Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Angola tem uma história a defender

Hermínio Fontes - 23 de Outubro, 2012

Akwá continua a acompanhar a Selecção Nacional que bem representou

Fotografia: Jornal dos Desportos

O ex-capitão dos Palancas Negras, Alcebiade Maieco “Akwá”, uma das figuras de proa do futebol nacional, que muito contribui a conquista de êxitos atingidos pelo país no campo competitivo, fala, em entrevista ao Jornal dos Desportos, daquilo que deve ser a prestação de Angola no CAN que se disputa no próximo ano na África do Sul. Na sua opinião Angola já tem um prestígio a defender, sendo importante ter em atenção este aspecto. Nas linhas que se seguem fala da sua experiência como futebolista ( já fora do activo) e da experiência que teve na casa das Leis como parlamentar na legislação passada.

O que podemos esperar da participação de Angola na fase final do CAN 2013 consumada a sua qualificação para esta prova?

- “Espero que faça um CAN melhor em relação às edições anteriores. Pessoalmente acredito que é possível brilhar, embora tenha a consciência de que não vai ser fácil. Precisamos de aproveitar ao máximo as oportunidades de golo e controlar o excesso de confiança para evitar o que aconteceu no CAN 2010, em casa, e este ano na Guiné Equatorial.” 

- Como acha que deve ser a preparação para esta prova?
-“A selecção precisa de se preparar num determinado país ou local em que o clima se assemelhe ao da cidade em que vai realizar os seus jogos no CAN. Neste caso, se fosse no nosso país seria, melhor. Desde já precisamos fazer jogos amistosos com equipas ou selecções que estão bem cotadas no ranking mundial. É preciso termos em conta que Angola já tem uma história a defender no futebol, em particular no CAN, por não ser novata. Deve mostrar a sua valentia. Há necessidade de testarmos com adversários fortes. Gostaria que os dirigentes levassem em conta esta sugestão.”

O nível do nosso campeonato permite-nos ter uma boa selecção?
–“ Permite sim. Isso é notório porque hoje, no Girabola a luta pela conquista do título não está apenas restringida a equipas da capital. O Recreativo do Libolo é exemplo disso, e penso que muitos atletas, dirigentes, críticos e jornalistas concordam comigo. 

-Na sua perspectiva os jogadores que costumam vir do estrangeiro bastam ou ainda há outros por descobrir para servir a equipa nacional?
- “Acho que precisamos sempre de dar oportunidade aos jogadores que nesta altura defendem as cores da bandeira nacional. Mas precisamos reparar as falhas da nossa selecção com a descoberta de talentos espalhados pelo mundo, em particular das famílias emigrantes que tiveram como destino a Europa.

CARGO NA FEDERAÇÃO
“Fui convidado a vice-presidente
mas fui afastado sem explicação”


- Alguma vez foi convidado para fazer parte da federação, associação ou algum clube como dirigente ou treinador?
- Fui convidado para ser vice-presidente para as selecções no elenco de Pedro Neto, actual presidente da Federação Angolana de Futebol. Inclusive a minha imagem foi o cartaz de promoção da sua campanha. Mas, por incrível que pareça, depois da tomada de posse, fui afastado sem qualquer explicação. A vida é assim, sabemos que, infelizmente, ainda existem entre nós pessoas que para atingirem o topo se aproveitam do potencial alheio e no final caímos no esquecimento.

 EXPERIÊNCIA
“Marcar golos
exige trabalho


– Quem julga ser o melhor jogador angolano da actualidade?
- Penso que é o Manucho Gonçalves, porque joga bem e tem dado muitas alegrias ao povo angolano com os seus golos. Nesta altura, é dos poucos atletas nacionais a jogar numa grande liga. Outro jogador forte e de grande qualidade é Djalma Campos, apesar de, nesta época, estar dispensado pelo FC Porto. É um grande jogador. Estes dois têm a minha avaliação positiva.”

- Hoje marca-se mais ou menos golos do que no seu tempo?
- Os golos são o fruto de muita dedicação nas sessões de treinos, jogar com determinação e vontade de aproveitar no máximo as oportunidades, cumprir os conselhos e orientações dos técnicos no que concerne ao repouso dos atletas. Esta é a base para aumentar o número de golos. Marcar golos exige trabalho.

– Como avalia o nível actual das equipas, a qualidade da Taça de Angola e a competitividade no Girabola?
- São razoáveis para a realidade do futebol nacional.

Que opinião tem a respeito das desistências por falta de dinheiro na segunda divisão?
-“É uma situação sobre a qual há muito venho meditando. Por exemplo, se uma determinada equipa não cumprir os requisitos preparatórios para jogar no maior escalão do futebol nacional, então, que não o faça, porque senão, eu também teria a minha equipa no Girabola. O futebol não se compadece com a simples imitação.

