Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Ana Isabel aponta para o desporto escolar

Gaudncio Hamelay | no Lubango - 25 de Dezembro, 2011

Ana Isabel precisa de 300 mil kwanzas para fazer reviso ao joelho

Fotografia: Jornal dos Desportos

Que avaliação faz do estado actual do atletismo feminino na província da Huíla?
Está a decair por falta de apoio e de visão dos dirigentes desportivos, pois têm mais apetência aos desportos colectivos que individuais. Uma equipa de atletismo pode ser formada por um atleta ou dois, contrariamente a uma de desporto colectivo, cujos custos são mais onerosos. Gastar com um ou dois atletas não é o mesmo com meia dezena ou uma dúzia de atletas. Os recursos que se gastam em desportos colectivos pode servir para implementar programas de desenvolvimento de desportos individuais em todo o país.

Que soluções sugere para inverter a tendência?

É necessário uma grande mobilização desportiva, espírito desportivo dos dirigentes e apostar cada vez mais na massificação. Constatámos que não há massifcação na província da Huíla.

Se não houvesse massificação, como se explica a presença de atletas locais em representação de clubes de outras províncias?
É inadmissível que clubes de outras províncias aliciem atletas locais para os representar. Isso acontece porque não há investimentos nas agremiações desportivas locais. Para inverter essa tendência, os dirigentes desportivos e a classe empresarial locais são chamados para apoiar o desporto a fim de evitar a fuga dos melhores atletas.

Como está o teu projecto de massificação?
O projecto está no ar. Após a minha recaída, a escola extinguiu-se. Com o meu melhoramento razoável, vou procurar reactivá-lo e dar sequência ao trabalho de descoberta de novos talentos para o atletismo. Os 50 petizes (dos 8 aos 14 anos em ambos os sexos) inseridos nesse projecto de massificação, concebido há alguns anos, vão ver o seu sonho realizado, porquanto me sinto um pouco apta para ensinar o ABC.

A par do teu projecto, a Huíla acompanha também o projecto de massificação ‘Renascer Atletismo’ do Clube Desportivo Ntyamba Sports. Esse último vai contribuir para a reviravolta do estado actual do atletismo?
Não basta a aparição do Clube Desportivo Ntyamba Sports, porque essa agremiação sozinha não é suficiente para dar o “boom” que se espera; têm de aparecer mais outros clubes virados à massificação. Porém, é possível que a Ntyamba Sports melhore o atletismo local. Sem a ajuda dos empresários e dos governantes, o projecto preconizado por esse clube não vai muito longe; precisa de materiais desportivos e de outras coisas.

Como caracteriza o atletismo no país?
Está morta. Em tempos idos, a Huíla participava em eventos nacionais com mais de cem atletas de diversos clubes, nomeadamente, Desportivo da Ngola, Inter da Huíla, Ferroviário da Huíla, Dínamos FC, Desportivo da Huíla, só para citar estes. Hoje, não se verifica essa adesão. Mesmo em Luanda, no Estádio dos Coqueiros, o 1º de Agosto e Petro de Luanda entravam em competições com mais de 50 atletas. Era um verdadeiro festival de atletismo. Nos dias que correm, aparece um a dois atletas numa especialidade numa prova nacional. Não estamos a fazer desporto. 

E o que se está a fazer?
É preciso que os dirigentes desportivos dos clubes em todo o país reflictam com seriedade e apostem na massificação escolar. Com o lançamento do desporto escolar, através do projecto do governo sobre a revitalização, vamos apostá-lo com muita dedicação e entrega pessoal. Não vamos gastar dinheiro para levar as selecções a estagiar ali ou acolá; é necessário uma profunda reflexão e optarmos no desporto escolar para levantarmos o atletismo bem como outras modalidades.

