Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Andebol angolano está mais evoluído

Valódia Kambala - 08 de Setembro, 2010

Filopovic António foi eleito Melhor Jogador da Liga italiana de andebol

Fotografia: Dombele Bernardo

Que avaliação faz do andebol angolano no contexto actual?

Está no bom caminho. Há grande competição e tem jogadores em todos os escalões. Isso é bom. Tenho de felicitar à direcção da Federação Angolana de Andebol pelo trabalho que está a fazer.O andebol está mais evoluído comparativamente com o que se praticava há cinco anos. Hoje, existem cinco equipas em masculinos com o mesmo nível, depois, de muitos anos na inércia. Além disso, existe um número considerável de atletas nas camadas de formação, o que leva a crer que o andebol está a ganhar muito espaço.

Que perspectiva se lhe oferecer fazer?

Os piores momentos já passaram. A modalidade está no bom caminho, há mais jogadores de qualidade no campeonato, embora sejam jovens. Espero que os agentes do andebol angolano tenham percebido que não é com guerras que a modalidade voltará ao patamar que já ocupou. Com a devida estabilidade alcançaremos êxitos.

Vive na Itália há muitos anos. Que informação tinha do andebol angolano?

Converso com amigos e leio algumas coisas pela imprensa internacional, o que me deu a entender que alguma coisa para elevar o andebol está a ser feita. Já alcançámos o 3º lugar em África, bem como estivemos em dois Campeonatos do Mundo. O trabalho está visível para o mundo. Agora, espero que continuemos a trabalhar sem baixar os níveis e que possamos estar mais vezes entre os melhores do continente e participar com regularidade nos Campeonatos do Mundo.

Como aparece a jogar na Europa?

Foi por intermédio de um amigo, também atleta de andebol, Sérgio Lopes, que na naquela altura jogava no FC Porto, de Portugal, que convenceu os dirigentes portistas a contratarem-me. Fiquei dois anos no FC Porto e depois fui para Itália, onde estou.

A liga italiana é melhor que a portuguesa?

Não existe muita diferença. Normalmente, são oito equipas a lutar pelo título e as demais a tentarem alcançar algum protagonismo. A grande vantagem é que uma equipa pode utilizar cinco estrangeiros. Isso é bom, porque consigo jogar com tranquilidade sem ter de me preocupar com o número de estrangeiros. Em Portugal, são três, e essa condição dificultou a minha estreia, pois já havia estrangeiros a actuar.

Qual é a sensação de ser considerado o Melhor Jogador da Liga Italiana de Andebol?

É sempre muito bom; é sinal de que o nosso trabalho é reconhecido. Todos os jogadores ambicionam ser os melhores a cada dia que passa, embora o reconhecimento seja sempre relativo. Dá-me mais força para continuar a evoluir, sabendo que há quem reconhece as minhas qualidades. Fui apontado como Melhor Jogador nos dois últimos anos, o que me deixa radiante. Mas não é isso que me fará desviar do meu caminho – trabalhar e ajudar ao máximo o Gaeta de Roma.

Qual é a sensação quando veste a camisola do Gaeta de Roma?

É uma enorme responsabilidade envergar a camisola deste enorme clube. Sinto uma grande satisfação por desfrutar do prazer de representar uma equipa com esses créditos e de sentir a força de uma massa associativa impressionante, ainda por cima a fazer aquilo que mais gosto: jogar andebol.

Sente-se acarinhado pelos adeptos do Gaeta de Roma? Se sim, tem algum motivo em especial?

Muito acarinhado! Não só pelos adeptos como também por todos os responsáveis do clube. Só tenho pena de nem sempre o nosso pavilhão estar bem composto; trabalhamos todos os dias para atrair a atenção de mais adeptos para a modalidade e não desistimos desse objectivo. Quero voltar a celebrar títulos no clube com o pavilhão cheio.


"Não há olheiros no país"

Angola tem poucos atletas profissionais nos grandes campeonatos europeus. A que se deve?

