Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Angola começa a dar cartas no futebol jovem

Avelino Umba - 17 de Dezembro, 2011

Miller Gomes está satisfeito com o desempenho dos Palanquinhas na Taça COSAFA

Fotografia: Nuno Flash

Que balanço faz da prestação dos Palanquinhas na Taça COSAFA?
Podemos considerar o balanço positivo, pois conseguimos chegar à final. Angola foi sempre considerada uma equipa forte diante de três equipas que, na edição anterior, estiveram nas meias-finais e na final. Sabíamos que as havíamos de enfrentar com muitas dificuldades.

Depois de dominarem o grupo, a crença de vencer a Taça aumentou?
A partir de momento em que ficámos em primeiro lugar no nosso grupo e passámos à outra fase, naturalmente, começámos a acreditar cada vez mais. Chegámos à final por aquilo que fizemos na primeira fase e em Luanda, antes da partida para a competição. Mas, para falar a verdade, chegar à final não era a meta a alcançar. Queríamos, em primeira instância, melhorar as classificações anteriores. Considero que a nossa participação teve êxito.
 
O que faltou para a selecção não vencer o jogo da final e conquistar o título?
Foi a primeira vez que Angola chegou à final. O que faltou para receber a medalha de ouro foi sorte.

Sorte porquê?
Tínhamos o jogo da final sob controlo, numa altura que já ganhávamos por uma bola a zero. Até podíamos fazer dois a zero, mas, como sabemos, uma partida tem 90 minutos. A Zâmbia teve a felicidade de fazer o segundo golo nos minutos finais e, ao fazê-lo, já depois do empate, passou a ter vantagem. De qualquer forma, penso que foi muito positiva a nossa participação, tivemos jogos extraordinários, apesar de algumas contrariedades vividas antes de seguirmos para o Botswana. Estamos todos de parabéns, sobretudo porque a nossa rapaziada dignificou Angola. 

Como técnico principal, quais as outras dificuldades encontrou no desempenho das suas funções?
As dificuldades foram de ordem estrutural. Angola esteve inserida, como disse, num grupo muito difícil. Fomos das poucas selecções que fizeram dois jogos consecutivos. O esforço foi titânico. Fizemos dois jogos em horas muito complicadas, que obrigavam os jogadores a um esforço suplementar, atendendo ao clima que se fazia sentir. Mas, fruto da boa vontade da juventude que a selecção tem, conseguimos ultrapassar essas dificuldades.  

Escalões de formação merecem cuidado

Que comparação entre a actual selecção de Sub-20 e a passada?
Tenho dificuldade para fazer essa comparação. Na edição passada, não fui o técnico que acompanhou a equipa na Taça COSAFA. Estive envolvido na SADC no torneio da Zona 6, em que a final, por coincidência, foi também com a Zâmbia, e em que este país levou quase os mesmos jogadores que estiveram agora na COSAFA. Mas, em termos de resultados, podemos dizer que este grupo esteve melhor. Porque na edição passada, Angola não passou para a outra fase, enquanto agora conseguiu chegar à final.
 
Espera ter um plantel renovado nos próximos compromissos?

Temos vindo já a trabalhar nessa base, de algum tempo a esta parte. Se repararem no que foi o torneio da FESA do ano passado, o da SADC, em 2002, da FESA, em 2011, e agora o da COSAFA, fazendo uma retrospectiva, dá-se conta que já temos vindo a trabalhar com uma base de sustentação e de renovação.

Significa que Angola já está bem servida em termos de Sub-20?
Como é de conhecimento de todos, no futebol jovem tem de se ter muito cuidado. Há a necessidade de se fazer uma base de dados, há que observar grande parte dos jogadores, para se escolher os melhores. De resto, temos estruturas para continuar, por mais um ou dois anos, com a actual legião de jogadores. Aqueles que chegarem ao limite das idades saem e dão oportunidades a outros novos.

Que projectos tem para a selecção no próximo ano?
Os projectos da selecção não são do treinador. São da responsabilidade da federação. O senhor Raul Chipenda, vice-presidente para a formação, esteve connosco a acompanhar a Taça COSAFA e, do diálogo que tivemos, advinham-se bons projectos para o futebol jovem e a sua estruturação a todos os níveis. Isso pode ser bom para o futebol em Angola, ter uma pessoa que, de facto, vai cuidar da programação e da planificação do futebol jovem ao nível das selecções nacionais.

Zâmbia não esteve melhor

A Zâmbia esteve melhor que Angola para a conquista do torneio?
A Zâmbia teve a sorte no jogo na final, apesar de reconhecermos que, em alguns momentos, esteve bem, e, noutros, menos que Angola. Conseguimos desbobinar bom futebol.

A Zâmbia não fez valer a experiência e maturidade competitiva?
Não tanto por isso. Foi só fruto do campeonato que fez com o objectivo claro de ficar em primeiro lugar. Era a oportunidade que tinha para ficar com o troféu do torneio em definitivo. As regras dizem que, para ficar com um país, este tem de ter, no mínimo, três edições conquistadas. Sendo a terceira edição que a Zâmbia conquista, ficou com a taça. De qualquer da forma, a Zâmbia não esteve melhor que Angola.   

