Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Ainda não tenho data da partida para a Argélia

João Carmo - 01 de Dezembro, 2010

Faia é, nos dias que correm, a melhor judoca angolana.

Fotografia: Jornal dos Desportos

Fale do estágio em que vai participar na Argélia…
É algo que vem para beneficiar todos os atletas de África, aqueles com potencial para representar bem o seu país e, consequentemente, o continente em competições como o Campeonato do Mundo e os Jogos Olímpicos. É uma mais-valia para países pouco desenvolvidos, sem oportunidade de rodar os seus atletas. Para competir em Jogos Olímpicos, os atletas devem pontuar durante o ano, o que é muito difícil. Este estágio é como que um trampolim para o judoca participar em torneios na Europa, América, Ásia, etc. É como se fosse uma equipa de elite de África à procura de pontos suficientes para participar nos Jogos Olímpicos, neste caso, o de Londres-2010.

Está distante dos pontos exigidos?
Não estou muito distante, pois sou, neste momento, a terceira melhor de África. Tenho de lutar para ser a primeira ou segunda, na medida em que, em cada categoria, vão apenas duas atletas. Se continuar a representar Angola em várias competições internacionais, ainda que não fique entre as duas primeiras, posso ser convidada. Eles podem ver o meu curriculum, que participei em várias competições internacionais e que só não consegui a pontuação por falta de sorte. Mas a minha intenção não é estar lá como convidada e sim conseguir o apuramento directo. Por isso, aceitei esta bolsa, que me dá a oportunidade de ficar dois anos na Argélia. Já estive em Marrocos e sei como é o sistema, o ritmo de trabalho. É muito bom, por sinal.

Que estratégia gizou para aproveitar da melhor forma esta oportunidade?    
Tenho de treinar bastante. Uma coisa é certa: lá não há brincadeira. É um estágio forte e muito concorrido. Estando lá, o meu pensamento deve estar apenas virado para a Alta Competição. O atleta não pode apenas ir para treinar, mas ter um objectivo a nível internacional.

Ao que sabemos, o estágio já começou…  
Já. Começou entre Julho e Agosto, mas ainda estou cá.

Já há uma data para partir?     
Ainda não. Se dependesse da federação, já lá estaria. Mas depende do Ministério da Juventude e Desportos, que ficou de comprar o bilhete de passagem, mas até ao momento não o fez. Ouvi dizer que o documento já está no gabinete do ministro, que só falta a assinatura deste, mas já se passam dois meses e nada feito. A verdade é que o tempo está a passar, até porque tenho uma competição na China, já em Dezembro, e queria aproveitar o estágio para estar mais bem preparada. Disseram-me, primeiro, que faltava o visto para a Argélia, coisa que já foi resolvida. Agora dizem que falta comprar o bilhete de passagem.

Além do torneio da China, o que fará até à partida para o estágio?
Não tenho férias. No próximo ano, serão realizados os Jogos Pan-africanos e, em seguida, um torneio na Europa, entre Fevereiro e Março.

Já participou numa bolsa do género em Marrocos. Como caracteriza esses estágios?
São muito bons, ajudam o atleta a desenvolver e abrem as portas àqueles que querem seguir na Alta Competição. Como queria entrar para este mundo, o estágio em Marrocos ajudou-me a evoluir. Ele mostra o que é a Alta Competição, pois é uma formação por excelência. A única desvantagem é que não se estuda. É apenas virado para a competição. Se Angola tivesse um centro de treinamento do género, seria muito bom e teríamos bons atletas. Cada país africano é representado pelos seus melhores atletas. O contacto concorre para o desenvolvimento da mente do atleta e ele tem mais oportunidades para medalhar nas competições continentais e fora dele. Os treinadores são de várias nacionalidades e o atleta, ao aprender um pouco de cada um, junta e torna-se mais capaz.

“Vou a Inglaterra para medalhar”

Esteve em uma edição dos Jogos Olímpicos.

Qual será o seu objectivo, caso se apure para os de Londres-2012? 
Nós, atletas, temos sempre grandes ambições Quero chegar a Londres e dar o melhor de mim. Penso medalhar. Por isso mesmo, quero estar na Argélia para estar mais bem preparada e capacitada para conseguir uma medalha na Inglaterra. Mas tudo depende de como vou trabalhar até lá. Tenho de chegar, analisar e fazer um trabalho específico. Só assim posso dar uma resposta que vá ao encontro da minha condição física e forma desportiva. Ainda assim, penso ir a Londres para conquistar uma medalha. Tenho capacidade para tal, desde que faça um bom trabalho, no fundo, o segredo de qualquer conquista.

Tem experiência suficiente para conseguir tal desiderato? 
Muita. Os atletas que vão aos Jogos Olímpicos são os mesmos com quem luto em outras competições, em estágios, etc. Conhecemo-nos todos e, por isso, estou confiante em fazer uma boa prova desde que os apoios surjam a tempo.

