nível de equipas, sem esquecer a boa representação em provas internacionais, principalmente, nas africanas, nas quais conseguimos um sexto lugar.

10-Estás satisfeito com a posição alcançada?
A nossa realidade diz que a posição já é muito boa. Estar entre as seis melhores do continente africano é perfeito demais. As equipas do topo de África possuem atletas profissionais. Em Angola, não existem jogadores profissionais. Além do ténis de mesa, dedicamo-nos a outras actividades.  Estas múltiplas actividades afectam no desempenho do atleta. É difícil obter grandes resultados. Os nossos adversários jogam nas equipas da Europa e noutros continentes.

África Austral
está em crescimento


1-Como avalia o desempenho da Confederação Africana de Ténis de Mesa?
A Confederação Africana de Ténis de Mesa tem um grande défice quanto ao processamento de informações, principalmente, ligadas à actualização do ranking de África. Só agora se está a organizar para o seu pleno funcionamento. Não há informações credíveis. Angola está entre a sétima ou oitava posições entre os países africanos, na categoria de seniores, isto no contexto mundial. O primeiro é o Egipto e a seguir vem a Nigéria, depois aparecem Argélia e Marrocos. No outro bloco, estão o Congo Brazzaville, com muitos jogadores naturalizados, seguindo a África do Sul e Angola.

2-Qual é a realidade do ténis de mesa na região austral?
Está em crescimento. Nos Jogos Africanos de Maputo, ficou evidenciado que está em crescimento. O Botswana não tinha um ténis de mesa deste nível há uns anos. Isso demonstra evolução. A África do Sul está com bons índices de evolução e é o nosso principal concorrente. A Namíbia está fora dos parâmetros, tem poucas razões para se vangloriar.

3-A ascensão dos outros países da região é motivo de preocupação?
A situação é preocupante. Temos de redobrar os esforços para não sermos deixados para trás. A alternativa é trabalhar cada vez mais para nos mantiver entre os três melhores da região.

A estrela curiosa

Decorridos 14 anos, Hermenegildo Agnelo é uma das principais referências do ténis de mesa angolano. O jovem nascido na Ingombota é o “embaixador de Angola” nas competições internacionais de ténis de mesa, nas quais faz desfraldar a bandeira nacional.Dono de um currículo desportivo invejável, Hermenegildo Agnelo conquistou a primeira medalha de bronze numa competição africana, após um ano de prática, quando integrou a Selecção Nacional de sub-21, em 1998.

Face à reluzente imagem depositada nas competições internacionais, afirma que, ao longo da história de ténis de mesa angolano, a melhor geração de atletas de sempre é a sua.Ao lado de outras “feras” nacionais, Hermegildo Agnelo começou a praticar ténis de mesa quando entrou para o ensino secundário.

O ruído vindo do pavilhão levou-o a espreitar e uma pequena bola branca era batida sobre uma mesa pequena. Sem entender as regras, a curiosidade levou-o ficar mais próximo.“Fui atraído pelo batimento das bolas que vinha do ginásio da minha nova escola, para onde havia sido transferido e isso despertou-me a curiosidade”, revela.

Sem sonhos marcados, após um longo período de observação, criou interesse em aprender a jogar ténis de mesa.“Por sorte, fui convidado para comparecer no dia seguinte, um sábado, em que  houve um festival juvenil. Assisti ao evento e acabei por gostar”, disse.

O gosto fê-lo sonhar com a raquete na mão. Sem meios para a adquirir, limitou-se a viver do sonho. Na semana a seguir ao festival, recebeu um convite para começar a treinar. “Aceitei e continuo no ténis de mesa até hoje”, disse.Hermenegildo Agnelo recebeu as primeiras lições de um homem que se dedica de alma ao ténis de mesa. “Manuel Pimenta ensinou-me tudo. Foi o meu primeiro treinador, entre muitos que tive”.

Além de Pimenta, no pavilhão havia outros “bons executantes”, colegas de equipa, que hoje já não praticam a modalidade. Dos jogadores do seu tempo, poucos se mantêm no activo. “Os que começaram comigo e continuam no activo são dois: António Lemos e Valdemar Cassanga”.

Mais tarde, juntaram-se outros nomes, que hoje fazem furor na Selecção Nacional. Entre estes, destaca-se Jackson Nazaré, companheiro fiel na Selecção. António Lemos é o seus “braço eterno” no clube e na equipa nacional.A dedicação de Hermenegildo Agnelo tornou-o num dos melhores atletas do país. Os resultados coleccionados justificam os elogios da imprensa nacional e internacional.

