Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Amaral Aleixo garante falta liderana ao futebol nacional

Leonel Librio - 22 de Março, 2011

Amaral Aleixo exige superao permanente dos agentes do futebol angolano

Fotografia: Jornal dos Desportos

Amaral Aleixo, vice-presidente do Petro de Luanda, para o associativismo e para as modalidades amadoras, concedeu ao Jornal dos Desportos uma extensa entrevista onde falou de coisas interessantes. A questão da necessidade de se criar e instituir uma Liga de Clubes, a urgência de dar outra dinâmica ao sector da Federação Angolana de Futebol que lida com as questões das selecções nacionais, a competência que está a ser evidenciada pelo técnico dos Palancas Negras, Lito Vidigal, e o imperativo que há em se dar mais atenção aos escalões de base são, entre outros, os assuntos abordados com este homem do futebol que hoje também é membro da Academia Olímpica de Angola e director de cursos da Solidariedade Olímpica. Atente, pois à entrevista.

Não há dúvidas que o futebol angolano está mal. Em sua opinião, onde radica o mal?
Está claro que há uma mudança de geração que não foi acautelada quer a nível dos clubes quer das selecções nacionais e a nível dos escalões etários. Neste momento o que se nos dá a assistir é essa qualidade de jogo. Outra questão que concorre ainda para "ajudar" a já depreciada situação é o ínfimo número de praticantes na base.

O que deve ser feito para se inverter o quadro?
Ao nosso futebol falta liderança, carácter...pessoas que nos diversos níveis de comando e funcionalidades saibam interpretar e fazer cumprir orientações, quer administrativas, técnicas e/ ou politicas orientadoras ou orientadas.

Em sua opinião, qual a prestação específica que a Federação Angolana de Futebol, as associações provinciais e os clubes devem ter, numa perspectiva da melhoria que se pretende para a modalidade, uma vez que uma considerável quantidade de pessoas acusa a FAF, como sendo a responsável por tudo o que de negativo se passa com a modalidade?
Todos os agentes do futebol devem sentir-se responsáveis pelo estado actual da modalidade, uma vez que se não foi inoperância de uns é ineficácia de outros aliados a aspectos comuns que ultrapassam a capacidade de intervenção ou vontade do futebol em si, como a falta de campos, a falta de quadros que grassa no Pais, o fenómeno da adulteração de idades, entre outros. Não podemos demitir os gestores das suas funções, pois todo filho tem um pai, quero com isto dizer que embora não seja a única responsável, a federação é que tem o ónus da situação actual do nosso futebol, até porque este elenco está há cerca de 11 anos à frente da “empreitada”.

Qual o papel que as associações provinciais e os clubes devem desenvolver no que tange à organização correcta e à melhoria da qualidade do futebol nacional?
Os clubes no contexto actual fazem a captação de forma não sistematizada. Por isso, nunca surge uma fornalha de craques inseridos numa só geração. Quando o fizerem a partir das escolas, e para isso é preciso haver espaço para a prática no mínimo da Educação Física, já as APF deverão formar os diferentes técnicos que darão o sustento ao movimento de massas consubstanciado na massificação e posterior especificação da modalidade, entre treinadores, árbitros, dirigentes sempre sob auspícios da federação, até porque há várias etapas no processo de formação dos atletas.

Em sua opinião, a quem compete fiscalizar a acção das associações provinciais e dos clubes?
Existem mecanismos legais previstos no regime jurídico das Associações Desportivas e outros objectos reguladores, como Estatutos, Associados, entre outros.

Esse trabalho tem sido feito?
Acredito que tem sido feito. Não podemos olvidar o facto de muitos de nós não exercemos a nossa cidadania na plenitude e sendo o desporto uma sub-unidade nesse processo, naturalmente também padece dessa falha e se atendermos que é errare humane est - isto é, errar é humano(...)

Em relação a fiscalização do trabalho das associações provinciais e dos clubes, que acção deve ser atribuída a FAF?
Liderar, orientar, mostrar caminhos, mas sobretudo influenciar as boas práticas, reactivar o espírito de conquista organizadamente, aproveitar as energias dispersas, aglutinando-as por meio de processos organizacionais, entre outras coisas.

Partilha da opinião, segundo a qual as associações provinciais, pouco ou nada fazem em prol da modalidade?
Claro que não partilho. É preciso compreender que muitos fazem o seu trabalho por amor ao futebol e que nunca lhes foi dada oportunidade para dominarem novas ferramentas, nunca contactaram outras realidades sócio-profissionais, pois não é viajando com as selecções nacionais ao fim-de-semana, quando as instituições dos outros países estão fechadas, que vão aprender. Não é ouvir aleatoriamente que compreenderão. É necessário haver congressos, seminários, cursos, estágios, benchmarking, enfim dar formação regularmente a esses ”embondeiros” do nosso futebol.