Não há olheiros no país. Existempoucos agentes a nível do andebol. Sou profissional, porque tive a sorte de ter um amigo, Sérgio Lopes que me apresentou aos responsáveis do FC Porto que se interessaram e me contrataram. Isso aconteceu, porque o Sérgio sabia das minhas capacidades. Temos muitos jogadores com grande capacidade, em Angola, para actuar na Europa mesmo no escalão de júnior. Precisa-se de agentes sérios para levar os jogadores angolanos aos grandes campeonatos da Europa. É necessário a abertura para que esses jogadores vão a Europa. Será uma mais-valia para o andebol nacional, principalmente, para a selecção nacional.

Quais os jogadores que podem evoluir de momento no exterior?

Temos muitos atletas, mas posso citar o Giovanny Muachissengue, André Cassapi, Belchior Camuanga, André Costa e Adilson Matias, Armando Gumbe, Francisco Marçal, Júnior Dias, Manuel Gunza, Euclides Kissanga e Yuri Fernandes  e muitos outros incluindo os juniores.

 O que podemos esperar do nível competitivo do próximo campeonato nacional?

Vai ser muito difícil e muito renhido, tendo em conta o que se viu no campeonato provincial de Luanda. Confesso que gostaria de participar deste campeonato, porque as equipas não estavam tão equilibradas como agora no meu tempo. A muito tempo, as equipas não estavam tão boas. Para os amantes da modalidade é bom presságio.

Petro de Luanda, 1º de Agosto, Interclube, Kabuscorp: quem será o campeão?

É difícil fazer prognósticos. Já vi as três equipas a jogarem e garanto-lhe que qualquer uma delas pode ganhar o campeonato. Todos fizeram bons investimentos para o próximo campeonato. O Interclube, uma equipa nova, tem ao seu dispor bons jogadores. É o campeonato que muita gente esperava.

Europa é sonho antigo

Quanto à experiências na Europa. Foi fácil adaptar-se?

Não posso deixar de admitir que senti bastante diferença. O ritmo de trabalho e a qualidade dos jogadores são diferentes do que estava habituado. Sinceramente, o que mais me impressionou foi a dificuldade que senti ao nível físico. Apesar das dificuldades, prefiro treinar e jogar com esta exigência, pois é mais motivante saber que se trabalha ao mais alto nível e que posso chegar a esse nível. Mas ressalvo que tudo isso foi esbatido com a forma magnífica e espectacular como fui recebido pelo grupo.

Houve algum receio em não corresponder ao que esperavam de ti?


Sempre gostei de trabalhar ao mais alto nível e a oportunidade foi óptima. Tive algum receio, mas é normal. Ao mesmo tempo, tenho a noção de que se trabalhar sempre, alcanço mais os meus objectivos desportivos. Felizmente, o Gaeta de Roma, pelas pessoas que tem, acompanha qualquer atleta da melhor maneira possível,  e mais do que um bom desempenho (que quero sempre) prefere o esforço e o trabalho.

Como foi recebido pelos colegas italianos?

Às vezes, os resultados não são os mais agradáveis e há treinos que correm mal. Mas a esse nível, vivo momentos que nunca tinha vivido e são esses momentos que me fazem crescer. Estou a aprender uma coisa muito valororoza: a importância do balneário. Fui muito bem recebido. Essa equipa tem atletas diferentes, mas todos me ajudam. Espero um dia chegar longe. E se chegar, não vou esquecer quem conversa comigo, quando chego chateado, porque o dia não me correu bem ou quem me diz o que fazer nos treinos por ainda não ter as mesmas capacidades que os outros.

Alguma vez pensou jogar na Europa?

Sempre sonhei com essa possibilidade. Todos os dias, tenho um objectivo e uma coisa que procuro fazer: lutar para conseguir tudo o que quero. Pensar nisso não era difícil. A dificuldade estava em evoluir o suficiente para me ser dada essa oportunidade. Consegui. Por isso, já tenho outros objectivos. Penso neles. E um dia quando os concretizar, espero dizer que já foram um sonho tal como esse de jogar na Europa.

Quais são os teus planos ou objectivos a curto e médio prazo?

Estar na liga italiana é um orgulho e um mérito, mas não posso ficar sempre preso a isso. Tenho de lutar por outros objectivos, Às vezes, tento andar mais rápido do que realmente posso, mas é isso que tem de acontecer. Por isso, os meus planos a curto prazo são jogar o maior tempo possível e evoluir bastante para depois conseguir chegar a outros sonhos.