COMISSÃO DE DESPORTOS
Dei muitas ideias
dentro do Parlamento


-Enquanto esteve no Parlamento que contributo deu para ajudar a desenvolver o futebol?
– Dei muitas ideias no Parlamento. Posso fazer referência à necessidade de apoios financeiros a clubes da primeira e segunda divisão, construção de escolas de formação desportiva de forma a evitar que os jovens enveredarem pela delinquência e ao uso de drogas e outros assuntos que espero abordar numa outra oportunidade.”
 
- Tendo estado no Parlamento numa Comissão ligada ao desporto terá participado nalgum projecto legislativo para o desenvolvimento do futebol nas futuras circunscrições autárquicas?
- “Os caminhos que trilhamos enquanto país conduzem-nos ao desenvolvimento e ao progresso. Somos optimistas porque somos um povo de lutas e conquistas. Por isso, o que posso dizer é que nas futuras autarquias não só haverá apoios para o futebol, mas também para outras áreas sociais. Esperemos pela altura certa para que desfrutemos deste desafio.

CAÇA TALENTOS
“Temos uma agenda a cumprir”





Como é que estão os projectos do Akwá em termos de promoção de talentos nos bairros e escolas de futebol?
-Estão no bom caminho. Continuamos a cumprir com a nossa agenda de trabalho e a cada oportunidade que temos vamos indo descobrir e motivar os novos talentos para que um dia cheguem a ser campeões. Nesta empreitada temos trabalhado com muitos parceiros.

- Só conta com apoios de entidades privadas ou também públicas para levarem avante as vossas iniciativas?

-“Estatais e privadas, mas a nossa grande prioridade é o Governo. O executivo naquilo que é a nossa metodologia de trabalho sempre nos tem apoiado em prol deste sector da vida social que é o desporto e o futebol em particular. Reconhecemos os esforços de cooperação que temos recebido em todos os níveis para que, continuemos a descobrir e promover talentos do futebol nas comunidades. Agradecemos mais uma vez esses apoios e dizer que este projecto só existe graças ao contributo de cada um de nós.Porque a cada dia há sempre uma criança que precisa de uma oportunidade de jogar à bola.”

-“Como está o nível e a qualidade do futebol dos bairros?
- “A minha história no futebol veio do bairro. Eu enquanto criança sempre mostrei que o meu talento era jogar à bola. Mas depois, para que me tornasse referência no futebol nacional na década de noventa tive de ter outros apoios, a começar pelo da minha família de casa, os amigos, os primeiros técnicos em fim.”

- Continuaremos a teremos de novo a equipas dos Amigos de Akwá a jogar dentro e fora do país?
– “Não há nada de imediato, mas gostaria já agora dizer que quando se diz Amigos do Akwá não se refere apenas à uma só pessoa, porque não sou ecocentrista.Trata-se de um colectivo e nesta perspectiva sempre que formos convidados a jogar dentro e fora do território nacional jogaremos porque nisto tudo sai o futebol a ganhar.

- Não há nada especial para os festejos do 11 de Novembro que está ai chegar?

-Depois  desta edição da Taça Amizade em futebol com as comunidades, viajaremos para Portugal, no dia 11 de Novembro para um torneio que já é habitual. Temos ainda um outro marcado para 10 de Dezembro, também fora do país, para além dos jogos cá em casa.

TALENTOS
Craques do meu tempo escasseiam”

- Além das parcerias e apoios públicos e privados que tem na capital tem planos de caçar talentos no interior do país?
-“ Sim, e é por esta razão que viajamos de Cabinda ao Cunene para descobrir talentos nas comunidades onde muitos deles não têm condições de sustentarem o sonho. Estes talentos estão a ser formados no projecto “Candengue Habilidoso” que é pertença dos Amigos do Akwá.

- Em que província é que é mais fácil encontrar futuros craques?
-“ Os craques encontramos em qualquer esquina, seja na terra batida ou no asfalto. Por esta razão não estamos interessados em apontar esta ou aquela província, até porque Angola tem muita criança com talento e bastante energia para jogar à bola. Isto é que nos interessa, saber que a vontade fala mais alto no dia-a-dia da rapaziada.”

- Em que sectores é que as entidades ligadas ao futebol não investem eventualmente bem para haver mais craques do seu tempo?

-“ O futebol tem o seu próprio tempo. É claro que na minha época que foi a do Jony, Paulo Silva, Jacinto, Luisinho, Paulão e outros, havia em cada equipa mais de quatro craques e isto dava um certo gozo, porque as equipas não eram limitadas. Um caso para se dizer que no meu tempo tudo era diferente ao actual. Estamos lúcidos desta situação. Só esperamos que num futuro breve as direcções dos clubes saibam investir mais para se inverter a situação e voltarmos aos bons velhos tempos.”