De que forma? 
Muitas, mas é preciso notar que eles precisam de meios, sobretudo humanos para moverem as matérias e a máquina toda. De resto, os seus estatutos e regulamentos orientam as suas actividades.

Quais as tarefas que devem ser da responsabilidade das associações provinciais?
Fomentar o futebol, organizar sob todos aspectos inerentes a modalidade no seu território e divulgar, informar a federação toda amalgama de acções.

Que comentário se lhe oferece tecer sobre o facto de algumas associações não organizarem os respectivos campeonatos provinciais, com principal incidência para os de juniores e juvenis?
Se por um lado falta população em muitas províncias, noutro, debate-se com a gritante falta de condições infra-estruturais e sociais aliado ao fraco activismo juvenil. Temos poucos activistas desportivos, voluntários do desporto se assim podemos considerar.

Em sua opinião, quais as alternativas para se acabar com esse tipo de situações?
Uma delas é a formação do homem. Outras são a criação de infra-estruturas específicas para o desporto, uma melhor qualidade no ensino de base. É preciso não esquecer que tudo deve começar na base.

"O futebol
começa nas escolas"


Em consequência das várias componentes que compõem a modalidade a nível do país, não constitui novidade que o futebol nos escalões etários está mal, o que coloca em risco a interligação da base ao topo, um dos principais pressupostos para que a edificação da pirâmide desportiva seja um facto. Esse factor é abordado sempre que se aborda a problemática do futebol. O certo é que continua entregue ao "esquecimento".

O que diz sobre isto?            
O futebol é um conceito que começa nas escolas, calcorreando as suas etapas até atingir a alta competição. Quem não dominar isto naturalmente hipoteca-o. Infelizmente grande parte dos dirigentes não tem a qualificação necessária quanto mais a desejada.

A FAF orienta os clubes, a cerca de 20 anos, a obrigatoriedade de possuírem no mínimo, uma equipa de juniores e outra de juvenis. O certo é que por vários motivos, a maioria dos clubes não cumpre tal obrigação, diante da passividade da FAF. O que diz a respeito? 
Além de não fazer exercer a sua autoridade, permite um estrangulamento na organização e é por isso que temos mais equipas seniores em Angola de que em juniores e/ou juvenis. E ainda se diz que Angola é um país de futebol. Quando a base é diminuta ou equiparada em relação ao topo, então é porque algo vai muito mal!

A FAF possui um projecto de âmbito nacional, para num período de 2 anos desenvolver o futebol jovem, que numa primeira fase, congrega cerca de 1500 crianças. Muitas pessoas não concordam, já que são de opinião que este tipo de actividade é da competência dos clubes. Que opinião tem sobre o assunto?
O importante é começar. Assim como foi o caso dos caçulinhas da bola, agora há que aproveitar o que de positivo há, criar energias e agregá-las a uma determinada colectividade ou organização, seja num campeonato provincial, seja em selecção provincial ou inserir os garotos em diversos clubes ou até criar núcleos municipais, provinciais ou regionais. Mas deve-se aproveitar todas a iniciativas mesmo as mais incipientes porque de certeza algo útil se retira sempre.

A adulteração de idades, fundamentalmente nos escalões de formação, é um mal que continua a ser difícil de se combater. Há informações de que em alguns casos, essas infracções são cometidas com a conivência dos pais, encarregados de educação e tutores. Como dirigente de um dos maiores clubes de Angola, qual a sua opinião sobre a forma que deve ser adoptada para se acabar com esse tipo de farsa?
É um problema transversal à sociedade angolana e que tal como a educação, as Forças Armadas, a Polícia e outros organismos, também afecta o desporto e que carece de uma intervenção urgente quer de todo quer das instituições afins.

Amaral quer quadros competentes
no departamento das selecções nacionais

Muita gente é de opinião que nos actuais moldes de funcionamento, onde segundo informações que dispomos, existem atropelos e choques de competência, o departamento das selecções nacionais, em pouco ou nada contribui para o desenvolvimento do futebol e para a prestação que se quer positiva das representações nacionais. O que pensa sobre isso?
Do que leio e oiço via imprensa, há que dar o benefício de dúvida. Há necessidade de dotar as “Relações Exteriores” - leia-se departamento das selecções nacionais - de quadros humanos com outras valências ou melhorar, reforçando a equipa, pois quem está lá alguma coisa faz, bem ou mal, mas acredito, sempre a pensar no bem das nossas selecções.