Qual é o teu grande sonho?

Tenho vários. Gostava de ganhar uma Competição Nacional da Itália pelo Gaeta de Roma. Acredito que, em tudo o que fazemos, devemos procurar estar entre os melhores. Se tiver de resumir todos os meus objectivos, o meu grande sonho é jogar ao mais alto nível numa competição como a Liga dos Campeões ou um Campeonato do Mundo ou Europeu.

Ingressou no Gaeta de Roma na presente época, vindo do Gama due Secchia. Foi a melhor opção encontrada para concretizar um dos
seus sonhos? A adaptação foi fácil?

Adaptei-me rapidamente graças ao enorme espírito de grupo que existe, desde os meus colegas de equipa,  treinadores e a direcção do clube, o que proporciona uma excelente acomodação. Quanto à minha mudança para o Gaeta de Roma, foi a melhor; é sempre bom estar num clube que vive o andebol e senti isso após os meus primeiros treinos. Sinto-me muito bem penso que fiz a melhor escolha.

Que diferenças separam os dois clubes?

São realidades diferentes. O Gaeta de Roma é dos melhores a nível de Itália; os métodos de treino, o rigor e o trabalho árduo são algumas das diferenças que encontrei.

Desatenção e desorganização
afastam Felipovic de Angola

O que o levou a aceitar o convite para voltar para Angola?

A vontade de estar em Angola ao lado da família. E por outro lado, saber que o meu país está em crescimento torna-se prazeroso voltar à pátria. E muito mais: sabendo que há um grande crescimento no andebol. Esteve para jogar no Kabuscorp do Palanca… Realmente, queria jogar esta época em Angola. Conversei com alguns dirigentes do Kabuscorp para o representar nesta época, mas não aconteceu, porque existe uma falta de organização, o que me pareceu.
 
Quer explicar melhor?

Se estivessem interessado, tinham de sentar e de conversar. Durante muito tempo, estive em Angola, tentei falar com a direcção do clube e não transpirou nada. O Kabuscorp mostrou-se interessado nos meus préstimos, mas queria que eu andasse atrás. As coisas não funcionam assim.

A par do Kabuscorp, recebeu outros convites?

Sim. Do 1º de Agosto. Pareceu-me que o andebol masculino não tem a mesma atenção que o feminino. Por isso, não fiquei por lá. Por outro lado, recebi o convite para jogar no Gaeta de Roma, uma equipa mais profissional que procura títulos esse ano. No clube italiano, as ambições e nível organizativo são outros. E mais: respeitam os atletas.

"Entrei no desporto por acidente"

Qual a importância do andebol na sua vida? Por que o andebol?

Entrei na modalidade por acidente, empurrado por amigos, aos 14 anos de idade. Tudo o que sou hoje se deve ao andebol; formou-me como atleta e como homem.

Em que medida o desporto melhora a qualidade de vida diária?

O desporto deveria ter um lugar na vida de todas as pessoas, porque proporciona o bem-estar, alivia o stress e previne certas doenças. Não me imagino sem praticar desporto. Mesmo durante as férias, não consigo estar parado: jogo ténis e futebol com os amigos e, algumas vezes, vou ao ginásio.

Que conselho deixa a pessoas que queiram começar a praticar desporto?

Nunca é tarde para começar a praticar desporto, embora quanto mais cedo melhor. Tomem precauções para evitarem  lesões, nomeadamente, fazer aquecimento e alongamentos; e não exceder as capacidades físicas, porque cada pessoa tem os seus próprios limites.

Como é o seu dia a dia?

È bastante cansativo. Em primeiro lugar, pela actividade que tenho. Procuro ser o melhor em tudo. Treino sempre o máximo. Também na escola ou noutra actividade, faço tudo para ter os melhores resultados. Aliás, não consigo fazer de outra maneira. Tento organizar tudo o que tenho de fazer, de forma a não faltar a nenhum treino e ter tempo para estudar e descansar.É certo, que há dias e até semanas, nos quais o descanso é mínimo, mas quando vejo os meus objectivos alcançados, nada disso importa.