Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Angola tem condies para formar bons tcnicos"

Paulo Caculo - 03 de Novembro, 2015

Tcnicos licenciados pela UEFA esto muito optimistas quanto s vantagens que podem trazer os ciclos de formao na AFA

Fotografia: Nuno Flash

A Academia de Futebol de Angola (AFA), tem sido nos últimos anos, o grande promotor de cursos para técnicos de futebol. O objectivo da escola de formação de futebolistas é suprir a ausência de centros de formação de treinadores, e consequentemente, proporcionar aos candidatos angolanos à técnicos de futebol, a possibilidade de obterem uma graduação sem que  seja necessário sair do país.Em Outubro, a AFA encerrou a mais recente acção formativa de técnicos de nível I. Ao procederem ao balanço do curso, António Cortes, director técnico da AFA, e Ramon Alturo, coordenador técnico-adjunto da AFA e coordenador especifico do curso de treinadores, foram unânimes em afirmar, em entrevista concedida ao Jornal dos Desportos, que os resultados da formação são extremamente positivos. Os dois técnicos espanhóis, licenciados pela UEFA, deixaram claro os objectivos perseguidos pela academia, com a implementação deste projecto, bem como valorizaram o enorme interesse manifestado pelos técnicos angolanos, na melhoria da qualidade da classe, projectando-o para uma realidade mais ampla. Atente a entrevista:

Terminou o primeiro curso de treinadores de futebol de nível 1, validado e ratificado pela CAF. Que balanço se faz desta primeira edição?
António Cortes: O balanço é extremamente positivo, porque estiveram 75 alunos a fazer o curso e acabámos de fazer o lançamento das notas. Começamos a fazer um curso básico e, este ano, acrescentamos com um curso de primeiro nível e é uma aposta da AFA. Estamos a colaborar com a Universidade Metodista e a FAF, para formarmos técnicos capazes e ajudar, também, na subida de nível dos treinadores angolanos.
Ramon Alturo: Penso que é importante para os escalões de formação, sobretudo a nível das considerações metodologias e para aumentar a cultura desportiva e os fundamentos de jogo dos treinadores da formação. O curso  vai contribuir para melhorar os níveis de treino, sobretudo para as crianças que normalmente não estão a ser orientadas por técnicos profissionais.

Como foi o nível de adesão?

António Cortes: O nível de adesão foi alto. Tivemos de recusar algumas pessoas, porque as vagas estavam preenchidas e participaram a maior parte dos técnicos da formação e podemos destacar a presença de técnicos dos escalões de jovens do Petro, 1º de Agosto, Benfica e do Progresso. Achamos que foi uma mais valia, porque foi um curso bem direccionado e tem de dizer-se que algumas pessoas da província também conseguiram participar, apesar da deslocação. Houve alunos que vieram do Cuanza Norte, facto que nos encoraja a continuar no próximo ano e acrescentar as  pessoas que não conseguiram estar neste curso.
Ramon Alturo: Gostava de acrescentar que houve uma participação de mulheres neste curso, facto que não deixa de ser interessante. A presença feminina na formação deixa claro, que não são apenas os homens preocupados com a melhora do nível do futebol e da qualidade de treinadores. Acho que é importante o facto de mulheres estarem a participar no curso de formação.

Quais são os benefícios que estes cursos trazem para o futebol angolano?
Ramon Alturo: É importante destacar o facto de ter sido um curso que tem critérios de aprovação e reprovação. Ao contrário de outros, que fizemos aqui, em que valorizávamos apenas a regularidade e presença, e em que as pessoas participavam, mas não tínhamos a ideia do que se queria de concreto, este foi um concurso que nada tem de diferente do que se faz na Europa, em termos de estruturação, disciplina e conteúdo, como treinos específicos. Nesta formação houve mais horas lectivas. A carga horária foi de 150 horas e acrescentava mais valia, diferente dos cursos leccionados anteriormente, que eram mais reduzidos e não havia o objectivo de aprovar ou reprovar alunos.

Houve mais rigor nesta formação...

Ramon Alturo: Sim. A possibilidade que tivemos nesta formação de acrescentar algumas horas, acho que foi mais importante, porque chegou-se a um patamar mais elevado. A formação do treinador é importante para o desenvolvimento do futebol e os técnicos que estiveram neste curso, tiveram a possibilidade de obter mais conhecimentos. Este curso foi organizado para que o aluno conheça como se elabora uma sessão de treinos e ter conhecimento sequencial.

Tendo em conta a vossa experiência internacional, como avaliam os alunos e como foi o desempenho dos mesmos ao longo do curso?

António Cortes: Foi muito boa. Durante a formação, submetemos os alunos a aulas especificas, a nível do conteúdo teóricos e também aulas práticas. Desenvolvemos sessões práticas em campo de treinos, para termos uma experiência prática e dinâmica de grupo na organização e gostamos do facto dos alunos terem participado muito bem na parte teórica e na vertente prática.

Quantos aprovaram?

António Cortes: Ainda não podemos avançar, porque só ontem fizemos a avaliação final e ainda estamos na expectativa de saber sobre a avaliação geral. Mas para  um resultado fidedigno, podemos afirmar que 90 por cento dos participantes ao curso aprovaram e apenas dez por cento vai ter de repetir a formação no próximo ano. As pessoas que passaram directo, vão ter direito ao titulo de treinadores de grau 1 e as que não tiveram um resultado positivo, vão ter um certificado de monitor de futebol. No próximo ano vão recuperar as matérias em que não foram muito bem sucedidos, porque a carga horária foi notória e deu para acrescentar conhecimentos genéricos e os que tiveram resultados positivos vão ter o título de grau 1, reconhecido pelas instituições em que fizeram o curso, acho que é uma mais-valia.
Ramon Alturo: Penso que ficou lançada a primeira pedra para que se inicie um processo de formação. Antes de desenvolver este cursos de formação, havia pouca formação. Foi a primeira pedra para desenvolver o futebol angolano, que passa pela organização de cursos de formação e ter em conta que os conhecimentos vão contribuir para aumentar os níveis de qualidade do futebol angolano.