Futebol jovem de Angola
está a ganhar notoriedade


O que se espera da selecção nas próximas competições internacionais?
Acredito que Angola marcou uma posição firme no futebol jovem. Há dois anos, venceu o torneio da SADC, agora chega à final da COSAFA. Temos assim que admitir que, do ponto de vista de futebol jovem, Angola se começa a evidenciar ao nível da região.

Há já outros torneios previstos e agendados?
O que posso dizer é que vamos continuar a trabalhar, desenvolver programas, que visem potenciar esta juventude, organizar e participar em mais torneios internacionais para dar ritmo competitivo, ganhar experiências internacionais, permitir que Angola se afirme cada vez mais.

Torneios internacionais apenas da SADC, COSAFA e FESA?
Temos de começar a pensar nos torneios dos Sub-20 de Toulon, em que Angola já não participa há muito tempo.

Há equipa para fazer um brilharete no torneiro de Toulon?
Acredito, pois estão mais do que evidenciados os potenciais que temos e que ainda vamos trabalhar com o tempo e programas. Somos capazes de marcar boa posição a nível de futebol jovem, em África e não só.

Durante o ano que está a findar, a selecção participou em muito poucas competições nacionais e internacionais...
Este tem sido o grande dilema no desenvolvimento no futebol jovem em Angola. Ainda há pouco tempo, quando estive num curso da FIFA, no Botswana, num contacto com um dos treinadores das três selecções, consegui reunir informações de que, a nível da região, as selecções desta categoria jogam entre si. O Botswana vai à Zâmbia, esta à África do Sul. Moçambique vai à África do Sul, o Lesoto joga no Zimbabwe. Tem havido esse intercâmbio, enquanto, para nós, a este nível, o que tem ajudado um pouco é o torneio FESA, que traz algumas selecções. É difícil termos estágios que nos permitam buscar potencial da nossa selecção nacional, mas penso que, na revisão que se espera fazer no programa de futebol jovem, possam estar enquadrados mais torneios internacionais, de forma a dar traquejo e ritmo competitivo à nossa juventude.   

Paizo perdeu a oportunidade

Paizo estava na lista dos jogadores escolhidos para ir à Taça COSAFA mas não foi. O que aconteceu de concreto?
Os jogadores devem ter mais cuidado nas questões que têm a ver com a selecção nacional. Foi, de facto, uma situação de certa maneira preocupante. O Paizo, jogador da Escola Norberto de Castro, não fez parte da selecção porque, até ao último momento, era jogador escolhido, mas, à última hora, a direcção do seu clube decidiu ficar com o jogador para disputar o jogo de qualificação ao Girabola’2012.

Como está a situação dele face à atitude do clube?
Entendo os interesses do Clube do Norberto de Castro, mas, como devem compreender, também há os interesses da nação. É um jogador que fez imensa falta. Não o conseguimos substituir com facilidade, porque foi no último dia que não se fez presente para viajar. Dessa forma, criou um vazio, obrigando a equipa técnica a fazer alterações profundas, criando e desestabilizando, inclusive, em alguns momentos, aquilo que era a nossa filosofia de jogo.

O jogador perdeu a possibilidade de voltar à selecção?
Tenho pena pelo facto do rapaz ter perdido a oportunidade de fazer jogos internacionais, crescer no ponto de vista competitivo. Ficou sem a oportunidade de participar numa final da categoria a que ele pertence porque, no próximo ano, já não é Sub-20.

A FAF vai punir o jogador?
Seria um momento para o jogador acrescentar algo mais à sua carreira e fazer história, mas, de uma forma geral, é uma situação que está ultrapassada. As coisas correram-nos como correram. Só fica o nosso alerta. Devemos ter em atenção, nessas idades, aquilo que são os interesses da nação.

Pode citar nomes de jogadores angolanos que mais se despontaram?
Notámos gratas surpresas de jogadores estreantes, isto é, aqueles que disputaram uma competição internacional pela primeira vez. São os casos de Jonce, Eddie, Pana, Tério e Ito. Demonstraram que têm potencial.

Entre estes quem destaca?
Yano foi o jogador que mais se evidenciou. Foi classificado como o segundo melhor marcador na competição. O Mateus e o Prirolito também estiveram bem a todos os níveis e foram referência a nível da comunicação social durante o torneio

O que o futuro reserva aos actuais jogadores da selecção de Sub-20?
Qualquer um deles tem um grande potencial para se afirmar, embora alguns mereçam ainda um maior acompanhamento nas suas equipas para chegarem a seniores. Mas, duma forma geral, temos potencial. Há craques como Lírio, Jonce, Pirolito, Mabulu, Yano, Mateus, Meda, que vieram dar um equilíbrio à selecção nacional.

O que deve ser feito para que os jogadores referenciados não percam as suas qualidades?
Vai depender das políticas dos clubes em que estão inseridos. A selecção do que os clubes produzem e, desde já, aproveito, mais uma vez, para agradecer a participação de todos os técnicos de escalões de formação de Angola, pelo grande contributo que têm estado a dar, sobretudo aqueles que, directa ou indirectamente, estiveram presentes no nosso período de preparação. Veio provar que o nosso futebol jovem tem também treinadores e dirigentes que se preocupam todos os dias. Sem eles, nada podíamos fazer.