Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Angola é um país com grandes potencialidades

Hélder Jeremias - 14 de Dezembro, 2012

Michael Johnson, a lenda viva do atletismo mundial, veio a Angola

Fotografia: Paulo Mulaza

Como começou a sua paixão pelo atletismo?
Tudo começou ainda na minha adolescência, quando via corredores que, na altura, respondiam pelos grandes nomes do desporto norte-americano. Os professores de educação física eram muito rigorosos e não tardaram em notar que reunia qualidades para enveredar para a alta competição. Daí que quando entrei para o profissionalismo tive o privilégio da companhia de outros grandes atletas que me influenciaram a tornar-me naquilo que consegui alcançar na alta competição. Todos nós temos uma vocação, mas é necessário muito trabalho para se chegar Ao auge.

Qual é o sentimento de ser uma estrela mundial?

Qualquer atleta sonha ir o mais longe possível. E quando isso se torna uma realidade o sentimento é de missão cumprida, sentimo-nos realizados porque o esforço que dedicamos durante vários anos é correspondido pelas grandes conquistas. Todos os troféus que alcancei foram motivo de muita felicidade.

Que conselho dá aos atletas que estão a iniciar a carreira?
Antes de tudo, devem acreditar que o sucesso está ao alcance de qualquer um, mas para lá chegar têm que ser disciplinados e rigorosos. De resto, existem factores subjectivos que, acredito, vão surgindo em função do nosso desempenho e a confiança que os profissionais depositam no nosso trabalho.
 
Que significado tem esta sua primeira visita a Angola?

Para mim foi a oportunidade de viver uma grande experiência, fui recebido de forma muito calorosa e, ainda no primeiro dia da minha chegada, senti-me como se estivesse em casa, uma vez que pude constatar que o vosso país é feito de pessoas muito amáveis. Aproveito para agradecer à BP Angola e ao Comité Paralímpico Angolano por me terem formulado este convite, o qual julgo ser uma porta para que, em conjunto, tenhamos grandes realizações no campo desportivo.

Quais eram as referências que tinha de Angola?

As poucas referências tinham relação com o basquetebol. Angola ao nível do continente africano sempre esteve representada ao mais alto nível. Quando José Sayovo se tornou campeão Paralímpico nos Jogos de Pequim, Angola despertou a atenção de muita gente no mundo, o que me levou a procurar informações sobre o trabalho que têm feito para efectuar performances espectaculares. Noutros domínios, havia um vazio informativo. Mas estou aqui e notei que se trata de um país com grandes potencialidades desportivas, que devem ser exploradas para obter os melhores rendimentos em termos competitivos. 

No que diz respeito Às potencialidades, pode ser mais claro?

Durante a minha estada, tive a oportunidade de visitar várias instituições e deslocar-me ao Huambo onde constatei que existe um projecto muito ambicioso. Acredito que quando este e outros projectos estiverem em pleno funcionamento, os frutos vão, com certeza, começar a aparecer. Daí que não hesitei em abraçar a parceria que nos foi proposta pelo Comité Paralímpico Angolano e a BP.

Qual é o sentimento de correr com José Sayovo?
Foi uma experiência extraordinária porque tive a oportunidade de sentir as dificuldades que ele tem de enfrentar, na qualidade de portador de deficiência. Sempre acompanhei o desporto adaptado e tinha em mente que os atletas portadores de deficiência são dignos do nosso respeito. Quero agradecer, uma vez mais, ao José Sayovo, por me ter concedido a oportunidade de viver a experiência de correr com os olhos vendados.

Em termos físicos, acredita que José Sayovo ainda está em condições de competir?

Ele tem qualidades físicas e vontade moral para se manter nas competições por mais algum tempo. Se formos a ter em conta que nos Jogos Olímpicos de Londres se apresentou em grande estilo, podemos dizer, sem medo de errar, que tem perfeitas condições para manter-se no activo por mais algum tempo. Dou-lhe o meu apoio incondicional e que continue a competir até quando achar melhor terminar a sua brilhante carreira.


Biografia


Michael Johnson nasceu em Dallas, estado de Texas, Estados unidos da América, a 13 de Setembro de 1967. Com 1.85 de altura e 77kg, foi durante a década de 90 considerado o homem mais rápido do mundo, cujo palmarés ressalta para várias conquistas dos 200 e 400 metros, além dos 4X400 metros estafetas. Conquistou medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, Atlanta, em 1996 e Sydney, em 2000. Outros troféus são a medalha de ouro nos campeonatos do Mundo de Tóquio, Japão, em 1911, Estugarda, Alemanha, 19993, Gotemburgo, Suécia, 1995, Atenas, Grécia, 1997 e Sevilha, Itália, em 1999. Apelidado de “Estátua”, devido a sua forma elegante de correr, em que mantinha as costas direitas, Michel Johnson é detentor da melhor marca mundial nos 400 metros (43, 18).


“Bolt é a referência”


Como avalia o jamaicano Usai Bolt?
Representa um dos maiores talentos da actualidade e o seu trabalho deve ser elogiado por todos nós, a julgar pela sua forma pouco comum de actuar, o que lhe permitiu obter o recorde em 2008, em Pequim e de se apresentar em grande estilo, em Londres. É difícil perspectivar aquilo que vai suceder daqui para frente, porque outros grandes atletas estão a trabalhar para o ultrapassar durante o próximo ciclo olímpico. Por isso, limitamo-nos a dizer que tudo é possível
.
Angola tem condições para aumentar o número de atletas na alta competição?
Sem dúvida! Porque existe muito talento e isso é determinante para que este desejo seja colocado em prática. Todavia, é de realçar que a formação académica, a aposta em treinadores qualificados e outros aspectos que interagem no processo de formação de atletas para a alta competição também devem ser levados em conta. É sabido que Angola tem desenvolvido um amplo trabalho do qual já resultaram atletas de referência, com particular realce para as competições nos Estados Unidos da América”.
 
Qual é a possibilidade de inserir no seu projecto jovens angolanos?
“Este foi um dos temas que abordei com os membros da BP e do Comité Paralímpico Angolano. É uma possibilidade que se abriu, tanto é que nos próximos dias, uma equipa de técnicos deve seguir para os Estados Unidos da América, onde vamos procurar passar conhecimentos sobre aquilo que deve ser feito em termos básicos. A minha visita representa o primeiro passo em prol do desenvolvimento do atletismo em Angola. Dou os parabéns à iniciativa dos responsáveis do Comité Paralímpico, da direcção da BP e ao José Sayovo pela hospitalidade”.