Dono de quatro títulos nacionais individuais e alguns segundos lugares, Agnelo colecciona também três títulos de pares em seniores e dois de pares em juniores.Nas competições internacionais, a medalha de bronze no Campeonato Africano de juniores de sub-21, em 1998. Na prova africana disputada em Marrocos, em 2010, Agnelo ficou na 15ª posição individual, numa competição que contou com os 40 melhores atletas do continente. Agnelo ficou em 12º lugar no Campeonato do Mundo da II Divisão. A melhor classificação de Angola de sempre.

Hermenegildo Agnelo é fruto de um projecto injectado pela administração do ex-presidente da Federação Angolana de Ténis de Mesa, Tony de Jesus, e reajustado por Filomeno Fortes, actual gestor. Sem evasivas, o atleta diz que a actual nata do ténis de mesa angolana é a melhor de todos os tempos. E justifica: “A primeira participação internacional e num Campeonato do Mundo faz parte da geração a que pertenço”.

 Momento Alto

Subir ao pódio pela primeira vez no Campeonato Africano de Jovens, organizado em 2003, na África do Sul, foi o feito marcante da carreira. Nessa competição, conquistou a medalha de bronze.

Momento Baixo

O afastamento da fase de grupos dos Jogos Africanos de Maputo’2011, diante de um atleta do Congo Brazzaville, manchou o percurso de Agnelo. A derrota por 3 a sets a 0, na partida de desempate (2-2), é o fantasma que o persegue.

A cooperação com China
é benéfica para Angola


1-A China é um território que dominas. Quais são as vantagens da cooperação entre Angola e o gigante asiático?
A China é o número do ranking mundial. A cooperação é benéfica. Fui um dos grandes beneficiados do acordo. Frequentei três meses de preparação e voltei enriquecido com novos conhecimentos. Os resultados não são imediatos, mas vamos dar tempo ao tempo. Hoje, já me sinto seguro. Realizei o meu melhor campeonato. Tenho fé que os atletas que estão a estudar na China durante dois anos vão produzir resultados que vão orgulhar os angolanos.

2-Que lições contribuíram para elevar o nível técnico-competitivo dos angolanos depois do estágio na China?
Os chineses trabalham muito a vertente física, técnica, psicológica e táctica. Existem vertentes que nunca se aprofundou no país.   A aplicação da técnica não basta, é necessário aglutinar todas as variantes. Beneficiámos de uma aplicação global do programa preparatório e regressámos mais completos. Os chineses são muito didácticos, estudam os movimentos do adversário. Em três meses, aprendemos isso. Os miúdos, que vão permanecer dois anos naquele país, também vão voltar aperfeiçoados. Acredito que vão ter uma palavra a dizer nos próximos tempos.

Perfil

Nome: Hermenegildo Agnelo de Sousa Sebastião
Data de Nascimento: 24 de Fevereiro de 1985
Natural: Ingombota
Província: Luanda
Estado Civil: Solteiro
Função: Professor de Educação Física
Modalidade: Ténis de Mesa
Signo: Peixe
Nível Académico: 5º Ano do ensino universitário – UPRA
Altura: 1,82 cm
Peso: 73 kg
Nº calçado: 42
Prato preferido: Feijoada
Bebida: Sumo e água
Música: Qualquer tipo, desde que faça bem a alma
Casa própria: Não
Carro: Não
Desejo: Ter casa própria
Virtude: Amar o próximo

Trajectoria

1997 - Início da carreira

1998 - Primeiro clube – Himoka

1999 - Jogou com gesso no braço esquerdo no I Campeonato Nacional de jovens e obteve o segundo lugar na prova individual e primeiro na de pares simples.

2002 - Ingressa pela primeira vez na Selecção Nacional de seniores e obteve o sétimo lugar no Africano da Tunísia.

2003 – Medalha de bronze no Africano de jovens, disputado na África do Sul.

2005 - Campeão Nacional Absoluto

2007 - Campeão Nacional    Absoluto

2008 - 18ª posição da III Divisão do Campeonato do Mundo realizado na China.

2009 - Afastado da fase de grupo do Campeonato de Mundo Individual

2010 - 12º Lugar na II Divisão do Campeonato do Mundo por  equipas, realizado em Moscovo. Melhor participação angolana de          todos os tempos.