Quem deve fazer parte, quais as respectivas competências de cada integrante e como deve funcionar o departamento das selecções nacionais?
Cada organização tem suas regras, normas que depois se incorporam em regulamentos e estatutos. E aí acredito que o departamento das selecções nacionais tem um quadro organizacional. Mas será que os intervenientes se adequam a ele? Será que tem gente suficiente para cobrir todos os campos? E se há, será que têm conhecimento bastante e dominam as ferramentas? Como explicar as várias "gafes" administrativas que afectam sempre as equipas nacionais, nos diversos escalões?

Ao invés do que se verifica em grande parte dos outros países, a FAF não conta com um director técnico nacional que, pela especificidade das suas funções, contribui para imprimir maior dinamismo ao departamento das selecções nacionais.
Qual o perfil que o director técnico deve possuir e quais as suas funções e atribuições?
A nossa realidade é ímpar. Cada país é um caso, independentemente da universalidade de vários conceitos. No actual contexto é premente um seleccionador nacional ao invés de um director técnico dado que com a estrutura organizacional vigente, se devidamente equacionada podemos relançar as nossas selecções dos diversos escalões.

Para que as pessoas tenham uma percepção mais correcta, qual a função dos seleccionadores nacionais?
Orienta metodologicamente todas selecções do país (no caso masculino) coordena suas actividades, é o responsável pelas políticas das equipas, faz obedecer a critérios uniformes nos espaços selecções nacionais e é o responsável último por todos os resultados.

O que diferencia o director técnico dos seleccionadores nacionais?
O director técnico, além daquelas atribuições também trata da administração e logística do departamento das selecções nacionais.

"Devemos respeitar
os ideais dos candidatos"


Partilha da opinião segundo a qual, o futebol se encontra no estado que se conhece pelo facto de o actual elenco que dirige a FAF se mostrar pouco eficaz no desenvolvimento das suas funções ou concorda com quem é de opinião de que o mal vem das direcções anteriores?         
O Mal é geral. Não tem um só rosto, mas sim uma miscelânea de actores, desde os colectivos aos individuais; desde o publico ao privado, mas a criança tem que ter sempre um pai.

Que opinião possui sobre o trabalho que está a ser desenvolvido pela actual direcção da FAF?
Sendo um elemento estranho àquele grupo, só posso me pronunciar em função dos resultados. E estes falam por mim (...)
Independentemente de uma das resoluções da recente Assembleia-Geral da FAF, que orienta a realização de eleições antecipadas, pelas razões que se conhecem, para 19 de Maio próximo, o pleito eleitoral que coloca fim ao ciclo de 4 anos está aprazado para o ano de 2012.

Que opinião possui sobre Osvaldo de Oliveira  “Jesus” e Alves Simões e outros possíveis concorrentes à direcção da FAF?  
Candidatos haverá sempre. Insisto muito na ética. Quando fazemos parte de um processo, organização, ideias ou movimentos, como por exemplo, o Movimento Olímpico, devemos ter respeito pelos seus ideais, viver em função do espírito que nos norteia e não da lei, enaltecer e enobrecer a nossa missão, para que quem nos substitua ou nos acompanhe no acto se sinta como o complemento de uma construção, que é permanente, e não a obra em si.

"Vidigal vê a bola
além do horizonte"

Em função do quadro actual, qual é a sua opinião sobre as possibilidades de Angola se qualificar para a fase final do Campeonato Africano das Nações de 2012?
 Angola tem todas as possibilidades.

Porquê?
Porque estamos numa nova era. Temos esperança redobrada. Estamos numa dinâmica de vitórias. Temos outro treinador que sabe, cheira, sente, ouve e vê a bola para além do horizonte. Antecipa os actos quer em relação a organização interna (FAF) quer em relação ao exterior (adversário, imprensa, atletas, comunidade e país.

O que se lhe oferece dizer sobre o jogo contra a selecção nacional do Quénia, em Nairobi, no próximo fim-de-semana?
Dificílimo. Se não vencermos estamos arredados da competição. Se ganharmos podemos ainda aspirar a qualificação. Vamos lá para ganhar imbuídos no espírito de Kigali.

Que opinião tem sobre o valor das selecções nacionais que integram o grupo de Angola?
Estão ao nível da nossa equipa nacional.