Formação
de nível mundial


O que podemos esperar destes treinadores no imediato? Sentem que falta formação qualificada para o futebol, tanto profissional, como amador?
Ramon Alturo:
Sem dúvidas, que podemos contar com treinadores mais capacitados e acredito que vão ter maior interesse em continuar a sua formação. Veja, que quando acabou este curso, as pessoas já perguntavam quando vai iniciar outro, portanto, o segundo nível. Isto é positivo, e sem dúvida, num contexto da formação, onde normalmente nem sempre existem pessoas profissionais do desporto.

Acredita, no entanto, que o futebol angolano jamais será o mesmo com este interesse sucessivo de treinadores pela superação?
Ramon Alturo: O contributo que estas pessoas que fizeram o curso vão dar ao futebol angolano, agora mais capacitados, vai ser importante, tendo em conta os conhecimentos científicos e mais modernos, de que são as novas tendências do futebol, que adquiriram. Estes cursos em nada ficam a dever aos outros que acontecem, um pouco por todo o mundo. O que se está a ensinar é o que está definido para o ensino do futebol mundial.
António Cortes: Consideramos, na passagem de conhecimentos aos nossos alunos, desde os primeiros momentos do curso, a importância da formação contínua, na criação de matérias e na importância desta formação sequencial.
Mas esta formação não limita os participantes aos conhecimentos adquiridos...

António Cortes: Os alunos devem também, a partir deste curso, ter a capacidade de investigar, pesquisar e planificar, porque isso dá outra característica de maior qualidade à nossa formação. Há que trabalhar muito, mas no aspecto de continuar a pesquisar, para que o nível de qualidade da formação melhore.

Formar em todo
o país


Quais são os planos da AFA para melhorar o futebol nacional a curto e longo prazo?
António Cortes: Os projectos passam, primeiro, pela formação de atletas em todos os escalões de formação. Temos equipas em todos os escalões de formação, somos pioneiros no futebol infantil e temos promovido torneios de sub-12. Apostamos na formação do atleta a partir da base e, depois, temos a formação do treinador como fundamental, porque a AFA ainda que seja vista como referência no país, não consegue chegar em todos os cantos de Angola.

E qual é a estratégia para inverter este quadro?

António Cortes: Por isso é que o AFA capacita todos os treinadores e outras pessoas que têm relevância no processo de formação, para que possa fazer um trabalho de qualidade nos bairros. Neste sentido, estamos a investir num projecto de formação, para poder melhorar as garantias de treinos, tanto no que se refere a formação especifica de treinadores e no apoio de material de desportivo, para que localmente os atletas tenham melhores condições de treino.

A que tipo de apoios se refere concretamente?
António Cortes: Estamos a apoiar nos trabalhos das selecções nacionais jovens e de seniores. As selecções de jovens têm acesso às nossas instalações para realizarem treinos, temos apoiado também os técnicos de sub-17 e sub-15 e, na selecção principal, prestamos apoios nas áreas de scouting.

“Deixou de haver
razões para viajar
ao estrangeiro”

Os angolanos recorrem muito ao estrangeiro para a obtenção de um curso de treinador. Acredita que com a organização destas formações, a AFA  preenche esse vazio?
António Cortes: Com certeza que sim. Concordo que havia muitos cursos organizados dentro desta estrutura da formação em Angola, mas acredito que nós, no ano passado, tivemos um curso de iniciação onde sentimos a necessidade de investirmos na promoção de mais de cursos de formação.
Ramon Alturo: O treinador angolano tem interesse em receber formação na área. Na concessão antiga, tinha-se de sair do país para se obter formação de qualidade. A ideia da AFA, dentro da percepção de que a formação é um dos aspectos fundamentais para melhorar o nível de futebol nacional, é de que a formação fosse feita no país, com qualidade, sem ser necessário sair do país.

Considera, então, que as vantagens são, agora, maiores para os técnicos angolanos?
Ramon Alturo: Sim. Em primeiro lugar, porque o nível económico limita muito as pessoas de fazerem estas viagens a Portugal, Brasil ou Espanha e, depois, porque o país tem de ter as suas próprias estruturas formativas, para formar quadros técnicos para o futebol. Não faz sentido sair do país quando internamente podemos proporcionar esta formação aos nossos treinadores. Acreditamos que estão lançadas as bases para que os técnicos angolanos deixarem de viajar, para fazer um curso de nível 1.
António Cortes: Mas o que nos deixa mais satisfeitos, à par do que já disse o meu colega, é que esta formação teve muitos participantes. Temos viajado também por algumas províncias, para realizar workshops de refrescamento de treinadores. Houve um interesse alto de participantes também nas províncias em que estivemos e se o número que estipulamos para participantes nestes locais fosse maior, a formação era também com mais alunos. Isso deixa-nos satisfeitos, pelo facto dos técnicos angolanos mostrarem interesse em se formar, actualizarem conhecimentos e estarem capacitados para os desafios do futuro.

Este interesse pode ser entendido, também, como o prenúncio da melhoria de qualidade do futebol em Angola?
António Cortes: Claro. Também dentro desta planificação organizamos um workshop em Novembro e convidamos pessoas que nos puderam proporcionar conhecimentos e conteúdos para as palestras. Foi muito positivo para aquilo que estamos a projectar, em termos de formação de técnicos e futebolistas de qualidade.