A revitalização do desporto escolar é a saída da crise?
É a forma mais viável. O Governo tem de apostar nos professores de Educação Física. Apostando nestes quadros, o desporto em Angola vai alcançar conquistas honrosas em todas as modalidades nos Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo. Devemos acreditar e esperar pelos frutos do programa de revitalização do desporto escolar do Governo em acção. Agora, o desporto escolar não pode estender-se apenas às crianças e aos jovens que estudam, mas àquelas que se encontram nas aldeias a correr atrás dos coelhos. É ali que existem talentos para todas as modalidades.

A São Silvestre está às portas. O que se espera da prestação dos fundistas angolanos?
De facto, sinto muitas saudades da São Silvestre. Como antiga praticante e conhecedora do trajecto, sei que neste tipo de competições ganha quem tiver sorte e estiver melhor preparado. Oxalá que um angolano ganhe a corrida! Isso seria orgulhoso para o país, atendendo a presença do naipe de corredores de elite mundial. João Ntyamba está na reforma, Aurélio Mity não se fala, eu, Ana Isabel, estou cansada e cheio de lesões que nunca curam, Vimbuaby desapareceu das pistas, Sófia, idem. Se quisermos repetir as proezas protagonizadas por esses fundistas, urge a necessidade de os empresários investir mais no atletismo.

A Federação Angolana de Atletismo seleccionou Francisco Caluvi e Felismina Cavela, ambos do Interclube de Angola, para representarem o país na São Silvestre. A escolha foi bem-feita?
Para essa corrida, não digo que a selecção nacional está bem feita, mas está mutilada. Quanto aos seus integrantes, são aqueles que se destacaram nas provas realizadas.

Por que está mutilada?
Por que dois atletas representem o país? Que seleccionassem no mínimo três atletas da província da Huíla e três do Huambo ou de Luanda para formar a Selecção Nacional. Uma selecção composta por um atleta masculino e outro feminino, com quem vão fazer o jogo de equipa para enfrentar os fundistas estrangeiros? Os nossos treinadores têm uma mentalidade negativa, pois vão a São Silvestre com o pensamento de enfrentar outros fundistas angolanos em vez de estrangeiros. Estou a dizer que orientam os seus atletas a disputar os corredores angolanos integrantes da Selecção Nacional a fim de testarem as competências do técnico que dirige a selecção. Com essa atitude negativa acabam com o treinador rapidamente.

Que se espera da Felismina Cavela?
Que represente bem o sector feminino, pese embora exista outras que podem fazer também boa prestação.

Quanto ao técnico indigitado para dirigir a selecção, a escolha foi bem feita?
Foi uma escolha bem-feita. É um treinador que vive e tem amor à camisola do atletismo; o seu espírito desportivo está acima do nível. O desporto que se faz na Huíla é mesmo de amor à camisola. O Mister Augusto Diogo “Seco” trabalha na formação de atletas há muitos anos e a sua chamada para orientar a selecção nacional numa prova da dimensão da São Silvestre é bem merecida.

Está recuperada da lesão no joelho direito?

Graças a Deus a minha lesão já está mais ou menos curada; estou a recuperar devagar. Tenho muito a agradecer o Ministério da Juventude e Desportos e o senhor Leitão, do Grupo Gema (Sociedade de Gestão e Participações Financeiras) que me deram muito apoio espiritual e moral. Apesar disso, encontro-me ainda a envidar esforços no sentido de conseguir mais financiamento pelo menos trezentos mil kwanzas a fim de efectuar a consulta de revisão. Não estou a conseguir esse valor. Já enderecei cartas de pedido de apoio ao Governo provincial, direcção dos Desportos, inclusive ao Ministro da Juventude e Desportos e até hoje não tenho respostas. 

Para quando a próxima consulta de revisão?
A revisão ficou marcada para o próximo dia 28 de Dezembro, na MediClinic na República da Namíbia. Até ao momento, não disponho deste valor. Estou a mover-me com uma rótula artificial e só os médicos daquela instituição podem dizer o estado da minha saúde. De acordo com a recomendação médica, devo efectuar a revisão no joelho de seis em seis meses. A clínica está dotada de bons equipamentos para superar a minha lesão. Tenho fé nisso.