Em função do estado em que se encontra o futebol angolano, o que se lhe oferece dizer sobre o segundo lugar alcançado pelos Palancas Negras, no CHAN, que recentemente decorreu no Sudão?
Superou as expectativas mesmo as dos mais optimistas. Foi um bom momento para o ego dos Angolanos

Lito Vidigal é o seleccionador nacional ideal para os Palancas Negras?
O ideal é sempre subjectivo, mesmo quando cinquenta e um por cento acha que é o certo os restantes podem retorquir e criar instabilidade. Vamos com calma que a passadeira é longa.

"Faça sol ou chuva
a Liga  há-de surgir"


O que perspectiva para o Girabola de 2011 que arrancou recentemente?
Uma prova equilibrada, sobretudo no início, mas a meio da segunda  volta haverá pouca uva para muita carroça.

Em sua opinião, quais as equipas que possuem maiores probabilidades de conquistar o título?
Petro de Luanda, Interclube e 1º de Agosto.

Pode justificar os motivos que o levam a apontar essas equipas como potenciais candidatas a conquista do título de 2011? 
Motivos óbvios. Estamos a evoluir para determinado estágio de desenvolvimento que estas pequenas questões serão facilmente separadas. Quando haver uma associação de treinadores forte e funcional e o mesmo se aplica aos futebolistas, árbitros, estádios exequíveis e utilitários, muita bola para crianças, as Universidades (Institutos Superiores de Educação Física, sentir-se-á que essas realizações estão " à porta".

Qual o comentário que se lhe oferece tecer sobre a vinda para as equipas do Girabola, em quantidade significativa de atletas angolanos que actuavam em equipas europeias, fundamentalmente, de Portugal, quando até pouco tempo se registava o inverso, com os atletas a emigrarem para o estrangeiro, a procura de melhores condições salariais e sociais?

São sintomas de vitalidade da nossa economia e do desporto em particular. Contudo, digo-o que é um fenómeno tão benéfico como necessário, uma vez que trazem consigo inovações, outras qualidades e permite, por exemplo, aos que nunca saíram, aprender e, na maior parte dos casos, como deve ser e estar um profissional, qual a é sua envolvência com a sociedade e o futebol. Só vejo aspectos positivos e acredito vai permitir  inculcar aos de cá o sentido de classe, mecanismo esse que faz bastante falta  aos jogadores e não só.

Começa a aumentar a quantidade de pessoas a favor da criação da Liga de Clubes de Angola. O que acha?
Só quem está parado no tempo é que diz que é extemporâneo e não exequível neste momento, embora eu respeite quem pensa assim. Então pergunto como é que hoje existe uma federação? Nos anos 76 e 77 com os torneios experimental, 1 º Congresso, Agricultura e outros, começou o embrião do que é hoje o futebol da Angola Independente. Os mais velhos Luthero da Mota, "Ti Lara", Nicolau da Silva, Pila, Amílcar Silva, Paixão,  Matreira e tantos outros foram visionários naquela época, e do embrião surgiu a federação. Já se imaginou se estes “dinossauros” do nosso futebol esperassem até haver condições adequadas? Então eu pergunto, por que não começar "ontem" com a criação da Liga de Clubes? Sou dos que pensa que, faça sol ou chuva, ela há-de surgir para dar a "sapatada" urgente que a competição interna precisa; a valorização do futebol, dos campeonatos, dos estádios, dos actores, atletas e treinadores, principalmente.

Que diferença existe entre a Liga de Clubes a uma federação ou associação, no caso de Angola?
A Liga vai tratar das competições profissionais, da marca do futebol angolano. O futebol que deverá ser enquadrado nos cânones do negócio, passa a ser de facto uma marca e como tal, melhor tratada, porque serão os próprios clubes a cuidarem da sua competição, organização e sobretudo "fabricar"  dinheiro para manter o espectáculo sempre rentável.  A federação trata das selecções nacionais, do fomento do futebol a nível nacional e soberanamente, da Taça de Angola. Aí terá tempo para cumprir de facto com seu objecto social, que é o de fomentar o futebol sob todas as dimensões, quer de formação de técnicos, dirigentes, regulamentar em condições as suas atribuições e funcionalidades face as A P F, assim como gizar programas de desenvolvimento sustentado do nosso futebol em consonância com as associações de classes ou sindicatos, governos provinciais e com o Ministério da Juventude e Desportos. Penso que já se encurtou bastante o trajecto com a constante vinda de técnicos desportivos formados no exterior e a construção dos pavilhões e estádios de 2008 à esta parte.