“Se não houver apoio vou abandonar”

Disse recentemente que pretende abandonar o judo, depois dos Jogos Olímpicos de Londres. Mantém a ideia?
Sim. Se houver condições, apoios e outras premissas, poderei continuar. De contrário, vou mesmo abandonar. Sei que pode doer às pessoas, mas não terei alternativa. Há coisas que o atleta faz e o país não dá valor. Ele treina, luta, traz medalhas e pensa que as coisas vão melhorar, mas tudo continua na mesma. Quando pensa que vai para a frente, afinal vai para trás. Já estou nesta vida de representar o país há 20 anos e não tenho benefícios, nem da federação nem do Ministério. Nada tenho. Porque hei-de continuar a representar o país na Alta Competição quando nada ganho? Prefiro abandonar e fazer outra coisa.

Nem como treinadora?
Posso deixar de competir, mas continuarei a transmitir os meus conhecimentos a outros atletas, formar algumas crianças, até porque quero abrir uma escola.

E quando conquista medalhas?
Todos os campeonatos de África em que participo, trago medalhas. O Estado apenas paga o valor de cada medalha conquistada, aquilo que está regulamentado. Nos dias que correm, pagar três mil dólares para uma medalha de bronze, cinco para a de prata e nove mil para a de ouro, já não compensa. Para alguém que traz medalhas de campeonatos africanos, Pan-africanos e faz bons resultados em Jogos Olímpicos, é complicado. Os homens da Federação Internacional de Judo falam constantemente de mim, mas internamente não sei o que falta. Às vezes me pergunto o que tenho para as pessoas não darem valor àquilo que faço. Nunca deixei Angola mal.

Dê exemplos…
A título de exemplo, nos Jogo da Lusofonia conquistei o ouro, mas nada recebi do Ministério da Juventude e Desportos, apesar de dizerem que aquela competição é como se fossem os Jogos Olímpicos de África. O ministro estava lá, em Lisboa, mas não fomos recebidos por ele. A verdade é que Angola ficou em terceiro lugar na classificação geral graças às modalidades individuais, sobretudo o judo, que teve quatro ou cinco medalhas.

Do contacto que tem com atletas de outros países, que tratamento recebem quando conquistam medalhas?  
Eles estão melhor. Sabem que Angola é um país rico e que todos os seus atletas têm boas condições de vida. Dou-me com todos os campeões do mundo e dizem que recebem o que precisam, como casa, carro, salário e são recebidos pelos dirigentes do país. Quando digo que em Angola não é assim, não acreditam. Dói-me quando chego à conclusão que sou mais respeitada fora do que no meu país. Até o presidente da União Africana de Judo, quando vem a Angola, pergunta por mim e procura estar comigo. Só continuo porque o povo pediu e por amor à modalidade.    

Voltando à questão da escola. O que falta para a abrir uma?
Falta tempo.

Talvez só o tenha depois de abandonar a carreira…     
Sim. Estou sempre a viajar e não dá para deixar as coisas pelo caminho. Neste momento, apenas estou concentrada nos Pan-americanos, no Campeonato do Mundo e nos Jogos Olímpicos. Não quero ocupar a cabeça com outras actividades. Quando terminar as competições de que falei, pensarei noutras.  

Pensa abandonar, numa altura em que é a grande referência do judo feminino angolano. Há outras atletas com capacidade para fazer igual ou melhor entre a nova geração?
Não há. É assim: se a Faia sai, o judo feminino angolano morre, pois não há uma judoca que se olhe para ela e se diga que vai substituir a Faia quando deixar o tapete. Nem em masculinos nem em femininos, há atleta capaz de fazer o que fiz até agora.

Entre o tapete e a Polícia

Fale do judo feminino em Angola…
O judo feminino no país não se desenvolve por não ter espaço para o efeito. Podemos ter meninas que lutam, boas judocas (como é no caso da equipa a que pertenço, toda constituída por meninas), mas não têm apoio. Elas treinam e na hora competir fora do país, apenas mandam a Faia, alegando não terem condições para mandar mais atletas. Quando a federação terá condições? Para a atleta evoluir, tem de lutar. É assim no judo feminino. A atleta frustra-se, arranja namorado, engravida e acaba a carreira.

Considera-se privilegiada?
Sinto-me mal quando apenas vou eu, quando há outras colegas com capacidade para estar em competições africanas e medalhar. O dia em que Angola apostar em modalidades individuais, terá bom desempenho nos Pan-Africanos. Às vezes, o judo tem sete atletas para determinada prova, mas os dirigentes reduzem o grupo para dois e estes têm poucas hipóteses de fazer boa figura.

Quem é a Faia fora do tapete?
Não dependo do judo, na medida em que nem recebo salários. Além de treinar, sou instrutora da Polícia Nacional, colocada na Escola Capolo II. Para viver, dependo do salário e de outras coisas que faço fora da modalidade. Assim vou vivendo. Quando estou no tapete, sou uma pessoa e outra fora dele.

As pessoas têm dificuldades em relacionar-se consigo por ser atleta de artes marciais? 
Muita. Aqui, a maioria dos meus vizinhos pensa que sou agressiva tal como em competição. Aproveito para dizer que tenho uma educação diferente. Sou uma atleta de luta, mas não de rua. Sou amiga de todos, falo e cumprimento todos, pois sei que é do povo que ganho alento para continuar. Não dou motivos para brigas de rua.