Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Angola tem potencial humano

Sardinha Teixeira - 10 de Março, 2012

Guilhermina Aleixo mostra que um exemplo de dedicao ao atletismo

Fotografia: Jornal dos Desportos

Guilhermina Aleixo mostra que é um exemplo de dedicação ao atletismo. A corredora de 400m, campeã nacional, diz que, aos 33 anos, chega a treinar três horas por dia para superar atletas mais novas. Na sua vitoriosa carreira, Guilhermina tem dez internacionalizações. A atracção atletismo começou ainda muito jovem, quando se revelou mais rápida nas corridas que as amigas do bairro. Depois, começou a correr nos jogos escolares, até ingressar no Petro de Luanda e por último no 1º de Agosto.

Iniciou-se no mundo do atletismo aos 9 anos de idade, quando o pai lhe ofereceu um par de ténis. Mesmo sendo uma aficionada do futebol, Guilhermina teve de deixar esse desporto para treinar atletismo. Diz o ditado que uma boa atleta não se faz, nasce, e ela é o melhor exemplo disso. Mas foi no Petro de Luanda que mais aprendeu e onde se fez, de facto, uma atleta reconhecida no país. A representar o clube tricolor, Guilhermina venceu, em 2006, a sua primeira medalha internacional. Venceu a final dos 400 m nos Jogos da Organização de Cooperação dos Chefes da Polícia da Região Austral de África (SARPCCO) na RDC.

Nesse torneio, a representar o clube Petro de Luanda, Guilhermina Aleixo também conquistou uma medalha de prata nos 800 metros.Mas a sua ligação ao Petro terminou, quando foi dispensada contra a sua vontade. Decorridos dois anos, José Saraiva, treinador do 1º de Agosto, conhecendo os valores da atleta, convidou-a para fazer parte da equipa militar. Em qualquer lugar de Luanda, ela é reconhecida e adorada pelos aficionados do atletismo. Conhecem as suas qualidades como desportista e ser humano. Quando chegou ao clube militar, o treinador Saraiva disse: “essa atleta vai ser a melhor do clube”, previsão que logo se tornou realidade. Em 2011, Guilhermina chegava ao seu primeiro “show” quando entrou em pista e conquistou o título de campeã nacional dos 400 metros.

A atravessar um bom momento atlético nas hostes do 1º de Agosto, Guilhermina Aleixo não está conformada com as condições actuais do seu clube. Avança que “falta de contacto entre dirigentes e atletas”. Ainda assim, a atletas mostra-se desejosa de continuar a correr pelo clube militar e a dar alegria aos adeptos do clube e do atletismo, com a conquista de medalhas no país e não só. Apesar disso, não descarta a possibilidade de deixar o clube, caso apareça outro convite “porque quero sempre o melhor para mim”.

Guilhermina Aleixo diz ter feito grandes amizades no clube que representa, algumas das quais têm sido de mais-valia para ela. A atleta pede mais apoio para a modalidade. “O atletismo angolano tem um potencial humano muito grande. Os atletas estão a evoluir e a chamar a atenção da imprensa. Agora, é preciso trazer mais patrocinadores e ter mais equipas e empresas a apoiar a modalidade”, afirmou. Guilhermina Aleixo concluiu o curso de Educação Física, no Instituto Normal de Educação Física, em Luanda. “O atletismo é o mais simples do mundo, só é precisa correr”, afirma. Dito por ela, até parece fácil.

Guilhermina
Responde

O seu regresso ao atletismo surpreendeu a todos?
Sim. Tinha sido dispensada do Petro de Luanda e estava parada há dois anos. O protagonista deste episódio foi o meu treinador José Saraiva que, com dedicação, disciplina e educativos, me deu força.

Como vê o apoio dado ao atletismo?
Falta muita coisa e o nível das provas aqui no país ainda é baixo.
 
Até quando pretende continuar a correr?
O importante é ter saúde. Chegar até aos 60 anos a correr, para mim está bom.

Tem paixão pelo seu clube?
Não. Gosto de treinar e de competir, por consideração ao meu treinador, José Saravia.

Que prova do seu passado se lembra com mais carinho?
Tenho de admitir que foi nos jogos da SARPCCO, em 2006, na RDC, já que foi a prova em que consegui chegar no máximo, conquistando uma medalha de ouro nos 400 m. E a medalha de ouro tem um gostinho especial.

O que provocou a sua decisão de se dedicar ao atletismo?
Procurei o que é melhor para mim. Gosto de correr e vou continuar a correr até onde puder.

Houve quem não acreditasse que ia ter sucesso nas pistas?
Os meus pais. Estive à beira de desistir. Mas com dedicação, disciplina e educação surpreendi a todos.

A sua família apoiou a decisão?
Nós somos uma família humilde. Sempre lutei pelo que queria. Sempre fui batalhadora. E hoje os frutos estão à vista.

Que conselho dava a quem quer começar a praticar a modalidade?
Que os jovens façam com boa vontade, disciplina, programação de tempo e sob orientação de um profissional de Educação Física. Desejo que os jovens se dediquem, se empenhem e se destaquem nos desportos.

Quem é quem

Nome: Guilhermina Aleixo
Data de nascimento: 15/2/79
Natural: Luanda
Filhos: Não
Nacionalidade: Angolana
Peso: 49 Kg
Altura: 1,66 cm
Calçado: 38
Prato preferido: Mufete
Fuma: Não
Bebida: Água
Filmes: Comédia
Música: Gospel
Modalidade: Atletismo
País: Angola
Cidade: Lubango
Casa própria: Sim
Carro: Não
Clube: 1º de Agosto
Religião: Pentecostal
Cor: Azul
Alguma vez mentiu: Sim
Maior sonho: Vida condigna
Virtude: Honestidade

Algumas verdades ...
Falta de apoio prejudica a modalidade

Guilhermina Aleixo sublinhou que a falta de um número considerável de pistas de atletismo dificulta o desenvolvimento da modalidade no país. “A modalidade está a decair por falta de apoio e de visão dos dirigentes desportivos, pois estão mais virados para os desportos colectivos que para os individuais. Uma equipa de atletismo pode ser formada por um atleta ou dois, ao contrário de uma de desporto colectivo, cujos custos são mais elevados”, frisou. A atleta do 1º de Agosto, ao falar do estado da modalidade, considerou “muito preocupante” o facto de um país com 18 províncias possuir apenas duas pistas para o atletismo. Os estádios dos Coqueiros, em Luanda e o Joaquim Morais, na província do Namibe.